IRRITADO

Um blogue de António Borges de Carvalho

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


  • AMANTES DO TEJO

     

    Todos somos amantes do Tejo. O Tejo é a frescura, a moldura, a vida e a razão da nossa cidade. Sem ele não haveria Lisboa e, quem sabe, não haveria Portugal.

     

    Durante toda a minha infância, juventude e idade adulta, via-se o Tejo do Terreiro do Paço, dos cacilheiros, dos restaurante do Ginjal, e pouco mais. Lisboa ribeirinha era um mar de armazéns, lixeiras, gruas e cais, uma floresta de coisas feias, ingramáveis, uma jóia escondida pelo “progresso”.

     

    A tudo isto presidia uma entidade, um monopólio de poder, a que se dava o nome de APL, Administração do Porto de Lisboa. Tal entidade, das poucas que, detidas pelo Estado, não tinham problemas económicos, antes pelo contrário, era odiada pelos lisboetas e pela Câmara Municipal.

    No entanto – a verdade é para ser dita – de há anos a esta parte, a APL, perante o indisfarçado ciúme da CML, mudou de filosofia. Abriu a cidade ao Tejo. Hoje, passeia-se de Belém a Algés, almoça-se à beira-rio, contempla-se, nas noites de luar, o espectáculo fantástico do rio, dourado, a correr. Talvez a APL tenha para tal sido pressionada. Se foi, ainda bem. Reagiu em conformidade.

     

    O ciúme da CML, porém, intensificou-se. Era fácil argumentar que a cidade não pode deixar de ter jurisdição sobre a sua jóia número um. Resultou. O governo PS acabou por aprovar a “devolução” da ribeira à autoridade camarária PS, de forma a pô-la, ainda mais, “ao serviço” da cidade e do país.

    Ora a CML, esta CML, bem acompanhada pelo governo que temos, já deu provas, e que provas, de não ter pela cidade o amor que os súbditos do PS, todos nós, lhe dedicam. O contrato dos contentores do Coelho aí está, suficiente para provar o “desvelo” camarário. A Sociedade Frente Tejo (não sei se é assim que se chama), com a bênção da CML mas sem que a CML nela tenha poder, aí está para provar que tal desvelo acaba por se consubstanciar numa coisa de direito privado e dinheiro público, com mais um “escol” de administradores, arquitectos, engenheiros, secretárias, motoristas e respectivas limusinas.

    Por tudo isto, e muito mais, se é, formalmente, justo e lógico que a CML passe a ter poder sobre a ribeira de Lisboa, substancialmente a coisa causa a maior das inquietações.

     

    Quando é patente que a APL, à contre coeur que seja, mostra já uma obra notável e para mais se preparava, entra em acção uma câmara que tem a interessante peculiaridade de estar há anos no poder sem que seja quem for tenha dado pela sua “obra”, à excepção, é claro, da “reestruturação” e do aumento da dívida e do asfaltar de algumas ruas, tapando as sarjetas, antes das eleições.

    Que fará de jeito, na ribeira, a câmara costo/roseto/fernandesca, é coisa que ninguém saberá imaginar. Que dinheiro tem (coisa que à APL nunca faltou) para fazer seja o que for que se veja e não seja asneira?

     

    Caso é para perguntar se, daqui a uns anos, não vamos estar todos cheios de saudades dos tempos heróicos em que a APL tomava conta do rio.

     

    20.6.10

     

    António Borges de Carvalho

  • DA IGNORÂNCIA DO IRRITADO

     

    Não falta para aí quem atribua às chamadas agências de rating os mais terríveis nomes. Canalhas, servos dos especuladores, sedentos do sangue das nações, gangsters que, ao serviço do imperialismo, abusam dos pobres países que se deixaram endividar sem ter meios para pagar nem economias que sustentem o serviço da dívida, isto quando não aldrabaram as contas como os gregos. Não há adjectivos que cheguem às boas almas para acusar tais agências dos mais hediondos crimes.

     

    O IRRITADO, que não percebe nada de agências, nem de ratings, nem de finanças, vai observando a coisa à distância.

     

    Um pequeno comentário:

    Quando começou a débacle, exactamente os mesmos que agora tão ferozmente atacam as agências, por severas, acusaram-nas de ter fechado os olhos a tudo e mais alguma coisa e de terem deixado à solta vastas áreas da vida financeira que, manifestamente, não tinham pés para andar.

    Ou seja, as agências são más porque alertam os mercados, são péssimas porque não o fazem. Entenda quem quiser o raciocínio das boas almas.

     

    Uma observação, se calhar simplista:

    Nos EUA, sede do tenebroso capitalismo e do ominoso imperialismo, aconteceu que houve monstros financeiros, uns privados, como o Lehman Brothers, outros mais ou menos públicos, como a Fredy Mack (é assim que se diz?), que se desmoronaram sem apelo nem agravo. O “mercado” funcionou, isto é, “auto-regulou-se”. O senhor Madoff foi para a cadeia, isto é, funcionou o “mercado” e funcionou a lei.

    Por cá, é tudo ao contrário. Que diabo, isto é um “Estado Social”! Um Estado que, constitucional e politicamente, odeia o “neo-liberalismo”, duvida dos “mercados” e está “preocupado com as pessoas”. Por isso, usou os seus admiráveis mecanismos para financiar os falidos e para não julgar seja quem for, se é que há, ou haverá, culpados de outra coisa que não seja perder dinheiro, o que, como tal, nunca foi crime. “Preocupado com as pessoas” o Estado socialista não disponibilizou um chavo para, nos termos e limites da lei, pagar indemnizações aos depositantes dos bancos falidos. “Social” como é, pôs à disposição dos falidos incríveis verbas saídas do banco público para manter em funcionamento o pior do tal tenebroso capitalismo, ou do “neo-liberalismo”, coisa tão profundamente odiada pelos “sociais”, como o Dr. Mário Soares.

     

    Os resultados do funcionamento do mercado e da Justiça, por um lado, e da intervenção socialista, por outro, estão aí, para quem quiser ver. Os execráveis EUA, apesar do já evidente flop político do senhor Obama, vão tirando a cabecinha de fora. Por cá, no socrélfio paraíso… ora, por cá é o que toda a gente sabe.

     

    Nesta ordem de ideias, fica o IRRITADO sem saber se as agências de rating são entidades merecedoras de estima por terem resolvido pôr os países diante das infelizes realidades que os governos escondem, se são as tais criminosas entidades de que tanto se fala, se nem uma coisa nem outra, nem antes pelo contrário.

     

    20.6.10

     

    António Borges de Carvalho

  • DE PIROSIS PROFUNDIS

     

    Ao abrir a net, ontem de manhã, dou de caras com a morte do Saramago.

    Paz à sua alma.

    Condolências à dona Pilar.

     

    Goste-se ou não do homem, compreende-se que a sua morte é notícia que merece destaque.

    Mas, em vez de tal destaque, o país assistiu à mais pirosa e inimaginável manifestação de primitivismo intelectual e ‘informativo’.

     

    Aceso o aparelho, eis que todo o dia não se falou noutra coisa. O Saramago para a esquerda, o Saramago para a direita, o Saramago para cima, o Saramago para baixo, o Saramago bebé, menino, jovem, homem feito, maduro, meia-idade, velho, em pé, sentado, a aldeia do Saramago, a casa do Saramago – que já não existe mas voltou a existir – o prémio Nobel, as condecorações, o diabo a quatro.

    Tive que desligar aquilo, para não ficar completamente saramagalhado.

     

    O nacional-pirismo consubstancia-se numa frase dos panegiristas da SIC Notícias, que devia ficar célebre:

    “Ao nascer, Saramago tornou-se no mais novo habitante de Azinhaga”.

    Tem piada. Eu próprio, quando nasci, era o mais novo habitante das avenidas novas. A não ser que tenha havido alguém a nascer exactamente no mesmo segundo. Esse alguém participaria, ex-aequo comigo, da invejável circunstância de ser o mais novo, circunstância aliás comum ao resto da humanidade, e até aos cães, quando ousam nascer.

     

    À noite, aberta a televisão, foi um nunca acabar em todos os canais.

    Até me apareceu, calcule-se, a prima do Saramago a dizer coisas.

    Antes de desligar definitivamente as “comemorações”, detive-me uns cinco minutos a ver e ouvir o sermão da dona Clara Alves. Opinava a ilustríssima criatura que quem se atreve a não gostar do Saramago, para além de sofrer de preconceitos ideológicos agudos, é analfabeto. A filosofia é simples: quem não gosta do homem por ser comunista e ter feito o que fez enquanto tal, é um ordinário e um preconceituoso com duvidoso direito a exprimir-se; quem não leu os escritos do homem, não merece, sequer, ser considerado como sabendo ler. A filosofia é simples: ler Saramago é obrigatório.

    No meio da pirosada, das primas do Saramago e do memorialismo totalitário da informação única, revela-se a mentalidade da senhora.

    O nosso mundo intelectual é isto: a submissão própria ao politicamente correcto que, como tudo o que é obrigatório, é sempre de esquerda, e a imposição do politicamente correcto aos demais, sob pena de ‘preconceituosidade’ ou de analfabetismo.

     

    O governo, ansioso por coisas que distraiam as pessoas do que interessa, decreta dois dias de luto nacional, o que não podia ser mais piroso. Vai daí, os lanzarotenses, compatriotas fiscais do falecido, decretam três! Fuerzia!, como diria o primeiro-ministro em castelhano técnico.

     

    Do seu humilde púlpito – nada de parecido com os da dona Clara – o IRRITADO informa a prendada senhora: leu vários livros do Saramago. Leu, mas teve a desgraça de não encontrar neles, nem a contribuição inestimável dada à língua portuguesa, nem o interesse filosófico das obras em causa, coisas encomiasticamente defendidas pela senhora. Uma escrita prolixa, entediante, cheia de “palha” para dar peso e preço. Lembro-me de, ao fim de várias e penosas horas passadas a ler o “Ensaio Sobre a Cegueira”, me ocorreu pensar por que carga de água era aquilo um ensaio, bem como qual era a “mensagem” que, com tão inusitada “cegueira”, o escritor queria comunicar. Pensei, pensei, e cheguei à conclusão que, primeiro, o escrito nada tinha a ver com um ensaio, segundo, que estando, no livro, toda a humanidade cega, e havendo só uma senhora que via e conduzia os cegos, se tratava de uma parábola marxista, isto é, a humanidade – as “massas” – precisa de “vanguardas” que saibam a verdade e que as “guiem”.

    Dirá a dona Clara, com certeza acompanhada por um exército de intelectuais, que esta interpretação se deve, ou a algum “preconceito ideológico”, ou a puro analfabetismo.

     

    Cá fico, com o analfabetismo e os preconceitos que a Clara loira, já um tanto gasta, não deixaria de me atribuir, caso lesse esta prosa.

     

    Acabo como comecei: paz à alma do Saramago, português, imigrante fiscal em terras espanholas, escritor de alguma valia, prémio Nobel sabe-se lá porquê; condolências à dona Pilar e felicidades na gestão da Casa dos Bicos, que já pertenceu à minha cidade e que a minha cidade vai pagar para dar à dona Pilar.

     

    De profundis…

     

    19.6.10

     

    António Borges de Carvalho

  • TRISTEZA VIL, NÃO APAGADA

     

    Tenho pena que os jornais (os que comprei) não tragam o enunciado da prova de português do 12º ano. Só é transcrita a “proposta de correcção” adiantada pelo ministério aos professores encarregados (a poder de dinheiro) de corrigir as provas.

    Deve chegar para fazer uma ideia da qualidade da coisa.

     

    Uns mimos:

    a) – “ – o Rei… deve reconhecer o valor dos seus súbditos, que, como se verificou no passado, reúnem qualidades para o fazerem ‘vencedor’, isto é, para reacenderem na Pátria o orgulho e a coragem.

    b) “Relacionação com o sentido das estâncias 145 a 148:”

    c) “constatação de um estado…”

    d) “- a insensibilidade dos seus contemporâneos em reconhecerem os trabalhos…

     

    Os alunos talvez mereçam passar. Os ‘pedagogos’ ou ‘técnicos’, ou ‘docentes’ do ministério merecem, de certeza, um chumbo.

     

    Vejamos:

    Em a), sujeito os súbditos; predicado reúnem; para, etc…, complemento circunstancial de fim. Porque carga de água conjugarão as doutas criaturas os infinitos de ‘fazer’ e de ‘reconhecer’? Predicados de quê? De nada. Aliás, os infinitos antecedidos de preposição não se conjugam! Não são não regidos pelo sujeito mas pelo verbo da oração!

    Em d), a mesma coisa.

    Em nenhuma língua latina é possível encontrar regra que cubra esta asneirada. Eu sei que há ‘filólogos’, como a dona Edite Estrela, que não dão pela coisa. Que credibilidade lhes assiste? Zero.

    Quando eu era pequenino e andava na 4ª classe, só uma destas dava direito a duas ponteiradas no toutiço. Quanto mais três!

    Em b), atente-se no rebuscado da palavra. Relacionação? A palavra existe, é certo, não se trata de um erro. Porque não relação, ou relacionar?

    Em c), ‘constatação’, palavra que, agora, já existe. Não é erro. Não deixa, por isso, de ser um galicismo, portanto impróprio de uma prova de português.

     

    Atentem nisto, se lhes apetecer:

    “tratando-se de um item (demos o ‘item’ de barato) de resposta aberta extensa… o professor classificador de provas, ao classificar o texto do examinando… deve observar… o domínio das seguintes capacidades:

    – estruturação de um texto com recurso a estratégias discursivas adequadas à defesa de um ponto de vista e reflectindo a operação de uma planificação produtiva;”

    Observe a riqueza de conceitos. A ‘resposta aberta extensa’, onde, pelo menos, falta uma copulativa, é um primor de ignorância “discursiva”, ou de adjectivos de adjectivos. E o professor classificador… ao classificar? Então quando havia de ser? Ao tomar o pequeno-almoço? Ao ir à retrete? E o texto do examinando? De quem havia de ser? Do Tio Patinhas?

    Agora leiam o texto acima, a começar em ‘estruturação’. Perceberam?

    Se sim, é fora de dúvida que executaram uma “operação de uma planificação produtiva”, “com recurso a estratégias discursivas adequadas”.

    Por mim, dou-lhes um doce!    

        

    Não é só a pobreza geral do documento enquanto texto “pedagógico”, são os erros, as calinadas, os pleonasmos, a indigência da redacção, a “vil tristeza” em que vivemos e em que os nossos miúdos são “educados”.

     

    Xiça!

     

    17.6.10

     

    António Borges de Carvalho

  • BONS SENTIMENTOS

      

    A organização comunista chamada Bloco de Esquerda espalhou por toda a parte uns cartazes avisando o Zé-povinho que há uns seis ou sete cavalheiros que “nunca apertam o cinto”.

    Junto à fotografia de cada contemplado, o montante dos respectivos rendimentos de trabalho.

    Partamos do princípio que os números são exactos.

     

    Antes de mais, diga-se que qualquer dos senhores retratados paga, em impostos, goste ou não goste, uns 40% das verbas parangonadas pelo BE, percentagem a aumentar em breve. Assim, haverá o cidadão que dividir por cem a “informação” do Bloco, depois multiplicá-la por sessenta, e terá à sua frente um número mais honesto.

    Mesmo assim, dir-se-á, os fulanos ganham um balúrdio. É verdade. Deverá, porém, acrescentar-se que os tais 40% que entregam ao Estado (a “todos nós”, como diria o Bloco) seriam galinha da perna para os accionistas das respectivas empresas, em dividendos, se ganhassem menos e pagassem menos. Não seriam para “todos nós”, em impostos.

     

    Note-se agora que todos os alvejados são manda-chuvas de empresas privadas.

    Não é privilégio nem direito dos partidos políticos ou do Estado pronunciar-se sobre os seus vencimentos. O que podem fazer, se quiserem, será reclamar que os castiguem com ainda mais impostos. Tal nada tem a ver com a soberana decisão dos respectivos patrões de lhes pagar o que muito bem entendem.

    Acresce que, no mar de desemprego e de miséria em que o socialismo nos mergulhou, há para aí umas cem mil pessoas que trabalham, que têm tem ordenado e garantias sociais no conjunto das empresas tidas e/ou geridas por tais manda-chuvas e que, se os patrões lhes pagassem menos, se calhar eles estavam-se nas tintas e iriam pregar para outra freguesia, teoricamente pondo em causa os empregos daquela malta toda, que passariam a ser geridos de outra forma, quiçá menos competente.

     

    Finalmente, os magníficos comunistas do Bloco esquecem, não por acaso, a chusma de gestores do Estado que perdem milhões (dos “nossos”) e que andam de empresa em empresa a fazer a sua “obra” e a receber (do “nosso”) como nababos. Na certeza que, se “houver azar”, têm sempre um “lugar de recuo”.

     

    O Bloco, como o PC e a sua agência CGTP, dedica-se à destruição do privado e à manutenção ou alargamento do público, com as dramáticas consequências que, por todo o mundo, civilizado ou não, tais teorias “socais” não se cansam de espalhar.

    O Bloco destina-se a convencer as pessoas da monumental falácia que é pensar que, se há pobres é porque há ricos e que, se se tirar aos ricos, os pobres ficarão, automaticamente, cheios de “bago” e de regalias. Para tal, há que espevitar os mais baixos sentimentos da população, alimento privilegiado das mentes “comunizadas” e “comunizáveis”. A invejosa publicidade bloquista não significa outra coisa.

    Apontar aos portugueses o caminho para a miséria e a servidão, eis a missão desta gente, conscientemente concebida e aplicada.

     

    Diga-se, aos que já estão a afiar a faca contra o IRRITADO, que ele não acha propriamente adequado que se ganhe demais num país como o nosso. Por outro lado, o IRRITADO não faz, nem nunca fez, parte dos que ganham ordenados principescos.

    Mas tem a noção exacta do que podem ser as consequências da propaganda comunista. Não para si, que não tem muito a perder. Mas, sobretudo, para aqueles que quase nada têm a perder e que, se forem neste tipo de conversa, perderão tudo o que têm, mais duas coisas: a liberdade e a esperança.

     

    16.6.10

     

    António Borges de Carvalho

  • MAIS UM

     

    O Dr. Nobre tem andado a tentar convencer as pessoas da sua independente integridade, da sua sinceridade, da sua preocupação com as pessoas.

    Mais um independente, descomprometido, imparcial, impoluto candidato a “presidente de todos os portugueses”.

    O pior é que, quando se quer pôr a cabecinha de fora, lá vem a demagogia. Desta vez, o ilustre clínico brinda-nos com a sua indignação acerca das portagens nas SCUTs. Porquê? Porque violam a constituição! Não faz a coisa por menos!

     

    Não se percebe se o ambicioso cidadão está revoltado contra as portagens, se acha que devia haver portagens em todas ou em nenhuma SCUT. Mas percebe-se que se está a pôr em bicos dos pés a respeito de um assunto de que não sabe nada. E que, pior ainda, está a tentar lançar cascas de banana ao seu putativo concorrente Cavaco Silva, a quem pré-acusa de não “manifestar repúdio” pela coisa, nem constar que a vai vetar.

     

    Mais um demagogo.

    Não sei se se trata do melhor pano, mas lá que nele caiu a nódoa, disso não há dúvida.

     

    16.6.10

     

    António Borges de Carvalho

  • NO FUNDO DO FOSSA

    Esta história da comissão de inquérito ultrapassa tudo o que a inteligência humana pode conceber.

    Pior, no caso do PS, ultrapassa os limites da desonestidade, da ausência de honra, da desfaçatez e da indecência.

     

    O IRRITADO, a seu tempo, imaginou e disse que o resultado final iria ser vergonhoso. Mas não foi tão longe quanto os factos vieram a provar.

     

    Comecemos pelo ilhéu e pelas suas ordens. Se é verdade que o presidente de uma comissão parlamentar deve manter uma certa imparcialidade nos seus juízos, não é aceitável que “ordene” que o principal elemento de prova dos factos seja não só ignorado como “proibido”.

    As instâncias que das escutas se ocuparam e que sobre elas tinham jurisdição são unânimes em afirmar a legitimidade da sua utilização pela comissão. Mas o ilhéu acha que não.

    Mais estranho é, sabendo que as decisões do presidente de uma comissão parlamentar são passíveis de ser infirmadas por maioria do seu plenário, que nenhum dos partidos nela representados tenha discutido ou posto à votação a posição do ilhéu.

     

    O relator, membro do partido comunista que propôs a criação da comissão, nem perante a pesporrência e a trapalhona trapalhice das respostas escritas do “arguido”, coisa que, em si, tornava mais que evidentes as suas culpas, não conseguiu passar de afirmações “cautelosas” e “diplomáticas” evitando, que horror, a palavra mentira! Como se explica que o homem tenha, na prática, metido a viola no saco, quando qualquer pessoa que tenha seguido o processo com um mínimo de atenção percebe, e sabe, que as culpas políticas do senhor Pinto de Sousa são mais que evidentes e estão aí, escarrapachadas nos jornais e nunca cabalmente desmentidas? Mistério!

     

    O PSD, nas suas coelhais cautelas, ou cobardias, anda a ver se “contém” a coisa e, à excepção do Pacheco Pereira, parece estar pronto a aceitar que a montanha tenha parido o rato que toda a gente vê, em vez do rinoceronte com que foi incubada.

     

    O CDS e o PC, esses, não se percebe. Dão uma no cravo outra na ferradura e, quanto a escutas, nem vê-las nem lê-las nem ouvi-las. É caso para perguntar para que andaram a perder tempo na comissão.

     

    No meio desta desgraça, o PS, mergulhado na mais funda das misérias morais, esperneia, para tal usando o menos credível e mais inaceitável dos seus membros. Por sinal, como no PSD, um ilhéu. Assim, o ladrão dos gravadores, um tipo com um passado mais que discutível, um fulano que, por incómodo, foi “exportado” para o Continente pelo Carlos César, é quem aparece a defender a “verdade” e a “revoltar-se” contra a mais que suave versão dos acontecimentos escrita pelo medroso relator.

    Revoltante é que um indivíduo do calibre deste continue a ser deputado, vice-presidente da maior bancada parlamentar e objecto da “solidariedade” do Assis e demais camaradas. Será possível descer mais?

     

    Rezam os jornais de hoje que o relatório tem todas as possibilidades de ser chumbado. Pelo PS, o que é óbvio, por excesso de conclusões. Pelo PSD, por defeito das mesmas. Pelo PC e pelo CDS, sabe-se lá porquê.

     

    Tal como o IRRITADO tinha previsto, tudo ficará na mesma.

     

    A posição do Pacheco, se vier a ser tomada, não passará de um fait divers, uma fuga à “realidade” produzida pelas frustrações de um deputado isolado e quem sabe se membro de alguma “força oculta” apostada em denegrir a imagem impoluta e virtuosa do senhor Pinto de Sousa.

     

    Em matéria de finanças estamos prestes a bater no fundo.

    Em matéria de dignidade já batemos.  

     

    16.6.10

     

    António Borges de Carvalho

  • OS MANDATÁRIOS

     

    Em lauta almoçarada, com a adequada pompa informativa, o Alegre apresentou aos infelizes os seus mandatários eleitorais.

     

    São eles:

    – O Dr. Sampaio – não, não é o do golpe de estado, é o outro, o psiquiatra “progressista” que se tornou conhecido depois de o irmão ter ganho as eleições;

    – A dona Maria de Belém, a voz de cana rachada mais desagradável da Nação, com assento permanente, que horror, na SIC Notícias;

    – O escritorzinho de barbas Jacinto Lucas Pires, muito bem lançado no mercado por causa do pai, o qual, dizem informações credíveis, anda no céu a protestar pelo filho que Deus lhe deu.

     

    Nas esclarecidas palavras do candidato, a sua é uma “candidatura de cidadania”.

    Razão pela qual escolheu este brilhante trio, oriundo da “cidadania” e formada, sem excepção, por membros ou apoiantes do PS.

    O Pires tem a particularidade de, confessadamente, ter um pó de morte aos comunistas do Bloco de Esquerda, que considera “conservadores”, “trauliteiros” e “retrógrados”, gente que “não percebe que as cartilhas de antigamente já não fazem sentido”. Vai ser, como é natural, o companheiro ideal do Louça nos comícios do Alegre. Por outro lado, o insigne jovem acha que o PS é “um mal menor”. Não podia ter sido mais bem escolhido.

    A dona Maria, “militante do PS”, trabalhou activamente contra o PS nas últimas presidenciais, assim demonstrando uma coerência por certo muito útil ao candidato.

    O Sampaio, esse, não se sabe o que dele se pode esperar. Talvez uns conselhos clínicos ao saco de gatos de que faz proeminente parte. Já não era nada mau.

     

    16.6.10

     

    António Borges de Carvalho

  • UNIÃO NACIONAL

    À volta do senhor Pinto de Sousa ergueu-se uma verdadeira muralha de aço, coisa que o coronel Gonçalves nunca conseguiu, nem com cantigas de mau gosto gritadas pela turbamulta.

    Nem o PS, nem o PC, nem o BE, nem o PSD, nem o CDS querem que o homem caia. Nem o Presidente da República.

    O PS, tão farto do homem como os outros, porque não se quer arriscar a levar uma tunda.

    O PC e o BE, porque, por um lado, não querem que a direita ganhe as eleições e, por outro, ficam contentíssimos com o apodrecimento da situação e com as hesitações da “burguesia”. Quanto pior melhor.

    O PSD porque… não se percebe bem porquê. Tem medo? Acha preferível vegetar na porcaria em que estamos? Está à espera que o Passos aprenda inglês?

    O CDS porque deve pensar que, quanto mais o PSD ajudar o senhor Pinto de Sousa, mais votos lhe caem no saco.

    O PR porque, primeiro, tem como único verdadeiro objectivo “nacional” a sua própria reeleição, segundo, porque tem da “estabilidade” uma noção que não cabe na cabeça nem do mais bronco dos cidadãos.

     

    É esta a união nacional em que vivemos.

     

    Sem que ninguém dê ou queira dar por isso, ao contrário do que por cá se vai dizendo, não há um único dirigente europeu a quem o senhor Pinto de Sousa não desperte sentimentos de troça e de caridoso menosprezo. A triste galhofa é mais que muita por essa Europa fora. Lembram-se como a Merkel, o Sakozy e os demais se riam nas costas do homem enquanto ele debitava inanidades sobre o “Magalhães” em inglês técnico?

    O nosso maior problema, o que, antes de mais, faz com que as agências de rating e instâncias do estilo nos desprezem, é termos o primeiro-ministro que temos e, ainda por cima, andarmos com ele ao colo, a começar no Presidente da República e a acabar no relator da comissão de inquérito. A união nacional dos nossos dias.

    A nossa inteligentsia não percebe que, com Pinto de Sousa, não é, simplesmente, possível ir seja onde for quer não seja para o buraco, mesmo que os drs. Soares e Lopes se desunhem a dizer que não precisamos do FMI para nada. Quando apanharmos com ele no focinho, o que está cada vez mais perto, não se sabe o que dirão.

    Por isso que a nossa primeira necessidade seja livrarmo-nos de quem nos mente, nos humilha, nos faz perder o que nos resta de credibilidade externa, de quem nos coloca como único país europeu capaz de suportar sem reagir um primeiro-ministro ignorante, patusco, cheio de rabos de palha, a quem a única coisa que interessa é aguentar-se no poleiro, mesmo que para tal não tenha a mais leve sombra de preparação ou idoneidade.

     

    Enquanto isto não for percebido, com mais impostos ou menos impostos, com mais despesa ou menos despesa, com mais gente aos gritos ou menos gente aos gritos, não haverá qualquer resquício de esperança.

     

    Mas vivemos em “união nacional”, digo eu. E em “estabilidade política”, dizem eles.

     

    Que seca!

     

    14.6.10

     

    António Borges de Carvalho

  • ANTÓNIO BARRETO

    Conheci o doutor António Barreto em 1975, era ele um jovem entusiasta socialista em campanha eleitoral em Trás-os-Montes. Conheci dele os tios, Gramacho e Taborda, dois indefectíveis monárquicos. Conheci a avó, uma senhora à antiga, que já tinha ficado viúva três vezes e dominava os filhos como se fossem rapazinhos.

    Depois, vi-o como Ministro da Agricultura. Assisti, como todos os que já não são novos, às vicissitudes de “lei Barreto”. Fisicamente, nunca mais o vi. Mas, como toda a gente, “vi” a sua carreira académica, o seu afastamento do PS, os seus magníficos programas na televisão, a sua independência intelectual, a sua honestidade pensante. Admirei as suas intervenções nos jornais e o seu portal sobre nós, obra de extraordinário valor. Fiquei passado de tristeza quando o vi apoiar o Sá Fernandes.

    É um Homem admirável.

    Vi-o, vimo-lo agora, a prestar homenagem aos combatentes no Dez de Junho oficial. Pela primeira vez e pela sua mão, a nossa indigna e tristíssima República “cedia” a contemplar os que sofreram a guerra em nome de Portugal e da sua indigna e teimosíssima República.

     

    Um pequeno senão: o doutor Barreto, sendo um refractário a tal guerra, deveria, a meu ver, retratar-se, pedir desculpa ao soldado desconhecido que foi para a guerra e que até pode lá ter deixado a vida em vez dele. Não poucos foram os que lá bateram com os costados sem concordar com tal guerra. Mas foram porque era a sua vez, foram para que outros não pagassem o preço da sua fuga.

    Sem diminuir Barreto, acho que deveria pensar duas vezes e completar o nobre gesto da homenagem que motivou com um pedido de desculpas aos que não foram, mas poderiam ter sido, seus companheiros de armas. E ao desconhecido que lá esteve em seu lugar.

     

    14.6.10

     

    António Borges de Carvalho

  • ORGULHO E SALOIICE

    Anda a pátria inteligentsia impante de orgulho com o facto de haver um comissário europeu que se retratou depois de ter dito que Portugal precisava de reformas nas leis laborais e na segurança social. Não faltam loas ao governo e à ministra que, ufanos, se gabam de ter metido o comissário “na ordem”.

    Como toda a gente sabe que, tanto uma como outra das sugestões do fulano têm mais que razão de ser, isto é, são fatais como o destino, a que se deve tal retratação, se nela pensarmos duas vezes?

    A resposta é fácil. Alguém lhe deve ter dito que se trata dessas coisas nos gabinetes e não nas conferências de imprensa. “Oh pá! aguenta, que eles hão de vir comer à mão!” deve o patrão Barroso ter dito ao seu subordinado. Ou alguém por ele. “As coisas feitas assim, à bruta, podem sair-nos pela culatra!”

    Foi o que aconteceu. Da esquerda à direita, todos enfiaram o barrete.

     

    14.5.10

     

    António Borges de Carvalho

  • DO SEXO E DO SÉCULO

     

    Antigamente, as meninas e os meninos eram educados pelas catequistas, os professores e os pais.

    O sexo era uma coisa vaga, misteriosa e, as mais das vezes, fruto de terríveis pecados.

    Crescendo, os meninos e as meninas começavam a dar cada um a sua interpretação ao que lhes tinham ensinado, ao mesmo tempo que descobriam em si próprios impulsos e instintos novos, surpreendentes, que, levavam a experimentações mais ou menos lúdicas, mais ou menos felizes, mais ou menos inquietantes, mais ou menos aflitivas.

    Falava-se nessas coisas à socapa, nos liceus e nas escolas. Cada um ia aprendendo, aos poucos, o que a sexualidade de cada um impunha, umas vezes tornando-se, com o andar do anos, promíscuos e libertinos, outras praticando ou exagerando as normas restritivas que lhes tinham sido ensinadas, outras nem uma coisa nem outra, algo lá pelo meio, que é o que acontecia à maioria das pessoas.

    Descobria-se aos poucos esse mundo sensorial individual e a forma de se relacionar com os correspondentes mundos dos outros. No fundo, toda a gente conservava um certo recato, ou por se tratar de terrenos onde imperava o “fruto proibido”, ou por mero respeito por si próprio, ou por respeito pelos demais, ou por ter a instintiva noção de que se tratava de coisa individual e pouco comunicável.

    Quem não quisesse procriar mas não se coibisse de actividades, ou comprava “camisas” aos vendedores de gillettes que pululavam no Rossio, ou ia àquela farmácia especial onde se vendiam velinhas “erbon” ou coisas do género, ou tinha relações furtivas com prostitutas desinfectadas pelo governo.

     

    Não seria bonito, mas havia um gosto, um gozo inigualável na progressiva descoberta que cada um ia fazendo de si mesmo.

     

    Depois, descobriu-se a pílula, inventou-se uma série de gadgets, legalizou-se o aborto, protegeu-se as relações de facto, promoveu-se o divórcio, etc., tudo acabando entre nós, para já, na “normalização” dos defeituosos sexuais.

     

    Ou seja, mercê de vários “avanços civilizacionais” e “educativos”, aboliu-se a descoberta.

    O sexo vai passar a ser uma coisa tipo Mocidade Portuguesa, onde as criancinhas, em vez de marchar e cantar hinos patrióticos, passam a ser “esclarecidas” sobre as várias modalidades das práticas sexuais, a todas se atribuindo o mesmo valor, e todas sendo “normais” e “naturais” desde que se não tenha filhos. Tudo na certeza que, em caso de “engano”, há sempre ou a pílula do dia seguinte ou uma raspagem à disposição com 200 euros de incentivo estatal.

     

    Nesta senda, fiquem os meus leitores a saber que, no próximo ano lectivo, os vossos filhinhos, quer vocês queiram quer não, serão devidamente instruídos sobre matérias tão importantes como a reprodução e os seus perigos, o sexo “ao natural” e as suas várias posições, mais o oral e o anal, e, enfim, como não podia deixar de ser, sobre toda a necessária parafernália de instrumentos, medicamentos, artefactos e conselhos higiénicos, preventivos e curativos.

    Exemplificando, as vossas criancinhas, tal como se passou com o “Magalhães”, vão levar para casa uma maleta especial onde podem encontrar literatura extensiva sobre a matéria, devidamente ilustrada, além de um preservativo feminino, outro masculino, um “modelo peniano” próprio para a higiénica prática da masturbação, um adesivo indutor de hormonas “inspirativas”, uma embalagem de pílulas, um “dispositivo intra uterino”, um “anel vaginal” e um pacote de “óvulos espermicidas”. Tudo com as devidas instruções para uma utilização prática e segura.

    As vossas criancinhas vão fartar-se de fornicar em segurança. Vão divertir-se como umas doidas. Vai ser uma maravilha.

     

    O IRRITADO deixa a cada um o julgamento moral, sociológico e educacional desta profunda evolução, bem como a projecção das suas consequências a curto, médio e longo prazo.

     

    Mas confessa que tem muita pena que a descoberta de si deixe de ser feita por cada um, aos poucos, de surpresa em surpresa, de gosto em gosto, de inquietação criadora em inquietação criadora, de falhanços e de vitórias, nessa coisa maravilhosa que é o nascimento da consciência e da maturidade, e passe a ser o mero pôr em prática de ensinamentos recebidos nas escolas, sem que os pais se possam pronunciar, como se se tratasse de aritmética ou de inglês.

     

    9.6.10

     

    António Borges de Carvalho

  • HISTÓRIA “À LA MANIÈRE”

     

    Calcule-se o choque, a indignação, a ofensa dos ilustres membros do Bloco de Esquerda quando souberam que, em Aveiro, integrados nas comemorações dos cem anos de República, ia haver uns cortejos históricos entre os quais um com umas meninas e uns meninos mascarados com fardas da Mocidade Portuguesa, empunhando bandeiras e outros artefactos da época.

    Os camaradas, pela boca de um obscuro fulano, Pedro Soares de seu nome, deputado (!?), dizem tratar-se de um “revisionismo inaceitável da história”, e revoltam-se com o facto de haver no tal cortejo “crianças do terceiro ano, ainda com pouca crítica histórica e política”.

    Os ilustres comunistas do Bloco, demonstrando elevada cultura, acham que “é muito discutível que se considere o Estado Novo como República”.

    Ocorre, antes de mais, perguntar a tal gente o que anda ela a comemorar: os cem anos de quê? Se o Estado Novo não era uma república, então só podem comemorar aí uns 52 anos. Se se juntar à não República o período do Sidónio Pais, conhecido como “presidente-rei” (que horror!), ficam só com 50 anos para comemorar. Coitados.

    O Estado Novo serve, assim, dois objectivos “educacionais” opostos: mostrar que, para efeitos histórico filosóficos, não foi uma república mas, para efeitos de contas republicanas, foi. Ou seja, se se quer gastar umas massas em maluquices comemoratórias, qualquer coisa serve, menos a honestidade, coisa à primeira vista tão simples.

    Resta aos camaradas, por outro lado, demonstrar que o Estado Novo não se chamava “República Portuguesa” e que o Marechal Carmona e seus sucessores não eram “Presidentes da República”. Outra solução será dizer que o General Craveiro Lopes era filho do Marechal Carmona e este avô do Almirante Tomás, integrando a V Dinastia.

     

    Os comunistas sempre foram e serão assim, aliás seguidos de perto pelos jacobinos e outros “netos” do glorioso Afonso Costa. A História, para eles, é o que lhes convenha, não o que aconteceu. Se for preciso riscar o Estado Novo da História, óptimo.

    Deve ser esta a filosofia dos ilustres “historiadores” bloquistas, como o Rosas e o Tavares. Nem que para isso tornem indemonstrável a existência dos cem anos que comemoram, com grande cópia de dinheiro e de realizações “culturais”.

     

    À boa maneira soviética e ratal (de largo do rato, ainda que por lá andem inúmeros comandantes de castelo), o que não interessa, risca-se. Portugal não existiu entre 1926 e 1974. Como a Constituição, estupidamente, diz que Portugal é uma República, se o Estado Novo não era uma República, o país não existiu durante ele. Já agora, se Portugal é uma República, o que havia antes do 5 de Outubro não era Portugal. Ou seja, somos, não uma Nação com quase 900 anos de vida, mas uma jovem República, com uns meros 50.

     

    É uma tristeza. As aldrabices que se inventa para vangloriar o que não merece! As trafulhices que se congemina para varrer o que se odeia! Que gente!

     

    Para acabar, uma referência às “comemorações” aveirenses. Parece que vai haver uma recriação histórica da República, que inclui, pelo menos o regicídio, o 5 de Outubro, a primeira república, a segunda, os congressos da oposição e a actualidade.

    Deseja o IRRITADO que, em Aveiro, haja algum respeito pela História, ao contrário do que se passa no largo do rato e na cabeça dos comunistas do Bloco.         

     

    8.6.10

     

    António Borges de Carvalho

  • DIREITOS TORTOS

     

    Um magote de diáfanas criaturas reuniu, em delicado ágape, com Sua Excelência o primeiro-ministro.

    Recentemente contemplados com a perversão legal do instituto civil do casamento, os representantes das coligações de pederastas e fufas tiveram a subida honra de partilhar as primo-ministeriais iguarias e de dar um passeio pelas sombras refrescantes dos jardins da oficial residência, em suave comunhão de sentimentos com o seu doce anfitrião.

    O IRRITADO sugere que esta prática se torne habitual, isto é, o senhor Pinto de Sousa, coerentemente, devia convidar os representantes de outras categorias de cidadãos beneficiados pela sua douta legislação, como as abortadeiras, os tipos dos cartéis, os boys, além de outras distintas classes sociais que devem maravilhas, de uma forma ou de outra, ao seu governo. O IRRITADO compreende que tal acto de justiça seja de difícil execução dadas as obrigações de agenda de Sua Excelência. Além disso revelar-se-ia oneroso para o Estado, o que, não preocupando o senhor primeiro-ministro, seria pouco popular nos tempos que correm.

    Escolheu Sua Excelência, simbolicamente, os defeituosos sexuais, com quem tem particular empatia. Está no seu direito. Diz-me com quem andas…

     

    Nas umbrosas áleas dos seus oficiais terrenos, Pinto de Sousa confessou orgulhosamente que a lei do “casamento”, passando a abranger uniões abstrusas, torna “a sociedade melhor”. Em quase duzentos países, somos o oitavo a conferir estes “direitos” à malta do arco-íris. Grande salto civilizacional que ficamos a dever ao senhor Pinto de Sousa!   

     

    *

     

    Falando de direitos, ocorre perguntar se os casais propriamente ditos não têm direito ao direito que o senhor Pinto de Sousa lhes roubou: o de estar cobertos por um instituto jurídico com determinada configuração, a qual o senhor Pinto de Sousa tornou obsoleta. Por outras palavras, os casais propriamente ditos têm (ou tinham) um estatuto que lhes foi reconhecido pelo Estado, em certas condições e com certas características, partindo de direitos que lhes foram reconhecidos.

    E agora? Terá o Estado o direito de alterar a seu bel-prazer os direitos de cada um, isto é, pode o Estado mudar, para os que são casados, a natureza mais profunda do seu contrato?

    A resposta é, evidentemente, não, não pode, ou não devia poder.

    Só totalitariamente se pode confundir duas coisas de natureza diferente e até oposta.

     

    O que o senhor Pinto de Sousa fez não foi dar a uns um direito que não tinham.

    Foi negar a outros um direito de que gozavam.

     

    *

    Ontem “casaram” duas fulanas e dois fulaninhos. Em nome da República, como consta do protocolo em uso.

    As raparigas “casaram”, mas aproveitaram logo para protestar. Sim, protestar. É que acham extremamente injusto que as filhas (cada uma tem uma), pobres meninas, não sejam filhas das duas! Isto é, que os respectivos pais, conhecidos ou não, não continuem a ser pais delas! Como se um homem e uma mulher ao casar em segundas núpcias, tendo já filhos, estes deixassem de ter pai ou de ter mãe, para passar a ser filhos de outro, ou de outra.

    Donde se conclui que a procissão ainda vai no adro. Com gente como o senhor Pinto de Sousa a (des)governar, acabaremos por tirar os filhos aos pais, os pais aos filhos, acabaremos por ver filhos com duas mães, adoptivas ou não, e com dois pais, adoptivos ou não.

    Tudo devidamente reconhecido e acarinhado pela República.

    Tudo em nome do “direito”.

    Tudo com a bênção do Tribunal Constitucional.

    Tudo com a veneranda assinatura do professor Cavaco Silva.

     

    Bonito!

     

    *

     

     

    Acerca dos dois fulaninhos que se “casaram” no Porto, o IRRITADO não tem dados. Mas supõe que afinem pelo diapasão das fulanas.

     

    *

     

    O IRRITADO deseja a todos as maiores felicidades utero-intestinais.

     

    8.6.10

     

    António Borges de Carvalho

  • REALPOLITIK

    O camarada Pinto de Sousa, regurgitando de amizade e gratidão, agradeceu ao Chaves a subida benesse de ter autorizado a transferência de um milhão de dólares reunido pelos portugueses da Venezuela para auxílio à reconstrução da Ilha da Madeira.

     

    Prova-se assim:

    a)   Que o camarada Pinto de Sousa se põe debaixo do Chaves por dá cá aquela palha, como se fosse algum favor deixar sair o dinheiro;

    b)   Que o Chaves tem poder para impedir que os donativos dos portugueses sejam entregues a quem de direito;

    c)   Que, na Venezuela, como em todos os países comunistas ou a caminho de o ser, não há qualquer sombra de liberdade de circulação de capitais;

    d)   Que quem fizer economias na Venezuela está nas mãos do poder totalitário do Chaves para as poder utilizar;

    e)   Que a Venezuela, sob a gestão do Chaves, não merece a mais remota sombra de confiança;

    f)    Que o Chaves jamais pagará o que deve, a não ser que lhe apeteça;

    g)   Que os portugueses que andam atrás do Pinto de Sousa a fazer negócios na Venezuela vão pagar com língua de palmo a ingenuidade própria e as maluquices do homem.

     

    Os mil e não sei quantos milhões de euros que a comitiva de incautos que foi atrás do Pinto de Sousa a Caracas conseguiu não valem a ponta de um chanfalho. São mera propaganda.

     

    A prová-lo, aí estão outros negócios já feitos, os quais, praticamente sem excepção, ou estão suspensos, ou encravados na burocracia chavista, e só andarão para a frente se o ditador quiser, quando quiser, e pelo valor que quiser.

    Ai dos que o conseguirem! Quando chegar à altura de cobrar…

     

    6.6.10

     

    António Borges de Carvalho

  • MEMÓRIAS DE PREC

     

    A certa altura dos idos do PREC deu-se uma coisa extraordinária: o MFA convocou os partidos para “negociações”. Tal era o poder das armas.

     

    Revelava-se a verdadeira face do movimento, ou de quem nele mandava. Os militares, que tinham começado por dar aos incautos portugueses a imagem de quem surgira para entregar o poder ao povo, preparavam-se para se “institucionalizar”, isto é, para se perpetuar no poder. Havia que assegurar a natureza socialista do golpe militar de 25 de Abril, transformando a esperança de liberdade e pluralismo em marcha “popular” para os amanhãs que cantam, fosse ou não essa a vontade dos portugueses.

    Em concreto, tratava-se de “negociar” um “pacto” entre os partidos políticos e os militares, a fim dar uma imagem “democrática” à transformação do golpe, que as pessoas tinham por libertador, em revolução bolchevista.

     

    Lá fui, em representação do meu partido (fui fundador do PPM, em 74 e expulso dele em 85, por falta de “fé ecológica”), às ditas negociações.

    Primeiro, fui recebido por um tipo da Força Aérea, capitão, ou major, já não sei, Pereira Pinto de seu nome. Meia dúzia de palavras depois, percebia-se que se tratava de um leninista convicto, ainda que de falas mansas e bem-educadas. Tratando-se de “uma primeira abordagem”, não havia muito a dizer. Regressei à base para fazer o relatório aos meus colegas.

    Num dos dias seguintes, fui convocado para continuar as “negociações”, já lido e mal digerido o texto do “pacto” proposto. Em duas linhas, o que o MFA queria era “vigiar” a democracia, a fim de não haver desvios “reaccionários”. Para tal era criado o “Conselho da Revolução”, exclusivamente constituídos por militares, os quais deviam obediência ao MFA e não a qualquer poder eleito ou minimamente democrático. Os movimentos políticos eram “bem-vindos”, desde que se ativessem às normas do “pacto” e actuassem de forma a não prejudicar os objectivos do MFA, fossem eles quais fossem.  As eleições eram “aceites”, desde que não pusessem em causa a marcha triunfante da revolução.

     

    Lembro-me, como se fosse hoje, do meu interlocutor em tais “negociações”: o almirante Rosa Coutinho.

    Riso alvar, gargalhada fácil, troça permanente de quem lida com “inferiores”, ou seja, com quem poder não tem e está perante o poder total.

    Postas as minhas reticências ao inacreditável texto, o homem desatou a rir como, imagino, se riria Satanás ao ver espetar ferros em brasa no rabo dos condenados. Pelo menos, foi a sensação que me causou.

    “O que é que você queria? Que o MFA tivesse feito a revolução para se arriscar a que o poder caísse nas mãos de quem o não merece só por causa de eleições? Está muito enganado! O caminho é para o socialismo e o resto é conversa! Aqui está o texto para assinar. Não é para discutir. Vocês foram chamados, e estão com muita sorte, para tomar conhecimento, para ouvir detalhes, se quiserem, não para alterar o que aqui está!”

    Assim se exprimia o meu interlocutor, ao mesmo tempo que deixava cair ameaças várias sobre quem não quisesse “alinhar”. Ou estás connosco ou contra nós.

     

    Nunca tinha tido tanto medo. Um medo que ultrapassava os medos que se tinha no Norte de Angola nos idos de 60, um pavor que não tinha nada a ver com o medo ansioso da morte ou do combate.

    Era o medo que se me entranhava na pele perante o negrume de um futuro desgraçado, o medo de ter apoiado, com as minhas ilusões, não os que nos traziam um futuro livre, mas algo de repugnante e maléfico, algo que a bota daquele homem horrível em cima do nosso pescoço representava.

     

    À saída do IDN, onde estava estacionado o estado-maior das “negociações”, encontrei o Salgado Zenha, que saía de reunião paralela. Confessei-lhe o meu pavor. Disse-lhe que não era possível a democrata algum assinar aquela coisa.

     Zenha sorriu.

    “Meu jovem amigo, tem você toda a razão. Mas, entre ir parar ao Campo Pequeno às mãos desta gente, ou ter a possibilidade de, com as armas dela, a contrariar, não acha que mais vale a segunda hipótese?”

    Fiquei escandalizado.

    “Um homem com o seu passado vai assinar esta merda?”

    Zenha sorriu de novo.

    “O que arriscamos não assinando é muito mais do que perdemos se o não fizermos, não percebe? Esta gente não tem escrúpulos. Mas há, no meio deles, alguns que serão capazes de resistir e de ser aliados de quem defende a liberdade. Pense nisto”.

     

    Não aceitei o conselho. Levei o meu partido a recusar assinar o vergonhoso “pacto”.

     

    Zenha tinha razão. O “Pacto MFA/Partidos” era preferível à guerra civil ou à pura, simples e imediata ditadura comunista. Seria? Hoje, a já tão grande distância, sou levado a pensar que sim.

     

    O resultado foi, por um lado, ter sido possível estancar o sovietismo primário de Coutinho, Gonçalves e tantos outros. Por outro, foi esta coisa estranha em que vivemos. Foi o preâmbulo da Constituição, que se mantém décadas e três ou quatro revisões depois, a apontar-nos, compulsivamente, para uma sociedade socialista. Foi esta estranha coisa do semi-presidencialismo (ou semi-parlamentarismo?) à portuguesa. Foi uma bebedeira de “direitos sociais” que, sem que a utopia se cumprisse, inquinaram o nosso futuro económico. Foi a ruína das nacionalizações, que só conheceu alguma, tímida, abertura em 82, e que continuou, por imposição do PS, por mais sete anos. Foi a destruição do dinheiro e da iniciativa nacional, que foram à procura de novos horizontes.

    É verdade que muito se realizou e muito se progrediu. É evidente que não se instituiu a tirania. Mas, como agora está patente aos olhos de todos, o que se realizou e o que se progrediu era de papelão, papelão que, já ninguém duvida, se vai desfazer na tempestade em que vivemos.

     

    No momento em que, por todo o lado, se tece loas ao defunto almirante, como soe fazer-se com a generalidade dos mortos, pergunto a mim mesmo o que seria hoje o meu país se tal almirante e sua gente não tivessem tido a armada oportunidade de se apoderar, num certo momento histórico, da totalidade da soberania que nos tinham prometido.

     

    6.6.10

     

    António Borges de Carvalho

     

  • DA RESPONSABILIDADE CIVIL

     

    Dizem as finanças que só há noventa mil casais registados como união de facto.

    Se tivermos em conta que as uniões de facto só se registam nas finanças e em mais nenhuma parte, haverá que concluir que a lei fiscal protege gente que, tendo em vista benefícios, se “regista”. Pela mesma ordem de ideias, dizem as finanças, as restantes uniões de facto, que são muitas mais, não se “registam” por achar que não beneficiam com isso.

     

    Quer isto dizer que a lei civil protege a responsabilidade à la carte.

    Os “cônjuges” são livres de escolher quando o são e quando o não são, segundo as conveniências de cada momento. Passam de solteiros a casados, e outra vez a solteiros, e outra vez a casados, à medida das conveniências e das oportunidades. Um privilégio que aos demais não é dado.

     

    O casamento civil tem efeitos na esfera jurídica de cada cidadão. Não é só um contrato entre duas pessoas, é um contrato entre elas e a sociedade, uma vez que altera a relação entre elas e o mundo exterior ao casal, simultaneamente modificando as obrigações e as presunções legais da sociedade em relação aos contraentes.

    Ora as uniões de facto são contratos informais, válidos inter partes, oponíveis a terceiros, ou não, à vontade do freguês.

     

    Não é, nem moral nem civilmente aceitável que as pessoas assumam as suas obrigações perante a sociedade quando lhes convém, sendo livres de não as assumir quando assim não é.

    Os que se casaram, assumiram implicitamente um estatuto jurídico que os obriga perante terceiros a título permanente, ou até que, nos termos da lei, ponham fim ao contrato.

     

    À lei não compete posicionar-se em relação ao amor ou a outras ordens de razões que levem duas pessoas a viver juntas. Mas compete-lhe, ou devia competir-lhe, distinguir entre as que assumem a sua união perante a sociedade e as que assim não procedem. A lei civil poderia e deveria ocupar-se das consequências das uniões entre pessoas, fossem elas matrimoniais ou de outra natureza, desde que tais uniões assumissem as suas responsabilidades e o corpo de direitos que a lei civil determinasse para cada caso, na condição de serem tornadas públicas, isto é, registadas, por via de casamento ou outra.

    Razão pela qual as uniões de facto deveriam ser juridicamente irrelevantes, ou inexistentes.

    A equiparação das uniões de facto ao casamento constitui uma negação de direito aos que se casam e uma ofensa grave aos interesses da sociedade civil.

     

    É sabido que, no estado de desagregação da sociedade, ou de degradação das responsabilidades individuais em que vivemos, dizer estas coisas não só é inoperante como considerado retrógrado e objecto das mais duras críticas.

    Por isso, é uma idiotia ou um arcaísmo do IRRITADO vir assim, sem mais nem menos, pronunciar-se sobre o assunto.

    Não vale a pena, a não ser para consolo da mente perturbada do IRRITADO, que não compreende os benefícios da moral vigente, tão exemplarmente expressa nas uniões de facto e no “casamento” de quem casar não pode.

    Já não é pouco. Afinal valeu a pena.  

     

    5.6.10

     

    António Borges de Carvalho

  • OS RIDÍCULOS

     

    Não sem a sua lógica, as eleições presidenciais começam a mostrar a sua verdadeira natureza de risível e contraproducente inutilidade.

     

    Os maus sentimentos de Soares conhecem um dos seus já tradicionais picos. A frustração de há 4 anos impera na mente ínvia do senhor. Não digeriu a derrota, o que é ridículo. Tomou de ponta o Alegre, o que se compreende, mas não deixa de ser ridículo. Não é aceitável que dê à casca como dá. Ainda por cima com o argumento que usa: Alegre vai contribuir para a queda de Pinto de Sousa.

    Ridículo. A Nação inteira, dos partidos comunistas à direita mais direita, sem excepção, anseia pela queda de Pinto de Sousa. Até o PS, ressalvadas que sejam umas centenas de boys, não deixa de estar ansioso. O drama da Nação é não saber como nem quando se vai ver livre do inacreditável cidadão. Quereria que fosse já, mas tem medo das reacções externas. Um drama. Um ridículo drama.

    Se, como diz Soares, Alegre contribui para esse objectivo nacional, então a alegre candidatura, enquanto tal, é bem-vinda.

     

    O Pinto de Sousa, esse, leva o ridículo ainda mais alto. Não há quem não saiba que tem um ódio visceral ao Alegre desde os tempos já recuados da história da co-incineração, um dos feitos de estimação do, à altura, ministro dos negócios do ambiente.

    Passado mais de 4 meses da gloriosa apresentação da alegre candidatura, Pinto de Sousa vem, subitamente, descobrir que lhe dá um “apoio convicto”.

    É claro que teve que recorrer, à maneira do PC, ao voto de braço no ar, contra todos os proclamados princípios. Pudera! Se o voto fosse secreto, como em assembleias civilizadas se usa quando se trata de votos sobre pessoas, outro galo cantaria. Pinto de Sousa não quis arriscar. Se ficasse sem Alegre ficava descalço.

    Por tudo isto, quando se diz “convicto”, ou é aldrabão, o que é verdade, ou é ridículo, o que também é verdade. Ou as duas coisas, o que é a verdade.

     

    O putativo candidato Cavaco Silva, depois de se ter coberto de ridículo e de opróbrio com as ridículas e absurdas desculpas que foi arranjar para aprovar a destruição do conceito de casamento, continua a fingir que anda mais preocupado com o mau estado da Pátria que com a eleição presidencial. Não há quem ainda não tenha percebido que Cavaco se levanta, passa o dia, e se deita sem pensar noutra coisa. Até nos sonhos e nos pesadelos a eleição o deve assaltar.

    Não podia ser mais ridículo nem andar mais longe daquilo que se poderia pensar ser sua obrigação.  

     

    Aparece agora um movimento de contornos difusos a querer arranjar um candidato que, sem ser de esquerda, seja contra Cavaco.

    Começa esta gente por se declarar católica. Nada mais ridículo. O pretexto apresentado (a promulgação da porcaria) merece o nojo de muita, muita gente, por mera convicção moral, intelectual, civil e civilizacional. Gente de esquerda e gente de direita, ateus, agnósticos, católicos, metodistas, muçulmanos, hindus, budistas.

    Os tais católicos, que põem o rótulo para aparecer na política, são parvos ou ridículos. Ou andam a fazer fogo de vista, que é o mais provável. Ridículo.

     

    Uma ressalva. O Dr. Santana Lopes declara-se contra Cavaco e confessa que gostava que outro candidato lhe fosse às canelas. Com boas razões para tal. Não passa pela cabeça de ninguém que o Dr. Santana Lopes pudesse apoiar Cavaco, o mais violento dos seus inimigos, o homem da “moeda boa e da moeda má”, o homem que assistiu sem um protesto ao miserável golpe de Estado anti-democrático do seu antecessor, o homem que, como algumas tribos africanas, desconhece a palavra gratidão.

    Neste particular, o ridículo fica por conta do ilustre comentador Dr. Morais Sarmento. Sem conseguir conter a ridícula inveja que tem de Santana Lopes, aproveita para classificar a alternativa a Cavaco como “um epifenómeno peripatético”. Qualquer coisa me diz que este ilustre comentador não sabe, nem o que é um epifenómeno, nem o que quer dizer peripatético. Era preciso dizer qualquer coisa contra Santana, e foi do epifenómeno peripatético que o homem se lembrou, como se podia lembrar de outra parvoíce qualquer. Um dicionário seria um óptimo presente para este senhor.    

     

    No fundo, o problema que fica é o de saber se morder nas cavacais canelas vale a pena, mais que não seja pela honra do convento, ou se é melhor não perturbar a eleição de homem a fim de não arriscar ver o Palácio Real de Belém ocupado por um tão sinistro fala-barato como o senhor Alegre, ainda por cima às ordens do Louça.

     

    4.6.10

     

    António Borges de Carvalho

  • TRABALHOS DE GRANDE MONTA

     

    O IRRITADO não cabe em si de contente.

     

    Porquê?

    Resposta: a inenarrável Câmara costo-roseto-fernandasca vai “requalificar” a placa central da Praça de Londres!

    É o que reza um panfleto de publicidade não endereçada que, ilegalmente, foi metido na caixa do correio do IRRITADO.

     

    A “intervenção” “tem uma duração prevista de execução” – ignorante pleonasmo –  “de quatro meses”, “e vai transformar, de uma forma global e integrada”, a dita placa. Ninguém saberá dizer o que significa fazer umas jardinagens  de (“uma” está a mais) “forma global e integrada”. Mas demos isso de barato.

    Importante é saber que “a intervenção vai aumentar a consciência interna do jardim”. Sabem o que é a “consciência”, ainda por cima “interna” de um jardim? Eu também não. Se fosse “consistência” ainda merecia um esforço de interpretação, sobretudo para inconscientes como o IRRITADO.

     

    Mas há mais. Num gesto verdadeiramente inédito e inovador, a formidável câmara vai “implementar” – estranho inglesismo, sobretudo quando aplicado ao caso – relvados! Não, meus senhores, a CML não vai semear relvados, ou plantar relvados, vai implementá-los! Formidável inovação, gloriosa novidade, fantástica tecnologia! Mais, o relvado da câmara terá “capacidade de carga”. Não se sabendo o que este primor quererá dizer, é legítimo pensar que os propagandistas da obra querem significar que o povo poderá andar em cima da relva, ou deitar-se nela, coisa que, igualmente, constitui uma novidade universal, digna do Science Digest.

    Vai também ser criado um “efeito de interioridade”, dizem eles, o que muito anima o munícipe. Munido da “consciência interna” e do “efeito de interioridade”, mais facilmente poderá o munícipe interiorizar a excelência das camarárias benesses.

     

    Vejam bem:

    O ciclópico esforço da edilidade consubstanciar-se-á no plantio de “4 (quatro!) novas árvores”, no transplante, ó maravilha, de uma palmeira de médio porte (uma palmeira de médio porte!!!) e de um “arbusto de grande porte” (um arbusto de grande porte!) no arranque, que extraordinário feito paisagístico, de 2 (duas!) “árvores de pequeno porte com problemas fitossanitários” – extraordinário contributo para a fitossanidade das massas.

     

    In fine, que ternura, a CML, “lamenta eventuais incómodos” e  “solicita a maior compreensão dos Munícipes”, agora contemplados com maiúscula.

     

    Tudo isto em folhas de papel couché de 40 gramas, impresso a duas cores, coisa profusa e abusivamente metida na caixa do correio de cada um.

     

    Convenhamos que, tratando-se de tão ciclópicos trabalhos e de tão gigantesco melhoramento, é de enaltecer o procedimento.

     

    Cada um publicita o que é capaz de fazer, e escreve como é capaz de escrever.

     

    1.6.10

     

    António Borges de Carvalho

  • O IRRITADO E AS COMEMORAÇÕES

     

    Não sei por que carga de água insiste a distintíssima e riquíssima comissão das comemorações do 5 de Outubro em mandar ao IRRITADO convites para as suas actividades, “culturalmente” destinadas a convencer os papalvos das virtudes da golpada dos terroristas da Carbonária e dos burgueses ricos e cultos que a ela ficaram a dever o poder político. Coisa que tão mal usaram e tão torpemente ofenderam.

     

    Sob a pretensiosíssima epígrafe “Literatura Portuguesa e a Construção do Passado e do Futuro” (um primor de sabedoria gramatical), a gloriosa imanência do nacional primitivismo jacobino, em notável trabalho de casting, apresenta uma plêiade de senhoras e senhores, altas figuras da cultura republicana, que se propõem, para comemorar a coisa, utilizar a obra literária de figuras tão republicanas como Gil Vicente, Fernão Lopes, Fernão Mendes Pinto, Fernando Pessoa ou Sophia de Mello Breyner Andresen.

     

    Tudo isto com o nobre objectivo da “construção do passado e do futuro”.

    Se calhar o passado que a patriótica comissão gostaria que a República nos tivesse dado, não o passado do caos da sua primeira versão ou da ditadura da segunda edição da desgraçada coisa.

    Com certeza o futuro que a imaginação republicana, fazendo jus aos seus “maiores”, deve querer “construir”, e que, é lícito pensar, pedirá meças aos bons tempos da Carbonária ou da PIDE.

     

    Enfim, a comissão tem dez milhões de euros para se entreter. Há que gastá-los com estas manifestações de rigor histórico e de probidade intelectual.

    Sursum corda! É obra!    

     

    Obrigado pelo convite. Por óbvias razões de agenda o IRRITADO não poderá comparecer. Sentidas desculpas.

     

    1.6.10

     

    António Borges de Carvalho