IRRITADO

Um blogue de António Borges de Carvalho

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


  • DA NACIONAL PENDURICE

     

     

    O discurso da subsidiodependência usado por gente que vive a expensas do orçamento, de modos duplos e triplos, não resolve um problema maior e que é o da estruturação democrática constitucionalizada das artes e da cultura no todo nacional.

     

    Neste belo português se exprime um senhor que opina sobre cultura num jornal diário.

    A conclusão a tirar do arrazoado é que a estruturação democrática constitucionalizada das artes e da cultura é coisa que obriga o Estado.

    Lidas as coisas um bocadinho mais fundo, quer dizer que ao Estado compete pagar – sem bufar – as altas iniciativas culturais das sociedades recreativas, dos grupos de saltimbancos, das bandas de rock, dos animadores “culturais” e de todo e qualquer auto proclamado “produtor” de “cultura para o povo”, coisa democrática, é de ver, e por isso os contribuintes que a sustentem.

     

    O IRRITADO, dada a sua anglofilia, estendida aos hábitos dos sobrinhos do tio Sam, acha deplorável que se tenha deixado espalhar por toda a parte este tipo de mentalidade.

    A subsídiodependência de que fala o opinante como se de alta virtude se tratasse – uma vez que só é posta em causa por gente que vive, de modos duplos e triplos, a expensas do orçamento (?) – é o contrário do que seria de esperar dos criadores de cultura dignos desse nome.

    Se esta malta precisa de dinheiro – do que não se duvida, não há quem não precise – que faça como a capelista lá da rua: abra a loja e trate de arranjar clientes. Se não há clientes, a capelista fecha.

    Se os artistas querem dinheiro, façam alguma coisa que interesse aos seus concidadãos e cobrem-lhes bilhetes ou apelem à sua generosidade. Desenrasquem-se.

    O Estado poderia ou deveria aparecer quando, comprovado e apreciado o valor da obra dos artistas – não antes! – resolvesse contratá-los para prestar serviço público.

    Até lá, eles que se imponham à comunidade. É difícil, custa sacrifícios mas, se é por amor à arte e não ao dinheiro dos contribuintes, então que façam como a capelista. Se não houver freguesia, paciência.

    Nos países de tradição anglo-saxónica é assim. Os grupos de teatro, de música, dança, etc. recorrem ao dinheiro dos outros mediante venda de bilhetes ou interessantes actividades de fund raising. Por outras palavras, trabalham. Desenrascam-se.

    O dinheiro público nada tem a ver com isso. A não ser, às vezes, com rigorosíssimos critérios de qualidade, de serviços já prestados à comunidade, etc. Ou então através de serviços públicos, desde que esteja demonstrada a viabilidade de certas iniciativas. Nunca pondo a carroça à frente dos bois.

     

    Por cá, infelizmente, as coisas não se passam assim. Os governantes são, na opinião dos interessados e de mais uns quantos, obrigados a despejar dinheiro em cima das suas actividades, todas elas, evidentemente, “indispensáveis” à “cultura” e ao “progresso” do “povo”.

    Não concordar com isto é viver a custas do orçamento, de modos duplos e triplos. Não fazem a coisa por menos. Quem se quer pendurar chama penduras a outros.

    Em matéria de argumentação, nada de novo.

     

    12.12.11

     

    António Borges de Carvalho

  • SERVIÇO PÚBLICO

     

    Dizia ontem um intelectual da nossa praça quando perguntado sobre as recentes opiniões do senhor Pinto de Sousa, que “esse personagem não merece qualquer referência”.

    Tem razão. Facto, porém, é que a criatura mandou umas bocas não se sabe onde nem perante quem – diz-se que em França mas, como foi em português, é capaz de ter sido nalguma reunião do PS de Carrazeda de Ansiães, já que não haverá um só francês que se preste a ouvir aquele tipo de alarvidades.

    Nada disto é importante, como diria o tal intelectual.

    Importante é que a RTP tenha proporcionado à cretina personagem prolongado palco para que pudesse “esclarecer” as suas patacoadas. Vezes sem conta, o senhor Rodrigues dos Santos e a sua camarilha puseram no mais alto destaque os “esclarecimentos” do indivíduo, dando-lhe a publicidade que qualquer pessoa de bom senso negaria. Isto é que é importante, e grave, não as parvoíces do aldrabão de feira.

    Uma coisa ficou por esclarecer, talvez por lapso: onde terá o artista aprendido economia, ciência de cujos conhecimentos tanto se gabou?

    Não interessa. O que interessa é mais esta demonstração de “serviço público” que a RTP nos deu. Exemplar!

     

    Como pode haver, na cabeça do senhor Relvas, alguma dúvida quanto à imperiosa necessidade nacional de acabar com aquilo?   

     

    11.12.11

     

    António Borges de Carvalho

  • DEIXEM-NOS TRABALHAR!

     

    Esta coisa das cimeiras e das salvíficas ideias da dona Ângela, do melga Nicolau, seu serventuário, do rebelde Camarão e de mais uns tantos craques, faz uma confusão dos diabos.

    Querem obrigar os governos a limitar a 3% o défice orçamental dos Estados. Não contentes, querem que a malta toda ponha a regra nas constituições respectivas, ou em instrumento especial.

    Então não há já, há uma data de anos – pelo menos desde que há euro – uma regra que estabelece exactamente a mesma coisa? Uma regra que quase ninguém cumpre, uma regra a que o anterior presidente da Comissão chamou “estúpida” (não sei se é estúpida, foi o homem quem o disse), regra cujo desrespeito foi “fundado” pela Alemanha e pela França, ainda que sem consequências para os próprios, que isso de consequências é para os outros, regra cujo cumprimento pode ser um compromisso firme, mas que ninguém pode dar absoluta garantia de cumprir?

    Quem falhar, lixa-se, quer dizer, fica pior do que estava.

    De resto, tudo na mesma. Perguntava aqui há dias o professor Miguel Beleza o que acontece ao ministro da finanças se o défice for de 3,2%? E respondia: castiga-se o ministro das finanças mandando-o ver filmes do Manuel, perdão, Manoel de Oliveira. O IRRITADO acha bem.

    Resumindo o resultado desta última cimeira no que nos diz directamente respeito: fica tudo na mesma. Vamos andar uns tempos entretidos em saber se se deve mudar a constituição ou meter a coisa na lei do orçamento, e pronto.

    De resto, o Passos Coelho e o Gaspar continuarão a tentar tirar-nos da fossa (o pior é o Relvas!), o cinto vai apertar ainda mais, os comunas da CP e os fascistas da TAP continuarão a fazer greves, a CGTP continuará a dizer leninices, o PR continuará a desbocar-se, etc.

     

    Já que temos um PM decente, resta-nos esperar que a coisa, daqui a uns anos, comece a dar resultado.

    E pronto. Façam lá as cimeiras que quiserem, mas deixem-nos arrastar a nossa miséria sem chatear mais do que já chatearam.

     

    11.12.11

     

    António Borges de Carvalho

  • TRAMPA

     

    Os maquinistas da CP (empresa pública super falida), indivíduos que ganham entre 30 e 60 mil euros por ano, que gozam de um esquema de regalias e prebendas sem paralelo, ao ponto de ter prémios por se apresentar ao serviço e de trabalhar entre três e cinco horas por dia, decidiram, não se sabe nem interessa saber porquê, fazer a décima milionésima greve da sua carreira de servidores do Estado e do público.

    Para quê comentar? Não se trata de flagrante delito de abuso do direito? Não se trata de evidente bofetada na cara de quem precisa de emprego e não o tem? Não se trata de traição? De roubo? Não é um crime?

    Responda quem souber.

    Que armas têm os portugueses que trabalham e pagam impostos para se defender destes actos de puro banditismo legal?

    A esta responde o IRRITADO: nenhumas!

    Pois se até os juízes fazem o mesmo!

     

    9.12.11

     

    António Borges de Carvalho

  • ABAIXO DE TRAMPA

     

    Nesta hora tão difícil, devem os portugueses unir-se num preito de gratidão aos seus nobres compatriotas do sindicato dos pilotos civis, sem regatear humildes e públicas homenagens do mais profundo reconhecimento.

    O IRRITADO desde já toma a dianteira e pede aos seus leitores que espalhem por toda a parte, cantando hinos e dizendo trovas, a agradecida exaltação que as armas e os barões desta nobre classe a todos causam.

    Esmagados por salários de miséria, desempenhando funções que, tais as das cabeleireiras gregas, são de alto risco e desgaste rápido, sacrificando o seu pobre dia a dia em prol da comunidade, os pilotos da TAP são pisados pelas tergiversações do poder e pelos abusos do patronato reaccionário e fascisante, são desconsiderados por milhões de ingratos passageiros que têm a ignóbil pretensão de ser transportados, repimpando-se em assentos de couro azul e dando ordens a mal pagos quão gentis meninos e meninas! Não são passíveis de descrição os altos serviços que, prenhes de espírito de sacrifício e de amor, prestam à Pátria e aos seus concidadãos, obtendo dela não mais que pobreza e malquerença.    

    E porquê, nesta hora, reforçar a nossa gratidão?

    A resposta é simples, meus queridos compatriotas. É que a subida noção do serviço público desta incomparável gente levou a que a TAP, empresa tirânica e anti-democrática, poupasse nada menos que 30 milhões de euros. Sim, meus amigos, 30 milhões! Os senhores pilotos, que, dada a forma miserável como são tratados (ao ponto de, como é do conhecimento geral, ter as famílias a morrer de fome e a casa por pagar), tinham marcado uma greve cujos custos estavam estimados em 40 milhões. Generosamente, decidiram desconvocá-la. Assim, foi estimado que o aviso ora anulado custou apenas 10 milhões! A empresa, o Estado, o respeitável público viram-se, assim, aliviados de 30 milhões de perdas!

     

    9.12.11

     

    António Borges de Carvalho

  • “O CRIME ANUNCIADO DE FOZ TUA”

     

    O IRRITADO copiou, para epigrafar este post, o título, de igual teor, de um editorial do “Público” de ontem. Para o pôr de pernas para o ar, como não pode deixar de ser.

     

    No advento do guterrismo, como todos estarão lembrados, o governo cedeu às pressões de uma chusma de bem pensantes e deitou para o caixote uns milhões (de contos!) que já estavam gastos em trabalhos de construção da barragem de Foz-Côa.

    Tratava-se de “salvar” uns bonecos eventualmente escavados na rocha por uns pitecantropos quaisquer. O resultado foi, para além dos referidos milhões deitados ao lixo, ter-se arranjado uma despesa de outros tantos para criar um parque arqueológico ou coisa que o valha, provido de uma monstruosa mastaba, coisa que, para além dos que lá ganham simpáticos ordenados, ninguém que se veja frequenta, mas continua e continuará a dar despesa, em vez de produzir riqueza.

    As vozes que, na altura, alertaram para este crime, propondo a conservação museológica de tais testemunhos da arte do homo erectus, foram acusadas de tudo e mais alguma coisa pelos habituais próceres do politicamente correcto, Guterres e o PS à cabeça.

     

    Agora, a obscura direcção do “Público”, a respeito da barragem de Foz Tua, retoma argumentação paralela, desta vez a propósito das alterações que a obra vai provocar nos “bens culturais protegidos” pela UNESCO, isto é, na a paisagem da região.

    Gostaria de saber o que ganhamos – é o caso do fado – com as classificações da UNESCO. Fica para outra altura.

    Para já, notemos que os que se revoltam contra o “crime” são os mesmos que incensam as chamadas energias renováveis, que elogiam a política dos moinhos de vento, alarvidade energética que custa e continuará a custar biliões às pessoas, isto para além de ter uma influência muito mais brutal na paisagem, em inúmeras paisagens, do que a criação de uma paisagem nova, natural q.b., que surgirá com a realização do projecto de Foz Tua. Os mesmos que são capazes de defender a ocupação, a qualquer preço, de largas centenas de milhar de hectares com coberto vegetal destinado a bio-combustíveis!

    Em matéria de coerência, estamos conversados. As energias renováveis são uma maravilha, excepto quando excitam a sensibilidade das almas puras da correcção e da moda.

    Afinal, não estávamos tão conversados quanto o IRRITADO pensava. É que foi o sucessor político do camarada Guterres quem tomou a decisão de construir a barragem. Agora é que estamos mesmo conversados.

     

    8.12.11

     

    António Borges de Carvalho

  • HELMUT SCHMIDT

     

    Não há palavras que o IRRITADO possa escrever que não sejam de menos para referir o que sente ao ler o discurso de Helmut Schmidt no congresso do SPD, dia 4, coisa a que o “serviço público” dedicou três segundos e a que a nacional inteligentsia, se reagiu, não foi coisa que se visse.

     

    A tradução é fraca, mas foi o que se arranjou. O IRRITADO só emendou a grafia brasileira, dita do acordo ortográfico.

     

    Aqui vai:

     

    «A Alemanha na e com a Europa»

    Helmut Schmidt, ex-chanceler, no Congresso ordinário do SPD, Berlim, 4 de Dezembro de 2011

     

    Queridos Amigos, minhas Senhoras e meus Senhores

     

    Deixai-me começar com uma nota pessoal. Quando o Sigmar Gabriel, o Frank-Walter Steinmeier e o meu Partido me pediram mais uma vez uma contribuição, gostei de recordar como há 65 anos eu e a Locki, de joelhos no chão, pintávamos cartazes para o SPD em Hamburgo-Neugraben. Na verdade tenho de confessar desde já: no que diz respeito a toda a política partidária, já estou para além do Bem e do Mal, por causa da minha idade. Há muito que para mim, em primeiro e em segundo lugar, se encontram as tarefas e papel da nossa nação no indispensável âmbito união europeia.

    Simultaneamente estou satisfeito por poder partilhar esta tribuna como o nosso vizinho norueguês Jens Stoltenberg, que no centro de uma profunda infelicidade da sua nação nos deu a nós e a todos os europeus um exemplo a seguir de direcção liberal e democrática de um estado de direito.

    Enquanto entretanto homem já muito velho, penso naturalmente em longos períodos temporais – quer para trás na História, quer para a frente na direcção do desejado e pretendido futuro. Contudo, não pude dar há alguns dias uma resposta clara a uma pergunta muito simples. Wolfgang Thierse perguntara-me: «Quando será a Alemanha, finalmente, um país normal?» E eu respondi: num futuro próximo a Alemanha não será um país «normal». Já que contra isso está a nossa carga histórica enorme mas única. E além disso está contra isso a nossa posição central preponderante, demográfica e economicamente, no centro do nosso bastante pequeno continente mas organizado em múltiplos estados-nação.

    Com isto já estou no centro do complexo tema do meu discurso: a Alemanha na Europa, com a Europa e pela Europa.

     

    Razões e origens da integração europeia

    Apesar de em alguns poucos dos cerca de 40 Estados europeus a consciência de ser um nação se ter desenvolvido tardiamente – assim em Itália, na Grécia e na Alemanha – sempre houve e em todo o lado guerras sangrentas. Pode-se compreender esta história europeia – observada da Europa Central – como uma pura sequência de lutas entre a periferia e o centro e vice-versa. Sempre de novo o centro se manteve o campo de batalha decisivo.

    Quando os governantes, os estados ou os povos no centro da Europa foram fracos, então os vizinhos da periferia avançaram para o centro. A maior destruição e as relativamente elevadas baixas humanas aconteceram na primeira guerra dos 30 anos entre 1618 e 1648, que se desenrolou fundamentalmente em solo alemão. A Alemanha era, nessa época, simplesmente um conceito geográfico, definido de forma desfocada só pelo espaço da língua alemã. Mais tarde vieram os franceses, sob Luís XIV e de novo sob Napoleão. Os suecos não vieram uma segunda vez; mas sim diversas vezes os ingleses e os russos, a última vez com Estaline.

    Mas quando as dinastias ou os Estados eram foram fortes no centro da Europa – ou quando se sentiram fortes! – então atacaram a periferia. Isto já é válido para as cruzadas, que foram simultaneamente cruzadas de conquista não só na direcção da Ásia Menor e Jerusalém, mas também na direcção da Prússia Oriental e na de todos os três estados bálticos actuais. Na idade moderna é válido para as guerras contra Napoleão e é válido para as três guerras de Bismarck em 1864, 1866 e 1870/71.

    O mesmo é válido principalmente para a segunda guerra dos 30 anos de 1914 a 1945. É especialmente válido para os avanços de Hitler até ao Cabo Norte, até ao Cáucaso, até à ilha grega de Creta, até ao sul da França e até mesmo a Tobruk, perto da fronteira líbio-egípcia. A catástrofe europeia, provocada pela Alemanha, incluiu a catástrofe dos judeus europeus e a catástrofe do estado nacional alemão.

    Mas antes os polacos, as nações bálticas, os checos, os eslovacos, os austríacos, os húngaros, os eslovenos, os croatas tinham partilhado o destino dos alemães na medida em que todos eles, desde há séculos, tinham sofrido sob a sua posição geopolítica central neste pequeno continente europeu. Ou dito de outra forma: diversas vezes, nós, alemães, fizemos sofrer os outros sob a nossa central posição de poder.

    Hoje em dia, as reivindicações territoriais conflituais, os conflitos linguísticos e fronteiriços, que ainda na primeira metade do século XX desempenharam um papel importante na consciência das nações, tornaram-se de facto insignificantes, pelo menos para nós alemães.

    Enquanto na opinião pública e na opinião publicada nas nações europeias o conhecimento e a lembrança das guerras da Idade Média se encontram amplamente esquecidos, a lembrança de ambas as guerras do século XX e a ocupação alemã desempenham todavia ainda um papel latente dominante.

    Penso ser para nós alemães decisivo que quase todos os nossos vizinhos – e para além disso quase todos os judeus no mundo inteiro – se recordem do holocausto e das infâmias que aconteceram durante a ocupação alemã nos países da periferia. Não está suficientemente claro para nós alemães que provavelmente entre quase todos os nossos vizinhos, ainda por muitas gerações, se mantém uma desconfiança contra os alemães.

    Também as gerações alemãs posteriores têm de viver com este peso histórico. E as actuais não devem esquecer: foi a desconfiança com um futuro desenvolvimento da Alemanha que justificou o início da integração europeia em 1950.

    Em 1946, Churchill, no seu grande discurso em Zurique, tinha duas razões para apelar aos franceses para se entenderem com os alemães e construírem com ele os Estados Unidos da Europa: em primeiro lugar a defesa conjunta perante a União Soviética, que parecia ameaçadora, mas em segundo a integração da Alemanha numa aliança ocidental alargada. Porque Churchill previa perspicazmente a recuperação económica da Alemanha.

    Quando em 1950, quatro anos depois do discurso de Churchill, Robert Schuman e Jean Monnet apresentaram o plano Schuman para a integração da indústria pesada europeia, a razão foi a mesma, a razão da integração alemã. Charles de Gaulle, que dez anos mais tarde propôs a Konrad Adenauer a reconciliação, agiu pelo mesmo motivo.

    Tudo isto aconteceu na perspectiva realista de um possível desenvolvimento futuro do poder alemão. Não foi o idealismo de Victor Hugo, que em 1849 apelou à união da Europa, nem nenhum idealismo esteve em 1950/52 no início da integração europeia então limitada à Europa Ocidental. Os estadistas dessa época na Europa e na América (nomeio George Marshall, Eisenhower, também Kennedy, mas principalmente Churchill, Jean Monnet, Adenauer e de Gaulle ou também Gasperi e Henri Spaak) não agiram de forma nenhuma por idealismo europeu, mas sim a partir do conhecimento da história europeia até à data. Agiram no juízo realista da necessidade de impedir uma continuação da luta entre a periferia e o centro alemão. Quem ainda não entendeu este motivo original da integração europeia, de que continua a ser um elemento fundamental, quem ainda não entendeu isto falta-lhe a condição indispensável para solucionar a presente crise altamente precária da Europa.

    Quanto mais, durante os anos 60, 70 e 80, a então República Federal ganhava em peso económico, militar e político, mais a integração europeia se tornava aos olhos dos governantes europeus o seguro contra a de novo possível tentação de poder alemã. A resistência inicial de Margaret Tatcher ou de Miterrand ou de Andreotti em 1989/90 contra a unificação dos dois estados alemães do pós-guerra estava claramente fundada na preocupação de uma Alemanha poderosa no centro deste pequeno continente europeu.

    Gostaria aqui de fazer um pequeno excurso pessoal. Ouvi  Jean Monnet quando participei no seu comité «Pour les États-Unis d’Europe». Foi em 1955. Para mim Jean Monnet é um dos franceses mais perspicazes que eu conheci na minha vida em questões de integração, também por causa do seu conceito de avançar passo a passo na integração europeia.

    Desde aí que, por compreender o interesse estratégico da nação alemã, me tornei e me mantive um partidário da integração europeia, um partidário da integração da Alemanha, não por idealismo. (Isto levou-me a uma controvérsia com Kurt Schumacher, o por mim muito respeitado presidente do meu partido, para ele insignificante, para mim com 30 anos, regressado da guerra, muito séria.) Levou-me a concordar, nos anos 50, com os planos do então Ministro dos Negócios Estrangeiros polaco Rapacki. No início dos anos 60 escrevi então um livro contra a estratégia oficial ocidental da retaliação nuclear, com que a NATO, na qual ontem como hoje nos encontrávamos integrados, ameaçava a poderosa União Soviética.

     

    A União Europeia é necessária

    De Gaulle e Pompidou continuaram nos anos 60 e início dos anos 70 a integração europeia, para integrar a Alemanha – mas também não queriam de maneira nenhuma integrar o seu próprio estado. Depois disso, o bom entendimento entre Giscard d’Estaing e mim, levou a um período de cooperação franco-alemão e à continuação da integração europeia, um período que depois da primavera de 1990 continuou com êxito entre Miterrand e Kohl. Ao mesmo tempo desde 1950/52 que a comunidade europeia cresceu, até 1991, passo a passo de seis para doze membros.

    Graças ao amplo trabalho preparatório de Jacques Delors (na altura presidente da Comissão Europeia), Miterrand e Kohl acordaram, em 1991, em Maastricht a moeda comum – o euro – que se tornou realidade dez anos mais tarde, em 2001. De novo na sua origem a preocupação francesa de uma Alemanha demasiado poderosa, mais exactamente de um marco demasiado poderoso.

    Entretanto o euro tornou-se na segunda moeda mais importante da economia mundial. Esta moeda europeia é até, quer interna, quer externamente mais estável do que o dólar americano e mais estável do que o marco foi nos seus últimos dez anos. Toda a conversa sobre uma suposta «crise do euro» é conversa fiada leviana dos media, de jornalistas e de políticos.

    Mas desde Maastricht, desde 1991/92, que o mundo mudou imensamente. Assistimos à libertação das nações do leste europeu e à implosão da União Soviética. Assistimos à ascensão fenomenal da China, da Índia, do Brasil e outros «estados emergentes», que antigamente chamávamos «Terceiro Mundo». Simultaneamente, as economias reais de grande parte do mundo «globalizaram-se», em alemão: quase todos os estados no mundo dependem uns dos outros. Principalmente, os actores nos mercados financeiros globalizados apropriaram-se de um poder, por enquanto, totalmente sem controlo.  

    Mas paralelamente, quase sem se dar por isso, a humanidade multiplicou-se de forma explosiva atingindo os 7 mil milhões. Quando nasci eram cerca de 2 mil milhões. Todas estas enormes mudanças tiveram consequências tremendas nos povos europeus, nos seus estados, no seu bem-estar!

    Por outro lado, todas as nações europeias envelhecem e por todo o lado desce o número de cidadãos europeus. Em meados do século XXI seremos provavelmente 9 mil milhões de pessoas a viver na Terra, enquanto todas as nações europeias não ultrapassarão os 7%. 7% de 9 mil milhões. Até 1950, os europeus representaram, durante mais de dois séculos, mais de 20% da população mundial. Mas desde há 50 anos que nós europeus diminuímos – não só em números absolutos, mas principalmente em relação à Ásia, África e América Latina. Da mesma forma desce a parte dos europeus no produto social global, isto é na criação de riqueza de toda a humanidade. Até 2050 descerá até aos 10%; em 1950 ainda representava 30%.

    Cada uma das nações europeias, em 2050, representará já só uma parte de um 1% da população mundial. Quer dizer: se queremos ter a esperança de nós europeus termos importância no mundo, então só a teremos em conjunto. Porque enquanto Estados separados – seja a França, Itália ou Alemanha ou Polónia, Holanda ou Dinamarca ou Grécia – só nos poderão contar em milésimos e não mais em números percentuais.

    Daqui resulta o interesse estratégico a longo prazo dos estados europeus na sua cooperação integradora. Este interesse estratégico na integração europeia aumentará em importância cada vez mais. Até agora ainda não está amplamente consciencializado pelas nações. Também os respectivos governos não as consciencializam.

    No caso, porém de a União Europeia no decorrer do próximo decénio não conseguir – mesmo que limitada – uma capacidade conjunta de actuação, não é de excluir uma marginalização auto-provocada dos estados e da civilização europeia. Do mesmo modo não se pode excluir, num caso destes, o ressuscitar de lutas concorrenciais e de prestígio entre os estados europeus. Numa situação destas a integração da Alemanha não poderia funcionar. O velho jogo entre centro e periferia podia de novo tornar-se realidade.

    O processo mundial de esclarecimento, de propagação dos direitos das pessoas e da sua dignidade, o direito constitucional e a democratização não receberia mais nenhum impulso eficaz da Europa. Nesta perspectiva, a comunidade europeia torna-se uma necessidade vital para os estados nacionais do nosso velho continente. Esta necessidade ultrapassa as motivações de Churchill e de Gaulle. Também ultrapassa as motivações de Monnet e os de Adenauer. E hoje também engloba as motivações de Ernst Reuter, Fitz Ehler, Willy Brandt e também Helmut Kohl. Acrescento: certamente que também se trata ainda e sempre da integração da Alemanha. Por isso, nós alemães temos de ganhar clareza sobre a nossa tarefa, o nosso papel no contexto da integração europeia.

     

    A Alemanha necessita de constância e fiabilidade

    Se no final de 2011 olharmos para a Alemanha com os olhos dos nossos vizinhos mais próximos e mais distantes, desde há um decénio que a Alemanha provoca inquietação – recentemente também preocupação política. Nos últimos anos surgiram dúvidas consideráveis sobre a constância da política alemã. A confiança na garantia da política alemã está abalada.

    Estas dúvidas e preocupações assentam também nos erros de política externa dos nossos políticos e governos. Por outro lado baseiam-se no, para o mundo inesperado, poder económico da República Federal unificada. A nossa economia tornou-se – iniciando nos anos 70, nessa época ainda dividida – na maior da Europa. Tecnológica, financeira e socialmente é hoje uma das economias mais eficientes do mundo. O nosso poder económico e a nossa, em comparação muito estável, paz social desde há decénios também provocaram inveja – tanto mais que a nossa taxa de desemprego e a nossa dívida se encontram dentro da normalidade internacional.

    No entanto, não nos é suficientemente claro que a nossa economia está, quer profundamente integrada no mercado comum europeu, quer em grande medida globalizada e assim dependente da conjuntura mundial. Iremos assim assistir como, no próximo ano, as nossas exportações não aumentarão significativamente.

    Mas simultaneamente desenvolveu-se um grave erro, nomeadamente os enormes excedentes da nossa balança comercial. Desde há anos que os excedentes representam 5% do nosso PIB. São comparáveis aos excedentes da China. Isto não nos é completamente claro porque os excedentes não se contabilizam em marcos, mas em euros. Mas é necessário que os nossos políticos consciencializem esta circunstância.

    Porque todos os nossos excedentes são, na realidade, os défices dos outros. As exigências que temos aos outros, são as suas dívidas. Trata-se de uma violação irritante do por nós elevado a ideal legal do «equilíbrio da economia externa». Esta violação tem de inquietar os nossos parceiros. E quando ultimamente aparecem vozes estrangeiras, na maioria dos casos vozes americanas – entretanto vêm de muitos lados – que exigem da Alemanha um papel de condução europeia, então isso desperta nos nossos vizinhos mais desconfiança. E acorda más recordações.

    Esta evolução económica e a simultânea crise da capacidade de acção dos órgãos da união europeia empurraram de novo a Alemanha para um papel central. A chanceler aceitou solícita este papel juntamente com o presidente francês. Mas há, de novo, em muitas capitais europeias e também em muitos media uma crescente preocupação com o domínio alemão. Desta vez não se trata de uma potência militar e política central, mas sim de um potente centro económico!

    Aqui é necessário uma séria, cuidadosamente equilibrada advertência aos políticos alemães, aos media e à nossa opinião pública.

    Se nós alemães nos deixássemos seduzir, baseados no nosso poder económico, por reivindicar um papel político dirigente na Europa ou pelo menos desempenhar o papel de primus inter pares, então um número cada vez maior dos nossos vizinhos resistiria eficazmente. A preocupação da periferia europeia com um centro da Europa demasiado forte regressaria rapidamente. As consequências prováveis de uma tal evolução seriam atrofiadoras para a UE. E a Alemanha cairia no isolamento.

    A República Federal da Alemanha, muito grande e muito eficaz, precisa – também para se defender de si própria! – de se encaixar na integração europeia. Por isso desde os tempos de Helmut Kohl, desde 1992 que o art.º 23º da Constituição nos obriga a colaborar «… no desenvolvimento da União Europeia». Este artº 23º obriga-nos a esta cooperação também no «princípio da subsidiariedade…». A crise actual da capacidade de acção dos órgãos da UE não muda em nada estes princípios.

    A nossa posição geopolítica central, mais o papel infeliz no decorrer da história europeia até meados do século XX, mais a nossa capacidade produtiva actual, tudo isto exige de todos os governos alemães uma grande dose de compreensão dos interesses dos nossos parceiros na EU. E a nossa prestabilidade é indispensável.

    Nós, alemães, também não conseguimos sozinhos a grande reconstrução e capacidade de produção nos últimos 6 decénios. Elas não teriam sido possíveis sem a ajuda das potências vencedoras ocidentais, sem a nossa inclusão na comunidade europeia e na aliança atlântica, sem a ajuda dos nossos vizinhos, sem a mudança política na Europa de leste e sem o fim da ditadura comunista. Nós, alemães, temos razões para estarmos gratos. E simultaneamente temos a obrigação de nos mostramos dignos da solidariedade através da solidariedade com os nossos vizinhos!

    Pelo contrário, ambicionar um papel próprio na política mundial e ambicionar prestígio político mundial seria bastante inútil, provavelmente até prejudicial. Em todo o caso, mantém-se indispensável a estreita cooperação com a França e a Polónia, com todos os nossos vizinhos e parceiros na Europa.

    É minha convicção que reside no interesse estratégico cardinal da Alemanha a longo prazo, não se isolar e não se deixar isolar. Um isolamento no espaço do ocidente seria perigoso. Um isolamento no espaço da EU ou da zona euro seria ainda mais perigoso. Para mim, este interesse da Alemanha ocupa um lugar inequivocamente mais importante do que qualquer interesse táctico de todos os partidos políticos.

    Os políticos e os media alemães têm, com mil demónios, a obrigação e o dever de defender este conhecimento de forma duradoura na opinião pública.

    Mas quando alguém dá a entender que hoje e no futuro falar-se-á alemão na Europa; quando um ministro alemão dos negócios estrangeiros pensa que aparições adequadas às televisões em Tripoli, Cairo ou Cabul são mais importantes do que contactos políticos com Lisboa, Madrid, Varsóvia ou Praga, Dublin, Haia Copenhaga ou Helsínquia; quando um outro acha ter de se defender de uma «União de transferência» – então tudo isto é mera fanfarronice prejudicial.

    Na verdade, a Alemanha foi durante longos decénios pagador líquido! Podíamos fazê-lo e fizemo-lo desde Adenauer. E naturalmente que Grécia, Portugal ou Irlanda forma sempre recebedores líquidos.

    Esta solidariedade talvez não seja hoje suficientemente clara para a classe política alemã. Mas até agora foi evidente. Também evidente – e para além disso desde Lisboa incluído no tratado – o princípio da subsidiariedade: aquilo que um estado não pode ou não consegue resolver, tem de ser assumido pela UE.

    Desde o plano Schuman que Konrad Adenauer aceitou, por instinto político acertado, a oferta francesa contra a resistência quer de Kurt Schumacher, quer de Ludwig Erhard. Adenauer avaliou correctamente o interesse estratégico de longo prazo da Alemanha – apesar da divisão da Alemanha! Todos os sucessores – assim também Brandt, Schmidt, Kohl e Schröder – prosseguiram a política de integração de Adenauer.

    Todas as tácticas da ordem do dia, da política interna ou da política externa nunca questionaram o interesse estratégico alemão de longo prazo. Por isso todos os nossos vizinhos e parceiros puderam confiar, durante decénios, na constância da política europeia alemã – e na verdade independentemente de todas as mudanças de governo. Esta continuidade mantém-se conveniente também no futuro.

     

    A situação actual da EU exige energia

    Contribuições conceptuais alemãs foram sempre naturais. Também se deve manter assim no futuro. No entanto não devíamos antecipar o futuro longínquo. Mudanças no tratado, mesmo assim, só poderiam corrigir em parte erros e omissões na realidade criada há vinte anos em Maastricht. As propostas actuais para as mudanças no Tratado de Lisboa em vigor não me parecem muito úteis para um futuro próximo, se nos lembrarmos das dificuldades até agora com todas as diversas ratificações nacionais, ou nos referendos com resultados negativos.

    Concordo por isso com Napolitano, o Presidente italiano, quando, num notável discurso em Outubro exigiu que nós hoje nos temos de concentrar no que é necessário hoje fazer. E que para isso temos de esgotar as possibilidades que os tratados em vigor nos proporcionam – especialmente o reforço das regras orçamentais e da política económica na zona Euro.

    A actual crise da capacidade de acção dos órgãos da EU criados em Lisboa, não pode continuar! Com a excepção do BCE, todos os órgãos – Parlamento Europeu, Conselho Europeu, Comissão Europeia e Conselho de Ministros – todos eles, desde a superação da aguda crise dos bancos de 2008 e especialmente da consequente crise da dívida soberana, contribuíram pouco para uma ajuda eficaz.

    Não há nenhuma receita para a superação da actual crise de liderança na EU. Serão necessários vários passos, alguns simultâneos, outros consecutivos. Não serão só necessárias, capacidade de análise e energia, mas também paciência! Nisso as contribuições concepcionais alemãs não se podem reduzir a chavões. Não devem ser apresentadas na praça televisiva, mas em vez disso confidencialmente nos grémios dos órgãos da EU. Os alemães não devem apresentar como exemplo ou medida de toda as coisas aos nossos parceiros europeus, nem a nossa ordem económica ou social, nem o nosso sistema federal, nem a nossa política constitucional orçamental ou financeira, mas sim simplesmente enquanto exemplo entre várias outras possibilidades.

    Todos nós em conjunto somos responsáveis pelos efeitos futuros na Europa por tudo o que hoje a Alemanha faz ou deixa de fazer. Precisamos de razoabilidade europeia. Mas não precisamos só de razoabilidade, mas também de um coração compreensivo com os nossos vizinhos e parceiros.

    Concordo num ponto importante com Jürgen Habermas, que recentemente referiu que – e cito – «…na realidade assistimos agora pela primeira vez na história da EU a uma desmontagem da Democracia!!» (fim da citação). De facto: não só o Conselho Europeu, incluindo o seu Presidente, também a Comissão Europeia, incluindo o seu Presidente e os diversos Conselhos de Ministros e toda a burocracia de Bruxelas marginalizaram em conjunto o princípio democrático! Eu caí no erro, na época em que introduzimos a eleição para o Parlamento europeu, de pensar que o Parlamento conseguiria o seu peso próprio. Na verdade até agora não teve nenhuma influência reconhecível na superação da crise, já que as suas discussões e resoluções não têm até agora nenhum resultado público.

    Por isso quero apelar a Martin Schulz: é tempo de o senhor e os seus colegas democratas-cristãos, socialistas, liberais e verdes, em conjunto mas de forma drástica, conseguirem ser ouvidos publicamente. Provavelmente o campo da totalmente insuficiente fiscalização sobre os bancos, bolsas e os seus instrumentos financeiros, desde o G20 em 2008, adequa-se na perfeição para um tal levantamento do Parlamento Europeu.

    Realmente alguns milhares de broakers nos EUA e na Europa, mais algumas agências de notação tornaram reféns os governos politicamente responsáveis na Europa. Não é de esperar que Barack Obama possa vir fazer muito contra isso. O mesmo é válido para o governo britânico. Realmente, os governos do mundo inteiro salvaram, na verdade, os bancos em 2008/09 com as garantias e o dinheiro dos impostos dos cidadãos. Mas já em 2010, esta manada de executivos financeiros, altamente inteligentes e simultaneamente propensos à psicose, jogava, de novo, o seu velho jogo do lucro e das bonificações. Um jogo de azar e em prejuízo dos que não são jogadores, que eu e Marion Dönhoff já nos anos 90 criticámos como muito perigoso.

    Já que ninguém quer agir, então os participantes da zona Euro têm de o fazer. Para isso o caminho pode ser o do artº 20º do Tratado de Lisboa em vigor. Aí prevê-se expressamente, que Estados-membros sós ou em conjunto «estabeleçam entre eles uma cooperação reforçada». Em todo o caso, os Estados membros da zona euro deveriam impor uma regulação enérgica do seu mercado financeiro comum. Desde a separação entre por um lado os normais bancos de negócios e por outro, os bancos de investimento e bancos sombra até à proibição da venda de derivados, desde que não autorizados pela fiscalização oficial da Bolsa – até à restrição eficaz dos negócios das, por enquanto, não fiscalizadas agências de notação no espaço da zona euro. Não quero, minhas senhoras e meus senhores, aborrecê-los com mais detalhes.

    Naturalmente que o globalizado lobby dos banqueiros iria empregar todos os meios contra. Já conseguiu até agora impedir toda a regulamentação eficaz. Possibilitou para si mesmo que a manada dos seus broakers tenha colocado os governos europeus na situação difícil de ter de inventar sempre novos «fundos de estabilização» e alargá-los através de «alavancas». É tempo de se resistir. Se os europeus conseguirem ter a coragem e a força para uma regulação eficaz dos mercados financeiros, então podemos no médio prazo tornarmo-nos numa zona de estabilidade. Mas se falharmos, então o peso da Europa continuará a diminuir – e o mundo evolui na direcção de um Duovirato entre Washington e Pequim.

    Seguramente que para o futuro próximo da zona euro todos os passos anunciados e pensados até agora são necessários. Deles fazem parte os fundos de estabilização, o limite máximo de endividamento e o seu controlo, uma política económica e fiscal comum, deles fazem parte uma série de reformas nacionais na política fiscal, de despesa, na política social e na política laboral. Mas forçosamente, também uma dívida comum será inevitável. Nós, alemães, não nos devemos recusar por razões nacionais e egoístas.

    Mas de forma nenhuma devemos propagar para toda a Europa uma política extrema de deflação. Mais razão tem Jacques Delors quando exige, em conjunto com o saneamento do orçamento, a introdução e financiamento de projectos que fomentem o crescimento. Sem crescimento, sem novos postos de trabalho, nenhum Estado pode sanear o seu orçamento. Quem acredita que a Europa pode, só através de poupanças orçamentais, recompor-se faça o favor de estudar o resultado fatal da política de deflação de Heinrich Brüning em 1930/32. Provocou uma depressão e um desemprego de uma tal dimensão que deu início à queda da primeira democracia alemã.

     

    Aos meus amigos

    Terminemos, queridos amigos! No fundo, não é preciso pregar solidariedade internacional aos sociais-democratas. A social-democracia é desde há século e meio internacionalista – em muito maior medida do que gerações de liberais, de conservadores ou de nacionalistas alemães. Nós, sociais-democratas, não abdicámos da liberdade e da dignidade de cada ser humano. Simultaneamente não abdicámos da democracia representativa, da democracia parlamentar. Estes princípios obrigam-nos hoje à solidariedade europeia.

    De certo que a Europa, também no século XXI, será constituída por estados nacionais, cada um com a sua língua e a sua própria história. Por isso a Europa não se tornará de certeza num Estado Federal. Mas a UE também não pode degenerar numa mera aliança de estados. A UE tem de se manter uma aliança dinâmica, em evolução. Não há em toda a história da humanidade nenhum exemplo. Nós, social-democratas, temos de contribuir para a evolução passo a passo desta aliança.

    Quanto mais envelhecemos, mais pensamos em períodos longos. Também enquanto homem velho me mantenho fiel aos três princípios do Programa de Godesberg: liberdade, justiça, solidariedade. Penso, a propósito, que hoje a justiça exige antes de mais igualdade de oportunidades para as crianças, para estudantes e jovens.

    Quando olho para trás, para 1945 ou posso olhar para 1933 – tinha acabado de fazer 14 anos – o progresso que fizemos até hoje parece-me quase inacreditável. O progresso que os europeus alcançaram desde o Plano Marshall, 1948, desde o Plano Schuman, 1950, graças a Lech Walesa e ao Solidarnosz, graças a Vaclav Havel e à Carta 77, que agradecemos àqueles alemães em Leipzig e Berlim Oriental desde a grande mudança em 1989/91.

    Não podíamos imaginar nem em 1918, nem em 1933, nem em 1945 que hoje uma grande parte da Europa se regozija pelos Direitos Humanos e pela paz. Por isso mesmo trabalhemos e lutemos para que a UE, historicamente única, saia firme e auto confiante da sua presente fraqueza.

    © SPD 2011

     

     

    8.12.11

    ABC 

     

  • ESTREMEÇÕES DE MORALIDADE

     

    Grande emoção nacional acerca do Audi do ministro da Vespa!

    O assunto assume contornos da mais alta importância, diria quase cósmica, de tão relevante matéria. Não há jornal, telejornal, rádio, pensador, opinador que a tal se não refira, presa da maior inquietação.

    Então não é que um ministro que, no seu dia-a-dia antes de o ser, se deslocava numa Vespa, agora anda num Audi, ao que consta veículo da melhor qualidade e alto preço. Demagogo, aldrabão, oportunista, um nunca acabar de adjectivos destinados, à falta de melhor, a dar cabo do homenzinho.

    Já foi explicado que o maravilhoso meio de transporte, motivo de generalizada inveja, foi adquirido por, ou para, um secretário de Estado do governo do senhor Pinto de Sousa, e que o ministro mais não faz que usar o meio de transporte que a secretaria-geral do ministério terá posto ao seu serviço.

    Cais quê! O ministro, já que, antes, andava de Vespa, não tem o direito de mudar de meio de transporte pelo simples facto de ser ministro! Vá de Vespa, que vai muito bem! Sobretudo se estiver a chover. Se não for sozinho, isto é, se levar alguma secretária ou algum funcionário consigo, então que vá à frente, de Vespa e, atrás, num carrão qualquer, o seu pessoal. Quanto ao Audi, haverá que o vender em segunda mão e, quem sabe, comprar, para os dias de chuva, um Opel Corsa, evidentemente mais caro que o valor de retoma do execrável Audi.

     

    Os limites da inveja e da malquerença são coisa que nem o mais sabido psicólogo saberá estabelecer.     

     

    5.12.11

     

    António Borges de Carvalho

  • OS HACKERS

     

    Anda para aí uma aflição dos diabos com o súbito surto de actividades dos hackers nacionais. Os tipos metem-se em tudo, no governo, nos bancos, na intimidade de cada um…

    Nem autoridades nem empresas nem famílias nem pessoas nem nada está a coberto da intromissão de tais criminosos.

     

    Engraçado é verificar a indignação dos que se indignam com as actividades desta malta.

    Não há muito, os mesmos incensavam os autores do maior de todos os fenómenos de penetração ilegítima na vida de cada um: os canalhas da uiquiliques. Perante o aplauso dos bem pensantes, o senhor Assange repoltreia-se em Londres à espera que o extraditem para a Suécia, acusado… de violação, ou coisa que o valha. Mas ninguém o encarcerou ou exigiu que fosse encarcerado por ter roubado o que roubou, por ter pago a ladrões para roubar, por ter vendido o produto roubado, tudo em flagrante delito, tudo com a devida publicidade, tudo com o aplauso de gente tão “deontológica” como, entre nós, os dirigentes do “Expresso” que, às escâncaras, também foram fazendo uns tostões com a venda dos produtos que sabiam ter sido roubados. O bandido até foi condecorado lá na terra dele, ora governada por uma tonta qualquer.

     

    Por cá, ai ai ai, ai ai ai, que nos andam a mexer nos computadores, que nos alteram as mensagens, que nos vão à conta do banco, que andam para aí a dar cabo do que é nosso!

    Não sei em que se funda a moral desta gente, nem onde vão buscar argumentos (a não ser os que, esfarrapados, o “Expresso” teve a lata de produzir), para criticar os hackers e louvar os outros ladrões.

    Não faltará, se necessário, quem venha “explicar” e “justificar” a profunda diferença entre uma coisa e outra. Tretas. A diferença é só esta: uma deu-lhes dinheiro a ganhar, com a outra podem vir a perdê-lo.

     

    (Faz lembrar a história do Costa com os pinta paredes. Não é permitido cagar paredes, a não ser que o Costa determine que paredes e que cagadas!).

     

    Não sei se há legislação que permita meter na cadeia os hackers ou os tipos do “Expresso”. É capaz de haver. Só que, num caso, talvez venha a ser aplicada (wishful thiking). No outro, nem pensar!

     

    5.12.11

     

    António Borges de Carvalho

  • ABALISADAS OPINIÕES

     

    O senhor Daniel Oliveira, ubíquo e bem pago profissional de opiniões, apresentou, na coluna que vende ao “Expresso”, uma salvífica solução para os problemas da Europa, da dívida, dos juros, da austeridade, etc.

    Coisa imaginativa, bem esgalhada. Eficaz ou não, ninguém saberá dizer. Para o IRRITADO que, uma vez por outra, lê as arengas do fulano, foi uma surpresa. O homem, afinal, é capaz de pensar um bocadinho para além dos parlapatés ideológicos e idiotas do Bloco de Esquerda!

    Ilusão, pois claro. Lá para o fim do arrazoado, o homem confessa que foi passear a Bruxelas e lá ouviu uns tipos defender aquela coisa. Resultado, era preciso ler a coluna até ao fim para perceber que não tinha sido a privilegiada e barbuda cabeça do Oliveira a produzir tão lustrosos pensamentos!

    Bem imaginado. O homem cita os donos da bola quando o jogo já vai no fim. Quem sair antes fica a pensar que foi ele que meteu o golo.

     

    Já agora, o nosso homem não hesita em comparar a PSP ou equivalente à malta do Cadafi ou do Assad, para não dizer da PIDE ou do seu ex bem-amado KGB.

    O alemão que é procurado pela polícia do seu país e que, à porrada, resistiu à identificação pela polícia, é “um manifestante real”, isto é, um pobre alemãozinho abusivamente atacado quando se dedicava a manifestar a sua “indignação” nas ruelas do Bairro Alto.

    O Daniel confessa-se incomodado quando vê a polícia impedir os piquetes de greve (do mijarete da greve “geral”) de obrigar os seus colegas a não trabalhar. Claro, os piquetes de greve, para o ilustre opinador, não se destinam a convencer ao “amarelos” a aderir à greve, mas a obrigá-los a tal, pondo-se à frente dos autocarros, insultando-os e tirando deles desforço se necessário. A polícia, essa, não tem o direito de impedir a forçada aplicação de tal conceito de piquete.

    No auge do delírio, o homem pede que haja quem proteja as pessoas dos polícias, isto para defender o “estado de direito”. Ou seja, o melhor é começar já – como diria, tão estúpido como assassino, o Otelo – a criar milícias destinadas a dar cabo da polícia, a fim de “nos” proteger dos malefícios da dita e a instaurar o “estado de direito”.

     

    Tudo isto é triste, até porque o homem, ao que julgo, não é estúpido. É só mau.

     

    5.12.11

     

    António Borges de Carvalho

  • SELVAJARIAS

     

    As guerras do futebol não costumam ser objecto da atenção do IRRITADO. Mas não deixa de se irritar com a história do incêndio no estádio da Luz.

    Uma claque do Sporting, chateada com o resultado do jogo, decidiu deitar fogo às instalações.

    Toda a gente sabe que as claques dos grandes clubes são pagas por eles para animar as hostes, isto é, para fazer uma barulheira do caneco. Toda a gente sabe que as claques são panelas de pressão dos piores instintos dos adeptos, ou caldos de cultura dos adeptos com piores instintos. Toda a gente sabe que os clubes incentivam e pagam a intimidatória manifestação de tais instintos.  

    Até aqui, tudo bem, ou tudo mal, como se queira. 

    Intolerável, inaceitável, vergonhoso, é que o chefe do Sporting não tenha uma palavra para condenar a selvajaria daqueles a quem paga, pelos vistos para perpetrar selvajarias tais que incendiar estádios.

    O resto é tricas de comadres.

     

    5.12.11

     

    António Borges de Carvalho

  • MORTOS VIVOS

     

    O senhor Pinto de Sousa, conhecido por relativamente engenheiro Sócrates, foi a banhos para Paris, tendo feito constar que lá teria sido admitido como estudante de filosofia.

    Dado o conhecido cahier universitário do referido cidadão, bem como o seu inigualável domínio da língua de Molière, está fora de dúvida que deve ter havido diversas faculdades parisienses a bater-se ferozmente pela honra de contar com tal aluno.

    As altíssimas classificações que já terá obtido não são, infelizmente, do domínio público.

    Para além de andar a pagar jantares no Fouquet’s ou equivalente, a uns polacos que nem se sentaram com ele à mesa nem o conheciam de parte nenhuma, a não ser, vagamente, um deles, há poucas notícias sobre as suas actividades parisienses. É pena. Devem ser extremamente interessantes.

     

    O tema deste post, porém, não tem, directamente, nada a ver com as aventuras gaulesas da criatura, mas com a sua herança. O IRRITADO já se pronunciou sobre a parte material de tal herança, coisa que motivou irritação a não poucos.

    Vem agora falar, já que está na moda, da herança “imaterial” do nosso bem amado pacóvio, herança que não é tão imaterial como isso.

    A doutrina que o fulano inventou, provável embrião dos vários tratados de filosofia que estará a elaborar sobre a credulidade humana e a melhor forma de a explorar, tem diversos seguidores, a maior parte dos quais, ó maravilha!, o nosso homem deixou bem arrumados nos areópagos da Pátria e da Europa.

    Figura de proa desta plêiade de heróis é o camarada Lelo – que se chama Ribeiro de Almeida mas isso não interessa. O que interessa, meus amigos, é que o fiel Lulu, perdão, Lelo, que tantas e tantas vezes nos brindou, na TV, com inacreditáveis inanidades, é agora um dos mais activos apóstolos do socrapifiosismo, doutrina ora em parisiense curso de afinação. De tal maneira que, apesar de os camaradas terem feito a promessa de uma declaração de voto colectiva (mais uma asneira do inSeguro e do borrinho) ele, Lelo, o magnífico, o mais pintodesousista dos pintodesousistas, já informou o povo que a sua será individual, a fim de poder nela verter todo o doutrinário e filosófico fel que o chefe lhe manda de Paris, via UPS (União da Patacoada Socialista).

    Muitos outros há, mortos mas bem vivos.

    Olhem o rapaz do beicinho à banda, que consegue aparecer tantas vezes na televisão como quando era ministro. Visto assim, à distância, quem acredita que um tipo destes alguma vez tenha chegado a ministro?

    Olhem aquele (ex)secretário de estado que diz o contrário do que dizia quando lá estava, ou seja, diz a verdade dos buracos. É que, agora, a verdade pode ser chata para o Passos Coelho, como teria sido para o Pinto de Sousa se não tivesse sido totalmente tapada com mentiras.

    Olhem o famoso tipo das obras públicas, que comunica ao povo que nem as auto estradas nem nenhuma das obras do pintodesousismo, nem nenhuma PPP custa um tostão seja a quem for. Ainda não foi internado. À atenção do 112/urgências político/psicopáticas.

    Olhem o nojo puro, absoluto, total, visceral, irremediável, corporizado pelo homúnculo mental que dá pelo nome de Basílio!

    Olhem aquele que foi apeado à bruta por não se aguentar nas canetas e que, lá das europeias postas brinda o chefe, na imprensa e não só, com a fidelidade dos canídeos!

    Há mais, muito mais. Basta olhar em volta para ver o “património imaterial” que o senhor Pinto de Sousa deixou repoltreado nas cadeiras do poder.

     

    Desgraçadamente, o pintodesousismo anda por aí, tão ignaro, tão aldrabão, tão indigno seja de que consideração for como sempre foi, por muito que disfarçasse.

     

    As pessoas – não só o governo – a fim de se defender, deveriam estar a pau com esta gente, já que o PR, em nome de “todos” nós (t’arrenego, vade retro!), não defende nada nem ninguém a não ser a sua pessoa e o seu inqualificável boliqueimismo.

     

    30.11.11

     

    António Borges de Carvalho

  • DO MERECIDO PRESTÍGIO DOS PROFISSIONAIS DA JUSTIÇA

    No mesmo dia em que vem a lume a magnífica história de uns conselheiros do Supremo que usaram facturas falsas para “justificar” o gasto necessário à compra de valioso quadro destinado a decorar um dos seus gabinetes, coisa que muito prestigia a classe, pelo menos em termos de mecenato artístico, aparece mais um comunicado do respectivo “representante” a ameaçar este mundo e o outro por causa dos cortes de subsídios previstos no orçamento do estado.

    É evidente que, se houvesse alguma vergonha onde devia haver, o esquerdíssimo senhor teria aguardado que a onda das facturas falsas amainasse para vir a lume com as suas indignadas arengas. Mas não há lá disso.

    O homem, muito conhecido pela sede de poder justicialista que o anima – ao ponto de afirmar que os juízes devem tomar a lei a seu cargo, isto é, julgar segundo os seus critérios sempre que não gostaram da lei aplicável, vem agora fazer o contrário, isto é, clamar pela aplicação da lei, alegadamente contrária ao corte dos subsídios.

    Trocadas as coisas por miúdos, os critérios são como segue: se acharem que a lei lhes convém – ou às suas convicções políticas – exigem a sua rigorosa aplicação; se acharem o contrário, deitarão a lei para o caixote e farão o que muito bem lhes der na realíssima gana.

    É também de notar outro alto critério do inacreditável dirigente sindical: o homem fartou-se, em tempos, de clamar que os juízes não são funcionários públicos. Agora, que apanham com os cortes dos funcionários públicos, passam a sê-lo como por encanto. Santa coerência, a desta gente! 

     

    Muito mal se diz por aí, dos políticos, dos deputados, do governo, de tudo e de todos.

    No entanto, políticos, deputados, governo, tudo e todos, ao pé desta gente, são santinhos de altar!

     

    1.12.11

     

    António Borges de Carvalho

  • CARTA DE ATENAS

     

    No merecido gozo do que resta de um passado cujo principal defeito é já ter passado, aqui está o IRRITADO em Atenas, a convite de velhos companheiros que, por amizade ou ilusão, são capazes de pensar que as arengas do autor podem ter algum efeito na talvez impossível solução da pessegada em que estão metidos.

    O autor sente-se um bocado grego. Não, não é por ser português e fazer, como eles, parte dos PIGS.

    Os gregos são como os portugueses. Foram o que foram, mas já não são nada do que foram. Berço da democracia, da filosofia, da estatuária, da arquitectura, da tragédia, etc., hoje tudo cinzas perdidas na poeira anárquica desta horrível cidade.

    O que foram de nada lhes vale, e está certo que de nada lhes valha.

    Como nós, que também fomos o que fomos – sem gozar sequer do universal conhecimento e reconhecimento de que os gregos gozam – e que tendemos a achar que, por termos sido, somos.

    Substituímos o génio das descobertas pelo Mourinho, as grandezas do império pelo CR7 e pelo fado, este arrastado na lama em Bali perante a alegria alarve e pacóvia de uns excursionistas.

    Como os gregos, nem sequer sabemos se somos os herdeiros genéticos dos que foram gente, tal foi a misturada que por cá, como por lá, entrou em antigas veias.

     

    Digamos que o passado serve de motivo de orgulho, de estudo, de contemplação, mas não vale um caracol quando se trata de resolver problemas do presente. Isto apesar de gregos e portugueses pareceram ter a ilusão, ou a sensação, que podem pôr o que fizeram no prato da balança do que têm a fazer.

    Há pessoas com quem se passa um fenómeno parecido. Fulanos que tiveram importância há décadas, por um momento que fosse, e se acham no direito de usar o feito passado para justificar a estupidez de um presente que deviam ter o bem senso de esconder. Gente desta, porém, tem a bênção da classe dominante, leia-se dos media. Como os excursionistas do fado, podem desbocar-se como entenderem. Terão sempre à porta, solícitos, servis e oportunistas, os vendedores de “informação”.

     

    É verdade que, salvo poucas excepções, ninguém gosta de morrer. Difícil é perceber que se está morto em vida e querer usar o que já se não é como ainda se fosse. Não é mau ter passado, mau é achar que o passado pode ser usado como tal, ou que a autoridade que o que fez deu a cada um não acaba quando se acabou de o fazer. As pessoas que se demitiram da vida, ou não são capazes, ou não querem fazer outra coisa que não seja remexer no passado à procura de autoridade moral, melhor fariam se encontrassem outras missões, a fim de continuar vivas.

     

    Para quê estas filosofias? Não sei.

     

    Para dizer alguma coisa, conclua-se que estamos no “Rinoceronte” do Ionesco. Lá fora, ouve-se o tropel de um rinoceronte, de dois, de vinte, de milhares de rinocerontes. Na cena resiste-se. Rinocerontes, nós? Nunca! Aos poucos, ora um ora outro se vão entregando ao tropel. Até que o herói fica só. Só, e condenado.

    Aos gregos, não valeu Aristóteles, nem Burke aos irlandeses, nem a nós o Gama. Aos italianos de nada valerá Galileu, nem aos castelhanos Cortez, nem os Habsburg vão valer aos austríacos ou os Orange aos holandeses. O duque de Brabante não virá em socorro dos belgas, nem o Hugo dos franceses.

    E assim, por aí fora.

    Até que, um dia, a dona Ângela, que é dura de ouvido e de bestunto, perceba que de nada lhe vão servir Goethe ou Beethoven ou Marx e que está a matar a galinha dos ovos de ouro… na estulta pretensão de conservar os que a galinha já pôs.

     

    Todos somos culpados, todos estamos inocentes. O problema é que, se queremos deixar de ser rinocerontes, temos de começar por sê-lo. Todos.

     

    30.11.11

     

    António Borges de Carvalho

  • CAVACO E A TRAIÇÃO POLÍTICA

     

    Quem, ao longo dos anos, tem feito o favor, ou a asneira, de ir acompanhando as opiniões do IRRITADO, talvez se lembre da forma pouco entusiástica com que acompanhou as presidenciais e como, com uma mão a tapar os olhos, foi votar no Doutor Cavaco Silva – como o Cunhal fez com o camarada Mário Soares.

    O objectivo era, evidentemente, evitar a subida ao poder do intragável Alegre. Não há lugar a arrependimentos. Se o candidato da aliança BE/PS fosse eleito, a estas horas estaríamos mergulhados sabe-se lá em que águas, certamente num charco de paspalhices pseudo-democráticas, que muito caro nos custariam.

    Visto, porém, o que se tem passado, haverá que concluir que, fosse o challenger alguém merecedor de uma ponta de credibilidade, o IRRITADO, a estas horas, arrepelava os cabelos por ter votado como votou.

    O IRRITADO conhecia o Professor e sabia qual o seu estofo. Mas jamais imaginou que pudesse ir tão longe, por omissão, primeiro, por acção, depois.

     

    Durante o primeiro mandato, diante do indiscutível descalabro nacional para que a “gestão” do senhor Pinto de Sousa nos arrastava, dizia o IRRITADO, como muita gente e com carradas de razão, que o Doutor Cavaco sacrificava tudo, mas tudo, inclusivamente a viabilidade da Nação – o que veio a verificar-se – às suas hipóteses de reeleição.

    Assim foi. O PR aturou, aguentou e coonestou o inaturável, inaguentável e incoonestável sem tugir nem mugir. Se excluirmos a guerra com os Açores, em que, ainda que com razão, falou desproporcionadamente alto, bem como a ridícula história da “espionagem” em que meteu os pés pelas mãos e se ia tramando, nunca Sua Excelência incomodou a fímbria das vestes do senhor Pinto de Sousa. Deixou passar tudo o que lhe puseram à frente sem um gesto, sem uma palavra, sem uma sugestão de desacordo ou de protesto. Precisava de votos na área dos flutuantes entre o PS e o PSD, não é? Pois é.

    Agora, tudo mudou. Mal o governo diz uma coisa, aí vem ele, armado ora em moralista ora em técnico, dizer o contrário. Além disso, dedica-se a fazer guerra à dona Ângela – longe do IRRITADO defender a criatura! – e a tudo que anda por aí – na Europa – como se o que anda por aí se incomodasse com as suas tristes bocas.

    No fundo, o Doutor Cavaco nada tem contra a dona Ângela. Mas, como o governo não tem outro remédio senão ir fazendo o que os mandatários e associados dela, bem ou mal, exigem, o Doutor Cavaco, a bem do espelho onde orgulhosamente se mira e admira, serve-se da dona Ângela para atacar o governo.

    A coisa vem atingindo níveis absolutamente imorais. Chega ao ponto de mandar a dona Manuela morder as canelas do governo, o que não teria grande importância se não se percebesse que a senhora outra coisa não faz que não seja aviar receitas de Belém.  

    Tudo pelo lado mais fácil, mais imediato e mais populista, o que torna a cruzada particularmente imoral. É o recurso permanente à revolta dos “mais fracos”, tipo maquinistas da CP, é, quer se queira quer não, quer se diga quer não, o apoio aos vascos, aos otelos, aos “indignados”, aos silvas, aos carecas da UGT e a quejandos. Tudo o que há de mais imediato lhe serve, tudo o que pode fazer vir à crista da onda o seu incomensurável ego, com todos os defeitos humanos e políticos, tantos!, que as pessoas, sobretudo as mais velhas, lhe conhecem de longa data.  

     

    Que saudades, meu Deus, de um futuro sonhado em que o Chefe do Estado, um Rei, ou até um Presidente, pudesse representar a Nação, como acontece na esmagadora maioria dos países que nos são próximos!

     

    Nada de bom pode a traição cavaquista (traição, mais que ao partido que chefiou, a todos nós) vir a trazer-nos. Cada dia que passa o homem acelera, sedento de primeiras páginas – como, sem as responsabilidades do PR, vai fazendo o camarada Soares.

     

    Les bons esprits se rencontrent. Não é?

     

    27.11.11

     

    António Borges de Carvalho

  • PESADA HERANÇA

     

    Ele há coisas que deixam o mais avisado de boca aberta.

     

    Um tal Pina que ao, que consta nos anais do pintodesousismo, foi secretário de estado das finanças em tais e tão horríveis tempos, veio à estampa, por virtude de uma conferência de cérebros económico/financeiros, com declarações que merecem o maior dos destaques.

    Mercê de inteligentíssimos cálculos, chegou o fulano à conclusão que vamos precisar, ou já precisamos, de mais uns 25 mil milhões, uma vez que o acordo com os tipos da massa foi mal feito, por não contar com a recusa dos mercados em financiar as empresas públicas.

    É capaz de ter razão, tanto no que diz respeito aos milhões como no que se refere à qualidade do acordo que negociou e subscreveu.

     

    Ficam por responder algumas pertinentes questões:

     

    – Então quando ele era secretário de estado de um governo que andou dois anos a dizer que não precisávamos de dinheiro nenhum, de repente passa a achar que precisávamos sim senhor e de mais do que nos prometeram?

    – Então um tipo que propôs quatro “PEC’s” que não contavam com a ajuda externa e eram todos suficientes e salvadores da Pátria, vem agora dizer que não só os “PEC’s” não eram suficientes nem salvadores da Pátria e que era, como é, preciso dinheiro, milhares de milhões, e que os milhares de milhões que ele próprio subscreveu como suficientes e salvadores, afinal eram só uma ajudinha, nem suficientes nem salvadores?

    – Então um membro destacado do partido anda para aí aos gritos, que há folgas, que há almofadas, que há edredons, pufes, poltronas, etc., anda, pela porta do cavalo, a dizer que não há nada disso, que o que há, ou vai haver, não chega, e que são precisos mais 25 mil milhões?

    – Então a criatura é capaz de dizer estas coisas sem pedir desculpa por se ter enganado ou pelos enganos com que andou a entreter a Nação durante anos e anos? Sem pedir perdão por ter negociado e subscrito um acordo que não chega, sem pintar a cara de preto antes de mandar as suas bocas?

    – Então, então, então…

     

    Aqui temos um exemplo vivo do que foi o pintodesousismo: seis anos e meio a enganar as pessoas, sabendo perfeitamente que as estava a enganar, consciente que nada lhe permitia fazer as promessas que fazia, que jamais teria dinheiro para pagar o que comprava, que cada coisa realizada era mais uma contribuição para a ruína do país e dos cidadãos.

    Dir-se-á que o IRRITADO está a bater em mortos.

    Não está.

    Primeiro, porque essa gente não está morta. Está viva e continua a sua “obra”, agora por outros meios mas tão iresponsavel e aldrabonamente como dantes.

    Segundo, porque é preciso lembrar o que fizeram e o que nos deixaram como herança.

     

    Nunca a expressão “pesada herança” fez tanto sentido como hoje.

     

    25.11.11

     

    António Borges de Carvalho

  • A GREVE DOS INSTALADOS II

     

    Ontem, aqui no meu bairro, tudo minha gente trabalhava como é normal e habitual, táxis, restaurantes, talhos, lojas de bebidas, capelistas, tabacarias, bancos, escritórios, etc., até os correios!

    Talvez houvesse menos gente na rua, talvez houvesse menos gente a trabalhar, não porque fizessem greve mas porque tinham sido presenteados pelos fabricantes de miséria com falta de transportes.

     

    Logo de manhã, a tropa fandanga do Silva, do Jerónimo e do tipo da UGT causava as maiores chatices a quem quisesse trabalhar. Havia “delegados sindicais”, se calhar daqueles que – como o bigodes dos professores e a dona Aviola, ou lá o que é – há muitas décadas não põem os pés no trabalho, havia reformados com quarenta anos, como um que se veio como tal declarar às tipas da televisão, havia puros díscolos, sedentos de desordem, havia de tudo, com coletes vermelhos, ou seja, devidamente “identificados” e cheios de imponente autoridade, a invectivar os cidadãos ditos livres que queriam trabalhar ou a pôr-se, como toda a gente viu, à frente das camionetas e dos comboios para não os deixar andar e a queixar-se da polícia que defendia a liberdade de trabalhar como defende a dos grevistas, a intimidação sindical/política estava espalhada por toda a parte, sem peias, sem vergonha na cara, a vender ideias absurdas, a convencer as pessoas de coisas impossíveis, idiotas e mentirosas, na mais desbragada e indecente exploração da inocência, da crendice ou da impreparação das gentes, tudo isto como se a greve, dita geral mas parcialíssima, ajudasse a resolver fosse quer problema fosse.

     

    Como o IRRITADO atempadamente informou, foi a greve dos instalados, ainda que com algumas honrosas excepções. Greve dos que estão de poleiro, dos que menos precisam, perante um povo que sofre e trabalha quando tem trabalho, contra um povo que não goza dos privilégios dos instalados, funcionários públicos, professores, polícias, malta das empresas do estado, um povo que quer ajudar a resolver os problemas – como todas as sondagens provam à saciedade e por larga margem – não agravá-los, tudo organizado para segurar os privilégios que o socialismo lhes pôs nas mãos mascarados de direitos, e que querem guardar doa a quem doer e custe a quem custar.

     

    É evidente que o uso do direito à greve como é entendido pelos silvas, jerónimos e tipos da UGT * – servos do escondido Seguro – nada tem a ver com o direito à greve que os compêndios consagram.

    É outra coisa, uma arma política, imoral, ilegítima e criminosa, apostada em tirar as últimas fatias de pão da boca das pessoas de bem, apostando em, sobre a sua fome, construir o “mundo novo”, seja o dos “amanhãs que cantam”, seja o do socialismo “democrático”.

    Chegados à política, há que reconhecer que a mais cínica de todas as posições é a do PS. Oficialmente, vai dizendo que não participa na greve. Oficiosamente, manda o seu miserável exército apresentar-se, lado a lado com os inimigos da liberdade, a tentar destruir o que resta dela neste mundo desatinado, sem rumo, sem eira nem beira.

    No fundo, é o desespero mais completo – o do PS – por se saber culpado, o mais culpado de todos os culpados, e querer transformar a culpa em vantagem! Que tristeza, que miséria moral, que vergonha seria se vergonha tivessem.

     

    Uma jornada afinal pífia. Os portugueses não instalados deram à canalha uma lição brutal. Trabalharam. Todos ou quase. Isso de greves “gerais” é para os aldrabões a soldo do Silva, do tipo da UGT, do desavergonhado Seguro e do falecido Louça. As pessoas propriamente ditas, o país, continuaram a trabalhar. O Estado é que não – e não todo – sejam quais forem os “números” que por aí andam, todos aldrabados, como de costume.

     

    25.11.11

     

    António Borges de Carvalho

     

    * Já me esquecia do Louça que, a fim de não ficar totalmente fora de combate, foi a Palmela mostrar o seu triunfante quão feio sorriso de vitória. Olhinhos brilhantes atrás das cangalhas, a criatura comunicou ao povo, com incontida alegria, que “hoje não se produziu nesta fábrica um único automóvel!”. Em nove singelas palavras o indivíduo sintetizou todo o significado moral e económico da jornada. Que inteligência!

  • JARDINADAS?

     

    Anda nas bocas do mundo um projecto de regimento da assembleia da Madeira. De um modo geral, tanto quanto o IRRITADO hoje leu, a coisa é mais ou menos inócua, nada que não se passe por aí, em parlamentos vários, de várias práticas e tradições.

    Uma das normas projectadas, porém, dá razão às manchetes que, ontem, esqueceram o resto e, como é costume, se centraram no mais polémico, a dar ideia que todo o projecto de regimento era uma porcaria e uma ofensa a elementares princípios geralmente respeitados pelos parlamentos dignos desse nome. Assim não era.

    O que não quer dizer que a norma que provocou a tempestade não seja um pontapé na gramática como há muito – talvez desde os impostos retroactivos do Dr. Soares – se não via na nossa praça. Parece que tal norma postulava que um deputado podia votar sozinho com o número de votos igual ao dos deputados do seu grupo, podendo estes estar a banhos no Porto Santo durante as votações.

    Os tipos que tal proposta produziram, ou são um bando de ignorantes ou têm o rei na barriga e, na modesta opinião do IRRITADO, se houvesse moral comiam todos, isto é, veriam cassado o mandato e iriam ter ideias malucas lá para casa. Trata-se de assunto sobre o qual nem sequer vale a pena argumentar, de tão idiota.

    Só não se sabe se o chefe do PSD local sabia da história e a deixou passar a ver se colava. Isso é que é preocupante porque, a ser verdade, o homem é mais primitivo do que o IRRITADO pensava…

     

    24.11.11

     

    António Borges de Carvalho

  • FADISTICES

     

    Não sabe o IRRITADO para que servirá ao Fado passar a “património imaterial da humanidade”. Nem sabe o que isso é, nem se dá dinheiro, nem se aumenta o prestígio do país, nem nada. Ignorância total e até culposa, já que há meses, para além da crise e da bola, não se fala noutra coisa, sendo de presumir que a indispensável explicação já tenha sido referida nalgum dos unanimemente entusiasmados “órgãos de informação”.

    O IRRITADO gosta de uns fadunchos de vez em quando, gosta de guitarradas, mas não é do milleu.

     

    Feitas estas declarações, de interesse ou do seu contrário, diga-se que o IRRITADO começou a avaliar a patriótica importância destas movimentações, por certo tão trabalhosas como caras, ao dar de caras com os “parceiros” do Fado no grande concurso mundial que, aos que o ganharem, fará mudar de dono. No nosso caso, o Fado deixará de ser nosso para passar a sê-lo “da humanidade”. Uma espécie de take over ou de vitoriosa OPV.

     

    Aqui vão alguns dos tais parceiros, tidos pelos jornais por mais importantes:

    – A Sabedoria dos Yurupari, ameríndios que gostam de jaguares;

    – O Nijem Kolo, dança sem música da Dalmácia;

    – A Tsiattista, dança cipriota, com cantorias várias;

    – A Peregrinação a Qoylluriti, coisa que há peruanos que fazem num glaciar qualquer;

    – Umas espanholadas de Algemesí, seja lá isso o que for;

    – As Práticas e expressões musicais de Senufo, no Burkina Fasso;

    – O Jultagi, funambulismo coreano;

    – Etc. e tal.

    Tudo coisas importantíssimas, que muito vão acrescentar ao património da humanidade, como é de ver!

     

    O IRRITADO, que não é fadista nem acha que o Fado seja uma arte por aí além em matéria de sofisticação ou qualidade musical, fica de rastos com a companhia que lhe arranjaram. Goste-se ou não, o Fado tem uma dignidade que não se pode compaginar com manifestações folclóricas de jaez tal que as expressões do Senufo, os jaguares dos Yurupari ou as habilidades dos coreanos na corda bamba.

    Se a candidatura fosse do Carnaval de Boliqueime ou da Associação dos Vendedores de Banha da Cobra, o IRRITADO apoiava sem reservas. Mas do Fado?

    Que diabo, há, ou devia haver, limites para tudo. Há, ou devia haver, um pouco mais de respeito próprio dos portugueses em relação ao que lhes é querido, como o Fado.

    É evidente que há uma data de fulanos e fulanas que ganham o seu à conta, que vão à Indonésia e mais não sei onde à conta, que se auto promovem à conta, que dizem coisas à conta, etc.

    À conta de quem? O IRRITADO não sabe, mas desconfia.

     

    Em conclusão, mais vale que o Fado seja só nosso. A “humanidade” que se lixe.

     

    24.11.11

     

    António Borges de Carvalho

  • A GREVE DOS INSTALADOS

     

    É uma da manhã, o céu tem estrelas, não há vento, nem uma aragem.

    A cidade das pessoas de bem dorme.

    Nos nas alfurjas sindicais, as coisas agitam-se. Há piquetes, gente feroz à espera de insultar os canalhas que vierem ou quiserem vir trabalhar.

    Lá em casa, Mário Soares rejubila. Mandou a sua malha, voltou às manchetes dos jornais e aos seus servos das televisões.

    Em casa, quem trabalha, ou quem ganha a vida a trabalhar – coisa rara nos cidadãos portugueses, inchados de direitos, de slogans e de preguiça – pensa como há-de ir trabalhar de manhã, sem metro, sem autocarros, sem nada.

    Nos aeroportos, os passageiros estiolam pelas arcadas, com fome, cansaço e sono, sem saber quando chegarão ao destino.

    Nos covis dos ricos comandantes divertem-se pilotos e hospedeiras com garrafinhas de champanhe da executiva, comemorando a folga.

    Os controladores de voo aproveitam para controlar os cabarés.

    O maralhal da Carris, do Metro, da CP, os professores, os actores dos teatros do Estado, os enfermeiros, os médicos, tudo minha gente se prepara para o feriado.

    Sim, meus senhores, com toda a razão. Este feriado é deles, não é da Igreja nem do governo. É da malta que regurgita direitos por todos os poros e que aceita obrigação nenhuma.

    É da Nação número um.

    Portugal, nestes dias negros, não é uma nação, é duas. A dos que trabalham e, queiram ou não, que têm que assumir alguma responsabilidade perante o patrão, perante a família e perante si próprios, a número dois, e a outra, número um, a dos que dependem do Estado, funcionários, professores, médicos, enfermeiros, tipos da Carris, do Metro, dos ferries, dos comboios, das empresa públicas, das polícias, da chusma de inúteis, ou quase, que se acoitam sob a asa protectora do Estado que o socialismo criou, gente que jamais poderá ser despedida, que jamais será responsável seja pelo que for, que é paga quer trabalhe quer não faça a ponta de um corno, gente que não vê um palmo à frente do umbigo, que acha que a crise é dos outros, não sua, que anuncia ao povo em geral, via canalhas como o Silva, o outro da UGT ou o Soares, a grande mensagem desta greve: nós somos os instalados, ai dos outros! Que se lixem! A nós ninguém lixa, ha,ha!

     

    A noite tem estrelas, o ar é sereno, a temperatura é fresca, doce, as gentes dormem, os trafulhas agitam-se, amanhã ninguém vai à escola, nem ao trabalho, nem à missa, nem seja onde for.

    A não ser, é claro, os parvos e os que sofrem na carne o estado do gloriosíssimo Estado que o socialismo nos deu, prenhe de direitos e de militante estupidez.  

      

    24.11.11

     

    António Borges de Carvalho