Ele há coisas que deixam uma pessoa de boca aberta.
Anos atrás, sendo o inacreditável Mário Soares primeiro-ministro, o General Eanes, sedento de poder e, se calhar, cheio das boas intenções de que o inferno está cheio, tratou de arranjar os chamados “governos de inicitiva presidencial”. Foram três seguidos, todos igualmente abstrusos. O General deitou as eleições para o caixote do lixo e tratou de pôr no governo gente a gosto. Mário Soares reagiu. Cortou relações com o Presidente, nunca mais o apoiou, e até contra o seu próprio partido, foi votar noutro nas presidenciais. Tinha razão. O entendimento de Eanes era ilegítimo e inconstitucional. Mas, como quem mandava na Constituição era a tropa, passou a legítimo e constitucional. Eanes havia de vir a provar por a+b que o que no fundo queria era aproveitar o cargo para lançar o seu partido: o não menos abstruso PRD, que havia de vir a fazer as maiores asneiras e cavalidades, acabando, felizmente, por se comer a si próprio.
Este mergulho num passado que, sem ser longínquo, já não estará na memória de muitos, dá-nos uma pálida imagem da honestidade intelectual, da estatura moral e/ou do que a idade pode fazer a uma pessoa que, em tempos, teve alguns episódios de bom senso.
Possuído da mais radical cegueira, esquecido do que defendeu no passado, Mário Soares aparece agora a defender um “governo de iniciativa presidencial”! O homem que, por isso, passou a odiar um Presidente que tinha apoiado, vem, pela mesma razão, apelar a outro Presidente, que nunca apoiou, para que faça, contra o PSD, o que ele condenou que o primeiro fizesse contra o PS.
É formidável!
20.9.12
António Borges de Carvalho

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