Uma hitorieta verdadeira.
Um cidadão recebe uma propaganda a dizer que a EDP passou a vender também gás natural. Como está a precisar de ligar o gás num sítio onde já tem electricidade, vai à EDP.
Após disciplinada permanência numa longa bicha, um fulano pede-lhe o número de contribuinte. Três segundos depois, o fulano lê o nome dele, a morada, o nº de telefone, o email, etc.. Afinal, sou muito conhecido cá na casa, pensa o cidadão. Depois realiza que está a papa toda feita para facilitar a vida ao Big Brother quando disso for caso.
O fulano, depois de saber ao que vinha o cidadão, fornece-lhe, gratuitamente!, um papelinho com um número. Comparando o seu número com o que está no olho do Big Brother, o cidadão vai comprar os jornais, senta-se numa pastelaria a beber uma bica e, acabada a leitura, volta à distinta EDP. Desta vez não teve que esperar muito. Chamado pela pantalha, dirige-se respeitosamente à menina número dez, dona de uma unhacas ciclópicas às riscas vermelhas e brancas.
Diz ao que vai. A menina olha-o com o maior dos desprezos e diz: “tem que trazer o CUI”. Meio aparvalhado, o cidadão, a pensar que o CUI é alguma catraca para lhe sacar uns cobres, confessa a sua fatal ignorância sobre a existência de tal coisa, bem como sobre que influência O CUI pode ter na sua vidinha.
“ O CUI é um número”, diz a gaja das unhas. “Então a senhora não conhece o meu CUI? Tem aí a morada…”. “Não sei nem tenho que saber, quem sabe é a GALP, e só podemos ligar o gás se soubermos o CUI”.
Estupidificado, o cidadão insiste. “Então se os senhores querem vender gás sem ter acesso ao CUI de cada um, como é que querem vender o gás? Então eu é que tenho que lhe mostrar o CUI? ”
A senhora unhacas começa a impacientar-se. Para encurtar caminho informa: “Tem que ir à GALP pedir o CUI. Depois, volte cá. ”Mas à GALP onde?” “Na loja do cidadão. Eles lá dão-lhe o CUI. Não há alternativa!”.
Ciente de que, com a gaja das unhas, não se safava, o cidadão fez das tripas coração e meteu-se no metro para os Restauradores. Teve a enorme felicidade de encontrar imediatamente o estaminé da GALP. Tirou a senha. A senha tinha o numero 35 e, na pantalha, estava o 79. O cidadão estremeceu. Já terá passado a minha vez? Não, não tinha. Era a pantalha que estava avariada. A chamada era feita aos gritos. Desta vez nem posso ir beber uma bica, nem há uma cadeira vaga para ler o jornal. Tenho que aguentar. Aguentou.
Do lado de cá, uma multidão suada e triste. A maior parte estava ali para pagar contas, em duas caixas, antes que lhes cortassem o abastecimento. Os outros, como o cidadão, esperavam por ser atendidos em quatro secretárias onde seria suposto imperar quatro meninas com uma Tshirt preta onde brilhava a palvra on, talvez roubada aos que estão on, na ZON. Das caixas, uma tinha um senhor a atender. A menina da outra devia estar em intervalo, a conversar com outras três, das quais, veio o codadão a saber, duas eram estagiárias. Deviam estar a trocar impressões sobre o serviço, não é? Depois, mais duas meninas das secretárias, uma a atender um cliente, outra a pensar. Passado um certo tempo, cheio de sorte, ouviu a menina que atendia chamar o 30 e os seguintes. Já tinham ido todos embora. Era assim chegada a feliz hora do cidadão. A menina, muito simpática, descobriu o CUI do cidadão num ápice. Que eficiência!, pensou o cidadão.
Depois, pensou mais: porque carga de água hei-de ir a toque de caixa outra vez para a EDP, se estas gajas também vendem gás? E a doce rapariguinha, passada uma longa e titânica luta com o computador, lá resolveu o problema.
Agora, é só esperar que venham uns tipos inspeccionar a instalação – o que poderá suceder em breve – e cobrar sessenta euros mais IVA. Além disso, é origatótio estar presente no local, por conta do cidadão, um “técnico especialista” em gases (será em gases do CUI?), o qual não se sabe quanto cobrará. Para já, tudo nos conformes.
Feliz, o cidadão voltou para casa. Tinham sido quatro horas altamente produtivas. Ia ter gás! Tinha dado com os pés na EDP! Tinha vencido o CUI dos gases!
Uma triunfante jornada para um português habituado a que os que estão atrás dos balcões tenham a missão de criar problemas em vez de os resolver.
28.9.12
António Borges de Carvalho

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