Há oitocentos e não sei quantos anos, o nosso 5 de Outubro ficou marcado pelo tratado de Zamora, documento em que, finalmente, o poderoso vizinho castelhano reconhecia a existência da Nação portuguesa e se deixava, para já, de pretensões sobre o que tão duramente vinha correspondendo às aspirações de um povo que não aceitava a soberania de terceiros.
Data a comemorar, sem dúvida, mas data que, por jacobinas razões, não se comemora.
Outro acontecimento, ocorrido oitocentos anos mais tarde, soe servir de masturbação intelectual para uns reumáticos mentais. Falamos, é claro, do 5 de Outubro do século passado, data em que uns bandos de intelectuais burgueses, acolitados por assassinos e anarquistas – nada a ver com o povo propriamente dito – deram uma golpada citadina que, aproveitando fraquezas várias e várias traições, cortaram com sete séculos de história e conseguiram impor uma nunca sufragada república.
Como não podia deixar de ser, a tal coisa – a república – redundou na mais horrível bagunça, recheada de perseguições aos sindicatos, à Igreja, a tudo o que mexesse, com bombas, assassínios em série, degredos, prisões, censura, um nunca acabar de negação do que a demagogia revolucionária prometera, tudo acrescido uma guerra com a qual a Nação nada tinha a ver, com o mais fanático imperialismo e com a consequente miséria generalizada do povo.
Depois, exauridas as finanças, miserada a economia, morta ou gaseada a juventude, a república brindou a Nação com uma ditadura feroz, politicamente inaceitável, economicamente “humilde”, financeiramente brutal,mas financeiramente honesta.
Mercê de reivindicações militares, 48 anos depois, a república deu-nos uma nova coisa, o socialismo, de evidentes e catastróficos resultados, como é evidente nois nossos dias.
É isto, não o tratado de Zamora, o que hoje, ou ontem – já não sei a que horas escrevo – se comemorou, felizmente, no meio do mais extraordinário ridículo.
Içaram a bandeira, repetindo o gesto dos republicanos em 1910, sem sequer saber que, em 1910, ninguém içou bandeira nenhuma e que a bandeira que hoje representa a república, não a Nação, nem sequer existia. Ainda por cima, içaram-na de pernas para o ar.
O comemorativo pessoal escondeu-se, depois, a bom recato, para se ouvir a si próprio. Ouviu-se o Presidente a dizer coisa nenhuma. Ouviu-se um tipo dizer, em substância, que é preciso, de uma assentada, dar cabo do governo e do chefe da oposição, para que o dito tipo possa tomar o poder.
E ouviu-se Mário Soares dizer que não ia lá porque “o povo não estava lá”. Homem “do povo”, como é sabido, estava ofendido. Um punhado de ignorantes aplaudiu-o freneticamente.
Ninguém se lembra que “o povo” jamais apareceu em tais palhaçadas. No tempo da ditadura, meia dúzia de gerontes ia pôr umas flores na estátua do António José de Almeida, perante o olhar trocista da PIDE. Durante a III República, umas dúzias de mirones e passantes iam à Praça do Município “aplaudir” a república.
Por isso que, afinal, seja de louvar que, desta vez, a manifestação jacobino-maçónica se tenha posto a bom recato. É que, assim, poupou tempo aos passantes e não impediu o trânsito.
6.10.12
António Borges de Carvalho

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