Tenho pena que os jornais (os que comprei) não tragam o enunciado da prova de português do 12º ano. Só é transcrita a “proposta de correcção” adiantada pelo ministério aos professores encarregados (a poder de dinheiro) de corrigir as provas.
Deve chegar para fazer uma ideia da qualidade da coisa.
Uns mimos:
a) – “ – o Rei… deve reconhecer o valor dos seus súbditos, que, como se verificou no passado, reúnem qualidades para o fazerem ‘vencedor’, isto é, para reacenderem na Pátria o orgulho e a coragem.
b) “Relacionação com o sentido das estâncias 145 a 148:”
c) “constatação de um estado…”
d) “- a insensibilidade dos seus contemporâneos em reconhecerem os trabalhos…
Os alunos talvez mereçam passar. Os ‘pedagogos’ ou ‘técnicos’, ou ‘docentes’ do ministério merecem, de certeza, um chumbo.
Vejamos:
Em a), sujeito os súbditos; predicado reúnem; para, etc…, complemento circunstancial de fim. Porque carga de água conjugarão as doutas criaturas os infinitos de ‘fazer’ e de ‘reconhecer’? Predicados de quê? De nada. Aliás, os infinitos antecedidos de preposição não se conjugam! Não são não regidos pelo sujeito mas pelo verbo da oração!
Em d), a mesma coisa.
Em nenhuma língua latina é possível encontrar regra que cubra esta asneirada. Eu sei que há ‘filólogos’, como a dona Edite Estrela, que não dão pela coisa. Que credibilidade lhes assiste? Zero.
Quando eu era pequenino e andava na 4ª classe, só uma destas dava direito a duas ponteiradas no toutiço. Quanto mais três!
Em b), atente-se no rebuscado da palavra. Relacionação? A palavra existe, é certo, não se trata de um erro. Porque não relação, ou relacionar?
Em c), ‘constatação’, palavra que, agora, já existe. Não é erro. Não deixa, por isso, de ser um galicismo, portanto impróprio de uma prova de português.
Atentem nisto, se lhes apetecer:
“tratando-se de um item (demos o ‘item’ de barato) de resposta aberta extensa… o professor classificador de provas, ao classificar o texto do examinando… deve observar… o domínio das seguintes capacidades:
– estruturação de um texto com recurso a estratégias discursivas adequadas à defesa de um ponto de vista e reflectindo a operação de uma planificação produtiva;”
Observe a riqueza de conceitos. A ‘resposta aberta extensa’, onde, pelo menos, falta uma copulativa, é um primor de ignorância “discursiva”, ou de adjectivos de adjectivos. E o professor classificador… ao classificar? Então quando havia de ser? Ao tomar o pequeno-almoço? Ao ir à retrete? E o texto do examinando? De quem havia de ser? Do Tio Patinhas?
Agora leiam o texto acima, a começar em ‘estruturação’. Perceberam?
Se sim, é fora de dúvida que executaram uma “operação de uma planificação produtiva”, “com recurso a estratégias discursivas adequadas”.
Por mim, dou-lhes um doce!
Não é só a pobreza geral do documento enquanto texto “pedagógico”, são os erros, as calinadas, os pleonasmos, a indigência da redacção, a “vil tristeza” em que vivemos e em que os nossos miúdos são “educados”.
Xiça!
17.6.10
António Borges de Carvalho

Deixe um comentário