É uma da manhã, o céu tem estrelas, não há vento, nem uma aragem.
A cidade das pessoas de bem dorme.
Nos nas alfurjas sindicais, as coisas agitam-se. Há piquetes, gente feroz à espera de insultar os canalhas que vierem ou quiserem vir trabalhar.
Lá em casa, Mário Soares rejubila. Mandou a sua malha, voltou às manchetes dos jornais e aos seus servos das televisões.
Em casa, quem trabalha, ou quem ganha a vida a trabalhar – coisa rara nos cidadãos portugueses, inchados de direitos, de slogans e de preguiça – pensa como há-de ir trabalhar de manhã, sem metro, sem autocarros, sem nada.
Nos aeroportos, os passageiros estiolam pelas arcadas, com fome, cansaço e sono, sem saber quando chegarão ao destino.
Nos covis dos ricos comandantes divertem-se pilotos e hospedeiras com garrafinhas de champanhe da executiva, comemorando a folga.
Os controladores de voo aproveitam para controlar os cabarés.
O maralhal da Carris, do Metro, da CP, os professores, os actores dos teatros do Estado, os enfermeiros, os médicos, tudo minha gente se prepara para o feriado.
Sim, meus senhores, com toda a razão. Este feriado é deles, não é da Igreja nem do governo. É da malta que regurgita direitos por todos os poros e que aceita obrigação nenhuma.
É da Nação número um.
Portugal, nestes dias negros, não é uma nação, é duas. A dos que trabalham e, queiram ou não, que têm que assumir alguma responsabilidade perante o patrão, perante a família e perante si próprios, a número dois, e a outra, número um, a dos que dependem do Estado, funcionários, professores, médicos, enfermeiros, tipos da Carris, do Metro, dos ferries, dos comboios, das empresa públicas, das polícias, da chusma de inúteis, ou quase, que se acoitam sob a asa protectora do Estado que o socialismo criou, gente que jamais poderá ser despedida, que jamais será responsável seja pelo que for, que é paga quer trabalhe quer não faça a ponta de um corno, gente que não vê um palmo à frente do umbigo, que acha que a crise é dos outros, não sua, que anuncia ao povo em geral, via canalhas como o Silva, o outro da UGT ou o Soares, a grande mensagem desta greve: nós somos os instalados, ai dos outros! Que se lixem! A nós ninguém lixa, ha,ha!
A noite tem estrelas, o ar é sereno, a temperatura é fresca, doce, as gentes dormem, os trafulhas agitam-se, amanhã ninguém vai à escola, nem ao trabalho, nem à missa, nem seja onde for.
A não ser, é claro, os parvos e os que sofrem na carne o estado do gloriosíssimo Estado que o socialismo nos deu, prenhe de direitos e de militante estupidez.
24.11.11
António Borges de Carvalho

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