O Estado, através das brilhantíssimas iniciativas do socialismo socretino, bem como dessoutros órgãos de soberania que integram o poder judicial, vem contribuindo, cada vez com maior empenho, para a resolução dos problemas que afligem os portugueses em geral e os leitores do Irritado em particular.
Abriu-se ontem uma nova janela de oportunidade, como se diz agora, para vossas excelências.
Se tiverem um conflito, uma zanga, um diferendo com alguém, não terão mais que comprar um revólver no mercado negro (um dos mais progressivos sectores da nossa economia) e dirigir-se, com a maior das calmas, ao encontro desse alguém. Uma vez o indivíduo no horizonte, e à conveniente distância, vossas excelências não terão mais que despejar o carregador, para o que bastará premir o gatilho tendo o cuidado de apontar na direcção do fulano. Disparando vários tiros, obterão, na prática, a certeza de acertar, mesmo não tendo pontaria nem estando habituados a usar instrumentos do género.
Se o fizerem dentro de uma esquadra de polícia, obterão uma segurança acrescida, uma vez que qualquer resistência do alvejado será prontamente cerceada pelas autoridades em presença.
Se, por azar, forem presos, a coisa não terá importância de maior, uma vez que após cordial diálogo com um juiz, serão mandados em paz, com todas as possibilidades, se for o caso, de emigrar para o Brasil, seguindo o notável exemplo da dona Fátima Felgueiras e do padre Frederico.
Foi o que aconteceu ontem e que não deixará de fazer jurisprudência.
António Borges de Carvalho

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