IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


O EXEMPLO VEM DE CIMA

 

 

Sua Majestade Dom Juan Carlos de Espanha, logo que a crise se anunciou, pediu ao governo que não aumentasse o orçamento da Casa Real. Agora, em plena crise, pediu ao Sapateiro que o diminuísse.

 

A Casa Real espanhola custa 19 cêntimos a cada espanhol, e tende a custar menos.

A Presidência da República portuguesa custa quase dois euros a cada português. E tende a custar mais (a).

 

Voilá.   

 

31.5.10

 

António Borges de Carvalho

 

 

(a) Se acrescentarmos o custo das campanhas eleitorais e das eleições, mais as reformas dos ex-presidentes, vejam onde vai parar a austeridade da moral republicana.



29 respostas a “O EXEMPLO VEM DE CIMA”

  1. Avatar de Filipe Bastos
    Filipe Bastos

    Caro Irritado: Continua a destacar a vertente da poupança face ao desbarato presidencial, que já no exemplo anterior (casa real britânica) ninguém colocou em causa; mas continua a não demonstrar por que é que os contribuintes, neste caso espanhóis, têm a obrigação de sustentar essas alminhas. Criticamos os políticos, por acumularem reformas elevadas e subvenções vitalícias que criaram para si próprios, mas pelo menos os trastes tiveram de ser eleitos e de lá dar com os costados, para as poderem reclamar. E a família real, fez e faz o quê para merecer 19 cêntimos de cada espanhol? Qual o mérito do rei, do príncipe, das respectivas esposas, dos primos e seus rebentos, enfim, de toda a famelga? Por que é que aos restantes 45 milhões de cidadãos cabe estudar, trabalhar e produzir, e a eles cabe aguardar calmamente pelo seu orçamento milionário – dando-se até ao luxo de passar por altruístas, quando lhe reduzem uns pós em plena crise?

    1. Apetece-me dizer que, se está satisfeito com o que gasta com a Presidência, o problema é seu. Falando sério, se o Presudente não é o chefe do executivo, resta-lhe representar a Nação, o povo, a História, os valores pátrios, e fazê-lo com dignidade e bom exemplo.Para sermos práticos, diga-me se os ingleses, os suecos, os noruegueses, os holendeses, os dinamarqueses, os luxemburgueses, estão ou não satisfeitos com a forma como são representados. Para sermos práticos, diga-me se a Bélgica ainda existiria se não fosse o Rei? E a Espanha? Quem a mantem unida, contra tanta gente? Quem fundou a democracia, sem os desmandos dos portugueses? Na vida, o pior que se pode fazer é racionalizar tudo e mais alguma coisa. Os sentimentos, o indisível, o que às vezes a razão pode pensar inaceitável, são valores que transcendem uma lógica imediatista e despida de simbolismo e de “vida”.Finalmente, pense duas vezes se é, ou não verdade que, qualquer dos Reis europeus, que v. sabe quem são, que têm cara e continuidade como as suas nações e os seus povos, não colocam “a Pária em figura humana” num plano muito mais alto e muito mais nobre que todos os cavacos, todos os sampaios e todos os soares, por melhores que sejam, ou fossem.E, ainda por cima, são mais “baratos”!

      1. Avatar de Filipe Bastos
        Filipe Bastos

        Para sermos práticos, como diz, a ter de optar entre um presidente e um rei – nos moldes actuais – então também prefiro um rei: sai mais barato, e faz o mesmo ou melhor efeito. Ou seja, prefiro o rei apenas na lógica do mal menor, mas continuo a pensar que o conceito é irracional e retrógrado. Sou contra sustentar QUAISQUER luxos não merecidos, sejam de monarcas, políticos, ou mesmo parasitas que acumulam subsídios e RSIs. O IDEAL – que julgo ser aquilo a que devemos sempre aspirar – é não ter nem uma coisa nem outra, ou quando muito um presidente eleito de forma diferente, com funções e poderes diferentes. Tal como abordou noutro post anterior, aliás muito bem.

        1. OK,caro amigo. Para mim, um rei é melhor. Por isso não deixo de defender o princípio. Mas sei que as hipótese são nenhumas, ou quase. Já que temos que ter um Presidente, então estamos de acordo quanto a desejáveis mudanças. Pena é que poucos o queiram. Nem se fala nisso quando se trata de “aperfeiçoar” o sistema político. Helas!

  2. Avatar de daniel tecelao
    daniel tecelao

    A monarquia portuguesa não mereceu prepetuar-se,foi corrupta, incompetente,ditadora,o povo renegou-a.Pinte como quizer a implantação da republica,chame-lhes canalhas e tudo o mais em que você é pródigo.mas a realidade é que a monarquia se finou por culpa própria.Não vale a pena gastar cera com tão reles defunto!!!

    1. Dê um exemplo, ó «DT», uma demonstração, inequívoca, de o povo ter «renegado» a monarquia. Fico à espera…

      1. Avatar de daniel tecelao
        daniel tecelao

        É da história que nemhum regime dá lugar a outro sem o apoio popular,a republica só pôde ser implementada porque o povo a tal não se opôs!!!

        1. Conversa fiada. Meia dúzia de histéricos em Lisboa e no Porto não contam como «apoio popular». E silêncio e inacção não devem ser confundidos com aprovação.

          1. Avatar de daniel tecelao
            daniel tecelao

            A sua obstinação nunca o deixará ver uma evidência histórica. Um povo que lutou contra inumeros inimigos ao longo da história,se amasse a sua monarquia,nunca deixaria que uns histéricos implantassem a Republica.

          2. O povo lutou contra inimigos… externos – mouros, castelhanos, franceses. A implantação da república, e os conflitos que a ela se sucederam, constituiram um conflito interno: assemelharam-se mais à guerra civil entre absolutistas e liberais. Pegar em armas contra estrangeiros ainda vá, mas contra compatriotas?.. Muito mais complicado. Estude melhor a História antes de vir fanfarronar sobre as suas supostas «evidências».

  3. Cá venho “desdobrar o meu lençol” e durante meia hora dizer da minha justiça, que já percebi não sei reger-me pelos ensinamentos zen (“Speech is blasphemy, silence a lie. Above speech and silence there is a way out.”) quando se trata de assuntos interessantes e importantes como os que o Irritado muito pacientemente aborda. Começo por saudar o saudoso Tecelão, pois já sentia falta dos seus inconfundíveis comentários, cheios de muitas certezas exactamente porque pouco certos, que uma coisa decorre da outra, cá no meu fraco entender. São asserções que mais ninguém ousaria assinar por baixo, como ele denodadamente faz. Assim é que é.Fala-se (e bem) do dinheiro que a nossa representação nos custa. E veio-me à memória a sabida história/anedota ocorrida com uma qualquer visita de um chefe de estado estrangeiro. Para a soirée, o protocolo do estado achou que seria simpático que o visitante fosse brindado com um curto sarau musical. Quiseram contratar a nossa melhor violoncelista, a Guilhermina Suggia, mundialmente reputada (e que deveu os seus estudos no estrangeiro à generosidade da Rainha D. Amélia).Falaram para a senhora e esta declarou o seu “cachet”. Era elevado. O funcionário que tinha o assunto a seu cargo lá foi, algo abalado, expor a exorbitância a Salazar.Este olhou-o um segundo e perguntou:- Você sabe tocar violoncelo?O outro abanou a cabeça, varado.- Eu também não. É melhor contratar a senhora.Moral da história: ou se fazem bem as coisas, ou não se fazem. Melhor ainda, como dizia Santa Teresa de Ávila: “Não é preciso fazer coisas extraordinárias, mas fazer tudo extraordinariamente bem”.Sobre verbas, ocorre dizer com a maior brevidade que governo espanhol transfere do seu orçamento anual menos de 9 milhões de euros para a Casa Real, enquanto o congénere português despende quase 16 milhões de euros com a nossa presidência.Mas como o dinheiro não é tudo, vejamos agora a “mercadoria” que nos tem sido entregue por ele.Dos cidadãos que o receberam, eram dele merecedores – na modesta minha opinião – o Teófilo, Sidónio e Carmona. Em menor grau Manuel Arriaga.No que respeita aos presidentes da IIIª república, temos o Spínola. Bom militar e bom cavaleiro. Tão bem intencionado quanto ingénuo, o que neste posto são dois enormes defeitos e disso estamos a pagar infinitamente mais caro do que o vencimento que lhe entrou no bolso. As dezenas de milhares de Flechas, por exemplo, pagaram com a vida. Spínola sempre acalentou a ideia de ser presidente. Desde cedo cuidou da imagem, com o ridículo monóculo no mato, um pouco ao estilo de Patton e o seu revólver com cabo de madre-pérola. Mas Patton era inteligente e Spínola era só ambicioso.Costa Gomes não passou de um invertebrado e abjecto traidor. Atraiçoou Salazar, Botelho Moniz, Marcello, Spínola e até o Otelo. Tapemos o nariz e passemos adiante.Eanes foi a escolha possível, até para salvação do MFA. Mas em fim de mandato tentou formar um partido que o apoiasse, numa grotesca imitação do grotesco Peron, com a sua picaresca Evita-Manuela.Menos engraçado foi o PRD, esse caldo de cultura de todos os trânsfugas e desempregados da política daquela época.Soares já tinha sido o oposto do que deveria ser um bom primeiro-ministro, acabou por ser o contrário de tudo o que deveria ser um bom presidente. Na desonesta ânsia de promover um camarada de partido a primeiro-ministro, prejudicou Cavaco quanto pôde – e o País bem sofreu com isso. As suas presidências abertas foram cirurgicamente escolhidas para atear más-vontades e denegrir o governo, como bem o explica a tese de doutoramento da sua própria colaboradora Estrela Serrano.(continua)

  4. (continuação)Sampaio fez a mesmíssima coisa, ao gerir a saída de Durão para entrar Sócrates. Os seus discursos na tomada de posse e na exoneração de Santana são peças de ignomínia, como só um sonso pode amanhar. Não esquecer que Sampaio defendeu as sevícias cometidas pelo MFA. Mas Deus castigou-o e pôs a seu lado aquele monstrengo com feições de Quasímodo, que foi a nossa primeira-dama, para desolação de todas as damas (dignas desse nome) que se lhe seguem na pirâmide social nativa. Também deu sinal da sua pouca honestidade ao candidatar-se a segundo mandato sonegando uma grave condição cardíaca. Cavaco é aquilo que está à vista – e Alegre vai ser mesmo uma alegria.E do lado de lá da fronteira? Em todo este tempo, preponderou um homem chamado Juan Carlos de Bórbon, que soube gerir a perigosa transição de ditadura para democracia tendo sempre em vista não os interesses pessoais (como Spínola, Gomes e Eanes) ou partidários (Soares e Sampaio). Tinha por si a autoridade moral imanente de quem apenas se rege pelo amor ao seu povo e um sentido de responsabilidade que atravessa gerações.Para dar um exemplo só, não acredito que Carrillo se curvasse aos desígnios de um Spínola, como fez com Juan Carlos.Em 35 anos, já tivemos de tudo, nesta “troupe” de homúnculos acotovelando-se entre si, retalhando o País e transformando a governação num alguidar de lacraus.Em Espanha, reina – e bem – alguém universalmente respeitado, como tivemos ocasião de constatá-lo, ao pôr Chavez na ordem. E foi pena que no ano seguinte não estivesse lá para também mandar calar o Zézito, quando este iniciou a sua risível rábula de caixeiro-viajante. Para o ano que vem vamos assistir novamente ao degradante espectáculo do verniz a estalar entre os candidatos para depois, por milagre, na noite das eleições um deles se proclamar presidente de todos os portugueses. Quem não se lembra de Soares a dizer – alta política! – que Cavaco não sabia socializar com os estrangeiros, nos intervalos das cimeiras europeias? E logo o Soares, esse mimo de “savoir faire”, que come pastéis de calhau com a boca aberta, em directo para a televisão e fala francês com o sotaque das varinas do Bolhão.Presidente de todos os portugueses… Quando muito de todos os papalvos que acreditam nisso.O nosso mal-informado Filipe diz que os reis não produzem, que vivem ociosos. Erra no que diz. Para dar um exemplo entre muitos, Francisco José da Áustria começava a trabalhar às 5 da manhã, impreterivelmente, que a etiqueta austríaca era exigente.Também não imagina o que é a agenda da – outro exemplo, sem ser chefe de estado – Princesa Ana. Em 2008 compareceu a 530 cerimónias em Inglaterra e no estrangeiro.Faça as contas aos dias úteis do ano e verá se o ritmo de trabalho é suave.E não se trata de aparecer para dizer umas patacoadas como o Sócrates com explicações de tango e outras parvoeiras que ele aprendeu nas universidades que nunca o viram lá. São visitas estruturadas, bem preparadas para que tenham a dignidade que compete às pessoas reais que comparecem e igualmente à solenidade que quem recebe lhes gosta de imprimir.Mais lhe direi que merecem o que ganham (e afinal não gastam no sustento das casas que são nominalmente suas e respectivo pessoal) porque suportam, dia após dia – brindes da democracia – as suas vidas espiolhadas e tantas vezes violentamente ultrajadas na capa de todos os jornais. Decerto que desde Disraeli aconselhou a rainha Victoria a “never explain, never complain” bem sabem que o silêncio é o melhor argumento. Que diferença em relação aos seus “homólogos” republicanos!Mas não é só o seu nome e intimidade que são muitas vezes maltratados. Voltando a Francisco José, este viu morrer a mulher (estando incógnita na Suiça) o filho (tese do suicídio de Mayerling nunca foi bem explicada), o irmão Maximiliano (à conta do sonho insensato de Napoleão III), o sobrinho Francisco Fernando (em Sarajevo), para não falar dos padecimentos do seu desventurado sucessor Carlos, que veio morrer pobremente exilado na Madeira.(continua, para acabar já)

  5. (finalização, com pedidos de desculpa pela extensão)Veja como são respeitados os reis na Europa e faça a justiça de acreditar que aqueles povos não são obnubilados e nós os omniscientes, quando o contrário se coze mais à realidade, a tal realidade que o Filipe escreve com todas as letras maiúsculas, para permitir melhor visão. É exactamente por isso que a Austrália, Canadá, Nova Zelândia e mais uma dezena de países do antigo império britânico, se não abdicam dos seus governos próprios, não permitem que a Rainha Isabel abdique deles igualmente. Sentem-se bem e muito dignamente representados por alguém que não os desiludirá, que é conhecida e honrosamente considerada em todo o planeta. E isso não tem preço, ainda que saia mais barato a eles do que nos custa o sustento de Soares, Eanes e Sampaio, que agora só representam eles próprios mas têm as mordomias que sabemos – e pagamos.Se afinal nos queremos rever em alguém que prefigure o país, como muito bem dizia o Irritado, é desejável que esse alguém não mude todos os lustros ou vá para casa amuado, como sucedeu agora com o presidente alemão (que aliás ninguém conhecia).O Filipe diz que não faz sentido “nascer-se” rei e compara-os aos arrumadores da Trafaria. Exactamente faz todo o sentido que desde que começa a sua existência, aquela pessoa que o Destino, a Divina Providência, os astros, aquilo que se queira chamar (tudo, mas absolutamente tudo, menos os partidos políticos!) colocou naquele lugar, seja preparada para amar, compreender, defender, ajudar, representar e sim, reinar no seu País e perante o seu Povo.Os republicanos (porque será que na república tudo é pífio? Até a senhora que em 1910 despiu o seu busto para moldar o da figura feminina se chama Ilda Pulga), dizia eu, que os republicanos, ou alguém por eles, explicava – com toda a razão – que por mais alto que seja o trono, nele pousam sempre duas nádegas. É bem verdade, mas felizmente não tiveram que fazer porcarias para se lá sentarem. Excusez du peu.

    1. Avatar de Filipe Bastos
      Filipe Bastos

      Caro ManuelB, Quanto ao episódio da violoncelista, concordo que «ou se fazem bem as coisas, ou não se fazem». Faltou apenas acrescentar: e por vezes, não se devem mesmo fazer. Por exemplo, se em vez do austero Salazar o governante fosse outro, aposto que a reacção dos leitores desse episódio, seria também outra. Por outras palavras, não podem todos os nossos políticos, usar o mesmo argumento para justificar as suas obras ruinosas, festas e “iniciativas” parolas, multidões de assessores, pareceres caríssimos, viagens sumptuosas, e demais desperdícios? Pois se assim é que é «fazer bem»! O pequeno detalhe, é que o dinheiro não é deles: é do ESTADO. Ora, isto será uma surpresa para alguns (sê-lo-á certamente para os nossos governantes), mas o dinheiro do Estado não vem da Divina Providência: vem dos nossos impostos – e enquanto país pelintra da UE, também dos impostos dos contribuintes alemães, franceses, etc. A gestão rigorosa desse dinheiro, além de razões muito práticas (somos pobres), é – devia ser – um imperativo moral. A relação de monarcas e políticos com o dinheiro público, é esta: não lhes custou a ganhar, e virá sempre mais, sem fazerem nada por isso. Alguns políticos ainda fingem ganhar a sua subsistência; os monarcas, nem isso – pois foram bafejados pel’«o Destino, a Divina Providência, os astros, o que lhe queiramos chamar». Pois bem, eu chamaria outras coisas a essa força misteriosa: por exemplo, SUPERSTIÇÃO. Segundo um dicionário online: superstição s. f. 1. Sentimento de veneração religiosa fundada no temor ou ignorância e que conduz geralmente ao cumprimento de falsos deveres, a quimeras, ou a uma confiança em coisas ineficazes. 2. Opinião religiosa fundada em preconceitos ou crendices. 3. Presságio que se tira de acidentes e circunstâncias meramente fortuitas. Circunstâncias fortuitas, tal como ser filho do Rei Fulano da Bélgica, ou do Arrumador Beltrano da Trafaria, decerto também muito competente na sua função. Preconceitos, tal como crer que Fulano é ideal para representar um país só porque aprendeu a usar os talheres, em vez de Sicrano que se formou num ofício realmente útil. E falsos deveres, como a obediência a um Rei isento de validação ou escrutínio, pois goza dum estatuto de semi-deus. —————————————- Argumenta que Francisco José da Áustria, começava a trabalhar às 5 da manhã. Impressionante: e a que horas tomava o autocarro para o trabalho? Mais a sério: os hábitos de uma pessoa, não justificam a existência maioritariamente inútil de toda a classe. Quando fala da Princesa Ana, começo pela primeira vez a hesitar – sou lento – estará a ser sarcástico? Já escrevi tanto, mais vale continuar… continuemos. Se as 530 cerimónias dela servem como “trabalho”, então a nossa Lili Caneças pode ombrear com os melhores. Não sei se chegará às 530/ano, mas está certamente acima da média europeia. A nossa Lili também não será tão “digna” – faltar-lhe-ão várias chávenas de chá, e muitas gramas de cérebro – mas também emite banalidades muito dignas, e preocupa-se com causas muito nobres, geralmente relacionadas com a qualidade dos dry martinis, ou com o vestido que vai usar na próxima gala ou festarola. Suas Altezas têm as suas vidas espiolhadas, ultrajadas, sei lá… a Lili Caneças também tem. Tal como os futebolistas, os actores, os cantores, até os políticos. Isso está estranhamente relacionado com serem figuras públicas, objecto permanente da atenção da carneirada que lhes sustenta a fama, e o PROVEITO. Que ingrata, esta carneirada. Ninguém lhes ensinou que só devem dar o proveito? Por fim, diz que os monarcas também vêem morrer os seus familiares, em guerras e atentados, tal como os comuns mortais. Isso é sem dúvida trágico, até porque geralmente são os primeiros a pirar-se para exílios dourados, quando as coisas ficam beras. (continua, estou quase a calar-me)

    2. Avatar de Filipe Bastos
      Filipe Bastos

      Quando comparamos os políticos aos monarcas, a nível pessoal, os últimos saem quase sempre a ganhar. É verdade. Como seriam eles, sem o berço dourado, é algo que nunca saberemos. Sabemos, no entanto, isto: o mundo já comporta injustiça bastante, para não precisar de líderes predestinados, baseados em conceitos tribais e tradições medievas. Precisamos de evoluir, e não de regredir para tais tradições. Num sistema mais justo, com políticos melhores, eleitos e responsabilizados de forma diferente, os monarcas não são necessários. Assim como as suas galas e festarolas, cheias de pompa mas vazias de conteúdo. É imoral, obsceno, ver tais figuras a herdarem uma vida de fausto, enquanto a maior parte das pessoas vive na miséria. Mas, pode-se argumentar, então e os países escandinavos, a Bélgica, a Holanda, etc., que têm sistemas e políticos melhores, mas continuam a rever-se nos seus monarcas? Bem, não tenho a pretensão de saber melhor do que um holandês, o que é melhor para a Holanda. Admito que os seus monarcas lhe dêem uma estabilidade acrescida, confundindo-se com a própria identidade nacional. Talvez a resposta esteja na História: passou ainda pouco tempo, desde que éramos todos (europeus) governados por senhores absolutos, num sistema reconhecidamente injusto, mas que durou séculos. Por comparação, a chamada época moderna é ainda muito breve. As mentalidades levam mais tempo a mudar, e o paradigma monárquico faz ainda parte do ADN dos europeus. Do outro lado do Atlântico, muitos americanos olham para nós, e isto parece-lhes incompreensível. Será das poucas coisas, em que estou de acordo com eles.

      1. Gostei. Aliás remeto para a crónica de Manuel Pina de hoje (2/6) da última página do Jornal de Notícias, no que tange aos princípios. “As mentalidades levam mais tempo a mudar, e o paradigma monárquico faz ainda parte do ADN dos europeus.”Pois, talvez termos sido governados por indivíduos com notórias perturbações mentais justifique a nossa aversão à monarquia. Agora, actualmente também temos uma espécie de “monarquia”, conquanto os filhos seguem as pisadas dos pais, mormente na área do poder. Investiguem e ficarão siderados por verificarem quantos “perturbados” ocupam esses lugares.

      2. O considerado Filipe e eu acabamos por estar de acordo em algo. Falou de como gosta ler os monárquicos porque lhe sugerem fábulas e contos infantis, coisas assim cândidas. Do mesmo modo, também aprecio ouvir os “progressistas”, pois remetem-me para as histórias de infância, que começavam por “no tempo em que os animais falavam…”, que lendo-os quase poderia jurar escuto ainda o eco das risadas acéfalas das hienas e os alarves zurros atroando os ares. Claro que me refiro ao Pina e quejandos (os pareceres do Pina… ainda hei-de ouvir-vos encómios à suave lírica do Quim Barreiros).Decerto já reparou qual o mecanismo do humor. É a lógica às avessas, de pernas ao ar, a fazer-nos momices. Desde as gracinhas primordiais que se fazem para os bebés rir, aquele “cu-cu” em que fingimos esconder-nos para depois lhes aparecemos – e eles acharem muita graça a isso (se realmente lhes surgíssemos sem que o esperassem, o mais certo era desatarem em pranto com o susto). Da mesma maneira, a anedota faz-nos rir porque o seu final é inesperadamente ilógico e por isso mesmo cómico (há lá coisa mais enfadonha e dessorada que uma piada previsível ou alguém que nos venha explicar o seu sentido!). E todos os filmes portugueses dos anos 30/40, todo o “plot” dessas comédias com o Vasco Santana ou António Silva se desenrola à volta de uma mentira que gera as situações mais inesperadas e hilariantes. A vossa libertária visão do mundo, anarquista e desde sempre anacrónica (na mitologia grega o Cronos era antecedido do Caos), é portanto apenas histriónica porque não tem a menor razão de ser. É para sorrir e não se acreditar, como as anedotas.Tentar implementá-la já é mais perigoso, sempre tem dado mau resultado e como verá ainda em tempo da sua vida, a coisa vai acabar mal, pois quem não quer aprender com os seus erros está condenado a repeti-los.A nível nacional, é o que nos vai suceder muito em breve, quando despertarmos para a realidade, quando o putativo engenheiro for à sua vida depois de ter hipotecado a nossa com as suas boçais e vãs quimeras. Foi esse “descolar da verdade” que, por exemplo, tornou exequível o infame occídio que os alemães cometeram com os judeus. Ainda hoje muitos se perguntam como puderam crer em tão perversa iniquidade. Porque também eles pensavam serem os clarividentes que tinham descoberto que Deus não existia (não foi por acaso que recuperaram os sinais pagãos da saudação de braço estendido, da suástica trazida da Índia depois de despida da simbologia hindu, das cerimónias “druidas” com o fogo purificador dos archotes, etc.) e o resultado foi o pior possível. Veja o filme da Leni Riefenstahl “O Triunfo da Vontade” e compreenderá.Voltemos às suas utopias, como seja a de cortarmos cerce com a existência do nosso chefe de estado e outras assim. Já que gostou da historieta da Suggia, deixe que lhe conte uma sucedida no período entre-guerras com um meu tio-avô. Era uma pessoa despretensiosa, sincero amante das coisas da nossa terra, fossem carapaus, toiros (era bandarilheiro amador), fado (compunha divertidas letras, para arrelia do Marceneiro que lhe dizia exasperado “Olhe que com o fado não se brinca!”), enfim quase tudo aquilo que hoje é bom-tom os parolos desprezarem, exactamente porque querem passar por “finos” ou cultos. Estando um dia em Vila Franca de Xira à conversa com um sapateiro comunista, este tentava argumentar na linha do que então era a quimera preferida dos bolcheviques, o fim do dinheiro (Lenine dizia que o ouro passaria a servir para fazerem retretes na Rússia, mas essa foi outra promessa que não cumpriu).E o homem lá ia “filosofando” como sabia sobre economia – de que nada sabia: – Pois é, deixava de haver dinheiro e com isso desapareciam os capitalistas também! O moleiro pagava em farinha, o padeiro em pão, o camponês em géneros agrícolas, e assim iriam trocando entre si as mercadorias que cada um produzia e o outro necessitava…Responde o meu tio:- Não posso estar mais de acordo. Faça-me então um par de botas, que para a semana, passo cá e para pagá-las, espeto-lhe um par de bandarilhas!(continua)

        1. (continuação)“Blague” à parte, hoje quase todos, os ignorantes sobretudo – e por isso mesmo – se arrogam opinar e querer mudar o mundo, decerto insatisfeitos com a sua imperfeição mas que se tornaria bem pior se cumprissem com os seus ineptos desígnios.Deixe-me exemplificar. Platão, discípulo de Sócrates (o verdadeiro) e prelector de Aristóteles, explicou que o bom, o belo e o verdadeiro, no seu limite máximo se tornavam uma só coisa. E por esse conceito supremo deveríamos conduzir as nossas opções e modo de vida, em padrões sucessivamente mais elevados de espiritualidade.Mas dois mil e tal anos depois surge, entre outros, um “iluminado” que se atribuiu a importância de denegrir essa verdadeira, boa e bela noção. Tal como os Pinas indígenas, que se julgam adiante do seu tempo e querem sacudir as ideias que permanecem para nos impingir as suas (aquilo que o Filipe designou por “evoluir, e não regredir para tais tradições”) – dizia eu, apareceu um tal Nietzsche, que decretou que quem sustentasse tal elevado juízo deveria ser sumariamente sovado. Afinal, o pobre não passava de um atormentado psicopata entregue ao onanismo mas hoje muito respeitado pelos desviados iconoclastas que por aí pululam. Percebe-se porquê, “quem se cria em pouquidades, quer e entende cousas pequenas”.Sem me querer aventurar por matérias onde me “falta o pé” por escassez de conhecimentos, devo confessar que muitas vezes se me deparam espíritos que parecem encadeados pelo Século das Luzes, esquecidos que o mundo já deu muita volta desde então.Quando nesses vibrantes dias se socorreram do brado de Horácio “Sapere aude!” (tem coragem de pensar por ti), deveriam ter subentendido nessa divisa mais algumas considerações, como “pensando permanentemente” ou ainda “sem medo de chegar a conclusões clássicas”.É que o mundo não começou no séc. XVII, e os homens que pensavam por si não nasceram só depois de Descartes ou Rousseau. Nem tudo o que pertence ao passado é decrépito ou errado.O Filipe fala do facto de se ser eleito constituir a legitimação absoluta e incontroversa para cargos e gentes. Lembro-lhe só que as qualidades necessárias a ser-se um bem sucedido “ganhador de eleições” são quase antagónicas às de um bom governante, logo à partida a honestidade, como se viu pelo menino-de-lata-com-banho-de-oiro que por aí tripudia. Mas há outras.Vou-lhe relatar um curto episódio que porventura mostrará o que esse conceito pode valer. Um meu amigo foi médico num grande hospital de Lisboa nos anos do PREC. Nesse período de demagogia igual à de hoje, apenas mais crua e brutal, que preparou a tragédia que se anuncia, a administração do hospital foi sumariamente demitida e substituída por uma “comissão de trabalhadores”. De um modo geral, os médicos votaram no médico que se candidatou, as enfermeiras na sua colega enfermeira e as funcionárias (ajudantes, serventes, etc.) outorgaram a escolha na sua congénere. Ao apurarem os votos, a funcionária da limpeza foi a grande vencedora, como se calcula, pois havia por lá mais auxiliares do que clínicos. Pois durante uns anos, foi ela quem “administrou” todo o hospital – e quando era preciso algum importante equipamento, o cirurgião tinha que submeter o seu pedido à douta apreciação da técnica em baldes e esfregonas – e digo-o sem sarcasmo porque a situação já o é por si mesma caricata. Mas muito democrática, não acha?Vai longo este solilóquio. Pode o Filipe tentar zonzas zombarias sobre uma Princesa Ana, que desde os 18 anos dá visibilidade a mais 200 organizações, como se quem as constituiu e a escolheu fosse descerebrado ao estilo da Lili Caneças (a tal que numa reportagem televisiva no degradado bairro do Fim do Mundo em Cascais, ao ver uns ciganos ao longe aquecendo-se numa fogueira, disse “Que engraçados, a fazer uma barbecuezinha!”) ou outros “role models” da nossa possidónia sociedade que aparece por aí. Porque há uma, discreta, que felizmente não o é nem aparece. E olhe que presumir a pouca inteligência de outros – como o Filipe faz a quem “elegeu” (convém distinguir) a Princess Royal para seu patrono – é, isso sim, sinal de não muito discernimento.(continua, para acabar)

          1. (a terminar, pedindo desculpa da muita dilação e pouco interesse)Como lhe disse, se não posso modificar o mundo, posso escolher o que nele há de bom, belo e verdadeiro e modificar a minha forma de o entender.Já no artigo “Presidenciais Princípios” lhe disse como a sua visão da religião é afinal uma desconsolada e cerrada treva à volta da sua própria pessoa, o que convenhamos não é um horizonte muito espraiado. Na política, voa igualmente raso, como o fizeram os primeiros republicanos dos novos tempos, cuja primeira grande “vitória” foi a tomada da Bastilha, que afinal não passou de um ludíbrio (pudera…) histórico, como foi a implantação do nosso regime.Quase 9.000 sans-cullotes cometeram a “proeza” de tomar de assalto uma prisão guardada por algumas dezenas de “invalides” ou sejam soldados reformados porque estropiados. E quem foram eles “gloriosamente” libertar da ominosa repressão monárquica? Quatro falsificadores, dois doidos perigosos e um nobre, tarado sexual lá encerrado a pedido da família e que veio a ser o trisavô de Toulouse-Lautrec. Essa “memorável” jornada foi a primeira das vilezas cometidas pelo regime tão incensado pelo Filipe. Que houve muitas outras, como o julgamento de Maria Antonieta, em que por receio que ela pudesse ser absolvida por nada se lhe encontrar de culpa, o juiz tentou incriminá-la de incesto com o seu próprio filho, o que diz do nível dessa gente, precursores dos nossos republicanos. Estas coisas não sucedem por acaso, antes se repetem porque a matriz ideológica é semelhante e estão no ADN dos republicanos, como no dos monárquicos está o respeito ao rei que nos representa e respeita a todos (não duvide disso).Já que hoje falamos de filósofos, deixe lembrar-lhe o conselho de Aristóteles, “sê senhor da tua vontade e escravo da tua consciência”. Os arautos deste novo mundo defendem precisamente o oposto: deram alforria aos seus escrúpulos e servem, cativos deles, aos seus apetites. Por isso, em vez da procura do bom, verdadeiro e belo, pretendem impor o egoísmo da eutanásia e aborto (como os nazis antes deles), numa abjecta filáucia perante as gerações que os criaram e as que ainda não chegaram. Para alcançarem alguma coisa que os reconforte ocorre-lhes a homossexualidade – e para esquecer todo este feio mundo que querem erguer, propõem a droga. Eis o triste programa eleitoral do “evoluído” Bloco, que abomina a “tradição” e nos recomenda todas estas carcomidas “novidades”.O seu é infelizmente um mundo amargo e disforme, sem grandeza, que nem se dá conta do erro, de tal forma nele incorre. O anarquista Kafka é que sabia, apesar de tudo: “Uma vez acolhido o Mal no seu seio, este já não exige que se acredite nele”. Prometo doravante tratar ligeiramente (em poucas palavras) coisas mais ligeiras, como sejam a sabedoria do nosso primeiro. Peço a absolvição do Irritado por ter transformado este agradável blog num enfadonho púlpito. Não torna a acontecer.

          2. Caro Manuel, Embora discordemos sobre muitas coisas, devo dizer que é um prazer lê-lo. Creio que o sabe, aliás, tenho a certeza, mas nunca é de mais enfatizá-lo. No entanto, e perdoe se estou errado, não respondeu a nenhuma das objecções que coloquei, sobre a legitimidade dos monarcas. Por exemplo: 1. Falou da «nossa» [dos progressistas parolos] visão libertária do mundo, que é «anarquista e anacrónica». Ou seja, sem um Rei, só resta a anarquia? Não há alternativa, ou temos um reizinho, ou somos anarcas? E ver para além dum Rei, após SÉCULOS em que fomos governados por monarcas que já o nasceram – abençoado ventre real – é que é anacrónico? 2. Falou do seu tio-avô, que prometeu espetar bandarilhas no sapateiro comuna. Que bom para ele (o seu tio-avô, não tanto o sapateiro). E o seu tio-avô, além de bandarilheiro e fadista amador, fazia exactamente o quê? Certamente que não sapatos, mas a sua historieta não esclarece. 3. Falou dos ignorantes arrogantes opinantes que querem mudar o mundo, certamente para pior – pois se este já é tão justo e bom, sempre foi, não há nada a mudar. 4. Falou da Princesa Ana que «dá visibilidade a 200 organizações» – no entanto, e perdoe o sarcasmo parolo, menos visibilidade que a real Sarah teve, numa única piela da sua vida DESOCUPADA, há bem pouco tempo. 5. Mencionou o Platão, o Pina, o Nietzsche, o Horácio, o Descartes, e o seu amigo médico no tempo do PREC, e contestou a legitimidade de eleições – também não acredito na suposta “ditadura da maioria” que temos hoje, até porque a maioria já NEM VOTA – mas falhou em explicar o seguinte: – por que é que algumas pessoas merecem receber os NOSSOS (presumo que os pague, tal como eu) IMPOSTOS, só porque nasceram em certa família? você (presumo que não faça parte da dita família) julga merecê-los menos do que eles? se sim, porquê? – o que distingue estas pessoas das demais, que mérito intrínseco possuem? – por que é que não têm de estudar, trabalhar e produzir como os demais, mas apenas aprender a andar como se tivessem uma vassoura espetada, viver no fausto, e participar em festas e galas? – o que é que os legitima, o que é que os valida, excepto tradições, superstição, e o tal ventre real? – como podem “contribuir para causas nobres”, quando no dia seguinte voltam ao jet-set das Lili Caneças da vida, igualmente famosas e ricas apenas por serem… famosas e ricas? – e finalmente: que direito têm de esbanjar o NOSSO dinheiro, como se tivessem sido elas a ganhá-lo, quando nunca fizeram por merecê-lo? A meu ver, tenta justificar o injustificável, eu limito-me a repetir o que me parece senso comum. Que me fale das fracas alternativas republicanas, como o Irritado, tudo bem; em tudo o resto, com maior ou menor eloquência, não há lógica que sustente a monarquia.

          3. Estimado Filipe,Já intuiu decerto que aprecio por igual a sua inteligência e sentido de humor (nunca verdadeiramente pode existir uma sem o outro e vice-versa). Percebe-se que é uma pessoa nova, com os sentimentos ainda inquietos e “crisp”, todo coração na sua visão do mundo e vontade de nele deixar a sua impressão digital. Eu é que vou já algo adiantado em anos, mesmo que a vida se deva contar pelos actos que cometemos e não tanto pelos movimentos de translação solar que viajámos. Por acções que valham a pena mencionar, sou bem novo; pelo arrastar da minha carcaça sobre o lado exterior da crosta terrestre, já trago algumas décadas comigo. Por isso, melhor que lhe explicar as tais objecções que me pôs (não as tinha entendido como tal e não me preocupei em arguir a cada uma delas) vejo-me como uma das pulgas que discutem entre si a quem pertence o cão sobre cujas costas levam a sua vida.Acho uma pura perda de tempo imitá-las. O Filipe há-de informar-se, há-de olhar à sua volta e chegará a conclusões. Podemos dar conselhos mas não podemos dar sabedoria para os seguirem. Pois se eu nem alvitres sei expor, quanto mais instilar ciência. Sobre o meu tio, a princesa Ana, Sarah, a Lili, etc. perdoe-me portanto que não continue. Ele dava emprego na lavoura a umas quantas famílias e contribuía por ano com mais impostos que o simpático sapateiro alguma vez pagou no decorrer de toda a sua vida, mas e depois? Já disse uma vez ao Tecelão (ainda que os considere de forma diferente, mas as situações são semelhantes) que faz todo o sentido concordar com Voltaire por sustentar que as discussões muito longas só provam que ambas partes estão erradas. Também era ele que dizia que enquanto os homens discutem, a natureza actua. Vamos pois esperar, infelizmente não falta muito.Perdoe-me a enfiada de frases feitas (bem, se já estão feitas, nesta época de pronto-a-vestir, seria uma pena não me servir delas) mas socorro-me de Unamuno: “O que o berço não dá, Salamanca não ensina”. E ele era tudo menos snob. É assim um pouco como o pepino torcido desde tenra idade.O filho de um nosso caseiro minhoto, que foi meu companheiro de estivais brincadeiras fluviais e outras, julgava que em vez de pão e vinho para acompanhar as refeições, “os ricos comiam pão-de-ló e bebiam champagne”. Mutatis mutandis, o Filipe crê que reinar é passear de limousine e comer pão-de-ló. O Tó acreditava no pão-de-ló, o Filipe na limousine, não vem mal ao mundo por isso. Ao menos diverte-o ver Cavaco aflito para se recandidatar ao ponto de considerar que dois homens apaixonados entre si constituem um casal, Alegre a tentar conciliar bolquistas e socialistas para depois atraiçoar um deles e no segundo mandato todos de uma virada só, o Nobre a inculcar de santo, Garcia Pereira surgindo como o candidato-ruptura pela enésima vez, etc.É um espectáculo nada original, nada útil, nada digno e nada barato, mas pelo que vejo o Filipe prefere-o a acreditar que há alguém descendente e por isso representante da pessoa que há uns séculos levou o nosso povo a tornar-se independente dos castelhanos. Também há quem anteponha uma telenovela a um bom concerto. Por isso deixei de ver televisão, como deixei de votar. Sem amuos nem zangas, posso viver bem com isso. Claro que me lembro que antigamente eram as criadas que gostavam do “Tide” (como se chamava então aos folhetins radiofónicos) mas desde que guarde essa reminiscência para mim, ninguém se pode sentir ofendido.Por falarmos de criadas e reis, tive uma mulher-a-dias, a Otília, que esteve uns meses internada no hospital dos Capuchos. Em meados dos anos 60, trabalhava lá uma enfermeira alta, bonita, com sotaque ligeiramente espanhol. Era a Pilar. Não podia ser mais simpática e prestável. “ó Pilar, muda-me a arrastadeira, se fazes favor!”, “Pilar, podes massajar-me a perna?” e a rapariga lá ia, profissional e dedicada. Um belo dia participou que ia casar, convidou toda a gente para assistir à cerimónia na igreja. Aceitaram ir só duas enfermeiras, na enfermaria presentes modestos das doentes, muitos beijinhos de despedida pois ela voltava para Espanha. (continua já a seguir)

          4. (acabo num instante)E no dia seguinte viram a fotografia da Pilar no jornal. Casara nos Jerónimos a filha do conde de Barcelona, infanta de Espanha, irmã do actual rei.Mas a nossa república também tem coisas assim bonitas. Estou a lembrar-me quando Cavaco era primeiro-ministro e casou a sua filha Patrícia. Reportagem do beberete no telejornal, o pai Teodoro imponente a dançar o twist, com os torturados joanetes a deformar os sapatos e os punhos da camisa por fora das mangas do casaco. Cavaco fazia o seu toast, com aquela elegante espuminha salivar nos cantos da boca. Muito chique.Por criadas ainda, lembrei-me agora da primeira assembleia do sindicato das empregadas domésticas, meses depois do 25 de Abril, no anfiteatro do Técnico. Vi-as na televisão, cheias de atenção a tentar perceber o que debitava uma Odete Santos qualquer a arremedar a Passionária. Tão bem arengou a mulher que a primeira decisão do recém-criado sindicato foi… extinguir a classe! Deve ser por decisões funestas assim que lhe chamam sufrágio à coisa e os votos são guardados numa urna.O democrata Truman um dia soltou o revoltado queixume que se Moisés tivesse posto à votação a travessia do Mar Vermelho, os judeus não teriam saído do Egipto. Povos escravos, mas julgando que por opinar como o Pina opina – e votar, claro! – são libertos. Era a forma política de enunciar o mesmo desalentado e famoso lamento de Einstein : “Duas coisas são infinitas, o universo e a estupidez humana. E não estou muito certo sobre o universo…”Se aceita uma sugestão, não equacione tudo em termos de dinheiro. Pensar assim é sempre uma forma redutora de olhar a realidade, a sua inteligência e sensibilidade decerto merecem melhor e há muitas outras vertentes bem mais importantes se estivermos deveras interessados em ver as coisas por dentro. Além de que na maior parte das situações o dinheiro não é solução do problema mas a sua causa. Quer um exemplo? À conta do vil anseio pelo simples metal que lhes permitirá satisfazer já e agora o gosto de comprar gasolina mais barata, um terço dos portugueses está disposto a tornar-se espanhol porque julga que eles nos irão tirar do pântano em que os eleitos portugueses nos atolaram. Valeu bem a pena todos os sacrifícios das anteriores gerações para o povo soberano desta era se querer vender à Espanha a troco de uns trocos. Com mais algum tempo, serão a maioria. Para si deve fazer sentido: houve votação, haverá dinheiro, o que se pode aspirar mais? Pois é, mas não há soluções perfeitas: lá terá que aturar um rei.Para mim, o que faria mais sentido seria correrem os castelhanófilos nas praças de toiros de lá – e espetarem-lhes umas boas bandarilhas naqueles lombos de votantes vendidos.Um abraço amigo doManuel

    3. Avatar de daniel tecelao
      daniel tecelao

      Venha el-rei os subditos aguardam para prestar vassalagem e iniciarem o beija-mão!!!

      1. Ó “Camisinha Rota”, o “beija mão” já foi instituido pelo grupo do Só-cretino. Aliás, o sr. é o exemplo vivo.

        1. Avatar de daniel tecelao
          daniel tecelao

          Vai-te rebolar numa bosta!!!

          1. Um dia contarei a história do “Camisinha Rota”. Fica prometido.

          2. O “Camisinha” de tanto se rebolar está mais escuro que o presidente da Câmara de Lisboa.

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