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ÁGUA CHILRA
Em mais uma formidável demonstração da excelência do poder local, a Câmara de Barcelos resolveu cortar a água às casas das pessoas… que não têm água lá em casa!Passo a explicar:a) A Câmara de Barcelos, generosíssimamente, brindou uns desgraçados quaisquer com abastecimento de água, o que quer dizer que, em 2008, ainda há quem a não tenha neste progressivo e rico país socialista;b) Acontece, como é natural, que as pessoas já se tinham desenrascado com poços e respectivas facilities, coisa teoricamente normal e legítima mas mal vista pela câmara;c) Como primeiro resultado da referida benesse autárquica, foram as pessoas avisadas que teriam que mandar construir as necessárias baixadas, a fim de levar a água da câmara às respectivas residências;d) Para cumprir esta obrigação(?), as pessoas teriam que pagar a obra em causa(!);e) Mas, como a câmara é generosa, se a coisa fosse feita a curto prazo, custaria xis, se fosse a médio ou longo prazo, a mesma obra custaria xis vezes dois;f) Como terá havido alguns seres anti-sociais que, ou por não lhes apetecer ou por não ter dinheiro para pagar, se recusaram a encomendar a baixada, a honesta autarquia mandou lá uns tipos cortar o abastecimento de água a partir dos poços de cada um.Aqui temos, minhas senhoras e meus senhores, um exemplo verdadeiramente “democrático” do que é o poder em Portugal. Quem o tem, manda em tudo, ao ponto de privar as pessoas do que é seu, ao ponto de as fazer pagar o que já tinham, fornecido pela mãe natureza e pelos seus investimentos pessoais, ao ponto de as privar de um bem essencial que de pleno direito lhes pertencia.*Faz lembrar uma reclamação que, em tempos, apresentei à câmara de Cascais. É que eu tinha uma fossa para os meus mal-cheirosos dejectos. Vem a câmara e, muito bem, constrói o saneamento básico. Lá foram umas centenas de contos para a famosa baixada. Ora como, há muitos anos, eu andava a pagar, nas contas da água, um saneamento que não tinha, e como os meus pagamentos para tal inexistente serviço já somavam mais de mil contos…Baldada intenção. A câmara respondeu que. Os advogados disseram que era uma chatice mover um processo, mesmo com boas hipóteses de o ganhar. Como sempre, valia mais um mau acordo que uma boa demanda. Qual acordo qual carapuça! A câmara tem o poder e acabou-se.E ainda há quem se queixe da criminalidade económica, dos crimes de colarinho branco, etc.Os cidadãos têm que compreender o conceito de cleptodireito. Num país socialista, há o cleptodireito legal, poder do estado e das autarquias, e o cleptodireito ilegal, que não é direito, praticada pelos cidadãos que seguem o exemplo do poder.Voilá, como diria o Lino.António Borges de CarvalhoSem comentários em ÁGUA CHILRA -
CABALAS?
Na opinião de um douto Tribunal, o juiz dos jeans e da tshirt que mandou prender o socialista Pedroso e que era, até então, oficialmente considerado “bom com distinção”, cometeu, ao prendê-lo, um “erro grosseiro”, e demonstrou não ter “normal inteligência”, nem “experiência”, nem “circunspecção”.O juiz passa, assim, a ser um anormal, um tipo que faz asneiras. O mesmo se tornando, por inevitável e lógica consequência, os que o consideraram “bom”, “distinto”, inteligente e circunspecto.Há, por conseguinte, na magistratura, uma série de pessoas que outras pessoas da magistratura acusam de estupidez e imprudência.Muito interessante, também, é esta brutal verdade, veiculada para os jornais: os magistrados encarregados do assunto já sabiam há muito que o juiz em causa tinha praticado um erro grosseiro. Mas só usaram a expressão depois da entrada em vigor da reforma legislativa que a penalizava.Não se livra o legislador de que se diga que trabalhou à medida dos desejos do socialista Pedroso. O que se poderia saudar como um avanço da Justiça (a penalização da (i)responsabilidade extra contratual do Estado) era, pode alegar-se, tão só uma maneira de arranjar umas massas para o camarada Pedroso.Por outro lado, uma vez que as acusações de pedofilia homossexual do processo Casa Pia se baseiam em prova testemunhal, haverá que perguntar, com toda a inocência, porque é que as testemunhas que foram idóneas para justificar a prisão de outros suspeitos perderam a idoneidade quando se tratou do mesmo em relação ao socialista Pedroso*.Afinal, perguntará o aparvalhado cidadão, houve uma cabala de desconhecidos contra o PS, ou há uma cabala do PS para safar o camarada Pedroso? E, uma vez que Pedroso declarou ser adepto de um governo de coligação com o PSD, não haverá uma mãozinha deste na trapalhada?Perguntas que ficarão, como de costume, sem qualquer resposta.António Borges de Carvalho* O Irritado não tem posição quanto à culpa ou inocência seja de quem for, no que ao caso Casa Pia diz respeito. -
“EXPRESSAMENTE” INFORMADOS
Numa verdadeiramente extraordinária demonstração do profundo conhecimento que têm das questões geo-estratégicas e internacionais, os portugueses, perguntados sobre a independência do Kosovo, responderam sem hesitações, uns a favor outros contra. Só cerca de 15% não têm opinião.É o que reza uma sondagem publicada pelo “Expresso”, o qual considera que a “significativa maioria” a favor do não reconhecimento da nova república é um resultado “confortável” para o governo, o Presidente da República e os partidos políticos”.O mesmo jornal acha que tal não reconhecimento é uma atitude “notória”, uma vez que 21 dos 46 países da União Europeia já o fizeram, sendo Portugal o “único que, sem problemas de minorias ou razões de proximidade, não o fez”.E mais considera o “Expresso” que a (não) atitude do governo a este respeito tem o apoio da população, já que os portugueses, “tradicionalmente inclinados a favorecer os sérvios, parecem dar-lhe razão”.Por obra e graça do “Expresso”, a UE passou a ter 46 países e nós, portugueses, a ter no sangue a tradição de apoiar os sérvios, coisas com que a crassa ignorância do Irritado nem sequer sonhava.A influência do “Expresso” nas organizações internacionais e na descoberta das tradições nacionais fica, assim, provadíssima.Obrigado, “Expresso”, por mais este contributo para o nosso esclarecimento e para a informação da população em geral!António Borges de Carvalho -
JUIZ A SÉRIO
Numa importante entrevista dada ao “Diário de Notícias”, o juiz Rui Rangel deixou muitas dicas dignas de nota.
Seja-me permitido destacar duas:1. O jornalista repara que, em cima da secretária do senhor, há meia dúzia de papéis. Perguntado porquê, o juiz responde que não deixa atrasar processos, mesmo que tenha que trabalhar fora de horas;2. O juiz é presidente de uma organização, de seu nome, salvo erro, “Juízes pela Cidadania”, que se preocupa com a competência e a celeridade da justiça, sendo, nas suas palavras, “corporativa” no bom sentido.Do dito em 1., conclui-se que, se os juízes trabalhassem mais um bocado, as coisas estariam muito melhor. A culpa do estado calamitoso em que a justiça está, afinal, não é, ou não é só, do “processo”, dos advogados, da sociedade…Do dito em 2., conclui-se que, se os juízes se preocupassem mais com a qualidade e a celeridade dos serviços que prestam ou deviam prestar à sociedade, em vez de se multiplicar em sindicatos e reivindicações (como se fossem os metalúrgicos ou os electricistas), é óbvio que a situação seria muito melhor. As palavras do juiz Rangel, mesmo não o dizendo, são uma condenação das organizações sindicais de magistrados.Só é pena que o juiz Rangel, embora ache que, na próxima, não vai votar PS, ainda ponha algumas reticências a esta decisão…António Borges de Carvalho -
JANELA DE OPORTUNIDADE
O Estado, através das brilhantíssimas iniciativas do socialismo socretino, bem como dessoutros órgãos de soberania que integram o poder judicial, vem contribuindo, cada vez com maior empenho, para a resolução dos problemas que afligem os portugueses em geral e os leitores do Irritado em particular.Abriu-se ontem uma nova janela de oportunidade, como se diz agora, para vossas excelências.Se tiverem um conflito, uma zanga, um diferendo com alguém, não terão mais que comprar um revólver no mercado negro (um dos mais progressivos sectores da nossa economia) e dirigir-se, com a maior das calmas, ao encontro desse alguém. Uma vez o indivíduo no horizonte, e à conveniente distância, vossas excelências não terão mais que despejar o carregador, para o que bastará premir o gatilho tendo o cuidado de apontar na direcção do fulano. Disparando vários tiros, obterão, na prática, a certeza de acertar, mesmo não tendo pontaria nem estando habituados a usar instrumentos do género.Se o fizerem dentro de uma esquadra de polícia, obterão uma segurança acrescida, uma vez que qualquer resistência do alvejado será prontamente cerceada pelas autoridades em presença.Se, por azar, forem presos, a coisa não terá importância de maior, uma vez que após cordial diálogo com um juiz, serão mandados em paz, com todas as possibilidades, se for o caso, de emigrar para o Brasil, seguindo o notável exemplo da dona Fátima Felgueiras e do padre Frederico.Foi o que aconteceu ontem e que não deixará de fazer jurisprudência.António Borges de Carvalho -
“EXULTAR” A POLÍTICA E O ESPÍRITO REPUBLICANO
Diz o “Expresso” que o Presidente Soares foi a Berlim para, entre outras tarefas, informar o respeitável público de que vai publicar um livro destinado a “exultar (sic) a política e o espírito republicano”.Presumo que o senhor terá falado em “exaltar” a política e o espírito republicano, e que o verbo “exultar” não passe de um pontapé na gramática, coisa em que o jornal promotor do concurso da língua portuguesa é de invejável fertilidade.Dando isto de barato, há que dizer que estamos de acordo com a “exaltação da política”. Admitimos que o Presidente Soares a “exalte” por não perceber de mais nada. De qualquer maneira, a política não deixa ou não devia deixar de ser uma coisa nobre e digna da “exaltação”.Já quanto ao “espírito republicano”, temos as maiores dúvidas. O mundo está a abarrotar de repúblicas cujo espírito não é digno de exaltação, merecendo algumas delas, como no caso da Venezuela, os maiores encómios por parte de Mário Soares. Há outras que o senhor não “exalta”, pelo menos por enquanto: por exemplo, as repúblicas da Cuba, do Zimbabué, da Coreia do Norte…Não é, pois, possível saber a que é que o senhor chama “espírito republicano”. Talvez ao “espírito” do Robespierre, do Bonaparte, ou de outros distintos representantes da Revolução Francesa…Se o que o senhor pretende “exaltar” é o que, dando-lhe o benefício da dúvida, eu posso pensar, então melhor faria em olhar à sua volta e chamar-lhe “espírito monárquico”.António Borges de Carvalho -
ESTRUTURAS INTRÍNSECAS
A mui nobre senhora dona Paula Teixeira da Cruz, ilustre advogada com escritório no Marquês de Pombal, é uma verdadeira democrata. Tem “na sua estrutura intrínseca um sentimento de bem e de harmonia com o que está à volta” e, imagine-se, até anda de metro!
Seja o que for a “estrutura intrínseca” de cada um, a qual se deve opor a uma estrutura extrínseca, tipo Centro Pompidou, o facto é que tal estrutura permite à senhora evitar “assistir a vinte missas”, como se compreende e aceita.Ao contrário de maldosos boatos que por aí circulam, diz o “Diário de Notícias” que a senhora é casada com o “ex-banqueiro” Teixeira Pinto. Ao contrário do que o próprio Teixeira Pinto declarou há que tempos, o “Diário de Notícias”, eventualmente para obter um efeito de contraste com a aversão às missas expressa pela senhora, assegura que o homem é do Opus Dei, e não ex-Opus Dei. Nestas coisas de jornalismo, nunca se sabe.A atestar a sua “estrutura intrínseca”, revelou a senhora que, em tempos, apresentou sem sucesso uma petição a favor da descriminalização da homossexualidade em todo o mundo. A universalidade do gesto, obviamente não destinado a Portugal, onde tal coisa não é crime, atesta bem das ambições globais que animam a estrutura intrínseca da dona Paula, pronta a lançar o seu poder em zonas fundamentalistas como o Irão e o Sudão, ou nas arábias em geral.A senhora demarca-se “absolutamente” da boutade da sua chefe, no que à procriação diz respeito. Não senhor, o casamento não se destina à procriação. Nem por sombras. A senhora, “em termos de costumes”, insiste, está contra a chefe.A senhora quer a “liberdade individual”. O que a não impede de ser a favor do proteccionismo e do estatismo, e contra a “liberalidade económica que está na moda”(?). Até já lia Marx aos treze anos, o que a qualifica como génio precoce, embora não diga se percebeu, tão jóvem, os escritos do homem.A senhora já foi assediada para se candidatar à presidência da câmara de Lisboa. O mesmo se passou em relação ao governo. Disse que não a dois convites. “Nunca cargos executivos, nunca”. Uma frase que deve ficar para a história.Andar na mó de cima, chatear, inviabilizar, comentar, criticar, bocas na TV e nos jornais, muito bem. Assumir responsabilidades, tá quieto ó mau!Acrescente-se que a senhora, em Itália, “teve muito más experiências com carpaccios”. Acredito. Coisas da estrutura intrínseca.António Borges de Carvalho -
IMPERATIVO ÉTICO
Tal como confirmado pela dona Maria José Morgado, afinal não houve, no “caso Casa Pia”, cabala nenhuma contra o PS.
O que há, como é evidente, é uma coisa qualquer do PS (talvez cabala talvez não sei quê) contra aquele juiz de blue jeans e t shirt que mandou engavetar o camarada Pedroso. À uma, os socialistas exprimem a sua alegria com a classificação de “erro grosseiro” atribuida á prisão do seu amigo. Desde a dona Ana Gomes ao senhor Pinto de Sousa, passando por todos os que se acotovelam para ficar na fotografia, não há quem não venha regozijar-se em público.Sem que o caso tenha transitado em julgado, parece que o camarada Pedroso vai voltar, pleno de glória, ao Parlamento.Não faço ideia de quem tem razão, se o juiz dos jeans, se o Pedroso, se este se aquele. Nem tal me interessa muito.Interessante é que a lei que o caso motivou, ou seja, o aditamento do “erro grosseiro” (quem julga a grosseria do erro?, onde está a objectividade da lei?) à responsabilidade extra-contratual do Estado parece que vai render umas larguíssimas massas ao camarada Pedroso.Não obstante, o camarada Pedroso declara que “este processo contra o Estado era um “imperativo ético”. Um imperativo ético bem rendoso, pelos vistos. Se os imperativos éticos rendessem 130 mil euros cada um (ou 500 mil, como queria o queixoso), a moral passava a ser incomportável.António Borges de Carvalho -
PENSAMENTO ATLÂNTICO
Esta malta das ilhas é levada da breca.O Jardim é o que se sabe. Deve ter na parede do gabinete, em grande, um boneco do Walt Dysney: um macaco (ele próprio) com uma banana numa mão e um chicote na outra, a perseguir um coelho (o “rectângulo”).A banana é o “portuguesismo” caloroso e desenfreado com que vai brindando o país quando lhe convém. O chicote é a berraria sobre o “colonialismo” de que “o povo madeirense tem que se libertar”, quantas vezes representado pela exigência da extinção do cargo de representante da República na Madeira. Facto é que esta ”dialética” lhe tem rendido umas boas massas e o vai fazendo passar incólume sobre ventos e marés.Por estranho que pareça, juntou-se-lhe um ignoto fulano, Presidente do PS/M, o qual, através da mesma exigência, até pareceria ter aderido ao jardinismo. Também ele não tolera o tal representante. Acrescenta, numa lógica talvez berardiana, que quer que os “orgãos de soberania se responsabilizem pela defesa e manutenção da democracia e do estado de direito na Madeira”, e que os “poderes de soberania” da República “não se devem demitir das suas responsabilidades na região”. Entenda quem quiser. O homem quer que a chamada “república” deixe de estar representada lá no sítio. Mas, ao mesmo tempo, exige maiores responsabilidades à mesma “república”.O Irritado adianta uma explicação para tentar compreender o pensamento do ilustre líder atlântico. No seu douto parecer, o partidosocrélfio devia retirar de lá o “representante”, substituindo-o por cinco batalhões de cavalaria que obrigassem o Jardim a ir para o exílio e os madeirenses a votar PS. Deve ser isso o que o fulano entende por “assumir as responsabilidades da “soberania”.Às vezes é de pensar se não sairia mais barato e não nos daria menos cabo da cabeça se esta malta fizesse como a Abkásia.António Borges de Carvalho -
PLÁGIOS
Julgava eu que os biógrafos eram investigadores da vida dos biografados. Para tal, servir-se-iam dos documentos à disposição, isto é, de escritos dos ditos, das referências da imprensa, dos trabalhos de terceiros que se tivessem já debruçado sobre as suas vidas, etc.Parece que assim não é.Rezam os jornais que uma afilhada do Salazar, mais uma fulana que escreveu um livro sobre os amores do homem e mais outras distintas individualidades se preparam para processar umas criaturas que estão a fazer uma biografia do homem para a SIC. Dizem tais queixosos que há plágio na coisa.Não duvido que os autores da telenovela biográfica se tenham servido das fontes produzidas por tal gente. Mas não é exactamente isso, para além de outras fontes, o que deveriam usar?Os queixosos parece que estão a queixar-se de si próprios. É que, ou o que disseram e escreveram não corresponde à verdade, ou seja, é mentira, ou não se podem lastimar de os novos biógrafos se terem servido do seu trabalho, o que, salvo melhor opinião, até lhes dá credibilidade. A não ser que o que escreveram e disseram não passasse de ficção e como tal tivesse sido declarado. Mas, se trabalharam com seriedade… então de que se queixam?A pergunta fica, não porque o Irritado faça tenções de seguir a telenovela da SIC, mas porque lhe faz uma confusão dos diabos que haja gente a querer sacar algum a quem consultou o seu (honesto?) trabalho e acreditou nele.António Borges de Carvalho -
GASTRONOMIA
Nada tenho contra o senhor Francisco José Viegas. Até o vi uma ou duas vezes na televisão e gostei.Hoje, vi escrito nos jornais que “além de ser um dos mais finos escritores da nossa língua, Francisco José Viegas tem convicções fortes”.Talvez seja fino. Talvez tenha convicções fortes e isso seja uma qualidade rara. Quem sou eu para duvidar?Falando-se deste senhor, no entanto, há um episódio que não esqueço e que me faz duvidar da natureza de tais convicções.Aqui há uns meses, fui induzido por um escrito dele a ir jantar a um restaurante ao qual o homem teceu os maiores elogios. A comida era excelente, os tipos simpatiquíssimos, até o nome da casa era um achado de inteligência e perspicácia.Nunca comi pior. Minto, não cheguei a comer. Nem eu nem quem me acompanhava comeu fosse o que fosse. Foi provar e fugir. A comida era de tal maneira ordinária que a pagámos a correr e fomos jantar a outro sítio. Nunca fui tão primitivamente recebido nem tão mal servido em muitos anos de vida.Dado o que diz a imprensa, o Irritado recomenda a leitura de tão “fino” escritor. Mas adverte os seus leitores, muito seriamente, contra a suas “convicções” gastronómicas.António Borges de Carvalho -
BONITO!
Parece que a distintíssima classe dos juízes – cheia de organizações sindicais e de representantes da chamada independência, ou seja, da intocabilidade profissional faça as asneiras que fizer – entrou em irremediável paranóia.Uma paranóia de pernas para o ar em relação às preocupações da sociedade, cujos interesses, julgava-se, competia a tão douta gente defender.Anda a malta, os cidadãos, as empresas, à rasca com a onda de criminalidade que por aí grassa.Andam os chamados órgãos de informação a não falar doutra coisa.Andam os telejornais, tão prontos para o que é excitante como distraídos do que importa, ocupados a cinquenta por cento com assaltos, assassínios, traficantes e vândalos de vária ordem.Anda o Procurador a recomendar severidade.Anda o governo às aranhas, a meter os pés pelas mãos, a legislar canhestramente e à pressa sobre o assunto.Andam os partidos a apanhar o combóio com declarações, soluções e discussões.Até os polícias andam a tentar tratar do assunto.A sociedade em geral tende a entrar em paranóia securitária.Os juízes não. Qual Duqueza de Brabante, não vêm o que está perante os olhos de toda a gente. Os juízes, meus amigos, remam ao contrário. Ciam.Qualquer criminoso que se preze sabe, de ciência certa, que, se for apanhado, o mais provável é ir ter uma entrevistasinha com um juíz, e ser por ele, paternalmente, mandado voltar em paz à sua nobre actividade.Talvez com receio de ser acusados de securitarismo e de vir a ser condenados por isso (olhem aquele rapaz que mandou prender um tipo do PS!), os doutos magistrados, ao invés de toda a gente, resolveram praticar a caridade e a compreensão para com os chamados suspeitos.Os polícias não podem deixar de se perguntar para quê. Para quê puxar ao coco, para quê dar o corpinho ao manifesto, se os resultados positivos do que fazem são prontamente anulados por quem manda?Olhem para isto:Dois fulanos e uma fulana são apanhados com nove armas de fogo, 10.000 (dez mil!) munições, 10.500 (dez mil e quinhentas!) doses de haxixe e 250 de cocaína.Após “devidamente” ouvidos por um juíz, eis o que aconteceu:– o principal “suspeito” foi calmamente para casa com uma pulseira;– a “presumível” criminosa, saíu em liberdade, competindo-lhe apresentar-se na esquadra uma vez por semana;– o terceiro “alegado” prevaricador ficou, coitadinho, sujeito a “termo de identidade e residência”.Todos eles, ainda que, teoricamente, vejam a sua preciosa liberdade algo limitada, poderão continuar calmamente a exercer a sua prestimosa profissão.Um tipo que assassinou a namorada usando a carinhosa técnica do incêndio, isto é, regando-a com gasolina e acendendo um fósforo, apanhou vinte anos de choça. Muito bem. No entanto, mercê de uma minhoquice processual que não valerá a pena descrever, foi libertado três anos depois. Deve andar por aí até dar o salto para o Brasil ou até meter outra namorada no forno lá de casa.E tudo isto se passa, diz-se, nos termos da lei.Bonito!António Borges de Carvalho -
PALHAÇADAS
O palhacito que o Putin lá pôs e que se diz (formalmente, é) presidente da Federação Russa descobriu uma prática que vai fazer escola na diplomacia e no direito internacional.Declarou, majestáticamente, que não reconhece o seu homólogo da Geórgia.Quer dizer, a qualidade de presidente de uma república deixa de depender da lisura das eleições, do reconhecimento popular, da investidura parlamentar, da conformidade constitucional. Passa a ser privilégio dos seus pares estrangeiros, a começar pelo russo.Registe-se para memória futura.António Borges de Carvalho -
AQUECIMENTO GLOBAL
Está a nevar no Quénia!Mais uma clara prova do aquecimento global.Por cá, o miserável Verão que gozámos é outra evidente demonstração das irrefutáveis razões que assistem ao senhor Gore e à Quercus.Negócio é negócio.António Borges de Carvalho -
SOMOS OS MAIORES!
É sabido:– que os portugueses descobriram o mundo e foram os primeiros “globalizadores”;– que o Camões e o Pessoa foram os maiores poetas de todos os tempos;– que nosso admirável governo é o que mais empregos promete em todo o mundo;– que o Benfica é o mais glorioso clube de todos os tempos;– que temos a maior e mais abandonada zona económica exclusiva de toda a Europa;– que somos os únicos a ser governados por um tipo que se auto-proclama “Sócrates”:– que somos os mais destacados da EU no que se refere ao desemprego, aos preços dos combustíveis, à dívida per capita, pública e privada, aos elefantes brancos, aos impostos, às penhoras, à mentira governativa, aos assaltos à mão armada, à pastelada na justiça, aos criminosos à solta e a tantos e tão honrosos outros indicadores.Há dias, mais uma enorme razão de júbilo veio nos jornais. A Carris, nobre e tradicional transportadora de Lisboa, está completamente falida e, ou desata a receber subsídios aos pontapés ou fecha a porta.E, no entanto, como diria Galileu, ela move-se! Há coisa de um ano, a carreira 38, que passa aqui à porta, mudou para 738, o mesmo acontecendo com a 27, que passou a 727, e com muitas outras.A Carris, garantem as estatísticas, é a única companhia de transportes urbanos do mundo que inaugurou, de um dia para o outro, 700 (setecentas!) carreiras de autocarro.Mas isto não é tudo. Hoje, na Avenida da Igreja, vi passar um autocarro da carreira número 7555 (sete mil quinhentos e cinquenta e cinco!).Meus senhores, mesmo sem recurso a estatísticas posso garantir que Lisboa tem mais carreiras de autocarro que Tóquio, Nova Iorque, São Paulo, Londres e Calcutá todas juntas!A isto acresce que, segundo a imprensa, a dívida da Carris dá para comprar mais cerca de 700 autocarros! Um fartote.Somos os maiores!ABC -
A ALCATEIA VOLTA AO ATAQUE
A rapaziada do PSD anda outra vez de cabeça perdida.Ele é o fulano lá de Gaia que, não lhe bastando as borradas que já fez, se dedica a demolir a dona Manuela.Ele é um bando qualquer a querer reunir assinaturas para um congresso destinado a “aprovar”, calcule-se, essa monumental trafulhice da “regionalização”.Ele é o pessoal aos gritos porque a dona Manuela não foi ao Algarve prestar as devidas homenagens a um idiota chapado chamado Bota.Ele é os protestos (com alguma razão) por causa do silêncio “cavaquista” da senhora.Ele é a malta a explorar à exaustão as opiniões do Borges, pouco ortodoxas (felizmente) em relação à social-democracia.Ele é, imagine-se, o Sousa a começa a espernear, eventualmente na douta intenção de extravasar as asneiras, da RTP e do Sol, para o partido.Ele é, em suma, o saco de gatos a reincidir na polvorosa.Só se safa, mais uma vez, o Dr. Santana Lopes. Não sendo apoiante eleitoral da senhora, continua a apelar a uma certa contenção, contenção a que ele, coitado, sem ter feito nenhuma asneira que se visse, não teve direito, sobretudo da parte dos áulicos da dona Manuela, perdidos que andavam de ciúme.As investidas do Sousa costumam ser desgastantes, até destruidoras. O homem nunca fez outra coisa senão intrigar, chegando ao ponto, como é universalmente reconhecido, de meter rasteiras a si mesmo por não saber ao certo onde levam as intrigas. Notável é que, tantos anos passados a não fazer outra coisa, ainda haja que o ouça e até pague para o fazer ouvir.É altura da dona Manuela se pôr a pau. Senão, ainda acaba nos dentes da alcateia.E isso não é o pior. O pior é que a coisa tem a ver com todos nós, não só com a alcateia. Se é verdade que a social-democracia que a senhora tanto preza já deu o que tinha a dar, não menos o é que, se ela não der uns murros na mesa, acabamos por ter que viver mais uns anos sob as palhaçadas do senhor Pinto de Sousa e da sua gente.António Borges de Carvalho
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SEGURANÇA A PAGANTIBUS
Há já uma dezenas de anos, um cliente meu, siciliano, quando lhe perguntei o que pensava da mafia lá na terra dele, perguntou-me:– Você, aqui em Lisboa, tem a certeza que as suas filhas não são incomodadas na rua, que os seus filhos não são roubados, que a sua casa não é assaltada?– Não…– Pois é, na minha terra, em Palermo, eu pago. Como pago, não tenho problemas. É assim, meu amigo, quem paga está seguro. Quem não paga…Não será o melhor dos sistemas. Mas é um sistema.Vem isto a propósito de uma notícia verdadeiramente extraordinária que li num jornal de Sábado: “os comerciantes de Setúbal estão a pagar do próprio bolso aos agentes da PSP para garantirem (sic) uma vigilância permanente dos estabelecimentos”.Ou seja, o que os sicilianos fazem com a mafia, os portugueses fazem com a PSP.Os polícias são como o serviço nacional de saúde. Se um tipo está MUITO doente, o serviço serve. Se não tem senão uma doença não mortal, vá-se lixar.Os polícias ditos “de proximidade” não existem. Por outras palavras, existem, mas para passear de automóvel ou, menos imponentes, de trotociclo e de segway. A pé, nas ruas, faz calos.A verdade é que não garantem, às pessoas em geral, nem segurança, nem ajuda, nem presença dissuassora. A não ser… a não ser que lhes paguem por fora, como acontece com os comerciantes de Setúbal.Os efectivos vão ser alargados. Mas, se se mantiver a percentagem dos ditos que hoje existe nas secretarias (e que o senhor Pinto de Sousa tinha prometido pôr cá fora), não vão servir para nada.Aqui há tempos, uma rapariguinha merecedora de toda a consideração, casada com um polícia, confessava-me que, lá em casa, o sonho era o marido cumprir três anos de serviço de policiamento, passados os quais seria colocado “intra-muros”. Um intra muros que pode ser a secretaria, o serviço de entrega de papéis ou as passeatas de pó-pó.Assim, não vamos lá. A não ser que alguma “instituição”, inspirada pela filosofia do meu amigo siciliano, se lembre de nos proporcionar algum descamso a troco de uns cobres. Desde que, é claro, esteja bem organizada e hierarquizada.Não será um bom sistema, mas é um sistema. Melhor que nada.António Borges de CarvalhoPS. Talvez a banca se interesse pelo sistema. Podia abrir umas linhas de crédito para que os cidadãos menos abonados pudessem pagar a coisa.
E.T. O Irritado, às vezes, deixa-se desactualizar. Um amigo, mais à la page nestas matérias informou-me que a nobre prática das funções praeter mafiosas da PSP não é novidade nenhuma. É que se confirma que já há muito vêm os comerciantes do Bairro Alto praticando o sistema. A coisa, por obra e graça do socialismo nacional, começa a tornar-se um negócio para polícias disponíveis (são aos montes), sem despezas para o Estado e com altos efeitos na segurança do comércio e no progresso da civilização portuguesa. Notável.
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CAIS CAIS OLIVEIRAS OLIVAIS
A rapaziada da ecologia não pára de nos surpreender.Às vezes pensamos que são os Quercus & Cª, gente de cá, que exagera no “empata”, na “ciência” feita à pressa, ou nessa coisa extraordinária que é, recebendo prebendas do poder, dedicar-se a exercer um contra-poder que outra coisa não é senão uma forma ínvia e ilegítima de poder.Lá por fora, no entanto, passa-se mais ou menos o mesmo. Os grinpices e outros bandos, como o do Gore, prenhes de dinheiro, pagos sabe-se lá como ou por quem, com meios que metem a Quercus e quejandos num chinelo, andam para aí à vontade a desestabilizar um mundo onde a “ecologia”, nobre ramo da ciência, se tranformou, ou numa ideologia ou numa maneira de ganhar dinheiro como outra qualquer.Desta vez, uma revista britânica, “The Ecologist” de seu nome, publicou um relatório “científico” destinado a condenar a plantação de oliveiras e a produção de azeite. O raciocínio deve ser mais ou menos assim: o azeite, em tempos produto utilizado pelos selvagens do Mediterrâneo e arredores, transformou-se em mèzinha para todas sa maleitas e em delícia universal. Daí, o consumo aumentou e a malta começou a achar que era óptimo plantar oliveiras. Os ecologistas, fartos de apoiar a coisa, começaram a achar que, tratando-se de um bom negócio, era altura de começar a contestá-lo. Sendo a coisa bem feita, chegaria às instâncias internacionais, provocaria mais uma série de regulamentos da UE e da FAO, daria dinheiro a ganhar aos gangues de “cientistas” que enxameiam tais instancias, ou seja, em última análise, daria muito a ganhar aos “ecologists”.O cultivo de oliveiras passou a ser uma coisa execrável. Vai secar os solos e provocar não sei mais quantas desgraças para o futuro da humanidade.Os “cientistas” alegam que, dado o aumento do consumo, “as árvores estão a ser densamente plantadas em regiões planas de baixa altitude que exigem um maior uso de químicos e de irrigação em relação à plantação tradicional em terrenos altos”.Deixo este último parágrafo à atenção aos agricultores, dos agrónomos, dos geógrafos, dos estudiosos destas matérias, a fim de passar o olival a cultura de regadio para dar razão aos “ecologists”, ou então, com o mesmo fim, a ir plantar Oliveiras na Serra da Estrela e no Gerês, como manda, segundo os fulanos, a nossa boa tradição.António Borges de Carvalho -
COMBOIADAS
Um combóio cai por uma ribanceira abaixo. Uma pessoa morre, não sei quantas ficam feridas, algumas com gravidade. Reza o jornal privado chamado "Público" de hoje (27.08.08) que as três entidades públicas com eventuais responsabilidades na matéria já declararam, por escrito, que não têm qualquer responsabilidade na matéria.Entretanto, tinham vindo a público algumas hipóteses justificativas do acidente. Uma, imagine-se, fundava-se no alegado facto de as comunicações do combóio com o exterior serem, em certas zonas do percurso, inexistentes. Outra, dizia que a composição tinha problemas mecânicos. Outras balelas se escreveu sobre o assunto, que não valerá a pena referir.Ora bem. O jornal privado chamado “Público” publicou, em primeira página, uma monumental fotografia do local do acidente. Uma mulherzinha olha, condoída, a composição esparramada no fundo do talude. A seus pés, a linha férrea, A travessa que está em primeiro plano encontra-se totalmente escavacada. As que se lhe seguem mostram evidentíssimos sinais de velhice e corrosão. Estão para ali há anos e anos sem que ninguém lhes ligue. O acidente contribuiu para as destruir? Talvez, mas tal destruição mais não fez que pôr ainda mais a nu o miserável estado das ditas. As travessas esfarelaram-se, de velhas, de podres, de rachadas. Das fixações dos carris, não há uma que se aproveite. Numas, faltam os parafusos tirefonds, noutras já não há peças de fixação, noutras ainda os tirefonds estão fora do sítio. As fixações são de um modelo que já não se usa há uns quarenta anos. O balastro, é de presumir, não é mexido desde o mesosóico inferior.Dizem os jornais que uns rapazes andaram na linha a arrancar (à mão!) tirefonds meio soltos e os levaram não sei a que autoridades.Hoje, em nova fotografia, com a legenda "não foram detectados problemas no troço onde ocorreu o acidente", o jornal privado chamado "Público" mostra mais três travessas completamente esfanicadas e uma quarta rachada a todo o comprimento, todas mostrando fissuras de décadas de abandono.E, no entanto, a chamada Refer já declarou que "não foram detectados defeitos na linha”. A culpa, no parecer dos "técnicos", é de uns tipos que andaram a abrir um buraco para meter um cabo telefónico ou coisa parecida!Há anos, o senhor Coelho demitiu-se quando caíu uma ponte. Se se tratou de um acto de alta dignidade política ou de uma forma de se safar de chatices, não saberei dizer.O que sei é que o senhor Lino jamais (jamais!) se demitirá, e até é homem para achar que a culpa é do Camões.António Borges de Carvalho -
HUMOR CANINO
Tenho saudades do tempo em que havia, em Portugal, um jóvem humorista, de seu nome Herman José, que divertia a malta com rábulas bem achadas e inteligentes.Desgraçadamente, o jóvem humorista foi substituído por um canastrão apanascado, do mesmo nome, é certo, mas de outra tiragem. O balofo balzaquiano passeia o cabelame oxigenado pelos ecrans, desdobrando-se em piadas ranhosas, as mais das vezes estúpidas e do mais baixo populismo, para gáudio da vilanagem ignara e do Dr. Balsemão.Desta vez, segundo disse, para se dar ares de homenzinho prepara-se para levar ao palco um “rotweiller”, quiçá destinado excitar as gordas histéricas que o vão ver, bem como as meninas e meninos que são pagos para o aplaudir.Um “rotweiller” é, como todos sabem, a começar pelas “autoridades”, um animal perigoso e dificilmente controlável. Há mortos e feridos à pala dos carinhos das referidas bestas. Parece haver legislação que não permite que os ditos andem na rua, obrigando os seus abomináveis proprietários a mantê-los onde não alcancem pessoa humana.Apesar disto, aposto que muita gente, a começar pelas “autoridades”, vai achar imensa graça à presença no palco do béu-béu do canastrão. É preciso ser muito civilizado (o que é, evidentemente, o caso do Irritado) para não desejar que o animalzinho desate às dentadas em directo.António Borges de Carvalho
