Não sei por que carga de água insiste a distintíssima e riquíssima comissão das comemorações do 5 de Outubro em mandar ao IRRITADO convites para as suas actividades, “culturalmente” destinadas a convencer os papalvos das virtudes da golpada dos terroristas da Carbonária e dos burgueses ricos e cultos que a ela ficaram a dever o poder político. Coisa que tão mal usaram e tão torpemente ofenderam.
Sob a pretensiosíssima epígrafe “Literatura Portuguesa e a Construção do Passado e do Futuro” (um primor de sabedoria gramatical), a gloriosa imanência do nacional primitivismo jacobino, em notável trabalho de casting, apresenta uma plêiade de senhoras e senhores, altas figuras da cultura republicana, que se propõem, para comemorar a coisa, utilizar a obra literária de figuras tão republicanas como Gil Vicente, Fernão Lopes, Fernão Mendes Pinto, Fernando Pessoa ou Sophia de Mello Breyner Andresen.
Tudo isto com o nobre objectivo da “construção do passado e do futuro”.
Se calhar o passado que a patriótica comissão gostaria que a República nos tivesse dado, não o passado do caos da sua primeira versão ou da ditadura da segunda edição da desgraçada coisa.
Com certeza o futuro que a imaginação republicana, fazendo jus aos seus “maiores”, deve querer “construir”, e que, é lícito pensar, pedirá meças aos bons tempos da Carbonária ou da PIDE.
Enfim, a comissão tem dez milhões de euros para se entreter. Há que gastá-los com estas manifestações de rigor histórico e de probidade intelectual.
Sursum corda! É obra!
Obrigado pelo convite. Por óbvias razões de agenda o IRRITADO não poderá comparecer. Sentidas desculpas.
1.6.10
António Borges de Carvalho

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