A certa altura dos idos do PREC deu-se uma coisa extraordinária: o MFA convocou os partidos para “negociações”. Tal era o poder das armas.
Revelava-se a verdadeira face do movimento, ou de quem nele mandava. Os militares, que tinham começado por dar aos incautos portugueses a imagem de quem surgira para entregar o poder ao povo, preparavam-se para se “institucionalizar”, isto é, para se perpetuar no poder. Havia que assegurar a natureza socialista do golpe militar de 25 de Abril, transformando a esperança de liberdade e pluralismo em marcha “popular” para os amanhãs que cantam, fosse ou não essa a vontade dos portugueses.
Em concreto, tratava-se de “negociar” um “pacto” entre os partidos políticos e os militares, a fim dar uma imagem “democrática” à transformação do golpe, que as pessoas tinham por libertador, em revolução bolchevista.
Lá fui, em representação do meu partido (fui fundador do PPM, em 74 e expulso dele em 85, por falta de “fé ecológica”), às ditas negociações.
Primeiro, fui recebido por um tipo da Força Aérea, capitão, ou major, já não sei, Pereira Pinto de seu nome. Meia dúzia de palavras depois, percebia-se que se tratava de um leninista convicto, ainda que de falas mansas e bem-educadas. Tratando-se de “uma primeira abordagem”, não havia muito a dizer. Regressei à base para fazer o relatório aos meus colegas.
Num dos dias seguintes, fui convocado para continuar as “negociações”, já lido e mal digerido o texto do “pacto” proposto. Em duas linhas, o que o MFA queria era “vigiar” a democracia, a fim de não haver desvios “reaccionários”. Para tal era criado o “Conselho da Revolução”, exclusivamente constituídos por militares, os quais deviam obediência ao MFA e não a qualquer poder eleito ou minimamente democrático. Os movimentos políticos eram “bem-vindos”, desde que se ativessem às normas do “pacto” e actuassem de forma a não prejudicar os objectivos do MFA, fossem eles quais fossem. As eleições eram “aceites”, desde que não pusessem em causa a marcha triunfante da revolução.
Lembro-me, como se fosse hoje, do meu interlocutor em tais “negociações”: o almirante Rosa Coutinho.
Riso alvar, gargalhada fácil, troça permanente de quem lida com “inferiores”, ou seja, com quem poder não tem e está perante o poder total.
Postas as minhas reticências ao inacreditável texto, o homem desatou a rir como, imagino, se riria Satanás ao ver espetar ferros em brasa no rabo dos condenados. Pelo menos, foi a sensação que me causou.
“O que é que você queria? Que o MFA tivesse feito a revolução para se arriscar a que o poder caísse nas mãos de quem o não merece só por causa de eleições? Está muito enganado! O caminho é para o socialismo e o resto é conversa! Aqui está o texto para assinar. Não é para discutir. Vocês foram chamados, e estão com muita sorte, para tomar conhecimento, para ouvir detalhes, se quiserem, não para alterar o que aqui está!”
Assim se exprimia o meu interlocutor, ao mesmo tempo que deixava cair ameaças várias sobre quem não quisesse “alinhar”. Ou estás connosco ou contra nós.
Nunca tinha tido tanto medo. Um medo que ultrapassava os medos que se tinha no Norte de Angola nos idos de 60, um pavor que não tinha nada a ver com o medo ansioso da morte ou do combate.
Era o medo que se me entranhava na pele perante o negrume de um futuro desgraçado, o medo de ter apoiado, com as minhas ilusões, não os que nos traziam um futuro livre, mas algo de repugnante e maléfico, algo que a bota daquele homem horrível em cima do nosso pescoço representava.
À saída do IDN, onde estava estacionado o estado-maior das “negociações”, encontrei o Salgado Zenha, que saía de reunião paralela. Confessei-lhe o meu pavor. Disse-lhe que não era possível a democrata algum assinar aquela coisa.
Zenha sorriu.
“Meu jovem amigo, tem você toda a razão. Mas, entre ir parar ao Campo Pequeno às mãos desta gente, ou ter a possibilidade de, com as armas dela, a contrariar, não acha que mais vale a segunda hipótese?”
Fiquei escandalizado.
“Um homem com o seu passado vai assinar esta merda?”
Zenha sorriu de novo.
“O que arriscamos não assinando é muito mais do que perdemos se o não fizermos, não percebe? Esta gente não tem escrúpulos. Mas há, no meio deles, alguns que serão capazes de resistir e de ser aliados de quem defende a liberdade. Pense nisto”.
Não aceitei o conselho. Levei o meu partido a recusar assinar o vergonhoso “pacto”.
Zenha tinha razão. O “Pacto MFA/Partidos” era preferível à guerra civil ou à pura, simples e imediata ditadura comunista. Seria? Hoje, a já tão grande distância, sou levado a pensar que sim.
O resultado foi, por um lado, ter sido possível estancar o sovietismo primário de Coutinho, Gonçalves e tantos outros. Por outro, foi esta coisa estranha em que vivemos. Foi o preâmbulo da Constituição, que se mantém décadas e três ou quatro revisões depois, a apontar-nos, compulsivamente, para uma sociedade socialista. Foi esta estranha coisa do semi-presidencialismo (ou semi-parlamentarismo?) à portuguesa. Foi uma bebedeira de “direitos sociais” que, sem que a utopia se cumprisse, inquinaram o nosso futuro económico. Foi a ruína das nacionalizações, que só conheceu alguma, tímida, abertura em 82, e que continuou, por imposição do PS, por mais sete anos. Foi a destruição do dinheiro e da iniciativa nacional, que foram à procura de novos horizontes.
É verdade que muito se realizou e muito se progrediu. É evidente que não se instituiu a tirania. Mas, como agora está patente aos olhos de todos, o que se realizou e o que se progrediu era de papelão, papelão que, já ninguém duvida, se vai desfazer na tempestade em que vivemos.
No momento em que, por todo o lado, se tece loas ao defunto almirante, como soe fazer-se com a generalidade dos mortos, pergunto a mim mesmo o que seria hoje o meu país se tal almirante e sua gente não tivessem tido a armada oportunidade de se apoderar, num certo momento histórico, da totalidade da soberania que nos tinham prometido.
6.6.10
António Borges de Carvalho

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