Parece que a distintíssima classe dos juízes – cheia de organizações sindicais e de representantes da chamada independência, ou seja, da intocabilidade profissional faça as asneiras que fizer – entrou em irremediável paranóia.
Uma paranóia de pernas para o ar em relação às preocupações da sociedade, cujos interesses, julgava-se, competia a tão douta gente defender.
Anda a malta, os cidadãos, as empresas, à rasca com a onda de criminalidade que por aí grassa.
Andam os chamados órgãos de informação a não falar doutra coisa.
Andam os telejornais, tão prontos para o que é excitante como distraídos do que importa, ocupados a cinquenta por cento com assaltos, assassínios, traficantes e vândalos de vária ordem.
Anda o Procurador a recomendar severidade.
Anda o governo às aranhas, a meter os pés pelas mãos, a legislar canhestramente e à pressa sobre o assunto.
Andam os partidos a apanhar o combóio com declarações, soluções e discussões.
Até os polícias andam a tentar tratar do assunto.
A sociedade em geral tende a entrar em paranóia securitária.
Os juízes não. Qual Duqueza de Brabante, não vêm o que está perante os olhos de toda a gente. Os juízes, meus amigos, remam ao contrário. Ciam.
Qualquer criminoso que se preze sabe, de ciência certa, que, se for apanhado, o mais provável é ir ter uma entrevistasinha com um juíz, e ser por ele, paternalmente, mandado voltar em paz à sua nobre actividade.
Talvez com receio de ser acusados de securitarismo e de vir a ser condenados por isso (olhem aquele rapaz que mandou prender um tipo do PS!), os doutos magistrados, ao invés de toda a gente, resolveram praticar a caridade e a compreensão para com os chamados suspeitos.
Os polícias não podem deixar de se perguntar para quê. Para quê puxar ao coco, para quê dar o corpinho ao manifesto, se os resultados positivos do que fazem são prontamente anulados por quem manda?
Olhem para isto:
Dois fulanos e uma fulana são apanhados com nove armas de fogo, 10.000 (dez mil!) munições, 10.500 (dez mil e quinhentas!) doses de haxixe e 250 de cocaína.
Após “devidamente” ouvidos por um juíz, eis o que aconteceu:
– o principal “suspeito” foi calmamente para casa com uma pulseira;
– a “presumível” criminosa, saíu em liberdade, competindo-lhe apresentar-se na esquadra uma vez por semana;
– o terceiro “alegado” prevaricador ficou, coitadinho, sujeito a “termo de identidade e residência”.
Todos eles, ainda que, teoricamente, vejam a sua preciosa liberdade algo limitada, poderão continuar calmamente a exercer a sua prestimosa profissão.
Um tipo que assassinou a namorada usando a carinhosa técnica do incêndio, isto é, regando-a com gasolina e acendendo um fósforo, apanhou vinte anos de choça. Muito bem. No entanto, mercê de uma minhoquice processual que não valerá a pena descrever, foi libertado três anos depois. Deve andar por aí até dar o salto para o Brasil ou até meter outra namorada no forno lá de casa.
E tudo isto se passa, diz-se, nos termos da lei.
Bonito!
António Borges de Carvalho

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