IRRITADO

Um blogue de António Borges de Carvalho

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


  • DOS CAMINHOS DO TRINTA E UM


    Aqui há uns anos, quando o fugitivo em Bruxelas se candidatou e ganhou as eleições, uma das suas bandeiras eleitorais – não lhe chamemos promessas, porque essas… – era, se bem me lembro, a do “choque fiscal”. Consistia, ao contrário do que hoje nos habituamos em termos de choques fiscais, não no aumento de impostos mas na sua forte redução. Não foi assim que Tatcher e Reagan recuperaram as economias dos respectivos países? Indiscutível.

    O que aconteceu? Veio a Dona Manuela e, consciente do “pântano”, aumentou os impostos, criou a célebre “entrega especial por conta”, e foi acusada por tudo e por todos, a começar pelo pretendente Pinto de Sousa, de estar a arruinar a economia e, pelo futuro golpista Sampaio, de não perceber que “há vida para além do défice”.

    Quem tinha razão? Barroso e o “choque fiscal”, Dona Manuela e o aumento de impostos, Pinto de Sousa e a sua berraria inconsequente sobre a economia, ou Sampaio e a sua “vida”?

    Não se sabe. O que se sabe é que as baixas de impostos são (eram!) por definição e hábito, apanágio dos chamados liberais, e que os aumentos seriam iniciativa mais própria de governos socialistas/social-democratas.

    Seríamos levados a crer que a dona Manuela tinha razão. Antes de tomar medidas sérias para reanimar a economia, impunha-se dar saúde às contas do Estado. O que não impediu que estas continuassem a deteriorar-se, nem que a despesa pública continuasse a subir. Dona Manuela teve pouco tempo para provar que tinha razão, ou para que se chegasse à conclusão que estava errada. A seguir, Bagão Félix, mal começou a governar, Sampaio deu cabo do governo sem que nada fosse possível concluir. A esquerda estava reorganizada e o que era preciso era pô-la de novo no poder.

    Veio o Pinto de Sousa. Parecia que tudo ia, finalmente, caminhar sobre rodas. Aqui e li, alguma coisa útil se fez. Até que se percebeu, tarde demais, que não havia dinheiro para pagar o que se fazia, bem ou mal. Os impostos começaram a subir, as prestações sociais a descer, as dívidas a aumentar geometricamente, a bancarrota a avizinhar-se. Até que… foi o que se soube na altura e o muito mais que se foi vindo a saber a seguir. A ruína estava instalada.

    Voltámos à vaca fria. Um governo acusado de neo-liberal (?!) veio aplicar receitas socialistas: aumento de impostos, descida das prestações socias e dos salários, etc. Dir-se-á, com carraas de razão, que não tem outro remédio.

    Parece haver, da parte deste governo, uma espécie de “tática” fiscal. Faz-se anúncios brutais e dificilmente compreensíveis (a TSU a passar de um lado para o outro, o “enorme” aumento de impostos) para, logo a seguir, se desistir de uma e se anunciar a “mitigação” da outra. Do ponto e vista da opinião pública, esta forma de conduzir as coisas parece não dar grande resultado. O polícia mau (Gaspar) ataca. O polícia bom (Passos Cpelho) vem amansar os ataques. Será?

    Não se sabe. Sabe-se, sim, que as coisas estão feias, que vão ficar ainda mais feias, restando a esperança que, no fim do caminho, tudo comece a mudar. Quando? Há quem diga que o chamado ajustamento não sem pode fazer em menos de cinco anos e que mal chegámos ao fim do primeiro.

    O governo, à custa de dizer que não queria mais tempo, acabou por ganhar o almejado 4º ano. Se não tivesse sido firme não o teria ganho. O governo tentou cumprir os compromissos do Pinto de Sousa. Mas os compromissos não chegavam, já que o ponto de partida era bem mais baixo do que se julgava. Mas a fidelidade aos compromissos, além de um ano mais, teve efeitos positivos nos juros, nos prazos e na predisposição dos mercados. É claro que o camarada Zorrinho já veio dizer que tal não é mérito do governo, mas do BCE. Partidarite mais aguda e mais rasca é difícil de imaginar. Podia, ao menos, dizer que a coisa tinha duas origens convergentes. É por estas e por outras que o tal governo da “salvação”, com os três partidos, é um nado morto.

    A dona Manuela, mãe e madrinha dos primórdios da austeridade, de sociedade com outros frustrados, ciumentos e sedentos de palco, também se compraz em teorias e teoremas totalmente carentes de demonstração. O socialista cristão Portas, bom ministro dos negócios estrageiros, faz as vezes de ofendido e ameaça dar cabo da coligação, coisa em que o CDS sempre foi especialista.

     

    Vamos a ver o já célebre orçamento, anatemisado pelo PS mesmo antes de nascer.

    Sobretudo, vamos a ver se as núvens negras que por aí andam nos conseguem arranjar um trinta e dois, capaz de meter num chinelo o actual trinta e um.

     

    11.10.12

     

    António Borges de Carvalho

  • UM BOA NOTÍCIA

     

    Depois de, internamente, ter falhado a gigantesca campanha desencadeada pelos costumeiros arautos da desgraça sobre as terríveis consequências da barragem do Tua para o ambiente, a paisagem, o nosso futuro, a produção de energia, o diabo a quatro, resolveram os “defensores” destas coisas, profissionais do contra, ir fazer queixinhas à ONU, ou coisa que o valha. Para eles, a ONU tinha a mais elementar obrigação de cancelar sem mais aquelas a classificação da região do vinho do Porto como “património da humanidade”.

    O IRRITADO  não faz grande ideia sobre as vantagens da honra em causa, mas não deixa de registar a sanha de destruição e atraso que anima certas estruturas bem pensantes e modernas que não deixam de prejudicar a Nação, ao mesmo tempo, é de ver, que vão recebendo dela uns tostões para os seus “projectos”.

    Desta vez, lixaram-se. Andaram por aí uns peritos da ONU a fazer altos estudos das mais variadas disciplinas e matérias, o que deve ter custado umas massas a alguém.  Findos os trabalhos, chegaran à conclusão que a barragem não fazia mal a ninguém e que a respectiva albufeira teria desprezível impacte sobre a região, a paisagem, a produção vitivinícola, etc. e tal. Segundo os craques da ONU, o tal impacte afecta cerca de 0,000n da região, e até é capaz de ser benéfico em termos ambientais!

    Vamos a ver a reacção dos bem pensantes. São capazes de fazer queixa ao Tribunal Constitucional, ao Tribunal Europeu, ao Papa, a Deus e ao diabo. Desde que nos prejudiquem e que se vangloriem, tudo para eles está certo.

    Isto de energias renováveis é muito bonito quando se trata de arruinar a paisagem com moinhos de vento, de produzir energia com as necessárias back solutions, leia-se centrais térmicas “de reserva”, e toneladas de subsídios a debitar ao consumidor.

    Energia hidráulca, nem pensar. Coitadinha da paisagem, cheia de belíssimos lagos, de reservas hídricas e de produção energética!


    Lembram-se de Foz-Coa e dos milhões de contos que lá ficaram enterrados sem outra contrapartida que não fossem mais milhões para o buraco? Lembram-se das patadas dos dinosauros que, em vez de guardadas em museus, obrigaram à construção de caríssimos túneis? Lembram-se dos “lobódromos” por baixo das auto-estradas?


    De um modo geral, as instâncias internacionais só nos trazem más notícias. Como, desta vez, trouxeram uma boa, assinale-se.

     

    11.10.12

     

    António Borges de Carvalho

  • AUTOFAGIA


    Como já foi dito neste blog, o 5 de Outubro, se houvesse vergonha política e seriedade histórica, não seria objecto de comemorações. Uma golpada que acabaria por lançar o país, primeiro, na mais miserável bagunça  e, a seguir, em 48 anos de ditudura, não é coisa que se comemore, antes que se assinale como desgraça.

    Mas as coisas são como são. A III Repúbica existe e trouxe-nos coisas positivas, podendo compreender-se a obliteração das múltiplas indignidades que marcaram os seus dois primeiros anos. Aceite-se que se comemore, desde que afastada das anteriores, que não realizaram qualquer avanço nas liberdades públicas nem realizaram progresso social e económico que se visse. E que fosse comemorada em 25 de Novembro.


    A III República está em crise. Crise que vai muito para além dos apertos económicos em que se vive. O descontentamento, mal informado pelo governo, ou desinformado por um exército que vai dos legitimamente descontentes aos interesseiros e aos mass media, é levado a pôr em causa tudo e mais alguma coisa, a começar pelo governo e a acabar nas Instituições.


    Estas, por seu lado, parecem não saber defender-se, prestigiar-se ou justificar-se.

    A cena do 5 de Outubro é disso marcante. Demos de barato a história da bandeira da República de pernas para ar, inocente vítima da pressa ou da ignorância de um funcionário qualquer. 

    O pior foi o que veio a seguir. Primeiro, a falta de savoir faire dos intervenientes. Nem o anfitrião Costa nem a estrela do filme, Cavaco Silva, tiveram a presença de espírito para, no momento, num gesto de bom humor, mandar emendar a coisa, desvalorizando-he a importância. Depois, mais grave que tudo, realizar uma cerimónia institucional à porta fechada, sem outras presenças que as dos convidadios.

    É sabido que as cerimónias do 5 de Outubro jamais congregaram mais que escassas dezenas de populares, os mais deles para ver o espectáculo da parada, outros que, por acaso, por ali andavam, talvez alguns a dar pífios vivas à República. Nunca foi coisa a que o chamado povo desse qualquer importância.

    O medo, a cobardia, a falta de coragem física e moral, a ausência de sentido das mais que previsíveis consequências, conseguiram transformar um acto sem significado de maior em termos poulares, em mais uma forma de descredibilizar a III República e as suas instituções. A popular que furou a “bilheteira”, é certo que aos gritos, não perturbou o vazio do discurso presidencial nem a declaração de oposicionismo e de “disponibilidade” do Costa. Em vez de haver alguém (um assessor so Presidente, um funcionário do Costa…) que acolhesse a senhora e lhe desse alguma esperança, nem que fosse a promessa de verificar e estudar o seu caso, não senhor, deixaram-na nas mãos dos seguranças, e estes fizeram tão só o que deles se podia esperar.

    Ainda não se viu escrita nos jornais – pelo menos o IRRITADO não viu – qualquer justificação para o sucedido. O Presidente da Câmara pediu desculpa por causa da bandeira. Ora bolas! E o resto? De quem foi a culpa? Dele? Do Presidente da República? Do Dom Fuas Roupinho? Parece que, como a culpa não foi do governo – que não tinha a ver com a organizaçao – não interessa que fosse de mais ninguém.

    Resultado: para a vergonha, ninguém tem cara. Para a exploração política, há caras com fartura, do inacreditável Mário Soares às bruxas opinadeiras do costume, passando pelo troglodita Alegre.

    Dir-se–ia que, para o IRRITADO, confesso depreciador da Institução Republicana, a pessegada a que se assistiu só serviria de gozo e de chacota. Não é assim. O IRRITADO tem respeito pelas Instituições existentes, mesmo achando que deviam ser diferentes. Por isso que ache que o 5 de Outubro de 2012 foi um tiro no corpo já tão magoado da III República e do que, apesar de tudo, ela ainda tem de respeitável.     

     

    11.10.12

     

    António Borges de Carvalho

  • DA VERDADEIRA OPOSIÇÃO

     

    Ele há várias oposições ao governo: as que contam e as que não contam, isto é, aquelas com que o governo se deve preocupar e aquelas com as quais não vale a pena perder tempo.

    Nestas, como é evidente, agigantam-se o PC e o BE. Senhores de fácil paleio, apresentam, com ligeiros cambiantes, a mesma receita, coisa que até o mais estúpido percebe que só pode levar às maiores calamidades económicas e políticas. Talvez, em eleições, subissem um pouco, à custa de repetir críticas imediatas e primárias, na esperança que haja mais quem coma disso. Não há. Têm um discurso dito democrático, mas, quem quiser saber o que lhes vai na alma, leia as arengas do Jerónimo no novo programa: loas a Staline, vivas à URSS, e bolores do estilo. A ditadura está-lhe na massa do sangue. Disfarçada para papalvo ver, não deixa de lá estar por isso. Vir à tona será mais difícil, é preciso esperar pelas “condições objectivas”. O BE não anda longe disto. Vai disfarçando, mas o “substracto” é o mesmo, em versão disfarçada mas afim.

     A seguir, temos as mesnadas sindicais da mesma origem. Desta vez, conseguiram pendurar-se no protesto legítimo, espontâneo e inorgânico que surgiu semanas atrás, para apregoar a requentada cartilha do marxismo-leninismo e tentar capitalizar às costas de terceiros.

    Finalmente, temos o PS, a nave dos loucos. Uns, muitos, defendem receitas socrélfias, qua não há quem não condene. O actual chefe é, unanimemente, considerado oco. Coitado, está entalado entre um passado vergonhoso, que tem medo de criticar, e o memorando da troica, de que não gosta mas a que não pode fugir.

    Nenhum destes sectores, e senhores, é susceptível de meter ao governo medo que se veja. Deixá-los espernear. Não marcam golos.

    Vejamos agora o que são as oposições propriamente ditas, as que destroem, as que ferem, as que são um problema sério para o governo. As primeiras estão no próprio governo. É a falta de explicações, é o pudor de dizer qual a verdadeira situação que veio encontrar, é a teimosia do Relvas em ficar a todo o custo, sem cuidar da descredibilização que causa. É, sobretudo, a pouco séria e catastrófica atitude do senhor Portas e seus próximos. Incapaz de perceber que, se entrou no barco, tem obrigação de não soprar velas ao contrário, Portas tem, ou devia ter a obrigação de tratar das questões intramuros e não na praça pública. Não deve, ou não devia andar para aí a fazer cara de pau. Acima de tudo, tem, ou teria, a mais elementar e patriótica obrigação de não pôr os interesses do partido acima dos do governo.

    Depois, temos a mais feroz ainda porque mais demolidora, oposição interna do PSD, coisa endémica que só Sá Carneiro, por autoridade pessoal, e Cavaco, por taxos, conseguiram dominar. Desta vez, corporizam-na fulanos como Pacheco Pereira, que ainda não ultrapassou a dor de corno que a queda da sua “patroa” Manuela lhe causou. Integra-a a própria Manuela, diz-se que por ordem de Cavaco, o que é não é certo. Dor de cotovelo é mais provável. Depois vêm autores menores, mas não menos perigosos: Capucho, por exemplo, senhor das mais tremendas frustrações, às quais reage com destrutiva brutalidade até que lhe deem uma câmara qualquer. Isto sem contar com o Marcelo, viciado nestas coisas e incapaz de ver para além dos seus interesses mediáticos e económicos. À horda, talvez com alguma surpresa, veio juntar-se há dias o Marques Mendes, quiçá ao cheiro de poder pessoal, dadas as suas boas relações com o PR.

    Há mais, mas fiquemos por aqui. São estes os que, “patrioticamente”, demolirão o governo, se Passos não os defenestrar de algum modo. Lembrem-se de Santana Lopes (nome a nome, o melhor governo que tivemos na última década), que foi demolido pelos mesmos.

    Em suma, o que falta à nossa política, hoje em dia, é bom senso, lealdade e honra.

     

    7.10.12

     

    António Borges de Carvalho      

  • 5 DE OUTUBRO

     

    Há oitocentos e não sei quantos anos, o nosso 5 de Outubro ficou marcado pelo tratado de Zamora, documento em que, finalmente, o poderoso vizinho castelhano reconhecia a existência da Nação portuguesa e se deixava, para já, de pretensões sobre o que tão duramente vinha correspondendo às aspirações de um povo que não aceitava a soberania de terceiros.

     

    Data a comemorar, sem dúvida, mas data que, por jacobinas razões, não se comemora.

    Outro acontecimento, ocorrido oitocentos anos mais tarde, soe servir de masturbação intelectual para uns reumáticos mentais. Falamos, é claro, do 5 de Outubro do século passado, data em que uns bandos de intelectuais burgueses, acolitados por assassinos e anarquistas – nada a ver com o povo propriamente dito – deram uma golpada citadina que, aproveitando fraquezas várias e várias traições, cortaram com sete séculos de história e conseguiram impor uma nunca sufragada república.

    Como não podia deixar de ser, a tal coisa – a república – redundou na mais horrível bagunça, recheada de perseguições aos sindicatos, à Igreja, a tudo o que mexesse, com bombas, assassínios em série, degredos, prisões, censura, um nunca acabar de negação do que a demagogia revolucionária prometera, tudo acrescido uma guerra com a qual a Nação nada tinha a ver, com o mais fanático imperialismo e com a consequente miséria generalizada do povo.

    Depois, exauridas as finanças, miserada a economia, morta ou gaseada a juventude, a república brindou a Nação com uma ditadura feroz, politicamente inaceitável, economicamente “humilde”, financeiramente brutal,mas financeiramente honesta.

    Mercê de reivindicações militares, 48 anos depois, a república deu-nos uma nova coisa, o socialismo, de evidentes e catastróficos resultados, como é evidente nois nossos dias.

     

    É isto, não o tratado de Zamora, o que hoje, ou ontem – já não sei a que horas escrevo – se comemorou, felizmente, no meio do mais extraordinário ridículo.

    Içaram a bandeira, repetindo o gesto dos republicanos em 1910, sem sequer saber que, em 1910, ninguém içou bandeira nenhuma e que a bandeira que hoje representa a república, não a Nação, nem sequer existia. Ainda por cima, içaram-na de pernas para o ar.

    O comemorativo pessoal escondeu-se, depois, a bom recato, para se ouvir a si próprio. Ouviu-se o Presidente a dizer coisa nenhuma. Ouviu-se um tipo dizer, em substância, que é preciso, de uma assentada, dar cabo do governo e do chefe da oposição, para que o dito tipo possa tomar o poder.

    E ouviu-se Mário Soares dizer que não ia lá porque “o povo não estava lá”. Homem “do povo”, como é sabido, estava ofendido. Um punhado de ignorantes aplaudiu-o freneticamente.

    Ninguém se lembra que “o povo” jamais apareceu em tais palhaçadas. No tempo da ditadura, meia dúzia de gerontes ia pôr umas flores na estátua do António José de Almeida, perante o olhar trocista da PIDE. Durante a III República, umas dúzias de mirones e passantes iam à Praça do Município “aplaudir” a república.

     

    Por isso que, afinal, seja de louvar que, desta vez, a manifestação jacobino-maçónica se tenha posto a bom recato. É que, assim, poupou tempo aos passantes e não impediu o trânsito.

     

    6.10.12

     

    António Borges de Carvalho

  • ALHADAS

     

    Fosse qual fosse a receita adoptada pelo governo, o coro de protestos e de críticas seria o mesmo. Por isso, de nada valem as moções de censura, as manifestações, as greves.

    Tanto faz ir lá de uma forma como de outra. É o que não pode deixar de ser, sob pena de, em vez dos aumentos de impostos, haver um corte total de salários e outras coisas.

    Diziam os latinos que “equitas est suma et constans voluntas jus suum quique tribuendi”. A equidade é dar a cada um segundo o seu direito.

    Muito bem. Segundo uma interpretação já pouco seguida, o direito de cada um é aquilo a que cada um faz jus. Portanto, a equidade seria que cada um pagasse segundo o que tem, em igualdade de circunstâncias com os demais. O que levaria a que todos pagassem a mesma parte do que têm ou recebem, consoante o que recebam. Assim, quem tivesse cem pagaria cinco, quem tivesse mil pagaria cinquenta. Uma “equitas” latina, se quiserem.

    A evolução dos tempos arranjou nova moral tributária que, entre nós, deu na versão anteontem anunciada: quem tiver cem não paga nada, quem tiver mil paga quinhentos e quarenta. A isto chamam os tempos “justiça fiscal”, equidade moderna, ou “social-democrata”, ou ainda distribuição “equitativa” dos sacrifícios. Coma-se disto, porque é o que há. As mentalidades não estão para latinadas.

    Entre os cem e os mil, fica a classe média/média ou média/alta. Têm um terrível destino traçado, que o governo anunciou, uns dirão com coragem, outros com lata. Quem tiver alguma propriedade, seja de que origem for, grande ou pequena, que se ponha a poupar, não para assegurar o futuro mas para chegar a Abril e pagar a primeira prestação do IMI, a Agosto e pagar o IRS e a Setembro e esportular a segunda prestação daquele.

    O governo, com a mesma coragem ou a mesma lata, também anunciou mais recessão e mais desemprego. Pelo menos, é sincero. E que o tabaco, o luxo, os lucros, as transacções financeiras, etc., também vão levar na cabeça.

     

    A receita da troica deu os resultados que se podia prever que desse. A “Europa” e o FMI, ajudando a sustentar as nossas barrigas, parece não ter ajudado o nosso futuro. Resta saber se, com outra receita qualquer (qual?) o resultado não seria pior.

     

    Facto é que o descontentamento interno não é acompanhado lá fora. Quem nos empresta dinheiro está muito contente connosco. Prouvera que seja coerente com o seu contentamento e queira aliviar-nos o fardo.

    Facto é que os juros estão a descer.

    Facto que a dívida diminuiu.

    Facto é que há prazos, negociados pelo governo, que se alargaram.

    Facto é que as despesas desceram. Têm que descer mais? Com certeza, e muito.

    O problema é que a esmagadora maioria das despesas que têm que ser cortadas fazem parte, como é evidente, das que se referem a pessoal.

    Deixar de subsidiar fundações privadas? De acordo. Quantos desempregados?

    Fechar as fundações do Estado? Com certeza. Quantos desempregados?

    Fechar serviços públicos redundantes e inúteis? Sem dúvida. Quantos desempregados?

    Continuar a rever, com a necessária profundidade, as rendas das PPP? É óbvio. O problema é fazê-lo de forma a não envolver o Estado em processos judiciais de previsíveis e graves consequências. Um quebra-cabeças, a tratar com pinças.

    Acabar com os outsourcings do Estado? Certamente, mas equivale a zurzir os funcionários, que têm ritmos e competências incompatíveis com as necessidades.

    Acabar com certos luxos do Estado? É evidente, mas há que manter a dignidade das instituições políticas dentro de certos limites. E lá vem, mais uma vez, o desemprego de muita gente.

    Acabar com a RTP, a RDP e a taxa do audiovisual? Seria fantástico, pelo menos na opinião do IRRITADO. Mas, e quantos desempregados mais?

    Acabar com a mama das eólicas & Cª? De caras. E os desempregados?

    E os “observatórios”, que são às centenas e servem para coisa nenhuma? Aqui, não devia haver hesitações, até porque, para esmagadora maioria dos fulanos, não passam de “ganchos”.

    E as “entidades”, “autoridades” “comissariados” e parlapatices do género? Quantas são úteis? Meia dúzia? Mais desempregados.

     

    Quem paga, e com que dinheiro, a mais estas hordas de queixosos, os mais deles sem saber fazer nada para além do que faziam, ou não faziam? Quantas manifestações, quantas greves, quantas desordens, quantos insultos, quanta instabilidade? 

     

    É por estas e por outras que os cortes na despesa, os ditos e muitos outros, não são coisa que se faça de um momento para o outro. Acelerar o processo? Com certeza. O problema é o como. O problema é o que, paradoxalmente, os cortes na despesa vão custar.

     

    Luzes ao fundo do túnel?

    Se não for a tese internacional, adoptada pelo governo como não podia deixar de ser, tese que defende não haver saída a não ser, custe o que custar, através do saneamento das contas do Estado, outra não se vislumbra. Há disso experiência, pelo menos com Salazar e Mário Soares. Se resultou com eles, porque não há de resultar com estes?

     

     

    5.10.12

     

    António Borges de Carvalho

  • DUAS TRISTEZAS


    Um rapaz de trinta anos, professor de filosofia, desempregado, mas não “resignado” disse a um jornal o que andava a fazer para ultrapassar a situação.

    Assim:

    – Participa em todos os protestos, dos professores e dos outros;

    – Participa nas vigílias de protesto dos sindicatos;

    – Participa nas vigílias da Plataforma pela Educação;

    – Foi esperar o ministro Crato à TVI;

    – Esteve na manifestação de 15 de Setembro;

    – Esteve nos protestos em frente do Palácio de Belém;

    – Participou na manifestação da CGTP.


    Uma tristeza a escassez de natalidade que provocou a falta de alunos no sistema público e obrigou à dispensa de muitos professores.

    Uma tristeza também a “luta” deste jovem por melhores dias. Assim, ninguém dá a volta.

     

    4.10.12

     

    António Borges de Carvalho

  • QUEIXINHAS


    O oco anda muito ofendido com o Passos Coelho. Na sua opinião, o PM devia ter-lhe dado as mais rasgadas explicações sobre as propostas que ia levar a Bruxelas. À primeira vista tem razão.


    Só que:


    – Sendo as medidas destinadas a integrar o orçamento 2013, e tendo o oco, sem nada conhecer, anunciado solenemente, e solenemente repetido, que vai votar contra no escuro, qual a utilidade de lhe dar qualquer espécie de satisfação?

    – Conviria que o oco dissesse que o mesmo aconteceu por iniciativa do seu próprio partido, quando do PEC IV. Não houve consulta ao PSD, que, ao contrário do oco, não tinha anunciado qualquer sentido de voto! O oco não confessa nem se demarca.

    – O oco não percebe, porque não quer perceber, que o governo não pode, nem deve, apresentar ao parlamento medidas ou alternativas que não sabe se os credores aceitam. Será triste, mas é assim.

    – Em resumo, o oco acha que, no tempo do senhor Pinto de Sousa, quer dizer, do partido do oco, as medidas do PEC IV eram apresentadas em Bruxelas para chegar cá como mais uma brilhante vitória do PS. O que, aliás viria a acontecer com o acordo da Troica. Lembram-se do discurso triunfante do exilado do 16ème quando apresentou o memorando?


    Que diabo, ó oco, em vez de choramingices e acusações, se usasses uma pinguinha de humildade, ou de honestidade, não te ficava mal.

     

    4.10.12

     

    Atónio Borges de Carvalho

  • OS INSTALADOS

     

    Há três dias que mais de cem mil pessoas, depois de enormes transtornos, nervos, cansaço, stress, chegam tarde ao trabalho. Pessoas que precisam de trabalhar, que temem perder o emprego, que trabalharão mais e melhor para tentar que as sua empresas ultrapassem a borrasca e não vão à falência, que os seus empregos não acabem, etc. Porquê? Porque uns fulanos, que trabalham relativamente pouco, que têm horários de privilégio e regalias em barda, que ninguém pode despedir, cujas empresas vivem à custa dos impostos e dos sacrifícios dos outros… estão em greve. Em matéria de abuso de direito, são mestres.


    O chefe dos chefes militares declara, ameaçador, que os ditos não são “submissos”, leia-se que, se lhes cortam alguns tostões como aos demais, pegarão em armas para sacar o deles.

    Os subordinados do insubmisso, animados por estas doutas palavras, alinham em manifestações de massas, seguidos de polícias e outros empregados indispensáveis.


    Os magistrados reunem-se em sindicatos, fazem exigências e ameaças, queixas e queixinhas, metem-se onde não são chamados, armam em legisladores, dizem-se independentes usando uma mais que ilegítima interpretação extensiva do conceito, contribuem conscientemente para a perturbação generalizada da sociedade em vez de, a partir da eminente mas já perdida dignidade da sua profissão, ser um elemento de estabilização e de confiança na Justiça.


    Os médicos, esses, com o rei na barriga, isto é, cientes de que a sociedade não pode deles prescindir, ultrapassam, através de um bastonário politicão, abusador e grevista, tudo o que seria imaginável em matéria de respeito por terceiros.


    Os advogados são representados por um maluco.


    Os sindicalistas controlados pelo PC não conseguem ultrapassar o mais primitivo bolchevismo.


    E assim por diante.

    Tudo com o extremoso apoio da chamada “informação”, altifalante de tudo o que não presta.


    Pior que todas as hesitações e falhas do poder legítimo é o estado de degradação moral e cultural em que a sociedade portuguesa se encontra. Valores? Que é isso? Democracia? É a rua. Falta de dinheiro? É para os outros.  


    Não são os verdadeiramente prejudicados pelas consequências do socialismo estatista quem protesta e desestabiliza. São os instalados. Mal ou bem instalados, mas instalados. Objectivamente, fazem troça os demais.

     

    3.10.12

     

    António Borges de Carvalho

  • ANDAR PARA TRÁS


    O Carlos, ciente da oportunidade, tratou de cavalgar a onda. Como nos tempos do camarada Cunhal, arranjou maneira de reunir sob a sua batuta os “trabalhadores”, os “patriotas”, “os católicos”, os “portugueses sem partido”, os “democratas”, etc.. Todos “unidos”, “o povo unido jamais será vencido”, bla, bla, bla.

    A confessa intenção, com Cunhal, era evitar a todo o custo a implantação de uma democracia “burguesa” e erguer, na terra queimada, uma “democracia” “popular” à imagem soviética. Assim, pôs na rua hordas de trolhas e quejandos, que não percebiam nada do estavam a fazer. Tão só, na sua ignorância, davam largas a ódios baixinhos e sem sentido.

    Cunhal não acabou por não vencer na rua. Mas criou uma onda que invadiu toda a política, que fez os partidos inflectir de tal forma que acabaram por embarcar, de uma forma ou de outra, na demagogia socialista de que é fruto a chamada “Constituição de República”, prolixa condensação de normas ideologicamente geradas, de imaginários direitos e, é bom não esquecer, desta coisa irrealista, paranóica e abstrusa que é o semi-presidencialismo à portuguesa.

    É esse “programa constitucional” a origem primeira dos males endémicos da III República. Politicamente, o aborto semi-presidencial que confunde e anquilosa. Economicamente, um capitalismo socialista que misturou, mesmo quando queria fazer o contrário, a economia com a política, tirando ao Estado a capacidade de controlar o sistema económico – teria que controlar-se a si próprio!, gerou a evidente promiscuidade entre o capital privado e o Estado, com as desgraçadas consequências a que assistimos, deu asas a uma burocracia gigantesca, insuportável e paralisante, e a uma justiça cuja evidente degradação deriva directamente dos retorcidos conceitos constitucionais de independência e auto-gestão.

    O caminho do regime para a exaustão não foi sentido, nem pelas gentes nem pelos políticos. A não ser quando já pouco havia a fazer.

    De repente, os resultados directos e indirectos da filosofia do regime cairam-nos em cima.


    Para além de tudo – dívida, défice, etc. – desgraça-nos a mentalidade que se nos meteu nas veias, cheia de “direitos” tortos, de oportunismos legais e oficiais, do convencimento que tudo nos é devido e nada devemos.

    É este o nosso drama. É este o drama que o Carlos explora, cavalgando a onda do descontentamento e conseguindo apoderar-se de uma coisa que foi espontânea, ainda que errada e ineficaz: a manifestação do dia 15.

    Desta vez o Carlos, vendo a mesma janela de oportunidade que Cunhal vira há trinta e tal anos, pegou no que era genuino e enquadrou-o. Como as “massas” que tem às suas directas ordens já não faziam impressão a ninguém, tratou de chamar as demais à rua, já que para tal se tinham “preparado”: os mesmos que o Cunhal no seu tempo “convocava”. Carlos tratou do discurso, da organização, dos autocarros, das pancartas. Ameaçou-nos a todos (“se o governo não ouve a bem ouve a mal”), tomou conta da multidão. É de se lhe tirar o chapéu.     


    Em resumo, um país que, como os saídos da tirania soviética, teria tido, e teria agora outra vez, oportunidade para avançar – como todos eles avançam – para formas mais evoluídas de filosofia de base, parece, pela mão dos Carlos da nossa praça, querer voltar a um passado tão perigoso quanto repugnante.


    Eles não passarão. Mas o que tal nos vai custar!

     

    30.9.12

     

    António Borges de Carvalho

     

    PS. A propósito do “correr com a Troica”, e coisas do estilo, cito:

    É altura de começar a discutir o preço que teriam para nós tais alternativas. Estou cansado da conversa sobre os “cortes” por parte de quem, na verdade, não quer “cortes” nenhuns e tem como único sonho encontrar quem nos pague as contas, chamando a isso “solidariedade”.

    José Manuel Fernandes, “Público”

  • PENSAR DUAS VEZES

     

    Prepara-se afanosamente mais um surto de manifestações e greves. Embora grande parte dos intervevenientes sejam os mesmos, há diferenças de fundo entre umas e outras.


    As manifestações, coisa em que o Carlos andava por baixo, já se contentando com uns comandos locais a chatear aqui e ali, vão ter outra gente que não as legiões que o PC comanda e a meia dúzia de penduras do BE. O PS, por trás da cortina, empurra uns quantos, e há muita gente farta disto que, sem precisar de empurrões, ameaças ou enquadramentos, alinha de boa vontade na turba-multa.

    No que respeita aos últimos, é natural que assim seja, é natural que toda a gente esteja chateada com o que se passa. O que já não é tão natural é que as pessoas pensem que isto tem remédio, que se tirassem o dinheiro aos ricos se resolvia o problema, que há outra saída que não seja abrir mais furos no cinto, que a humanidade se divide entre os maus, previamente deterninados pela opinião mais primitiva e imediata, e os bons, que são todos os que protestam, por minoritários, “enquadrados” ou arruaceiros que sejam.


    As greves, essas, são outra coisa. São os tipos que ninguém despede ou não pode despedir que vêm abusar dos seus direitos e cavalgar os demais, com o maior dos desprezos pelos seus concidadãos que sofrem e pelos problemas colectivos. O que conta é a barriga deles, e pronto.


    *

    Todos os esforços – vão durar anos! – para pouco servirão se, fora daqui, os mercados em geral (não os financeiros, os outros) não ressuscitarem e os manda-chuva da Europa não se deixarem de tergiversações.

    Da nossa parte, trabalhar mais e ganhar menos ajudará, mas parece que ninguém está para isso, a começar por cima. Por outro lado, haverá que perceber que a Europa está mal, muito mal, e que se queremos arranjar dinheiro temos que o ir buscar às longes terras para onde fugiu. O que implica que, como no passado, Portugal se torne menos “europeu” e descubra um novo ultramar. Parece haver quem pense nisto, mas é um caminho longo e trabalhoso, como o foi outrora. Os mercados, os compradores, os que terão que pagar – não dívida mas produtos – estão para lá dos mares. Conte-se menos com a Europa e mais com eles.

    É claro que pode haver coisas que ajudem. Descoberta de petróleo, ouro, diamantes, tecnologia de ponta, natalidade, emigração, etc. Tudo mais ou menos mirífico e de efeitos de longo prazo.

    O que não se pode, ou não se devia poder, é cair em cima dos que, por muitos erros que já tenham cometido, prejudicaram gravemente a sua vida pessoal – como Passos Coelho, Gaspar ou Macedo, para citar só três –  para servir o país. Não colhe chamar gatuno a esta gente. É feio e não interessa a ninguém, antes pelo contrário. Ao fim de ano e meio de governo, quantas broncas já tinha havido com a malta do PS? Quantas houve em seis anos? Estes ficam-se pelo Relvas, e é uma bronquinha.


    É de, pelo menos, pensar duas vezes.


    28.9.12

     

    António Borges de Casrvalho

  • A EDP, A GALP E O CUI

     

    Uma hitorieta verdadeira.


    Um cidadão recebe uma propaganda a dizer que a EDP passou a vender também gás natural. Como está a precisar de ligar o gás num sítio onde já tem electricidade, vai à EDP.

    Após disciplinada permanência numa longa bicha, um fulano pede-lhe o número de contribuinte. Três segundos depois, o fulano lê o nome dele, a morada, o nº de telefone, o email, etc.. Afinal, sou muito conhecido cá na casa, pensa o cidadão. Depois realiza que está a papa toda feita para facilitar a vida ao Big Brother quando disso for caso.

    O fulano, depois de saber ao que vinha o cidadão, fornece-lhe, gratuitamente!, um papelinho com um número. Comparando o seu número com o que está no olho do Big Brother, o cidadão vai comprar os jornais, senta-se numa pastelaria a beber uma bica e, acabada a leitura, volta à distinta EDP. Desta vez não teve que esperar muito. Chamado pela pantalha, dirige-se respeitosamente à menina número dez, dona de uma unhacas ciclópicas às riscas vermelhas e brancas.

    Diz ao que vai. A menina olha-o com o maior dos desprezos e diz: “tem que trazer o CUI”. Meio aparvalhado, o cidadão, a pensar que o CUI é alguma catraca para lhe sacar uns cobres, confessa a sua fatal ignorância sobre a existência de tal coisa, bem como sobre que influência O CUI pode ter na sua vidinha.

    “ O CUI é um número”, diz a gaja das unhas. “Então a senhora não conhece o meu CUI? Tem aí a morada…”. “Não sei nem tenho que saber, quem sabe é a GALP, e só podemos ligar o gás se soubermos o CUI”.

    Estupidificado, o cidadão insiste. “Então se os senhores querem vender gás sem ter acesso ao CUI de cada um, como é que querem vender o gás? Então eu é que tenho que lhe mostrar o CUI? ”

    A senhora unhacas começa a impacientar-se. Para encurtar caminho informa: “Tem que ir à GALP pedir o CUI. Depois, volte cá. ”Mas à GALP onde?” “Na loja do cidadão. Eles lá dão-lhe o CUI. Não há alternativa!”.

    Ciente de que, com a gaja das unhas, não se safava, o cidadão fez das tripas coração e meteu-se no metro para os Restauradores. Teve a enorme felicidade de encontrar imediatamente o estaminé da GALP. Tirou a senha. A senha tinha o numero 35 e, na pantalha, estava o 79. O cidadão estremeceu. Já terá passado a minha vez? Não, não tinha. Era a pantalha que estava avariada. A chamada era feita aos gritos. Desta vez nem posso ir beber uma bica, nem há uma cadeira vaga para ler o jornal. Tenho que aguentar. Aguentou.

    Do lado de cá, uma multidão suada e triste. A maior parte estava ali para pagar contas, em duas caixas, antes que lhes cortassem o abastecimento. Os outros, como o cidadão, esperavam por ser atendidos em quatro secretárias onde seria suposto imperar quatro meninas com uma Tshirt preta onde brilhava a palvra on, talvez roubada aos que estão on, na ZON. Das caixas, uma tinha um senhor a atender. A menina da outra devia estar em intervalo, a conversar com outras três, das quais, veio o codadão a saber, duas eram estagiárias. Deviam estar a trocar impressões sobre o serviço, não é? Depois, mais duas meninas das secretárias, uma a atender um cliente, outra a pensar. Passado um certo tempo, cheio de sorte, ouviu a menina que atendia chamar o 30 e os seguintes. Já tinham ido todos embora. Era assim chegada a feliz hora do cidadão. A menina, muito simpática, descobriu o CUI do cidadão num ápice. Que eficiência!, pensou o cidadão.

    Depois, pensou mais: porque carga de água hei-de ir a toque de caixa outra vez para a EDP, se estas gajas também vendem gás? E a doce rapariguinha, passada uma longa e titânica luta com o computador, lá resolveu o problema.

    Agora, é só esperar que venham uns tipos inspeccionar a instalação – o que poderá suceder em breve – e cobrar sessenta euros mais IVA. Além disso, é origatótio estar presente no local, por conta do cidadão, um “técnico especialista” em gases (será em gases do CUI?), o qual não se sabe quanto cobrará. Para já, tudo nos conformes.


    Feliz, o cidadão voltou para casa. Tinham sido quatro horas altamente produtivas. Ia ter gás! Tinha dado com os pés na EDP! Tinha vencido o CUI dos gases!

    Uma triunfante jornada para um português habituado a que os que estão atrás dos balcões tenham a missão de criar problemas em vez de os resolver.

     

    28.9.12

     

    António Borges de Carvalho

  • A COISA ESTÁ FEIA

     

    Parece que a ministra da justiça, a propósito das buscas em casa de uns ex- membros do tenebroso governo socialista, disse que a impunidade tinha acabado.

    Das profundezas das alfurjas do socialismo dito democrático, vários membros da organização que dá pelo nome de PS vieram proclamar a sua indignação. Como se o fim da impunidade, a ser verdade, não fosse uma excelente notícia. Como se, até ano e meio atrás, a impunidade não fosse a coisa mais natural deste mundo. Como se a impunidade do senhor Pinto de Sousa não tivesse sido a regra de ouro dos tempos negros em que o PS se entretinha a arruinar o país. Como se as provas que apontavam para os actos impróprios do referido cidadão não tivessem sido rasgadas, queimadas, deitadas fora. Como se as perguntas incómodas não fossem esquecidas e ninguém soubesse delas até que uns incautos magistrados se lembraram de as pôr preto no branco, ao mesmo tempo que diziam ter sido impedidos de as fazer. E por aí fora, num nunca acabar. É que, como dizia um alto demagogo da organização “quem se mete com o PS, leva”. E quem se meteu, levou. Aqueles com quem quem se meteu se meteu ficaram todos a rir.

    O senhor Pinto de Sousa tirou um curso à balda, no meio das mais incríveis ilegalidades e aldrabices. E foi PM mais de seis anos. O senhor Relvas, tendo tirado um curso, talvez de favor mas dentro da lei, é objecto (e bem) de uma quase universal exigência de demissão. Ao Pinto de Sousa, quem exigiu a mesma coisa? Quem investigou, para além dos jornais?

    No tempo do PS, para ir parar à cadeia era preciso, primeiro, ver a que partido pertenciam os suspeitos. É por isso que só estão na choldra os Oliveiras e Costas e os Duartes Limas (outros, se calhar, também deviam deviam lá estar). Importante é que, do PS, ninguém. O senhor Pinto de Sousa, esse, como um anjo, repoltreia-se em Paris.

    Não admira que tantos altos camaradas do PS se insurjam contra a declaração da ministra, aliás expurgada do contexto, sobre o fim da impunidade. Se a impunidade acabar mesmo, onde vão parar os tipos do PS? Que se saiba,até hoje, não houve um só que condenasse as criminosas asneiras do senhor Pinto de Sousa! Pelo contrário, aceitam tudo e até elogiam. Como podem não estar histéricos com o fim da impunidade? Como se a impunidade não fosse a regra de oiro no seu ominoso tempo!

    A histeria é má conselheira. Um canalha qualquer, ignara e desagradibilíssima criatura, chamou “protofascista” à ministra. A nossa senhora dos deficientes sexuais chamou-lhe ignorante, entre outros mimos. É natural. Quando a coisa começa estar feia, a melhor defesa é o ataque. Uns sábios, estes pêésses.

     

    27.9.12

     

    António Borges de Carvalho

  • BLÁ BLÁ

     

    Se não fosse triste, esta dava para rir.

    Uma alta funcionária da UE e ex-ministra socialista, dona Rodrigues, clama que “Há Outra Solução!”.

    Óptimo!


    Vejamos a tal solução, sic:

    – aumentar a capacidade de exportação, mas sem liquidar o consumo interno

    – reforçar a competitividade, com base nos recursos humanos e não na sua desvalorização

    – reformar a administração pública, mas sem degradar os serviços sociais”


    Obrigadinho, ó filha! És a maior! Estamos todos de acordo.

    Já agora, poderias dizer como é que isto se faz. A malta agradecia.

     

    20.9.12

     

    António Borges de Carvalho

  • SEM SAÍDA?

     

    A Alemanha andou à nora para absorver a RDA e fazê-la recuperar da desgraçada situação em que o comunismo a tinha deixado.

    Não havia dinheiro que chegasse. Os défices do Estado cresciam, chegando a ultrapassar os 3% do pacto de estabilidade que estava nos tratados. Daí, a Alemanha baixou os salários, o IRC, tomou outras medidas de austeridade, tão ou mais duras que estas e protegeu as exportações. Tudo isto foi feito com o aval do Tribunal Constitucional lá do sítio. O resultado está à vista, não vale a pena descrevê-lo.

    Diga-se que isto não serve de desculpa para algumas atitudes actuais do governo alemão, nem o IRRITADO se propõe desculpá-las, ou é esse o tema do post.

    Por cá, os problemas são muito mais graves. O buraco, proporcionalmente, deve equivaler a cinco ou seis RDA’s. Não carece de demonstração. O governo tomou uma medida que, talvez pretendendo “imitar” as soluções alemãs, foi apresentada de forma canhestra e brutal. Poucos a entenderam e quase não há quem a defenda. O tribunal constitucional colabora activamente no afundanço do país. A desgraça fatal da nossa Constituição ajuda à missa.

    O mais grave é que ninguém parece querer entender que o rendimento disponível tem que diminuir, mesmo sabendo que não há rendimento disponível, só empréstimos. Não há quem queira entender que as tão apregoadas pequenas empresas, que “dão” tantos empregos, as mais das vezes não passam de bares, restaurantes e coisas do género, desnecessárias e inviáveis. E, se não for o governo a encontrar outra solução, não há truta que a conceba.

    Trinte e tal anos de socialismo constitucional, trinta e tal anos de democracia socialista – praticada pelo PS e não contrariada pelos outros – trinta e tal anos de “estado social”, a crédito de terceiros, trinta e tal anos de “experiências educativas” socialistas e “psicológicas”, eis o que nos fizeram. Agora, os que são acusados de querer acabar com o socialismo, acabam à contrecoeur, por ter políticas socialistas. E ninguém pensa em dar uma volta de mestre à Constitução, ninguém tem força para parar os gastos do Estado, ninguém tem imaginação para incentivar um capitalismo criativo e com base em leis simples, ninguém consegue pôr a burocracia – ignóbil monstro – na ordem.

    Às vezes, parece que os portugueses anseiam por uma ditadura.

     

    20.9.12

     

    António Borges de Carvalho

  • FORMIDÁVEL!


    Ele há coisas que deixam uma pessoa de boca aberta.

    Anos atrás, sendo o inacreditável Mário Soares primeiro-ministro, o General Eanes, sedento de poder e, se calhar, cheio das boas intenções de que o inferno está cheio, tratou de arranjar os chamados “governos de inicitiva presidencial”. Foram três seguidos, todos igualmente abstrusos. O General deitou as eleições para o caixote do lixo e tratou de pôr no governo gente a gosto. Mário Soares reagiu. Cortou relações com o Presidente, nunca mais o apoiou, e até contra o seu próprio partido, foi votar noutro nas presidenciais. Tinha razão. O entendimento de Eanes era ilegítimo e inconstitucional. Mas, como quem mandava na Constituição era a tropa, passou a legítimo e constitucional. Eanes havia de vir a provar por a+b que o que no fundo queria era aproveitar o cargo para lançar o seu partido: o não menos abstruso PRD, que havia de vir a fazer as maiores asneiras e cavalidades, acabando, felizmente, por se comer a si próprio.

    Este mergulho num passado que, sem ser longínquo, já não estará na memória de muitos, dá-nos uma pálida imagem da honestidade intelectual, da estatura moral e/ou do que a idade pode fazer a uma pessoa que, em tempos, teve alguns episódios de bom senso.

    Possuído da mais radical cegueira, esquecido do que defendeu no passado, Mário Soares aparece agora a defender um “governo de iniciativa presidencial”! O homem que, por isso, passou a odiar um Presidente que tinha apoiado, vem, pela mesma razão, apelar a outro Presidente, que nunca apoiou, para que faça, contra o PSD, o que ele condenou que o primeiro fizesse contra o PS.


    É formidável!

     

    20.9.12

     

    António Borges de Carvalho

  • ASNEIRAS


    Há muitos anos, um dos clássicos eco-gurus da nossa praça dizia – e eu, jovem e ingénuo, concordava! – que, na Avenida da Liberdade, o trânsito automóvel e a construção de imóveis mais altos que os que lá estavam provocariam, por poluição e falta de sol, a morte de todas as árvores e a atrofia das plantas rasteiras num prazo inferior a 20 anos.

    Passaram quase 50 anos. A circulação automóvel aumentou brutalmente, construiu-se inúmeros edifícios que, ainda que sem exageros, são bem mais altos que os anteriores. As árvores lá estão, viçosas ainda que votadas pela CML ao mais total abandono, e os jardins não estão mal, se exceptuarmos as pinturas paranóicas com que o senhor Costa tratou de desfear os bancos tradicionais.

    A eco-demagogia opiniosa, porém, mantem-se ou está pior. A câmara erigiu como objectivbo fundamental pôr os lisboetas a andar de bicicleta. Na cidade das sete colinas! São parvos ou quê? O IRRITADO não é contra as bicicletas. Mas, numa cidade como a nossa, a circulação ciclista, para além de uma estupidez é um atentado à saúde pública. Por outro lado, a CML, depois de ter incentivado, e bem, a transformação da Avenida em centro de comércio de alta qualidade e preço, veio limitar a circulação mediante alterações idiotas, incómodas e caríssimas. Como a distinta clientela de tal comércio não anda de bicicleta nem de autocarro, o resultado vai ser bonito. As lojas vão entrar em colapso, e os cidadãos que delas não são clientes deixam de ter o gozo de ver as montras, com sonhos ou sem eles.

    A circulação na Rotunda está pior, mas aceitável. Como os trutas que conceberam a asneira estão contentes, deixemo-los na sua felicidade. Mas na Avenida, que pessegada meu Deus! A hora de pouco movimento leva-se vinte minutos para subir dos Restauradores à Alexandre Herculano!

    O IRRITADO, que há muito utiliza um Mercedes-Benz com motorista para ir à baixa – o autocarro da Carris – meteu-se no carro, à experiência. O resultado foi ter ficado a pensar que estes tipos da CML são, pelo menos, doidos. Uma faixa para subir a avenida! E, sem mais nem menos, passa a três! E os sinais que enganam as pessoas! Uma desgraça. Uma burrice.

    E se a CML tivesse pegado nos 750.000 euros que ali enterrou e tivesse, por exemplo, mandado arranjar uns passeios e asfaltar uns buracos?

    Pergunta estúpida. Tapar buracos e arranjar passeios não tem nada de ecológico. Partir pés e rebentar pneus está muito mais de acordo com a “Natureza”!

     

    10.9.12

     

    António Borges de Carvalho   

  • A VERDADE É UMA CHATICE

     

    Aqui há uns tempos, a nacional inteligestsia de esquerda embandeirou em arco com a vinda a Portugal de um tal Krugman. Parece que o fulano é um insgne professor de economia, que até ganhou um Nobel e que, como é óbvio, não pode deixar de ser de esquerda. Aliás, parece que tem dado largas provas disso.

    Ora o senhor Krugman, para além das suas críticas à dona Ângela e de outras doutas considerações, veio dizer a Portugal esta coisa muito simples: ou baixam os salários ou estão feitos ao bife.

    A nossa inteligentsia de esquerda, os nossos órgãos de informação e muitas opiniosas criaturas trataram de esquecer o senhor Krugman. Tinham enfiado um barrete dos diabos, uma vez que a sua função na vida é dizer o contrário do que disse o tão esperado guru. Queriam apoio e levaram com os pés. A ordem foi esquecer o homem. O Krugman, de um dia para o outro, deixou de existir em Portugal. E, no entanto, como diria o Galileu, continua a existir, a ser de esquerda, e a dizer verdades duras como murros no focinho.

    Ora não há uma só entidade no mundo, para além do Louça, do Soares (o nosso principal especilista em baixas de salários) e do Jerónimo, que apresente receita que, no que diz respeito aos custos do trabalho, desminta o Krugman.

    A história da TSU, pelas reacções que provocou, foi uma patada na poça. Levantaram-se tenores, barítonos e contraltos, cada um mais esganiçado. A plebe, nós, veio para a rua, indignada.

    Ninguém está de acordo.

    Hordas de patrões, empregados, académicos (até os há – onde chega o ridículo – que “sabem” que a coisa vai trazer mais 30 ou 60 mil desempregados), filósofos, padres, trataram de condenar acerbamente uma medida que, em boa verdade, ninguém sabe o que daria, a médio e longo prazo.

    No PSD, mesnadas de invejosos, frustrados e negociantes da opinião (dona Manuela, Capucho e Marcelo, por exemplo), tratam de pôr as massas em delírio.

    Do lado do PS, o oco aproveitou para mais umas frases irresponsáveis, o Soares todos os dias diz mais uma parvoíce, etc. Os socrélfios rejubilam. Coitados, eles que não tiveram culpa de nada, não é?

    O Portas, sempre pronto a arranjar chatices, anda a preparar-se para, mais cedo ou mais tarde, cair nos braços do PS. Entrou em histeria.

    Dos salões de Belém, o ocupante do Palácio do Rei deve ter-se rido a bandeiras despregadas: no PSD, après moi le déluge. Cavaco há só um! O Barroso fez o favor de dar à sola. O Santana foi corrido com a minha preciosa ajuda. Este, com mais um empurrãozinho… hi,hi.

    Uma ou outra voz – vale a pena ouvir, por exemplo, Camilo Lourenço e Ferraz da Costa – percebeu as coisas de outra maneira. Mas são vozes no deserto.

    Asneira ou não, a reforma da TSU seria uma maneira de seguir o conselho do Krugman e de tudo o que é gente neste mundo. Não se sabe se seria a melhor, a pior, ou qualqur coisa de intermédio. O que se sabe é que, de uma forma ou de outra, é fatal ter de chegar ao mesmo.

    Andar a espalhar ilusões, ou a partir do oportunismo dos políticos, ou da ingenuidade das pessoas, ou de histórias da carochinha, é que não devia valer.

     

    19.9.12

     

    António Borges de Carvalho

  • A BARULHEIRA

     

    Magna manifestação! Parabéns aos que não fizeram desacatos. Parabéns à polícia que se aguentou em São Bento, ainda que atacada à pedrada, à garrafada, etc.

     

    E agora?

    Agora, os juros sobem. Já subiram.

    Agora, ninguém sabe se a próxima fatia virá ou não.

    Agora, lá se vão os elogios internacionais ao governo e ao país.

    Agora, vamos rapidamente passar à categoria de gregos, pelo menos na opinião de quem interessa.

     

    A rua tem razão? Com certeza que sim. Mas tê-la-ia na mesma se não tivesse saído de casa. Todos temos razão. Todos estamos a pagar, de uma forma ou de outra, a governação socialista, a crise do euro, a especulação financeira, a falta de coragem política dos europeus em geral, etc. Todos estamos de acordo que tem que haver austeridade, mas a maior parte acha que a austeridade é boa desde que lhe não bata à porta. Há quem já tenha fome? Se calhar, sim. Mas as coisas só piorarão se passarmos a andar na rua. Não se calhar, mas de certeza.

     

    Para a semana, os críticos reúnem-se no Conselho de Estado. A história da TSU deve estar morta. Outra coisa virá, melhor ou pior, mas a dar ao mesmo. Que os insignes conselheiros de Estado passem da crítica à solução, é coisa em que o IRRITADO não acredita, mas gostava de acreditar. Ou então, o governo insiste, e entramos em crise política. Seremos ainda mais gregos do que já estamos a ser. Enfim, pode ser que o Gaspar, apertado como vai ser, tenha alguma ideia salvífica, ou miraculosa.

     

    A verdade é que continuamos na corda bamba, mas deixámos, ou estamos a deixar de ter rede. Um recado do IRRITADO às multidões: não agravem o pesadelo com os protestos. Senão, em vez de cortes percentuais nos salários deixará mesmo de haver salários, como esteve para acontecer há um ano e tal, sob a batuta socialista.

     

    Felicidades!

     

    16.9.12

     

    António Borges de Carvalho

  • NÃO HÁ SOLUÇÃO

     

    O IRRITADO não faz a menor ideia do que se está a passar a estas horas nas ruas de Lisboa e de mais não sei quantos sítios. Podem andar por lá aos gritos milhões de gregos, perdão, de pessoas, expandindo a sua justa indignação por causa da baixa de 8%, diz-se, nos salários dos gregos, perdão, das pessoas.

    O IRRITADO também não faz a menor ideia se a tão odiada, e com razão, medida do governo, será má ou boa, a longo prazo. Aliás, ouvidos e lidos vários trutas da nossa praça, vindos de vários quadrantes e de quadrante nenhum, o IRRITADO ficou na mesma. Quando uns dizem que sim, parece que têm razão. Quando outros dizem que não, também parece que têm razão. O que leva a concluir a coisa dará bom ou mau ou bom resultado segundo circunstâncias que não se encontram à disposição dos teóricos. Ou que casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão.

    O que sabe é que, se não formos por aqui, teremos que ir por outro lado qualquer mais ou menos equivalente. Ou seja, passarmos a gregos não leva a parte nenhuma. Só estraga ainda mais.

    Os comunistas, sejam do Bloco ou do PC, estão contra. Mas esses estão sempre contra tudo. Não contam.

    Os do PS, esquecidos do que fizeram e do que assinaram, tão ocos como o chefe, tomam as posições que as suas conveniências internas do momento determinarem. Para eles, estas não. Outras, não são capazes de parir. São do contra porque são do contra, e é tudo. Também não servem para ajudar a formar a opinião seja de quem for.

    A habitual cáfila do PSD também dificilmente nos leva a concluir seja o que for. O Marcelo é o que é: precisa de público para ganhar umas massas e fingir que é gente. O Capucho está com uma insuportável (para ele) dor de corno por ter sido corrido do Conselho de Estado. Tem uma coisa com que nos devemos congratular: largada a câmara de Cascais por motivos de doença, curou-se de tal maneira e está tão saudável que já aceita uma camareca qualquer e acha que para tal o melhor é darem-lha a ver se se cala. A dona Manuela, um anjo que desceu aos infernos da frustração e do mau perder, deu em disparatar que nem o Mário Soares em dia de excitação.

    Depois, há os “indignados”, turba multa e inorgânica que odeia por odiar mas que, convenhamos, como as coisas estão cada vez pior, outra solução não tem senão fazê-lo, com muitos políticos a pendurar-se, a ver se surfam a onda.   

    Daqui que só os economistas, de preferência académicos, – há-os aos magotes – pudessem ser dignos de alguma confiança da parte do IRRITADO. Se cada um diz a sua coisa, que pensar?

    Outra turba multa, essa sem desculpa, defende que isto vá para o buraco, que se dê aos credores a imagem de um país falhado e perdido em parlapatices internas, sem inteligência nem futuro.

    O PR, acha que vai conseguir o consenso. Com o oco? É difícil. O homem, mesmo que tenha algum bom senso, tem à perna a cáfila do Pinto de Sousa mais um magote de patarecos, todos sedentos de poder.

    Condenar os 8% é fácil. O IRRITADO também condena. Mas haja um truta qualquer que diga quais são as alternativas. Somem as PPP com os ordenados dos gestores públicos, mais os do governo, dos deputados, do PR, mais as fundações, mais o imposto sobre as transacções financeiras, etc. e tal, e encontrarão, talvez, uns 3% dos 8%. Ponham os municípios a pão e água, ou seja, a viver do que cobram, e verão mais uns 2%. Já só faltam 95%.

    Não, não há truta nenhum que se atreva a inventar a solução. Por uma razão muito simples: não há solução.

     

    15.9.12

     

    António Borges de Carvalho