IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


PRESIDENCIALICES

Estamos a entrar na fase mais inútil e contraproducente das jornadas eleitorais a que temos sido submetidos. E aí vamos, ou não vamos (temos essa liberdade) votar num senhor – entre inúmeros outros (quantos são, quantos são?) – que, por sua alta recreação, resolveu que queria ser Presidente da República. Ou chefe do Estado, como lhe chamam. Um senhor que representa a República, e mais nada senão a República, embora, uma vez empossado, venha dizer aos quatro ventos que representa o País, a Pátria, os Portugueses, a Nação, a História, a Cultura, a Tradição, e mais o que lhe vier à cabeça. Nalgumas coisas, a nossa bem-amada Constituição há-de estar certa: o Presidente da República representa a República, e mais coisa nenhuma.

Não sei se haverá à nossa volta algum país em que o Presidente seja eleito por sufrágio universal para ser titular de (quase) nenhum poder. É claro que a nacional bem-pensância lhe inventa uma série de “funções”: a “magistratura de influência”, o poder do bom (?) conselho, o comando supremo das forças armadas – muito útil em paradas militares e coisas do género – e outros títulos de glória. Poder político só tem um: o de dissolver o parlamento quando lhe der na cabeça. Tem-se visto o resultado.

Aqui na nossa vizinhança, o único Presidente eleito por sufrágio universal é o de França, regime semi-presidencial, ou seja, o Presidente é o titular máximo do poder político com limites parlamentares, responsável por um governo de sua escolha. O nosso regime diz-se semi-presidencial, mas de presidencial nada tem. Ou seja, somos levados a votar para nada, ou pior, a pôr no topo da República uma pessoa a quem não conferimos poder político. Em países mais sensatos, o Presidente é escolhido pelo parlamento para funções protocolares de representação do Estado, ou da República, se quiserem. Geralmente, uma pessoa universalmente prestigiada a quem se confere funções de representação que estão para além do poder político propriamante dito: caso da Alemanha ou da Itália, por exemplo.

De resto, nas melhores democracias da Europa foi mantido o regime monárquico, em que o mais alto representante do país é escolhido por sucessão com investidura parlamentar. Daí, o Rei, para além de se ocupar das funções protocolares do cargo, poder legitimamente e em total independência representar as mesmas coisas ou valores a que os nossos tristes presidentes costumam arrogar-se sem legitimidade para tal.

Não sei se haverá algum país com uma sistema como o nosso. Se há, coitado dele.

17.10.25



8 respostas a “PRESIDENCIALICES”

  1. Avatar de Manuel da Rocha
    Manuel da Rocha

    O sistema monárquico, que refere, já não existe, a não ser no Luxemburgo. É o único sistema, na Europa, em que o Regente pode demitir um governo. Nos outros (como aqui ao lado, em Espanha), o Rei só dá o cargo, a quem for eleito. Só a Assembleia pode demitir, o governo. Se o Rei/Rainha não gostarem de quem ganhou, tem de ficar caladinho/a, pois só se metade+1 deputados, votarem, favoravelmente, uma moção de desconfiança, pode ser despachado. Por cá, o PR até tem 5000% mais poder, que qualquer Rei/Rainha europeus. Pois pode recusar nomeações, pode recusar representantes e pode obrigar a novas eleições, sem precisar de dar qualquer esclarecimento. André Ventura deseja ser Presidente da República, para poder dissolver, a Assembleia da República e nomear-se Presidente e Primeiro-Ministro com poder de 9600000 eleitores, para nomear juízes, criar uma nova constituição, liderar forças militares e policiais e poder receber 1000000000 euros, por mês. de serviço. E, segundo as sondagens, de hoje, 38%, dos eleitores, vai votar nele, para tal. Será engraçado, pois as funções, vão incluir os “grupos de execução sumária”, em que quem não pagar 5000 euros, anuais, para ser membro, do Chega e doar 10000 euros, ao Presidente, pode ser executado, depois da família toda sofrer, as maiores atrocidades, para o punir, por não ser leal, ao supremo líder.

    1. O meu caro tem claramente um problema … e uma imaginação prodigiosa

  2. Boa tardeAté poderá ser que numa República o Presidente eleito represente apenas os eleitores que o elegeram.O certo é que representa pelo menos “50% dos eleitores +1”. O resto é obrigação que qualquer Português tem de representar «o País, a Pátria, os Portugueses, a Nação, a História, a Cultura, a Tradição,».Entretanto Carlos III, rei de Inglaterra, até poderá ser um génio, ou um idiota, para o caso tanto faz, mas representa apenas o Privilégio da sua Família, e nada mais. Zé Onofre

    1. O Rei de Inglaterra, Escócia, País de Gales, Irlanda do Norte, Canadá, Austrália, etc., é-o por confirmação dos respectivos parlamentos. Poupa-se milhões em eleições inúteis e ganha-se milhões em inúmeros casos. E, em representatividade, não tem rivais, a não ser, talvez, noutras monarquias europeias.

      1. Bom dia, António”O Rei de Inglaterra, Escócia, País de Gales, Irlanda do Norte, Canadá, Austrália, etc., é-o por confirmação dos respetivos parlamentos.” e onde é quer os Parlamentos foram buscar a “autoridade” para o investir? Não foi ao voto do Povo?E porque não investir outro de uma outra qualquer Família? Porquê daquela especificamente? Não será consentir num privilégio? -para mim esta é a questão.Zé Onofre

  3. Bons olhos o vejam, Irritado. Estamos em Outubro, logo é tempo do post sobre o presidente de nenhum português. É de lei. Falta só o link para o livro, deixo-o eu: https://wook.pt/livro/o-presidente-de-nenhum-portugues-antonio-borges-de-carvalho/65996 Ter um monarca poupava-nos dinheiro em eleições? Pois poupava. Ter um ditador também. E com alguma sorte o ditador é poupadinho, como Salazar, e dispensa palácios e festarolas! Já viu a poupança? O custo anual da realeza espanhola é de 8.5 milhões. O da inglesa será de 150 milhões. Isto, claro, depois de martelado: inúmeros bens, despesas e regalias são escondidos do público em todas as monarquias, fora o que mamam em rendas e juros. A pior, mais chula e mais corrupta de todas, a par das árabes, é sem dúvida a inglesa – apesar da forte concorrência do trafulha Juan Carlos, que entretanto desapareceu discretamente para ir morrer no luxo. O maior custo, no entanto, é ético, moral e – digamos – civilizacional: a população é condicionada desde o berço a submeter-se a um grupo de parasitas que jamais trabalharam ou trabalharão um dia na vida; a aceitar desigualdade extrema, nepotismo e privilégio completamente imerecido como algo natural, até nobre e desejável. O mal que isto fez e faz a sucessivas gerações é criminoso, incalculável. Mais que anacrónica, mais que primitiva, regressiva, reaccionária e intrinsecamente injusta, a monarquia é a obstinação em jamais evoluir; é a âncora que nos puxa para um passado de submissão, de joelho no chão e barrete na mão.P.S. Desculpe o atraso: feliz 5 de Outubro, Irritado!

    1. E por falar no trafulha, Irritado: https://theguardian.com/world/2025/nov/05/disgraced-former-king-of-spains-memoir-details-enormous-respect-for-franco Veja bem a alienação, a insensibilidade, o narcisismo, a pesporrência, a insensatez, a falta de noção desta canalha real: As a man with an allegedly vast but undisclosed fortune, he is unlikely to endear himself to Spaniards with the comment: “I am the only Spaniard who receives no pension after almost 40 years of service.”

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