IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


MEMÓRIAS DE PREC

 

A certa altura dos idos do PREC deu-se uma coisa extraordinária: o MFA convocou os partidos para “negociações”. Tal era o poder das armas.

 

Revelava-se a verdadeira face do movimento, ou de quem nele mandava. Os militares, que tinham começado por dar aos incautos portugueses a imagem de quem surgira para entregar o poder ao povo, preparavam-se para se “institucionalizar”, isto é, para se perpetuar no poder. Havia que assegurar a natureza socialista do golpe militar de 25 de Abril, transformando a esperança de liberdade e pluralismo em marcha “popular” para os amanhãs que cantam, fosse ou não essa a vontade dos portugueses.

Em concreto, tratava-se de “negociar” um “pacto” entre os partidos políticos e os militares, a fim dar uma imagem “democrática” à transformação do golpe, que as pessoas tinham por libertador, em revolução bolchevista.

 

Lá fui, em representação do meu partido (fui fundador do PPM, em 74 e expulso dele em 85, por falta de “fé ecológica”), às ditas negociações.

Primeiro, fui recebido por um tipo da Força Aérea, capitão, ou major, já não sei, Pereira Pinto de seu nome. Meia dúzia de palavras depois, percebia-se que se tratava de um leninista convicto, ainda que de falas mansas e bem-educadas. Tratando-se de “uma primeira abordagem”, não havia muito a dizer. Regressei à base para fazer o relatório aos meus colegas.

Num dos dias seguintes, fui convocado para continuar as “negociações”, já lido e mal digerido o texto do “pacto” proposto. Em duas linhas, o que o MFA queria era “vigiar” a democracia, a fim de não haver desvios “reaccionários”. Para tal era criado o “Conselho da Revolução”, exclusivamente constituídos por militares, os quais deviam obediência ao MFA e não a qualquer poder eleito ou minimamente democrático. Os movimentos políticos eram “bem-vindos”, desde que se ativessem às normas do “pacto” e actuassem de forma a não prejudicar os objectivos do MFA, fossem eles quais fossem.  As eleições eram “aceites”, desde que não pusessem em causa a marcha triunfante da revolução.

 

Lembro-me, como se fosse hoje, do meu interlocutor em tais “negociações”: o almirante Rosa Coutinho.

Riso alvar, gargalhada fácil, troça permanente de quem lida com “inferiores”, ou seja, com quem poder não tem e está perante o poder total.

Postas as minhas reticências ao inacreditável texto, o homem desatou a rir como, imagino, se riria Satanás ao ver espetar ferros em brasa no rabo dos condenados. Pelo menos, foi a sensação que me causou.

“O que é que você queria? Que o MFA tivesse feito a revolução para se arriscar a que o poder caísse nas mãos de quem o não merece só por causa de eleições? Está muito enganado! O caminho é para o socialismo e o resto é conversa! Aqui está o texto para assinar. Não é para discutir. Vocês foram chamados, e estão com muita sorte, para tomar conhecimento, para ouvir detalhes, se quiserem, não para alterar o que aqui está!”

Assim se exprimia o meu interlocutor, ao mesmo tempo que deixava cair ameaças várias sobre quem não quisesse “alinhar”. Ou estás connosco ou contra nós.

 

Nunca tinha tido tanto medo. Um medo que ultrapassava os medos que se tinha no Norte de Angola nos idos de 60, um pavor que não tinha nada a ver com o medo ansioso da morte ou do combate.

Era o medo que se me entranhava na pele perante o negrume de um futuro desgraçado, o medo de ter apoiado, com as minhas ilusões, não os que nos traziam um futuro livre, mas algo de repugnante e maléfico, algo que a bota daquele homem horrível em cima do nosso pescoço representava.

 

À saída do IDN, onde estava estacionado o estado-maior das “negociações”, encontrei o Salgado Zenha, que saía de reunião paralela. Confessei-lhe o meu pavor. Disse-lhe que não era possível a democrata algum assinar aquela coisa.

 Zenha sorriu.

“Meu jovem amigo, tem você toda a razão. Mas, entre ir parar ao Campo Pequeno às mãos desta gente, ou ter a possibilidade de, com as armas dela, a contrariar, não acha que mais vale a segunda hipótese?”

Fiquei escandalizado.

“Um homem com o seu passado vai assinar esta merda?”

Zenha sorriu de novo.

“O que arriscamos não assinando é muito mais do que perdemos se o não fizermos, não percebe? Esta gente não tem escrúpulos. Mas há, no meio deles, alguns que serão capazes de resistir e de ser aliados de quem defende a liberdade. Pense nisto”.

 

Não aceitei o conselho. Levei o meu partido a recusar assinar o vergonhoso “pacto”.

 

Zenha tinha razão. O “Pacto MFA/Partidos” era preferível à guerra civil ou à pura, simples e imediata ditadura comunista. Seria? Hoje, a já tão grande distância, sou levado a pensar que sim.

 

O resultado foi, por um lado, ter sido possível estancar o sovietismo primário de Coutinho, Gonçalves e tantos outros. Por outro, foi esta coisa estranha em que vivemos. Foi o preâmbulo da Constituição, que se mantém décadas e três ou quatro revisões depois, a apontar-nos, compulsivamente, para uma sociedade socialista. Foi esta estranha coisa do semi-presidencialismo (ou semi-parlamentarismo?) à portuguesa. Foi uma bebedeira de “direitos sociais” que, sem que a utopia se cumprisse, inquinaram o nosso futuro económico. Foi a ruína das nacionalizações, que só conheceu alguma, tímida, abertura em 82, e que continuou, por imposição do PS, por mais sete anos. Foi a destruição do dinheiro e da iniciativa nacional, que foram à procura de novos horizontes.

É verdade que muito se realizou e muito se progrediu. É evidente que não se instituiu a tirania. Mas, como agora está patente aos olhos de todos, o que se realizou e o que se progrediu era de papelão, papelão que, já ninguém duvida, se vai desfazer na tempestade em que vivemos.

 

No momento em que, por todo o lado, se tece loas ao defunto almirante, como soe fazer-se com a generalidade dos mortos, pergunto a mim mesmo o que seria hoje o meu país se tal almirante e sua gente não tivessem tido a armada oportunidade de se apoderar, num certo momento histórico, da totalidade da soberania que nos tinham prometido.

 

6.6.10

 

António Borges de Carvalho

 



11 respostas a “MEMÓRIAS DE PREC”

  1. “…ver espetar ferros em brasa no rabo dos condenados…”É o que diz ter “…sentido”!!!O que acha que sentirá o Povo Português com todos (mas MESMO todos) os políticos que nos “representaram” pós 25 de Abril? Não “sentirá” o mesmo?

  2. Ah, esqueci-me…Temo que Pedro Passos Coelho também tenha aprendido na mesma escola!

  3. “O AMOR É FODIDO”Conhece o autor?

    1. Não há quem não comheça, dada a publicidade de que goza. Mas não sou leitor, nem apreciador de exibicionistas.

      1. O Pinto de Sousa é exibicionista?

  4. Discordo da sua análise em vários aspectos. De facto a revolução é a ausência do direito. Mas, pergunto-lhe: pensa que vive num estado de direito? Pensa que os direitos são iguais para todos? Pensa que os direitos expressos na Constituição são garantidos e protegidos pelo poder? Todas as revoluções nascem dos submissos e não dos que fazem as leis. Esses é que têm o dever de adequar a lei à realidade. Uma soberania exercida por políticos delinquentes: girondinos , jacobinos, estalinistas, trotskistas, émeéles vários que não enxergam para além do arbítrio do seu umbigo (ou ideologia já passada), por um lado e por juízes sindicalizados só poderá conduzir à ruína.

  5. Este pessoal dos comentários não viveu certamente o tempo em que com juras de liberdade nos iam alegremente arrastando para uma ditadura pior do que aquela de que nos livramos em 74. Eu sei que um dos reflexos do maldito pacto, foi ter afastado muita gente bem intencionada da politica permitindo que o que há de mais rasca na sociedade portuguesa chegasse ao cimo da administração. Sócrates e o seu detestável carácter , Ricardos Rodrigues e quejandos transformaram o Pais no que ele é hoje. Citando Helena Matos , que a terra seja leve a Rosa Coutinho, pois a História já o condenou.

    1. Avatar de daniel tecelao
      daniel tecelao

      Apesar de tudo este país está melhor que em 24 de Abril de 74!!!

      1. Eu não disse que estava pior, nem era esse o tema do escrito.Como estaria se não fosse o PREC e o que dele por aí ainda resta, que não é pouco?Dirá que é como dizer “se a minha avó tivesse rodas”…Talvez seja. Mas opinar não deixa por isso de ser legítimo. Ou não?O socialismo (o estatismo) é mau, quer seja de direita, como o do Estado Novo, quer de esquerda, como a coisa em que temos vivido nos últimos trinta e tal anos.

        1. Alto e pára o baile: de ESQUERDA? Está a dizer que o o Mário Chulares, o Cavaquistão, o Pântano do Guterres, o Mordomo Burroso, o Marreta Santana / Paulinho das Feiras, e o Pinóquio, são tudo faces da mesma “esquerda”? Que raio de esquerda é essa? Não quer antes dizer… o CENTRÃO PODRE, ambidextro e sempre constante, nos últimos 30 e tal anos?

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