IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


CARTA DE ATENAS

 

No merecido gozo do que resta de um passado cujo principal defeito é já ter passado, aqui está o IRRITADO em Atenas, a convite de velhos companheiros que, por amizade ou ilusão, são capazes de pensar que as arengas do autor podem ter algum efeito na talvez impossível solução da pessegada em que estão metidos.

O autor sente-se um bocado grego. Não, não é por ser português e fazer, como eles, parte dos PIGS.

Os gregos são como os portugueses. Foram o que foram, mas já não são nada do que foram. Berço da democracia, da filosofia, da estatuária, da arquitectura, da tragédia, etc., hoje tudo cinzas perdidas na poeira anárquica desta horrível cidade.

O que foram de nada lhes vale, e está certo que de nada lhes valha.

Como nós, que também fomos o que fomos – sem gozar sequer do universal conhecimento e reconhecimento de que os gregos gozam – e que tendemos a achar que, por termos sido, somos.

Substituímos o génio das descobertas pelo Mourinho, as grandezas do império pelo CR7 e pelo fado, este arrastado na lama em Bali perante a alegria alarve e pacóvia de uns excursionistas.

Como os gregos, nem sequer sabemos se somos os herdeiros genéticos dos que foram gente, tal foi a misturada que por cá, como por lá, entrou em antigas veias.

 

Digamos que o passado serve de motivo de orgulho, de estudo, de contemplação, mas não vale um caracol quando se trata de resolver problemas do presente. Isto apesar de gregos e portugueses pareceram ter a ilusão, ou a sensação, que podem pôr o que fizeram no prato da balança do que têm a fazer.

Há pessoas com quem se passa um fenómeno parecido. Fulanos que tiveram importância há décadas, por um momento que fosse, e se acham no direito de usar o feito passado para justificar a estupidez de um presente que deviam ter o bem senso de esconder. Gente desta, porém, tem a bênção da classe dominante, leia-se dos media. Como os excursionistas do fado, podem desbocar-se como entenderem. Terão sempre à porta, solícitos, servis e oportunistas, os vendedores de “informação”.

 

É verdade que, salvo poucas excepções, ninguém gosta de morrer. Difícil é perceber que se está morto em vida e querer usar o que já se não é como ainda se fosse. Não é mau ter passado, mau é achar que o passado pode ser usado como tal, ou que a autoridade que o que fez deu a cada um não acaba quando se acabou de o fazer. As pessoas que se demitiram da vida, ou não são capazes, ou não querem fazer outra coisa que não seja remexer no passado à procura de autoridade moral, melhor fariam se encontrassem outras missões, a fim de continuar vivas.

 

Para quê estas filosofias? Não sei.

 

Para dizer alguma coisa, conclua-se que estamos no “Rinoceronte” do Ionesco. Lá fora, ouve-se o tropel de um rinoceronte, de dois, de vinte, de milhares de rinocerontes. Na cena resiste-se. Rinocerontes, nós? Nunca! Aos poucos, ora um ora outro se vão entregando ao tropel. Até que o herói fica só. Só, e condenado.

Aos gregos, não valeu Aristóteles, nem Burke aos irlandeses, nem a nós o Gama. Aos italianos de nada valerá Galileu, nem aos castelhanos Cortez, nem os Habsburg vão valer aos austríacos ou os Orange aos holandeses. O duque de Brabante não virá em socorro dos belgas, nem o Hugo dos franceses.

E assim, por aí fora.

Até que, um dia, a dona Ângela, que é dura de ouvido e de bestunto, perceba que de nada lhe vão servir Goethe ou Beethoven ou Marx e que está a matar a galinha dos ovos de ouro… na estulta pretensão de conservar os que a galinha já pôs.

 

Todos somos culpados, todos estamos inocentes. O problema é que, se queremos deixar de ser rinocerontes, temos de começar por sê-lo. Todos.

 

30.11.11

 

António Borges de Carvalho



19 respostas a “CARTA DE ATENAS”

  1. Não percebi bem o motivo da visita do Irritado – foi a Atenas dar conselhos? palestras? bitaites? autógrafos? – mas estou certo que será por uma boa causa, e espero que esteja bem acompanhado. Boa comida (e bebida) terá certamente, que os gregos nessas coisas não falham. ———————- É verdade que há pessoas que vivem do passado, ou no passado. Tornam-se gradualmente obsoletas, patéticas, fantasmas. Mas aplicar a mesma lógica a um povo, a uma nação inteira, é algo perigoso. É perigoso, porque somos doutrinados desde a infância a reverenciar o “nosso” passado, a “nossa” história, e quando isso se torna parte da nossa identidade colectiva, e até da nossa personalidade – sobretudo quando nos sentimos ameaçados – colocamos em causa valores de milhões de pessoas, muitas delas jovens. Esses valores só podem ser vergados pela força – como tentaram os nazis e os soviéticos, hoje os americanos, no nosso caso os espanhóis – mas acabam sempre por vir ao de cima. No caso desta “crise”, nem sequer temos forças ocupantes, exércitos ou gulags, temos ditadores financeiros distantes e abstractos. E temos banqueiros trafulhas, políticos irresponsáveis e/ou coniventes, chulos, mamões, especuladores, grandes fortunas cada vez maiores, criminosos financeiros, exploração e impunidade legalizadas. E temos agora a Internet, que ultrapassa qualquer barreira imposta pelos poderes vigentes – até ver. Isto só ainda não deu espectacularmente para o torto, devido ao poder dos media e do consumo sobre a carneirada: plasmas, popós e telemóveis novos de tempos a tempos, férias nas Maldivas (ou na Grécia), Facebooks, e outras folias. Mas quando até isto é posto em causa, o sistema cava a sua própria sepultura. A malta inquieta-se. Isto tudo – esta submissão mundial à pulhice da alta finança – não vai acabar bem. O Irritado saberá melhor do que eu, é mais sábio e experiente, cá estaremos (esperemos) para ver. ———————- Devo dizer que apreciei imenso o seu post, apesar das opiniões divergentes, e a referência a Ionesco foi particularmente inspirada. Continuo a ser um leitor do Irritado, devido a posts como este.

  2. Passar aqui é sempre um bálsamo, no meio do desnorte que pressinto nos poucos contactos que tenho com a comunicação social (limito-me a ler as colunas do Pulido Valente das 6.as e Sábados no Público, nem o resto do jornal vejo, senão as parangonas).Não tenho conhecimentos filosóficos nem quaisquer presunções a discorrer sabidamente sobre o tema, por isso vou deixar aquilo que o intricado e ténue fio do pensamento for ditando a seu bel talante.Um pouco como o Irritado e o Filipe – é bastante agradável vê-los congraçados, tal como é estimulante encontrá-los discordes, cada um segundo os seus próprios passados, que ordenaram a sua sensibilidade e vieram moldar e a ideia que concebem do que possa vir a ser o futuro, deles dois e de nós todos – concedo ao passado o valor que penso ele possa ter, e isso tem variado consoante os vários presentes que fui sucessivamente vivendo (lá me repito, “nada há de tão longe de nós como o minuto que acabou de passar”), e pelos vários futuros que se me apresentaram e afinal o rumo da vida veio demonstrar que não estavam fadados para se concretizar, e apenas para serem remetidos a passados não concretizados.De todo este arrazoado de trivialidades adequadas a um apreciado (porque vazio e para-todos-os-gostos) discurso político, de preferência na área do socialismo, que é bem a sinopse de tudo isto, de um passado que não foi além de uma interminável sucessão de “amanhãs que cantam” e que a cada alvorada, assim que a luz nos deixava ver melhor os contornos do que nos prometeram, trazia uma desilusão, porque os valores tão tonitruantemente propalados até à exaustão, não passavam afinal de interesses silenciados (por cá e hoje já nem têm o pudor de os encapotar, tal como no recente comunismo igualitário soviético, em que de todo o lindo ideário apenas restara o tratamento entre eles de “camarada”, enquanto o chefe enviava milhões para o exílio e a morte, bastava querê-lo, mas sempre tratando-se entre eles desse modo amigável). Sem querer “puxar para baixo”, não posso deixar de considerar que esta crise tem, como tudo tem, o seu lado positivo, que é o de nos acordar do pesadelo em que andamos embalados há décadas. Ainda hoje, dizia um chauffeur de táxi (vox populi, da boa, que convive “transversalmente”, como é politicamente correcto conviver, com toda a espécie de gente): “A esses tipos, o Gaspar é que os vai endireitar, com ele é que se hão-de haver doravante!” e eu só pensava “Gaspar, Salazar, nunca saímos do passado”. Claro que nesta brutal cura de emagrecimento – sem TGV’s, Magalhães ou energias renováveis cuja investigação nos custa o dinheiro que falta para ter luz em casa, sem gritos de vitória de Guterres, fugido envergonhado e vergonhosamente como todos os depois dele, quando dizia que “Portugal estava na moda” e desatou a construir estádios como os parolos que empenham tudo o que (nem sequer) têm para dar um casamentão e fazer vista perante os convidados de uma tarde – muitos tombarão, como sucede nas batalhas, uns cobardes, outros valentes, uns inocentes, outros culpados. Mas de uma coisa estou certo, esta geração fica curada. Como já o ficara aquela que nos antecedeu e cujos ensinamentos não quisemos reter desse passado, de que os políticos e comentadores purgaram o que entenderam, como fazem com as placas da toponímia e os nomes das pontes.(continua)

    1. (continuação)O estranho – e desalentador – de todo este jogo de espelhos do presente, com mais de muitos mil reflexos entre todos eles, de modo a não nos deixarem percepcionar a realidade, é que tudo isto era previsível no futuro, porque estava mais que visto no passado. E nem sequer recente, porque infelizmente cíclico, quase até onde a crónica o regista, ainda que com os contornos diferentes no acessório, o que sempre veio permitir que o essencial se repetisse. O desassossego europeu vem desde o fim do império de Carlos Magno em que a sua “fatia central” deixou uma Alemanha (e Itália) feudal, sem identificação nacional, feitas de centenas de principados, que acordou estremunhada no fim do séc. XIX, atrasada na dinâmica industrial e colonial, e para se reunir em si mesma recorreu ao exacerbado nacionalismo que provocou duas guerras mundiais e nos está a empurrar para uma terceira. Quando os alemães olham para os seus próprios interesses, à frente de mais nada que isso, dá sempre mau resultado. De uma forma geral, são laboriosos, bons trabalhadores, mas não muito inteligentes (do Mein Kampf, “Que sorte para os governantes que as multidões não pensem!”), sobretudo insensíveis entre si e para os outros povos.Numa coisa discordo do Irritado: os gregos já têm muito pouco de gregos, como nós vamos tendo pouco de portugueses, uma vez que estamos em acelerada extinção. Uma minha amiga esteve 3 semanas no hospital, numa enfermaria de 4 camas numa maternidade, e sempre que fui visitar vi novas caras nas outras camas: brasileiras, eslavas, ciganas, pretas, indianas (algumas nem sabiam falar português), tudo a custo zero para elas, e as criancinhas iam chegando, mais ou menos nessa proporção: 3 estrangeiras e uma portuguesa. Da mesma forma a Grécia tem macedónios, turcos, o que quiserem, mas poucos gregos. Como está a suceder em toda a Europa, preocupada mais com estupidezes como abortos subsidiados (menos população), os maricas em “casar” (menos população) ou o tamanho da fruta ser normalizado, e mais mil parvoíces, de que esta do fado é o mais recente e triste exemplo. Fosse património material (para o Carlos do Carmo, o “capachinho vermelho”, até é), já teríamos um ministro do Fado, com a missão de vendê-lo ao desbarato.Ainda há uns dias falava com alguém sobre o BCP e dizia que era um caso típico de “no dia em que uma árvore deixa de crescer, começa a morrer”, e esse dia ninguém dele se apercebe, senão quando é tarde de mais, quando a árvore tomba, que foi o que aconteceu com o banco – e com o País. Tudo a rir e a foliar, e afinal já estavam todos mortos, sem o saberem.Na Europa, talvez esse dia tenha sucedido quando a Alemanha e França desrespeitaram as normas de contenção que elas mesmo haviam criado, mas não lhes convinha respeitar, e por cá a Manuela Ferreira Leite bem amargou com o caso, por querer cumprir com o limite do défice, que tanto irou os socialistas, agora falhos dessa memória – como já se estão a mostrar em relação ao que se passou há meses.Talvez o têxtil cá do sítio, entretido nos últimos anos (qual Penélope da Odisseia – só que em mais ignorante e descortês – tricotando o manto à luz do dia, para o desfazer a coberto da noite) haja já entendido como o menino-de-oiro socialista não passou de um perigoso louco, um aparolado caixeiro-viajante que quis controlar o Estado com o partido, uma espécie de Otelo do MFA que teve mais tempo para fazer mais estragos. São muito democratas, mas depois das eleições terem ditado o seu veredicto, vão para a rua “votar com a voz”, como se de nada tivesse servido as verdadeiras, porque juntar um rebanho de manifestantes, a provocar a polícia perante a televisão, para que não haja hipótese de levar uma merecida cacetada no bestunto – afinal é ali que mora o pouco entendimento de que fruem – tudo isso é fácil de fazer, para obstar a que se construa. Enchem a boca com a palavra “democracia” exactamente porque não acreditam nela ne a respeitam, senão quando lhes convém, e servem-se dessa palavra como os falsários do dinheiro contrafeito, para enganar os outros.(para acabar)

      1. (a finalizar – e pedir desculpa pela extensão)Continuamos a fazer greve como se fossemos ricos, como se não devêssemos por muitos anos, como se tivéssemos hipóteses de sobreviver por nós mesmos.Felizmente – por muito que as televisões e jornais, infiltrados de gente do partido muito para além da proporção que este tem na realidade – a grande maioria já o percebeu: vamos ter que pagar o que gastámos sem préstimo, porque quase nunca foi para investir mas para consumir estupidamente. É para isso que acho que serve o passado, não para oco orgulho de feitos gloriosos cometidos (esforçadamente e não com a facilidade que hoje tudo nos chegava) por outros que não nós – mas para servir de ensinamento em evitar que os passos futuros não nos levem a retroceder para novamente ao mau caminho anterior.

        1. Querido Manuel,Muito inspirado e, como sempre, muito bom.Falta um pequeno grande detalhe (técnico): pagar o que se deve, sim, claro que sim. Gastou-se em tudo o foi enumerado e mais alguma coisa de que a sua especial memória não recorde. Gastou-se, não se investiu; roubou-se e aldrabou-se quanto se conseguiu. No entanto, os juros da nossa dívida são usuários, leia, pura usura, extorsão, e sei que se não baixarem as taxas agora aplicadas, nada nas nossas vidas será sustentável por não produzirmos em conformidade com a exigência financeira de capital mais juros. Realmente, em vez de nas manifestações gritarem os interesses instalados assalariados, talvez se devesse levantar a voz em colectivo protesto, exigindo a redução das taxas de juro aos países mais frágeis. Do FMI ao BCE. Veremos se a benesse que a Europa recebeu ontem de bandeja – de uns EU assustados com a dinâmica do monstro que eles próprios criaram – será extensível a todos nós ou, pelo contrário, servirá tão somente para ajudar os “países mais ricos” a ganharem tempo para prepararem melhor as inevitáveis falências de alguns, com o menor dano possível para os próprios. Com amizade,Mónica A

          1. Mui estimada Mónica,Nada pode estar mais longe da minha intenção, que emitir opiniões categóricas. Estou um pouco como o Churchill (já percebeu que é um dos meus heróis), no seu segundo mandato de primeiro-ministro, enquanto o chefe da oposição o increpava de tudo e mais alguma coisa, ia ele abanando a cabeça, por discordar do que ouvia.A dado momento, já exasperado com os “nãos”, reponta o orador (penso que Jowitt):- O primeiro-ministro está sempre a dizer que não ao que aqui se afirma. Importa-se que eu dê a minha própria opinião?! Resposta do velho Winston:- É óbvio que não. E o senhor importa-se que eu abane a minha própria cabeça?Agradeço-lhe muito as boas palavras com que brinda o texto acima, fervilhante de erros na ortografia e discordâncias na sintaxes, porque tal como na cozinha, em que os maiores inimigos são a água e a pressa – aqui a pressa leva a que eu “meta água”.Vou portanto “abanar a minha própria cabeça”: é por demais sabido que a força de um Estado pequeno reside apenas na sua “força” económico-financeira. Por isso, durante as duas guerras, a Suiça não teve o menor problema com os beligerantes, como se fosse um desmesurado gigante que seria perigoso acordar. Por isso, nem exército têm, senão um serviço militar de uma semana por ano, ou coisa parecida – como os escuteiros, aprendem a dar nós, a fazer fogueiras e armar tendas, depois voltam para casa.Se não devêssemos nada a ninguém – como nos bons tempos que estes chamam de maus (e estou curioso do adjectivo que irão bucsar para designar aqueles que estão a chegar) – não teríamos que mendigar e ainda por cima, estando por baixo, invectivar aqueles que tiram do seu bolso para porem no nosso (que é rapidamente esvaziado para fins escusos, um pouco como os alimentos que mandamos para aqueles estados no Corno de África, que desaparecem logo no aeroporto, para entrar no mercado negro dos negros).Quem lava escadas porque não sabe fazer mais nada, que se aplique a lavá-las bem – ou aprenda a fazer outra coisa mais bem remunerada. O que não deve é perder o seu tempo a lamentar-se que o trabalho é mal pago, até porque ninguém o obriga a isso.O nosso “Estado exíguo” saído de uma era da liberdade, que nos foi oferecida gentilmente pelo Otelo – esse mouro que ajudou a estrangular a Desdémona da nossa indústria e finança – veio à liça para brindar-nos com mais uma aventura de antologia cómica, a que os jornais deram pronta publicidade.Não queremos juros usurários? Recusemo-los portanto. Mas claro que haverá um preço a pagar, não em juros mas em sangue, pois teremos guerra, porque quaisquer que sejam as razões políticas invocadas para qualquer guerra, a única, subliminar e perene, é sempre, mas sempre, a economia. Salazar, esse execrando tirano que nunca deu um golpe de estado nem formou partido, foi chamado exactamente para nos livrar de uma espécie de troika, que os militares de então acharam inconcebível aceitar – e os de hoje a ela nos entregaram, neste estertor do regime, esgotado por todos os lados, sem soluções nele, sem protagonistas de valia, sem um tostão furado.Como na fábula de Esopo, que por ser escravo sabia o valor que o trabalho tem, as cigarras vão passar um mau Inverno. A não ser que trabalham, que trabalhar faz aquecer.Mas Flaubert (perdoe o saltinho no tempo) relativiza tudo isto e coloca-nos na perspectiva que eu e a minha pobre cabeça oscilante achamos talvez a mais perspicaz:“L’avenir nous tourmente, le passé nous retient, c’est pour ça que le présent nous échappe.”Há que apreciar o tempo em que vivemos: não temos outro.Com uma rasgada vénia de profunda amizade,Manel

          2. Em tempo: onde se lê “trabalham”, deve ler-se “trabalhem”.

  3. Caro Manuel, É verdade que quem não tem dinheiro, nem engenho para o conseguir, sujeita-se. Sujeita-se a lavar escadas, como no seu exemplo, ou a juros mais elevados, quando precisa de crédito. Também há quem já nasça com dinheiro, sem fazer nada por isso, e quem ganhe muito dinheiro, fazendo pouco por isso – o que coloca sérios problemas à fábula da cigarra e da formiga – mas, por ora, foquemo-nos nas dívidas soberanas. ———————– Após a implosão da Europa, os EUA foram durante décadas a economia mais forte, e o maior credor mundial. A sua hegemonia levou à criação do padrão dólar-ouro, no fim da II Guerra, e à mudança deste para o dólar, em 1971. Esta soberania monetária levou a uma expansão sem precedentes das multinacionais americanas, e tornou o dólar no denominador comum da riqueza mundial. Isto teve 3 efeitos: 1) tornou o mundo cada vez mais dependente da economia doméstica americana; 2) permitiu aos EUA acumular déficits crescentes, de forma descontrolada e despreocupada (pois controlam a moeda-padrão, com procura externa constante); 3) liberalizou ao extremo o mercado financeiro mundial (assente no americano), sobretudo a partir da administração Reagan. Assim, esta escalada agudizou-se nos últimos 30 anos, com crises cada vez mais próximas (crash de 1987, dotcom, Enron, subprime), acompanhada de uma crescente acumulação de riqueza exclusivamente financeira, e um crescente distanciamento da economia real. A Banca, apoiada nos Bancos Centrais, particularmente a Reserva Federal Americana, abraçou este sistema delirante, criando ainda mais dinheiro a partir do ar: através das suas “alavancagens”, e através dos mercados financeiros, onde vende e revende fundos e dívidas, como se a maioria desse dinheiro fosse real. Não é, e nunca foi. O resultado é uma espiral de dívida, em que os EUA são há muito o maior devedor mundial, um país tão evoluído como a Islândia fica inadimplente de um dia para o outro, e mesmo uma potência exportadora como a Alemanha deve mais de 100% do seu PIB. ———————– É claro que há países mais produtivos que outros, e sobretudo melhor geridos que outros: com Governos como os que temos tido, em particular o anterior, não há país que aguente. No entanto, isto é apenas parte do problema. A prova disto é que a crise não está confinada a Portugal, à Grécia, ou outros países mal geridos: é global, e galopante. Todo o sistema financeiro e até monetário, como resumi acima, é há muito insustentável, e autofágico. As economias mais débeis caíram primeiro, mas todo o sistema tende a desabar como um castelo de cartas, devido à sua interdependência, e à sua submissão suicida a uma potência em declínio, e a mercados insaciáveis. (continua)

    1. Há uma rábula que vai mais ou menos assim: um forasteiro chega a uma aldeia, e decide pernoitar na estalagem local. Dá uma nota de 20 euros ao estalajadeiro. Este pega nela, e usa-a para pagar uma dívida de igual valor na mercearia. Por sua vez, o merceeiro usa a nota para pagar uma dívida de igual valor ao talhante, que paga ao agricultor, e assim sucessivamente, sempre com a mesma nota, até que esta serve para pagar uma dívida ao estalajadeiro, voltando assim à sua posse. Entretanto, o forasteiro muda de ideias, e pede a nota de volta. O estalajadeiro devolve-lha, ele vai-se embora, e toda a aldeia ficou as dívidas resolvidas. Parece magia, mas é simples: todos tinham dívidas e créditos de igual valor, bastou a circulação do dinheiro, que cumpriu a sua primeira função – meio de troca. Imaginemos agora que o forasteiro pedia não apenas os 20 euros, mas mais 10 euros em juros. De onde viriam estes 10 euros adicionais? A aldeia não imprime moeda, por isso teriam de sair do dinheiro em circulação – ou seja, da economia real. E imaginemos que os 20 euros não eram uma nota, mas uma mera transacção informática. O forasteiro não os tem: diz que tem, e a aldeia acredita, mas na verdade tem apenas 1 euro. Colocou assim em circulação 1 euro real, e 19 inventados, que lhe vão render 30 euros. E imaginemos que, não contente com este lucro, vende a dívida a outros forasteiros, que por sua vez a revendem várias vezes, acrescentando sempre mais-valias a cada venda, que usam depois para financiar novos empréstimos. De 1 euro inicial, criou-se uma cadeia de centenas, milhares de euros, baseada num pagamento que pode ou não concretizar-se. Às tantas, o dinheiro inventado supera em muito o dinheiro existente, e a capacidade da aldeia para gerá-lo. Os juros acumulam-se, e não há como pagá-los! Perante este colapso, será que os credores perdoam parte dos juros, para ganhar pelo menos alguma coisa? Não: aumentam-nos ainda mais, tornando impossível o que já era improvável. E voltam a vender a nova dívida, claro, pois o capital nunca pode parar. E a bola de neve também não. ———————– Soluções? Há várias, umas mais, outras menos viáveis, mas o 1º passo é reconhecer o problema. Se mantivermos o sistema actual em roda livre, não há trabalho, poupança, ou austeridade que nos valham. Um abraço, FB

      1. Brilhante! Semelhante, só a história brasileira da “cachaça” para explicar a crise.Com estes exemplos compreende-se essas “engenharias” que nos conduziram ao desastre.

        1. Caro XXI, o problema começa logo pelo nome: chamar “engenharia” a estes esquemas financeiros, é como chamar “arquitectura vanguardista” aos pardieiros do Sr. Pinto de Sousa. Os eufemismos são, aliás, o prato forte desta área – basta ver os nomes dos “produtos” das instituições financeiras. Fazem lembrar aqueles ambientadores com nomes como “Brise Relax Zen”, “Flores dos Alpes”, ou “Pétalas de Orquídea Docemente Mergulhadas em Champanhe”. Na prática, são apenas… químicos enlatados.

      2. Caro Filipe,Acreditando eu num sistema capitalista regrado e não selvagem, gostaria de partilhar também consigo um texto visionário de Thomas Jefferson (presidente dos EU de 1801 a 1809), escrito em 1802:”I believe that banking institutions are more dangerous to our liberties that standing armies . If the American people ever allow private banks to control the issue of their currency , first by inflation , then by delation , the banks and corporations that will grow up around the banks will deprive the people of all property until their children wake up homeless on the continent their fathers conquered .” Enjoy,Mónica A

      3. Caro Filipe,Querendo escrever para si, por equívoco respondi ao comentário de outra pessoa. Para não repetir o texto, fica aqui o aviso de erro.Cumprimentos,Mónica A

        1. Cara Mónica, Agradeço-lhe a citação de Jefferson, e dou-lhe outra em troca – com 75 anos: «The present Federal Reserve System is a flagrant case of the Government’s conferring a special privilege upon bankers. The Government hands to the banks its credit, at virtually no cost to the banks, to be loaned out by the bankers for their own private profit. Still worse, however, is the fact that it gives the bankers practically complete control of the amount of money that shall be in circulation. Not one dollar of these Federal Reserve notes gets into circulation without being borrowed into circulation, and without someone paying interest to some bank to keep it circulating. Our present money system is a DEBT MONEY SYSTEM. Before a dollar can circulate, a debt must be created. Such a system assumes that you can borrow yourself out of debt.» Willis Overholser, A short review and analysis of the history of money in the United States (1936) Cumprimentos, FB

      4. Caro Filipe,Agradeço-lhe o prazer intelectual que decorre de poder lê-lo e ver o que é uma inteligência arrumada servida por uma escrita límpida, com um pequeno senão – e perdoe a franqueza, que deve sempre andar de braço dado com a amizade – que é a de ser, quanto a mim, um tanto hílica (no sentido gnóstico do termo, ou seja, materialista), e por isso angustiada, porque não se pode transcender.Na minha nada técnica opinião, por não saber sê-lo mas igualmente porque aborrece não se elevar daquilo que apenas apela aos sentidos ou interesses e não à dimensão que sempre lhe deve estar sobrejacente, porque ser rico a sério não é ter muito dinheiro, mas saber viver com aquele que se tem, um pouco como sempre me fez pena “ver por dentro” o afecto xerófilo do rei Salomão, que dispunha de um harém com 700 mulheres: tinha todas a que quisesse, mas faltava-lhe a única que precisava, pois para preencher o coração de um homem basta uma mulher apenas. Tão rico e no entanto tão pobre – ou não acha que é digno de ser lastimado, em vez de invejado?Não tenho a lúcida acuidade de Pessoa, plasmada na sua “Mensagem”, que mais não era que o acrónimo e exortação de MENS AGitat molEM, (a mente move a matéria), a asserção panteísta de Virgílio – mas não me custa entender que as aflições de muitos decorrem de apenas olharem o que é sensível aos sentidos e não o que deveria pedir mais deles, a parte espiritual.Fala em “dinheiro inventado”, como se tal fosse uma realidade recente, que a sua rábula vem demonstrar. Mas o dinheiro nunca passou de uma convenção que primeiro se ajustou fosse em metal, depois passou a papel, mais tarde tornou-se plástico e hoje é virtual. Não custa imaginar que haveria de acabar em lixo tóxico. Impressiona que seja por isso que se mate e se morra aos milhões. Um pouco como a maioria das pessoas acabou por reduzir a essência das religiões à absurda supremacia dos inerentes rituais, e através delas – quase todas apelando à tolerância e fraternidade – se guerreiam e exterminam, muito convencidos da sua razão.Admito que neste momento o Filipe possa estar um tanto exasperado com todo este exórdio, a presumir-me passar por desprendido ao ponto de não gostar de dinheiro. Na verdade, não gosto nem desgosto. Sirvo-me dele mas nunca o servi. Através do trabalho, ganho-o para poder viver mas não vivo para o ganhar. Divirto-me no meu trabalho, gosto do que faço, é interessante e um desafio que obriga a superar-me permanentemente. Mas não permito que ele guie as minhas opções ao ponto de me fazer perder de vista daquilo que é essencial: viver feliz.Há bem pouco tempo jantei com um financeiro cá do sítio, que ajudou ao descalabro (saiu da Lehman pouco antes da implosão, por saber que esta se ia dar), e acabei por lastimá-lo, de tal maneira vive em sofrimento, não pelas pessoas que fez sofrer, mas pela sofreguidão em que se debate – pois esperava um lugar neste governo e foi preterido. Julga que ele se importa dos pobres pensionistas a quem roubou, milhões de vezes mais a quantia que qualquer assaltante de esquina? Nada, só fala em juros e tem o pensamento apenas fito na forma como há-de arrecadar mais e mais.(continua)

        1. (continuação)A sua rábula há-de ser bisneta daquela que fazia rir o público do Circo Price, há 150 anos, ali para os lados do Rato, como a conta Tomaz de Mello Breyner. Eram os palhaços financeiros, de pantalonas de seda, carapuço de bico, caras caiadas e bocas enormes, que vinham numerados nas costas. O n. 1 trazia uma moeda de cinco tostões na mão e dizia para o n. 2: “Devo-te há muito tempo dez tostões e como não posso pagar tudo já, toma lá, ao menos metade” e passava-lhe a moeda. O n.2 que também devia a mesma quantia ao n.3 e ficava contente por poder pagar-lhe meia divida. Ora acontecia que o n.3, sendo devedor de dez tostões ao n.1, pagou-lhe metade, e este assim que se apanhou outra vez com os cinco tostões na mão voltou.se para o n.2 e gritou-lhe todo satisfeito, passando-lhe a moeda: “Toma lá o resto da minha dívida, já não te devo nada!”. Outro tanto fizeram o n.2 e o n.3.No fim da moeda ter passado duas vezes pelas mãos dos três devedores e credores tinham acabado as dívidas e sobraram ainda cinco tostões que não se sabia de quem eram.Ora se nesse circo do séc. XIX e na “sua” aldeia de hoje, rapidamente chegaram à conclusão que o dinheiro é uma coisa abstracta, porque será assim difícil às multidões percebê-lo? Por uma razão tão simples, que até me envergonho de ao dizê-lo passar por simplista (que afinal sempre quis ser e lá vou conseguindo, para minha felicidade): por cupidez, amassada com estupidez. Depois é apenas uma reacção em cadeia, efeito dominó, onda de choque, o que se lhe quiser chamar. Quando refere “mercados insaciáveis” decerto está ciente que não são entidades extraterrestres – mas existentes nos próprios países que se debatem nesta agonia do sistema. Não existe, há muito, se quisermos saber onde pára o criminoso, o conselho “a quem aproveita o crime” ou “follow the money”? Em última análise, e não é preciso que seja muito profunda, tudo isto sucede porque os estados o permitem, se não mesmo o incentivam, a ver quem se pode aproveitar do mais fraco, o mais possível durante o tempo que for possível. Mas não foi sempre assim?Por isso, as palavras de Jefferson são mais actuais que nunca, e continuarão a sê-lo mesmo depois de esta crise passar (ou o Filipe crê mesmo que esta é a última?!), porque o homem não muda, mesmo que a permanente mudança das circunstâncias se preste, sempre, à ilusão que ele evolui.Um abraço amigo doManuel

          1. Caro Manuel, Tem obviamente razão no que diz, sobretudo quando diz que tudo isto é tolerado pelos estados – ou melhor, por quem os governa, que por sua vez é tolerado por quem os elege. Que eu saiba, o Sr. Pinto de Sousa não apontou uma arma a ninguém, nem ameaçou o país com nenhuma bomba: foi eleito livremente, duas vezes, e sê-lo-ia quiçá uma terceira, não fosse o buraco demasiado fundo, e os seus efeitos demasiado evidentes. Duvido que esta crise seja a última, mas sei que é pior que muitas do passado, porque estamos perante o que parece um fim de ciclo. O sistema actual parece ter chegado a um beco sem saída. Ou se mudam regras, ou não sairemos desta crise. E ninguém parece querer mexer nas regras. Um abraço, FB

          2. Caro Filipe,Sabe que não desgosto destas conversas “em silêncio”, sem o pateta do Tecelão, com as suas ordinárias palavras de ordem e os pontos de exclamação, que são a versão ortográfica dos gritos ao megafone, porque nada há que tanto baixe o nível da conversa como elevar o tom de voz dela? E o sujeito, coitado, puxa sempre para esse campo, como uma auto-satisfação nas idiotices que regurgita, que chega a fazer impressão, num misto de tristeza e náusea.É sempre difícil, em meia dúzia de linhas – pelo menos para mim, a que de todo sempre falece o poder de síntese – dizer tudo como gostaria, se estivéssemos a conversar de viva voz. Quando escrevi “cupidez amassada de estupidez” era exactamente o que o Filipe diz, aquilo que eu queria significar: a cupidez dos que se instalaram no poder, seja nos bancos, seja nos jornais, seja nos governos. E claro, a estupidez fica por conta daqueles que nisso colaboram, a grande massa acéfala que os suporta para depois sofrê-los, que os lê e acredita para de seguida invectivar, que os elege para mais tarde se morder de havê-lo feito e apear.Quer um exemplo recente do que é uma manada a não pensar, e que o seu episódio-estudo? A Dona Branca, que dava 10 % ao mês. Aquilo é que era uma economia “aquecida” ao rubro! Qualquer pessoa que parasse a pensar, veria que o balão tinha que estoirar, como sucedeu com o Madoff. Mas essa vertigem perante o vórtice é como um poderoso alucinogénio que perturba o raciocínio, (o caso do meu amigo lehmaniano é digno de se ver, ele completamente vidrado em dinheiro – e eu mais ou menos curioso em assistir ao seu despertar para a realidade, quando tal emergir). Lembra-se do que aconteceu à pobre-rica velhota que acabou a fazer tapetes de Arraiolos na prisão das Mónicas? A dado momento, já não tinha como pagar os juros, senão precipitar-se numa fuga para a frente – como um comboio de montanha-russa descontrolado, com todo o pessoal a rir e gritar de alegre excitação, enquanto lá mais à frente uns funcionários vão construindo, apressadamente, as linhas por onde ele segue veloz, só que por infelicidade a um ritmo bem menor do que a celeridade do comboio, até que fatalmente tudo, comboio, passageiros e funcionários, virem parar cá abaixo? Quando lhe faltou ração para o monstro que criara e já a ameaçava devorar, a prestamista fez sair um artigo no “Tal e Qual”, um jornal saído de uma programa de “Apanhados”, que o jornalista Letria criara. Foi como deitar gasolina numa lareira: o que começara por uma “madrinha” (era assim que os funcionários a tratavam) a emprestar dinheiro aos aflitos do bairro, alastrou à escala nacional. Pouco tempo depois da entrada de dinheiro fresco (como as eurobonds, se é que eu são o que julgo saber, eu e mais milhões de eleitores) já estava na corda bamba de novo. Desapareceu então durante duas semanas, deixando os depositantes em pânico – tal como agora todos nós, suspensos do que sairá das cimeiras – e só suspiraram de alívio quando a mulher voltou, saindo de uma limousine, com aquela cara de avozinha bondosa, rodeada de polícia para a proteger da multidão que a vitoriava – porque afinal ela tinha sumido… para ir comprar um computador! (se não acredita, leia a imprensa da época).E havia gente a ser entrevistada na televisão, que emitia em directo toda essa fremente loucura – que ela é que deveria ir para primeira-ministra! A tudo isto assisti, como conheci amigos meus que “depositaram” lá brutalidades de dinheiro, recebendo em troca um vago papel, com um carimbo em cima do valor que haviam entregado e ainda me diziam (um deles, conhecido advogado): “É impressionante! Nem sequer conferiram o dinheiro, limitaram-se a dar-me o papel com a quantia que eu dissera!”.Pois é desse dinheiro não correspondente a trabalho, a algo fabricado, a um serviço prestado – que eu sempre desconfio. Tal como o Filipe diz, esses produtos com nomes muito bonitos não são mais que isso… produtos com nomes bonitos, atraentes.(continua)

          3. (continuação)Sob pena de me repetir, as multidões não pensam, é sempre mais difícil enganar um homem que uma turba deles, já Séneca o notou no seu tempo. São como manadas descontroladas que esmagam tudo à sua passagem, podia dar aqui mil exemplos, desde o que se passa com o mercado da arte quando o rebanho trepidante para lá se dirige, bruto e ignorante, comprando tudo sem ver, sem saber, sem quase olhar. E depois de um dia verificar que comprou gato por lebre, assusta-se e irrompe para o imobiliário, a repetir esse comportamento irracional. Estas histerias têm em mim – sem mérito especial – o efeito contrário de me tornar calmo. Quando há 2 anos a Europa foi varrida pelo receio de contágio (mais outro…) da gripe A, tudo se vacinava, o Estado comprou milhões de vacinas, ao começo não as havia suficientes e tudo bramava, por fim já as ministravam quase à força. Falava-se em milhares de mortos a haver, por cá morreram dois e por acaso conhecia um deles, que morreu de outras coisas: depressão, álcool e droga. Mas talvez o Filipe esteja lembrado que a ministra da Saúde interrompeu um conselho de ministros para vir cá fora dar a notícia, e eu admirado que a necrologia de um cidadão merecesse honras de estado – mas não há limite para o que se faz quando se precisa de manter no poder, mostrando serviço.O Filipe e eu concordamos e discordamos numa mesma coisa: “isto”, o sistema tem que parar. O Filipe teme-o e eu desejo-o quanto antes.Vai ser dolorosíssimo para muitos, eu também o sinto, como um bafo de morte, de longe em longe, cada vez mais perto, ao ver clientes meus à beira do precipício. Mas não farei, ainda ontem falava com uma amiga minha, como os americanos durante a crises dos mísseis de Cuba, a construir aflitivamente abrigos anti-atómicos … no jardim da sua casa.Há coisas que só se vencem avançando para elas, a derrotá-las. A vida não é mais que isso: luta. Lutemos pois – e de preferência com coragem.Um abraço amigo doManuel

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