O discurso da subsidiodependência usado por gente que vive a expensas do orçamento, de modos duplos e triplos, não resolve um problema maior e que é o da estruturação democrática constitucionalizada das artes e da cultura no todo nacional.
Neste belo português se exprime um senhor que opina sobre cultura num jornal diário.
A conclusão a tirar do arrazoado é que a estruturação democrática constitucionalizada das artes e da cultura é coisa que obriga o Estado.
Lidas as coisas um bocadinho mais fundo, quer dizer que ao Estado compete pagar – sem bufar – as altas iniciativas culturais das sociedades recreativas, dos grupos de saltimbancos, das bandas de rock, dos animadores “culturais” e de todo e qualquer auto proclamado “produtor” de “cultura para o povo”, coisa democrática, é de ver, e por isso os contribuintes que a sustentem.
O IRRITADO, dada a sua anglofilia, estendida aos hábitos dos sobrinhos do tio Sam, acha deplorável que se tenha deixado espalhar por toda a parte este tipo de mentalidade.
A subsídiodependência de que fala o opinante como se de alta virtude se tratasse – uma vez que só é posta em causa por gente que vive, de modos duplos e triplos, a expensas do orçamento (?) – é o contrário do que seria de esperar dos criadores de cultura dignos desse nome.
Se esta malta precisa de dinheiro – do que não se duvida, não há quem não precise – que faça como a capelista lá da rua: abra a loja e trate de arranjar clientes. Se não há clientes, a capelista fecha.
Se os artistas querem dinheiro, façam alguma coisa que interesse aos seus concidadãos e cobrem-lhes bilhetes ou apelem à sua generosidade. Desenrasquem-se.
O Estado poderia ou deveria aparecer quando, comprovado e apreciado o valor da obra dos artistas – não antes! – resolvesse contratá-los para prestar serviço público.
Até lá, eles que se imponham à comunidade. É difícil, custa sacrifícios mas, se é por amor à arte e não ao dinheiro dos contribuintes, então que façam como a capelista. Se não houver freguesia, paciência.
Nos países de tradição anglo-saxónica é assim. Os grupos de teatro, de música, dança, etc. recorrem ao dinheiro dos outros mediante venda de bilhetes ou interessantes actividades de fund raising. Por outras palavras, trabalham. Desenrascam-se.
O dinheiro público nada tem a ver com isso. A não ser, às vezes, com rigorosíssimos critérios de qualidade, de serviços já prestados à comunidade, etc. Ou então através de serviços públicos, desde que esteja demonstrada a viabilidade de certas iniciativas. Nunca pondo a carroça à frente dos bois.
Por cá, infelizmente, as coisas não se passam assim. Os governantes são, na opinião dos interessados e de mais uns quantos, obrigados a despejar dinheiro em cima das suas actividades, todas elas, evidentemente, “indispensáveis” à “cultura” e ao “progresso” do “povo”.
Não concordar com isto é viver a custas do orçamento, de modos duplos e triplos. Não fazem a coisa por menos. Quem se quer pendurar chama penduras a outros.
Em matéria de argumentação, nada de novo.
12.12.11
António Borges de Carvalho

Deixe um comentário