Todos somos amantes do Tejo. O Tejo é a frescura, a moldura, a vida e a razão da nossa cidade. Sem ele não haveria Lisboa e, quem sabe, não haveria Portugal.
Durante toda a minha infância, juventude e idade adulta, via-se o Tejo do Terreiro do Paço, dos cacilheiros, dos restaurante do Ginjal, e pouco mais. Lisboa ribeirinha era um mar de armazéns, lixeiras, gruas e cais, uma floresta de coisas feias, ingramáveis, uma jóia escondida pelo “progresso”.
A tudo isto presidia uma entidade, um monopólio de poder, a que se dava o nome de APL, Administração do Porto de Lisboa. Tal entidade, das poucas que, detidas pelo Estado, não tinham problemas económicos, antes pelo contrário, era odiada pelos lisboetas e pela Câmara Municipal.
No entanto – a verdade é para ser dita – de há anos a esta parte, a APL, perante o indisfarçado ciúme da CML, mudou de filosofia. Abriu a cidade ao Tejo. Hoje, passeia-se de Belém a Algés, almoça-se à beira-rio, contempla-se, nas noites de luar, o espectáculo fantástico do rio, dourado, a correr. Talvez a APL tenha para tal sido pressionada. Se foi, ainda bem. Reagiu em conformidade.
O ciúme da CML, porém, intensificou-se. Era fácil argumentar que a cidade não pode deixar de ter jurisdição sobre a sua jóia número um. Resultou. O governo PS acabou por aprovar a “devolução” da ribeira à autoridade camarária PS, de forma a pô-la, ainda mais, “ao serviço” da cidade e do país.
Ora a CML, esta CML, bem acompanhada pelo governo que temos, já deu provas, e que provas, de não ter pela cidade o amor que os súbditos do PS, todos nós, lhe dedicam. O contrato dos contentores do Coelho aí está, suficiente para provar o “desvelo” camarário. A Sociedade Frente Tejo (não sei se é assim que se chama), com a bênção da CML mas sem que a CML nela tenha poder, aí está para provar que tal desvelo acaba por se consubstanciar numa coisa de direito privado e dinheiro público, com mais um “escol” de administradores, arquitectos, engenheiros, secretárias, motoristas e respectivas limusinas.
Por tudo isto, e muito mais, se é, formalmente, justo e lógico que a CML passe a ter poder sobre a ribeira de Lisboa, substancialmente a coisa causa a maior das inquietações.
Quando é patente que a APL, à contre coeur que seja, mostra já uma obra notável e para mais se preparava, entra em acção uma câmara que tem a interessante peculiaridade de estar há anos no poder sem que seja quem for tenha dado pela sua “obra”, à excepção, é claro, da “reestruturação” e do aumento da dívida e do asfaltar de algumas ruas, tapando as sarjetas, antes das eleições.
Que fará de jeito, na ribeira, a câmara costo/roseto/fernandesca, é coisa que ninguém saberá imaginar. Que dinheiro tem (coisa que à APL nunca faltou) para fazer seja o que for que se veja e não seja asneira?
Caso é para perguntar se, daqui a uns anos, não vamos estar todos cheios de saudades dos tempos heróicos em que a APL tomava conta do rio.
20.6.10
António Borges de Carvalho

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