IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


  • VOCÊ NÃO TEM VERGONHA?

     

    – O Presidente da sua III República vai prestar vassalagem ao Rei de Castela, pedindo a sua real intervenção para evitar a “espanholização” da banca portuguesa. Depois, vem cá para fora dizer que o fez, cheio de orgulhosa jactância.

                    Você, como português, não tem vergonha?

    – O chamado primeiro-ministro do seu país, numa querela bancária, pede batatinhas a uma das partes e gaba-se disso em vez de guardar prudente silêncio.

                    Você, como português, não tem vergonha?

    – O PR, sobre o mesmo tema, toma posição pública escandalosamente partidária, incensando o governo e criticando quem não está de acordo com ele – o chefe da oposição.

                    Você, como português, não tem vergonha?

    – O chamado PM nomeia um tipo para o representar em negociações privadas, confessando que o dito já andava a fazê-lo há muito, como “amigo”, sem mandato de espécie nenhuma.

                    Você, como português, não tem vergonha?

    – Ao ser anunciado um acordo na tal querela bancária, o PR e o chamado PM, em uníssono, vêm para a praça pública vangloriar-se da sua intervenção no assunto.

                    Você, como português, não tem vergonha?

    – O acordo era de palha. Foi denunciado por uma das partes. Ficou tudo embrulhado. Resultado: o tal PR e o chamado PM calam-se como ratos, não reconhecem os seus erros nem dão satisfações sobre o que fizeram.

                    Você, como português, não tem vergonha?

    – O chamado PM, zangadíssimo, chuta cá para fora um decreto ad-hoc e diz que “legislou”. O PR aplaude e promulga na hora, favorecendo a ontem anatemizada “espanholização” e dando mostras da mais total incoerência e desrespeito pelas regras gerais do direito, tudo sem confessar que andam, ele e o outro, a meter os pés pelas mãos… e o “amigo” a meter água por todos os lados.

                    Você, como português, não tem vergonha?

      – Por confessa acção, inabilidade e propagandismo parolo dos dois altos responsáveis em apreço, um assunto da esfera do privado torna-se público, promove problemas diplomáticos graves, anula o prestígio e a independências das instituições democráticas.

                    Você, como português, não tem vergonha?

     

    21.4.16

  • UMA CELEBRIDADE

    Como é sabido, o saudoso João Soares foi posto a bom recato, por desbocadas razões. Nada se perdeu, dirá quem lê. Se calhar, direi eu, perdeu-se o único membro do chamado governo que nos podia divertir. Os outros, sem excepção, metem medo. Paciência.

    Facto é que a sua partida deu lugar ao surgimento de nova criatura, criatura no sentido de que se trata de coisa que não existia antes. Foi criada ad-hoc. Passo a explicar, isto a partir da minha postura de indivíduo antiquado, cheio de vazio no que à alta cultura portuguesa dos nossos dias diz respeito. Castro Mendes era um nome que fazia lembrar um antigo doutor, assitente da universidade, boa e chata pessoa. Não sei se era o pai da nova criatura, mas é a única ligação que tenho a nome de repente tão badalado. De um dia para o outro, um ignorado diplomata que, por razões  mais ou menos esotéricas, passou os sessenta sem ser promovido a full rank, que estava colocado, ou escondido, numa coisa de decadente importância (o Conselho da Europa), que ninguém sabia quem era, transformou-se num dos nossos mais célebres diplomatas, com extraordinária obra a crédito, num eminente intelectual, grande homem de letras, romancista, poeta de extraordinária qualidade, figura cimeira da cultura nacional, etc. Alguns dos seus escritos, pressurosamente reproduzidos na imprensa, dão-nos uma ideia das altas qualidades de de tão distinta personalidade. Será preciso, ou ser um exegeta quântico, ou um membro da intelectualidade mais merecedora de obscuridade, para conseguir encontrar razões para encómios ao ler poemas sem som, sem métrica, sem rima, sem nada que os distinga de prosa menor e social-politiqueira.

    Até sou capaz de dar à nova criatura o meu alto benefício da dúvida. Até sou capaz de fazer um esforço para aceitar que, na qualidade de ministro do chamado governo, será melhor que o seu antecessor. Até sou capaz de acreditar que se trata de um gajo porreiro.

    Mas, por favor, não venham atirar à cara de cada um com uma celebridade que, como tal, nunca existiu!   

     

    19.4.16

  • BRASILEIRICES

    Manuel Carvalho,  jornalista que, de vez em quando, diz umas coisas, esceve hoje, acerca do Brasil: “o que está em causa é apenas um expediente legal e processual para derrotar no parlamento o que o PT ganhou nas urnas”. Faz lembrar o que por cá se passou e que levou ao poder, não quem ganhou as eleições sem maioria parlamentar, mas precisamente o contrário do que significava a minoria relativa que obteve e a não tão grande minoria que se lhe opunha. Disso não se lembra o senhor Carvalho. Compreende-se. Tal lembrança não está a dar.

    Adiante. Não foi o PT que ganhou as eleições. O PT tem 68 deputados em 513, menos 18 que em 2010. Foi a sua líder que ganhou. Como se trata de uma Constitução presidencialista, a eleita ficou no direito de formar governo. Mas teve que o formar com base num parlamento onde o seu partido não passa de insignificante minoria, e onde há mais uns vinte e tal. A Presidente nunca teve uma maioria estável a seu lado, nem uma oposição coerente, só gozou de circunstanciais conveniências, joguinhos, mexericos e “conveniências”.

    Um sistema desgraçado, num país onde se faz partidos como quem faz ovos mexidos, só podia dar no que deu. Quando as coisas começaram a correr mal, com a inflacção a voltar, a economia a cair,a indisciplina social e fiscal a grassar, as “broncas” a rebentar por todos os lados, inevitável se tornou a criação do inimigo principal, ou do bode expiatório. Para o efeito, só dona Dilma estava à disposição, ou mercia ser seleccionada.

    Aliás, contribuiu para facilitar as coisas. Há anos que a sua política não passa da repetição exagerada de slogans, há anos que a figura da presidente se desligou totalmente dos problemas da nação e se perdeu em parangonas vazias e em causas sem efeito. Dir-se-á que Lula era mais ou menos a mesma coisa, o mesmo primitivismo, o mesmo parlapaté, etc. Mas Lula tinha muito para gastar e tinha um país cheio de nova vitalidade. Gastou quase tudo, não deixou mais que uns trocos, políticos e financeiros, à sua bem amada sucessora . O caminho para a construção do bode expiatório estava feito. A senhora só teve que o percorrer, eventualmente convencida de que não havia cheks and balances que a pudessem ameaçar. Se hoje os seus adversários não têm outro objectivo político que não seja apeá-la, ela também não tem outro senão o de se aguentar. O Brasil alinha, esquecido de si mesmo.

    O sistema implode, todo ele, entre gritaria política e barulheira social, parecendo não haver quem tenha prestígio moral ou estatura política para o reformar de alto a baixo, que é do que o Brasil precisa. Se querem um sistema do tipo americano precisam de o copiar um bocadinho melhor, de alterar sistema eleitoral com a serena violência da razão, de depurar partidecos sem expressão ou de expressão meramente local, de proporcionar a formação de maiorias coerentes, de rever os equilíbrios de poder…

    Mas isto está longe. Parece que por lá, como por cá, há vacas sagradas que podem mais que a razão ou os interesses gerais.

     

    18.4.16

  • HÁ TRAIDORES HONESTOS?

     

    Dona Eduarda Napoleão, passados que foram uns 12 ou 13 anos de luta nos tribunais, foi ilibada de todas as acusações perpetradas pelo espantoso Sá Fernandes. O mesmo tinha já acontecido com outro dos acusados, o Prof. Carmona Rodrigues.

    Comecemos por saudar aquela senhora, que foi talvez a mais notável vereadora que, durante a III República, a CML conheceu, bem como este honestíssimo senhor, apeado da presidênciada Câmara em condições vergonhosas.

    Sá Fernandes traíu a Bloca de Esquerda e o seu amigo Louçã, que o tinham promovido a vereador com a cumplicidade do Costa. Mas deixou-se ficar no lugar a que, moral mas não formalmente, tinha perdido o direito.

    Depois, traíu o povo de Lisboa mandando parar as obras do túnel do Marquês. Como é sabido, isto custou à CML e aos munícipes chorudas quantidades de euros – milhões –  atrasos, prejuízos comerciais, perdas de tempo, de paciência, de nervos, etc.

    Promovendo uma acção popular, que perdeu, conseguiu  que os milhões dos prejuízos causados ficassem por conta do povo. Pagar, indemnizar os lesados, não é com ele. A empresa construtora, na qual o buraco aberto pelo Fernandes, que eu saiba, não foi integralmente tapado, também faz parte dos prejudicados.

    Por causa da história da Feira Popular e do Parque Mayer, arranjou um processo pidesco para comprometer um corruptor. Conseguiu, mas, nesse aspecto, pariu um rato. O pior é que pariu também um elefante: em plena consciência, arranjou um trinta e um à cidade, o qual, passados uns treze anos, ainda está à vista de todos em dois locais entregues à bicharada, com gigantescos prejuízos urbanos e sociais. A traição aos interesses municipais cifra-se também em centenas de milhões de euros, já pagos e a pagar, a que o tal corruptor tem inegável direito e que saem do nosso IMI, do nosso IMT, das nossas taxas e taxinhas, por obra das traições do Fernandes.

    Não contente com isto, Fernandes acusou de trafulhice pessoas honestíssimas. O negócio da Feira Popular (que tinha sido aprovado, até pelo PS!, na Assembleia Municipal) foi arrastado na lama, com ele Carmona Rodrigues e Eduarda Napoleão, reabilitados mais de dez anos depois.

    Estes, porém, foram vítimas de outra traição, talvez mais grave que as anteriores. O chefe do PSD à altura fez cair a Câmara. Pondo-se ao lado do Fernandes contra os seus retirou a confiança aos “arguidos” nos processos fabricados pelo, assim entregando, de mão beijada, o governo da CML ao adversário, por muitos anos e maus.

    E, no entanto, o Fernandes continua, inamovível, a passear-se em sessões públicas e patacoadas várias, muito apreciadas pela acefalia dos adeptos do politicamente correcto.

    O Marques Mendes, esse, impoluto e grosso, brinda o povo na televisão com “conhecedoras” arengas, bocas e bojardas, ao serviço não se sabe de quê, mas pode calcular-se.

    Em matéria de moral republicana, a traição é bem paga.

     

    18.4.16

  • HÁ GENERAIS

    Tenho aqui um recortezinho da primeira página do “Expresso” de hoje, que reza assim: “Marcelo quis evitar a demissão do CEME… mas Carlos Jerónimo recusou reconsiderar”.                           

    Lido com olhos de ler: Marcelo quis evitar mais uma chatice ao seu amigo Costa. Sabia (sabe) que o chamado ministro de defesa, um ignorante desbocado, nunca mais terá, porque não merece, qualquer sombra de autoridade junto da tropa.

    Lá no fundo, o savoir faire que o caracteriza deve tê-lo feito pensar que, pelos vistos, o fulano meterá rapidamente a pata outra vez na poça e, nessa altura, será mais fácil pô-lo na rua. Não já. Podia ferir a geringonça, pôr a Bloca de Esquerda aos gritos, abanar a “estabilidade” do querido Costa. Isso é que não! Sou o chefe da coligação, que até a Marisa Matias aplaude de pé, toda frenética, e vou deixar que venha um militar pôr a minha querida organização em causa? Nem pensar!

    Imagine-se o que foi (se o houve) o diálogo com o General demissionário. Num esconso do palácio, Marcelo dá-lhe afectuosamente o braço. O General encolhe-se todo, mas aguenta.

    – Meu caro, estas coisas são uma maçada, não calcula como o compreendo… mas, que diabo, nisto da política…

    – O Senhor Presidente desculpará, mas não é suposto pronunciar-me em assuntos políticos. Trata-se de uma questão de dignidade e de disciplina, não de política!

    – Calma, Senhor General, calma, a sua dignidade está acima de qualquer apreciação. Mas, enfim, o serviço das Forças Armadas, não é, também tem a ver com a estabilidade política. Pôr tal estabilidade em causa…  não é, enfim, um valor mais alto?… espero que reconsidere…

    – Desculpar-me-á Vossa Excelência, mas não reconsidero desconsiderações nem deixarei que fique em causa a cadeia de comando, nem que a estabilidade das Forças Armadas seja ofendida por um ministro que não tem a mais remota noção da sua função, nem um mínimo de respeito pelas pessoas que estão sob a sua acção política, não sob o seu comando disciplinar. Não o queria nem para faxina das retretes!

    – Ora ora, General, deixe-se de pruridos, não exagere, não ferva em pouca água! Isto é mais simples do que parece. Deixe-se ficar! Vai ver que, mais cedo do que possa pensar, será compensado, as cantarinhas da nora não param…

    O General afasta-se, põe-se em sentido, bate a pala, e diz:

    – Vossa  Excelência dá licença que me retire?

    – Ouça…

    – Já ouvi o que tinha a ouvir. Boa tarde.

     

    Na prática, poderá não ter sido assim. Mas, substancialmente, não foi outra coisa.

     

    16.4.16

  • CONFUSÕES

    Uma coisa há que me anda a fazer confusão.

    É comum criticar-se os governos, ou o Estado, com razão ou sem ela – não vem ao caso – de pagar fortunas a advogados para tratar de assuntos públicos. Os mesmos advogados que, noutras questões do mesmo âmbito, representam as outras partes. Os contratos com os advogados são facto, os pesados fees que cobram, também.

    Ninguém, aliás, acredita que haja advogados a trabalhar de borla, seja para o Estado seja para quem com o Estado negoceia. Normal, natural, vai da natureza das coisas.

    Ora se a prática das borlas não faz parte de tal natureza, hemos de convir que é legítimo pôr em dúvida que aconteça. Se há quem trabalhe de borla para o Estado, legítimo também é perguntar quem paga. Se não é o Estado, é a outra parte. Parece óbvio. E se o Estado paga a um advogado 2.000 euros por mês para tratar de assuntos multimilionários, não é preciso entrar em teorias da conspiração para, legitimamente, pensar que quem paga é a outra parte, já que os advogados, nestas coisas, são avessos a peanuts.

    Faz confusão, mas leve-se em conta a ignorância maledicente de quem está confuso.

     

    15.4.16  

  • A CULPA

    Ainda o debate vai no adro (são onze da manhã), e já se percebeu a “linha de argumentação “ do chamado primeiro-ministro, quanto às “desculpas” para as perspectivas negativas que, na economia, nas finanças e no resto, gozam da unanimidade de opinião interna e externa.

    A “razão” para tal unanimidade, que o senhor Costa descobriu, não é o clima de reversões que põem de pé atrás todo e qualquer investidor, não é a maluquice centenático-ignorante do crescimento via consumo interno, não é o já evidente caminho para o défice das contas externas, não é o ambiente de desconfiança gerado pelas proclamadas intenções de alterar as leis do trabalho para agradar à esquerda totalitária, não é a parvoíce do IVA da restauração, não é a retoma salazaristoide do congelamento das rendas, não é a transferência de fundos da Segurança Social para a construção civil, não é o desgraçado ambiente de trafulhice hierárquica instituído na tutela das Forças Armadas, não é a instabilidade governamental, com ministros e secretários de Estado a demitir-se dia sim dia não, não é o alinhamento com o senhor Tripas, não é o amiguismo galopante, não é a rapidíssima destruição da confiança interna e externa, não é o abandono da diplomacia económica…, não!

    Nada disso. A culpa é, em duas palavras, da “tempestade perfeita” que “se vive na Europa”. Sim, meus amigos, na palavra sabedora do chamado primeiro-ministro, a culpa do já evidente e estrondoso falhanço deste chamado governo é só, exclusivamente, fundamentalmente, evidentemente, da Europa, de um mundo estrangeiro apostado em não acreditar na política da geringonça e em prejudicar a Lusitânia! O Jerónimo da Sousa diz o mesmo. A Catarina, aos pulinhos, aplaude.

    Mete-se pelos olhos dentro de qualquer observador imparcial, nacional ou estrangeiro, que a “mentalidade” do poder em Portugal conduz ao não investimento interno e externo e à destruição de qualquer hipótese de continuidade na recuperação e à desgraça social. Talvez não se soubesse a que velocidade tal se operaria, mas era essa, só essa, a dúvida. Pelos vistos, está a ser mais rápido do que pensariam os mais pessimistas.

    O que vale é que a culpa, no parecer do chamado primeiro-ministro, é dos marcianos.

     

    15.4.16

  • EM DEFESA DO MAIS FRACO

    Ele há injustiças flagrantes.

    Há dias, um ministro do chamado governo, sem préstimos que se vissem, levou a mal ter sido soezmente criticado por dois plumitivos da praça de Lisboa. Quem não se ofende não é filho de boa gente, diz, sábia, a voz do povo. Ofendido, o nosso homem, indubitavelmente filho de gente tida por boa, não se queixou à PGR, não deu entrevistas agrestes aos órgãos de informação, não exigiu, não conspirou – como faria o seu bem amado Pinto de Sousa – para que os ofensores fossem despedidos, para que os directores dos jornais que albergaram as ofensas fossem apeados, não arranjou tramóias para os comprar, nada. Coitado, limitou-se a, modesta e discretamente, consubstanciar o seu grito de alma numa pequena local inserta nas redes sociais, sítio onde tanta gente, sem razão alguma, tece acerca do semelhante as mais rascas aleivosias. No pequeno texto, pleno de justa indignação, limitava-se, certamente em sentido figurado, a dar parte da vontade que sentia em dar um par de bofetadas aos autores dos verrinosos comentários que a seu respeito publicaram.

    Caiu o Carmo e a Trindade. A alcateia de críticos, com a bênção do seu amigo Costa, saltou-lhe às canelas, e de tal maneira o fez que o infeliz senhor teve que apear-se, ou ser apeado, do seu altar ministerial. Compreende-se que assim tenha sido. Mas deixa de se compreender se considerarmos o que segue.

    Contrastando com esta triste história, temos uma outra, também protagonizada por um membro do chamado governo, com préstimos comparáveis aos do colega. Trata-se indivíduo que ninguém saberá como chegou a ministro da defesa, coisa até hoje reservada a figuras com peso político e provado conhecimento das matérias que o cargo envolve. Deu-se a conhecer por ter o costume de andar desargalado, por não ter um mínimo de pose, ou de gravitas, normalmente dignificadoras do exercício do cargo. Chegou ao ponto de manifestar a mais reles desconsideração pelos titulares da realização prática da Defesa, ao passar, sem gravata, revista a tropas impecavelmente fardadas para, militarmente, o saudar. Não contente com o alarde de estilo que isto representa, aproveitou a primeira oportunidade para vir à praça pública exibir-se, desconsiderando a cadeia de comando, fazendo exigências absurdas sobre um não caso elevado à importância pelos habituais lobis cuja caracterização não sujará este texto. Passou por cima de tudo o que havia a passar, alardeou para tal razões “constitucionais” e empolou o acontecido de forma absolutamente mentirosa, ao miserável serviço das exigências de um certo politicamente correcto.

    Um general honrado demitiu-se, as pessoas de bem indignaram-se. Mas a criatura continua ministro, com o apoio do chamado primeiro-ministro e a enternecida bênção do Presidente da República. O que quer dizer que, institucionalmente, as Forças Armadas estão irreparavelmente reduzidas à não existência enquanto tal. O que quer também dizer que a atitude do homem, se comparada com as primárias bofetadas do colega, se reveste de uma gravidade correspondente a um ensaio de pancadaria na dignidade do Estado.

    Simbólicas ameaças de bofetadas, em frente de real pancadaria institucional, são brincadeira de criança inconsciente. No entanto, umas provocam a queda do seu autor, outras são consagradas como legítimas ao mais alto nível.

    Ao que chegámos!

     

    14.1.16

  • AMIGOS, AMIGUINHOS E AMIGALHAÇOS

    Os amigos estão na moda. Em si, não é coisa má. Mas…

    O camarada Pinto de Sousa tem o maior de todos os amigos, um tipo que lhe adianta as massas que forem precisas para a sustentação do vidaço que bem merece. Assim: taco aos pontapés, atempada e prestimosamente.

    O camarada Putin, sabe-se agora, também tem um amigo milionário, com fortuna de milhares de milhões honestamente ganhos a vender rabecões.

    Mais pequenino, o camarada Costa tem um amigo (o seu “melhor amigo”) que o ajuda, pro bono, em rebuscados e milionários negócios do Estado. Para pagar as borlas do amigo decide contratatá-lo, julga-se que a recibos verdes ou equivalente, por dois mil euros por mês mais IVA. Por um lado, é de uma enternecedora modéstia. Por outro, nos conceitos do governo, o homem passa a rico, que é o que acontece ao comum dos mortais que auferem tal rendimento.

    É de saudar, por unanimidade e aclamação, esta demonstração de amizade. Que diabo, o homem tem prática nas matérias que é suposto vir, ou continuar, a tratar. Uma experiência adquirida em muitos negócios, particulares e estatais. Certamente sempre de borla, como é de pensar. Mais um amigo, um benemérito. Um saber de experiência feito posto ao serviço da Pátria por 2.000 euros por mês, mais IVA. Parabéns.

    Amigos há poucos, sobretudo dos bons.

    *

    Por falar em amigos, há que escolhê-los. Nos negócios como na política. É o caso, já saudado efusivamente na imprensa internacional, do camarada Tripas.  Certamente para criar confiança no país, o chamado primeiro-ministro foi a Atenas solidarizar-se com a luta contra a “austeridade” levada a cabo pelo seu amigo grego, homem que, como é sabido, soma inúmeros êxitos tal respeito. O camarada Costa, em nobre e solidária atitude, quer seguir o exemplo do amigo. Que diabo, na crise actual os gregos já somam três resgates. Nós, só um. Não é justo. Estamos atrasados! Há que seguir os bons exemplos. Há que dizer ao mundo que também queremos, a fim de aumentar a confiança na nossa capacidade para atrair investimentos, que alteramos tudo o que já fizemos em contrário, que somos inimigos de Bruxelas, do BCE, da comunidade internacional e de outros gangsters que andam por aí , que vamos repor tudo o que estava em vigor há cinco anos atrás, a caminho de um futuro cheio de promessas, isto é, de resgates, de troicas e de amigos como o Tripas.

    Alegremo-nos, o Costa tem amigos.

     

    13.4.16

  • META O PENACHO NO RABO

    Se me dissessem que, um dia, havia de estar de acordo com o Vasco Lourenço, responderia que “dessa água não beberei”.

    Mas bebo. Vasco Lourenço foi aos baús onde tem andado a esconder a sua antiga condição militar para se meter no primarismo esquerdista, e lá terá encontrado vestígios de dignidade profissional. Por isso, defendeu, e bem, que nenhum militar digno desse nome deve aceitar o lugar de Chefe do Exército enquanto o idiota (para dizer o menos) que é chamado ministro da defesa não for corrido pela porta dos fundos.

    É evidente, para quem ler com olhos de ler as declarações de um responsável do Colégio Militar sobre a hipótese de haver deficientes sexuais na instituição, verá que tais declarações não contêm qualquer sombra de “homofobia”, ainda menos qualquer afronta ao constitucional Boi Ápis. O que ele disse foi que, a haver tais tendenciais manifestações em algum aluno, deveriam os pais ser avisados, a fim de lhes dar oportunidade de aceitar ou não que ele continuasse, com eventuais dissabores, a estar no Colégio.   

    A polémica foi lançada pelos habituais trombones, gente que merece tanto crédito, sobretudo em assuntos militares, como um rato dos canos em matéria de música clássica.

    O idiota chamado ministro, porém, resolveu tocar a harpa da moda. Quis mostrar-se progressista, esquerdista, homofílico, à la page. Com isso ultrapassou competências legais, desmereceu de gente respeitável, quebrou hierarquias, ofendeu quem não devia ser ofendido, mostrou a mais radical incompetência para a função, tudo para alinhar no que “está a dar”. Um alarve engalanado. Se o Almada fosse vivo, mandava-o “meter o penacho no rabo”.

    Espero que ainda haja militares dignos do nome e que nem um aceite trabalhar sob as ordens do alarve.

    É a opinião do Lourenço e, quem diria, é também a minha.

     

    13.4.16

  • IMPIXAR

     

    No dia em que a dona Dilma se declarou presidenta, o IRRITADO retirou o importante apoio que, como é de calcular, estava a pensar oferecer-lhe. A senhora passou à categoria de analfabruta, ou seja, desceu ao patamar de (des)consideração em que já estava esse luminar da cultura ibérica, Pilar del Rio de seu nome, também ela presidenta, não do Brasil mas de uma pendurice proporcionada pelo actualmente chamado primeiro-ministro.

    Por isso que aqui venha o IRRITADO expressar a seu apoio à destituição (impeachement, em pretuguês do Brasil e do “Público”, entre outros) daquela, já que, desta, não há por cá quem a impixe (do verbo impixar, grafia do dicionário de pretuguês, com acordo ortográfico).

     

    12.4.16

  • O GRANDE MOMENTO

    O nosso afectuoso Presidente deu mais uma das suas conhecidas piruetas político-circenses, ontem, nas copofónicas comemorações dos 140 anos da metástase estatal conhecida por CGD. Segundo disse, a CGD é pública, só pública e nada mais que pública, e assim será per omnia secula. Além disso, afirmou, o Estado está, ao contrário do que diz o big brother bruxelense, autorizado e legitimado a cumprir o “indiscutível consenso nacional” que manda que o Estado entre com mais uns milhares de milhões (os que a contabilidade de 2015 determinar!) para reforçar os rácios da coisa.

    Parabéns pelo seu jogo de cintura e, sobretudo, pela verdadeiramente extraordinária capacidade de adaptação ao “tempo novo” assim tão gritantemente alardeada.

    De tal forma que, segundo fontes bem informadas, a questão que se põe é a de saber que ficha de filiação se prepara em Belém para a presidencial subscrição: a do PS, a do BE, a do PC, ou todas. Será um grande momento, um momento histórico.

     

    11.4.16

  • “ANÁLISES”

    Como saberá quem o lê, o IRRITADO não é analista político, nem arma em tal. Vai vendo e ouvindo, e reage em conformidade com o que acontece ou deixa de acontecer.

    Há uma espécie de unanimidade entre os analistas e pensadores de serviço em relação à sobrevivência do chamado governo: este durará enquanto durar a geringonça, isto é, cai quando o PC e o BE quiserem.

    Pois. Só que o PC e o BE não querem, nem vão querer. Estão agarradinhos à coisa. Vão apoiando, ao mesmo tempo que dizem que não é bem assim, mas que enfim… Descobriram que podem “lutar por dentro”, entendendo que lutar por dentro é contribuir para demonstrar que todos os males são culpa do capitalismo, dos ricos, dos Estrados Unidos, do Ocidente, da democracia “burguesa”, da “direita”, do liberalismo, e de outros mafarricos e bodes expiatórios de eleição. Colaboram na estabilidade política ficando senhores da agitação social pela agitação social, que é o que sabem fazer. Sabem também que o PS não se importa com isso, só com o poder, sabem que a ruína será salvífica, isto é, destruirá tudo para que se possa, sobre os escombros, construir a ditadura que as respectivas vanguardas comandarão “em nome do povo”. Pelo caminho, vão conquistando uns lugarinhos, no Conselho de Estado e noutras coisas mais propícias à destruição social e política do país que existe.

    Nesta ordem de ideias, não é de contar com o fim da geringonça por razões internas à dita. O seu fim coincidirá com o acordar das pessoas para os seus resultados práticos, coisa que só se verificará a médio prazo, prouvera que antes que a destruição chegue fundo demais. Cairá na rua. Quem com ferro mata, com ferro morre.

     

    9.4.16      

  • DESCOMPOSTURAS, LAMBADAS E TRAFULHICES

     

    Acrescentando informação às primeiras impressões de que o IRRITADO já se fez eco, os jornais de hoje dão-nos os pormenores da monumental descompostura que o senhor Draghi deu ao chamado governo.

    A pergunta: o chamado governo percebeu?

    A resposta: percebeu, mas vai continuar a fingir que não percebeu. O que ele percebe é que o tempo é curto e que, ou aproveita para se atirar pela escada abaixo enquanto a malta ainda está com a impressão de que as coisas estão a melhorar, e ganha as eleições a seguir, ou deixa passar o tempo, a malta se consciencializa-se do abismo em que a andam a meter, e o tipo leva a tunda eleitoral da sua vida.

    O chamado governo não é só composto por burros. O chefe é esperto e tem plena consciência de que o seu idolatrado poder se deve ao mais miserável conjunto de trafulhices que se possa imaginar. Mas, como o que interessa é ele e o seu poder, não as pessoas ou o país, aprofundará a aldrabice tanto quanto for preciso para, a curto prazo, arranjar mais um mandato. Ao contrário do que dizem os “analistas” de serviço, quem tem falta de tempo é ele, não o adversário.

     

    Já que falei de burros, aqui vai uma lista provisória:

    – Um obscuro barbudo, vindo do ensino privado, tece loas ao público como tendencialmente único, acaba com exames, depois desacaba com exames, admitindo-os desde que não sirvam para nada;

    – Uma desconhecida não ilustre, secretária de estado ao que se diz, rigorosamente analfabeta, dá erros de ortografia que nem uma criancinha do 3º ano, e tem o alarde de estupidez do calibre de chamar sexistas aos presentes do MacDonalds;

    – Um tipo que talvez saiba de alguma coisa, mas de tropa e de defesa nem uma letra, permite-se dizer que o exército não tem capacidade de combate (estúpida e gratuita provocação) e tem o topete, por razões puramente idiotas, de vir à praça pública, a destempo, pôr em causa o comandante do Exército, em vez de tratar do (não) assunto pelas devidas vias;

    – Um indivíduo, aliás público e reconhecido cretino de longa data, promete, na net, lambadas aos críticos, em primário alarde de incompetência e de inadequação a qualquer cargo;

    – Um cabeludo, saído da arrecadação do Banco de Portugal, para além de alardear raciocínios económicos dignos do professor Karamba e do aparatchique Galamba, verga-se ao BCE (ou à CE, ou lá ao que é), e diz que ficou muito triste por ter sido obrigado a dar o golpe de misericórdia num banco (e nos contribuintes) num quarto de hora, num problema que não há quem não perceba que tinha um ano para tratar.

    – Um ridículo meninó, vindo ne nortenhas plagas, acha que meter gaóleo em Ayamonte é traição à Pátria.

     

    Desta monumental miséria política, humana, económica e moral, a única conclusão válida que o chamado primeiro-ministro tirou, foi a de correr com mais fraco: o tipo das lambadas.

     

    Disse.

     

    9.4,16

  • RESUMO

    Resumindo as doutas palavras do senhor Draghi no Conselho de Estado, temos:

    – O governo do Passos Coelho é que era bom;

    – As reversões são uma desgraça nacional;

    – O orçamento não presta;

    – As medidas “adicionais” são inevitáveis.

    O resto foi conversa diplomática, para adoçar a pastilha.

     

    8.4.16

  • HOMENAGEM

    Imagine-se que havia, no Colégio Militar, um menino que andasse a piscar o olho às colegas, a dizer-lhes uns piropos, maxime a roçar-se nelas ou a passar-lhes a mãozinha pelas bimbas. O menino, como é evidente, teria que ir para casa. De acordo.

    Imagine-se agora a mobilização da alcateia, sob o comando da generala Câncio, da coronela Moreira e da tenenta Martins, com batalhões de moralistas, machos, fêmeas e mais ou menos. Machismo! Falocracia! Assédio sexual! Crime! Rua!

    Veja-se agora outro caso, não verificado mas levantado, na base do just in case, caso que, embora imaginário, anda por aí nas bocas do mundo: o de um menino que mostrasse tendências para se chegar a outros meninos, lhes piscasse o doce olhinho, se roçasse neles ou tivesse tendência para lhes afagar o escroto. A alcateia entrou em paranoia com a hipótese de os pais de tal menino virem a ser avisados do caso, sendo-lhes pedido que o levassem para outro lado, já que aquilo é um colégio interno que não pode entrar em rebaldarias sexuais, sejam elas quais forem. Sob as ordens da generala Câncio, estalou a mais desbragada indignação. Se o menino se roçar nos outros, se usar cuequinhas de renda, está no seu pleno direito e faz muito bem. Tudo o que seja não lhe aceitar os ademanes é contra a moral e o direito.

    Tudo isto é compreensível, atentos os estritos princípios morais da alcateia.

    Mas… a coisa desta vez foi mais alto, ou mais baixo, conforme o gosto de cada um. O chamado ministro da defesa, borradinho de medo, alinhou com a alcateia e lançou o seu anátema sobre quem se manifestou desagradado com a mera hipótese da cuequinha de renda. Inquérito, já! Apuramento das responsabilidades! Quem pode ter o topete de de não querer lá no colégio rebaldarias de deficientes sexuais?

    Depois… depois a coisa subiu, desta vez subiu mesmo, mau grado o gosto de cada um: o responsável máximo do Exército mandou o ministro àquela parte. Os conceitos morais do Senhor não são compatíveis com os da alcateia, ainda menos com as borradas ordinárias e medricas do ministro.

    O IRRITADO presta humilde homenagem ao General propriamente dito que mandou o ministro àquela parte.      

     

    8.4.16

  • TODO DIREITINHO

    Grande avanço democrático no Conselho de Estado: o camarada Louçã de gravata! Viram? Todo bem arranjadinho, até parecia um senhor.

    Várias são as hipóteses que o espantoso caso levanta. O camarada Louçã teve um rebate de consciência? O camarada Louçã converteu-se à democracia? O camarada Louçã abandonou o socialismo revolucionário? O camarada Louçã aburguesou-se? O camarada Louçã obedeceu a alguma exigência protocolar do PR? O camarada Louçã abaixou-se? O camarada Louçã iniciou uma viagem a caminho do PSD? O camarada Louçã não está bom da cabeça?

    A coisa merece vários debates televisivos, com psicólogos, politólogos, sociólogos, constitucionalistólogos e outros encartados cientistas analistólogos e analistocráticos, a fim de que a opinião pública tenha pistas para ajuizar sobre a extraordinária ocorrência. Transparência, meus amigos, transparência!

     

    8.4.16

  • À CUSTA DOS OUTROS

    Mais uma inacreditável “reforma” se abate sobre a economia desta pobre terra.

    Uma fulana, proprietária de uma lojeca de velharias industriais e monos artesanais, onde o não investimento é timbre, a fim de proteger interesses pessoais (a salvação da falência própria) resolveu lançar uma campanha de protecção de lojas já falhadas ou claramente inviáveis, que passou a classificar como “património” da cidade.

    Teve honras de primeira página no jornal ultra-socialista chamado “Público”, onde se auto-promoveu para voos políticos de alto gabarito.

    Certamente “por acaso”, as autoridades competentes, sempre atentas aos “problemas” da cidade e do país, decidiram avançar para a classificação de lojas (imagine-se os critérios a aplicar) às quais será atribuído “interesse municipal” e que, por tal motivo, passam a merecer “protecção especial”, independentemente do seu interesse comercial, da ausência de clientela ou do seu contributo para a animação da cidade.

    Com certeza também “por acaso”, isto é, sem intervenção da dona Roseta, do senhor Fernandes, do senhor Medina, do senhor Costa e de outros que tais, o governo determina que as actividades comerciais em causa são merecedoras de especial atenção e de protecção acrescida. Como tal atenção e tal protecção custam dinheiro, a sutentação do comércio em estado de obsolescência passa a ficar a cargo… dos senhorios, obrigados que vão ficar a congelar as rendas por muitos anos e bons (para eles).

    Quer dizer, a chamada autarquia e o chamado governo, para pagar o atraso comercial ainda existente, resolvem dar passos atrás, conservar o inviável em nome de um “património” inventado ad hoc  pelos próprios, com o mote que, certamente “por acaso”, lhe foi facultado pela dona Catarina Portas, ansiosa por ver baixar a renda da chafarica que leva de aluguer. Como é uma chatice ter de pagar este regresso ao passado da I e da II Repúblicas, nada melhor que pôr os a pagar a despesa.

    Assim se junta os penduras e os parasitas ao socialismo e ao atraso mental que o caracteriza.

     

    7.4.16

  • SEM PENEIRA

    Se eu tivesse massa que se visse, se calhar punha-a a bom recato num paraíso fiscal.

    Não sei ao certo como se faz, mas, diz-se por aí, parece que devo informar o Banco de Portugal. Depois, a massa é exportada, e fico obrigado a incluir os respectivos rendimentos na minha folha de impostos.

    Tudo legal, legítimo, a circulação de capitais é livre, os paraísos fiscais são oficialmente reconhecidos como tal, etc.. Ter lá dinheiro não é crime, nem contra-ordenação, nem ilegalidade, nada disso. A coisa capta capitais e é rentável para os países a têm. Até aqui, tudo bem.

    Imaginemos que, por exemplo na UE, a luta contra a existência dos paraísos fiscais chegava a bom termo. Chegava, mas acabava a chamada livre circulação de capitais. A União, ao acabar com a coisa prejudicava-se brutalmente em relação a terceiros. A abolição só faria sentido se fosse universal, impossibilidade que não carece de demonstração.

    Nesta ordem de ideias, o que está mal é a série interminável de ilegalidades e/ou crimes fiscais que a existência dos paraísos proporcina.  O que está mal é a sua permeabilidade a capitais duvidosos, de proveniência ilegítima ou criminosa, bem como as fugas ao fisco que lhes podem estar facilmente associadas. Donde, na impossibilidade prática, ou até inconveniente, de acabar com os paraísos fiscais, o que terá que ser revisto é a fiscalização de tais abusos, o obrigatório registo dos capitais nos países de origem, a verificação da legitimidade da sua proveniência, etc.. Não será fácil, mas é fazível.

    Tratar do problema não é compatível com as parangonas ideológicas, as politiquices baratas e as sanhas persecutórias que por aí vicejam, mas a urgência de tratar do problema com eficácia, isto é, com a frieza técnica, jurídica e jurisdicional que, essa sim, pode ser objecto de algumas decisões de natureza global.

    O que se passa, independentemente da sua eventual utilidade, é o contrário. A chamada “investigação jornalística internacional” é a negação de uma série de princípios universais e seculares (a inviolabilidade da correspondência, o respeito pela privacidade…) cujo observância deixou de ser considerada um valor. A tal “investigação” não tem a ver com a denúncia de criminosos, mas com o lançamento de um anátema universal que cobre criminosos e cidadãos sem mácula, metendo todos no mesmo saco. Não se denuncia que o senhor A escondeu dinheiro de corrupta proveniência, que o senhoe B pôs a bom recato dinheiros do comércio de droga, de venda de virgens ou de outras condenáveis origens. Não se denuncia o senhor C, que se “esqueceu” de declarar redimentos. São milhões de documentos roubados que põem em causa tanto o legítimo como o ilegítimo, o são e o podre, o mau e o bom. Assim, indescriminadamente.

    Além disso, a própria natureza da denúncia vai no sentido da sua ineficácia, o que já aconteceu com várias iniciativas similares (o uiquiliques ou as histórias do senhor Snowden, por exemplo) que, ou já cairam no esquecimento, ou foram de uma ineficácia gritante. O crime destas investigações generalizadoras acaba por não compensar, mesmo que mascarado com altos objectivos e servido por universais trombones.

    Talvez esta história tenha alguma utilidade, isto é, sirva para denunciar o laxismo político, policial e judicial grassante na matéria. As autoridades constituídas são capazes de perseguir e condenar o conteúdo de um hamburger ou a qualidade de um dentífrico, mas metem a cabeça na areia do “desconhecimento” em relação a muita coisa em relação à qual deveriam estar a pau.  

     

    7.4.16

  • VENDER E COMPRAR

    Ainda não assentou o pó do congresso e já o senhor Rio veio à liça defender a sua miserabunda posição em relação às “piadas” de que foi “vítima”.

    (Antes de mais, ressalve-se que vítimas somos nós, portugueses, por ter, com direito a galarim mediático, gente tão baixinha como este murídeo.)

    O dito não perde tempo. Escreve hoje que ficou ofendido por Santana Lopes ter dito que ele achava que podia “ofuscar” o congresso. Não! Rio nunca disse isso, que ideia, o que disse foi que, se lá fosse, se “arriscava a ser figura central”. Estão a ver a diferença? Que modéstia. Agora diz mais, que não foi a Espinho “para não perturbar”. Mais ainda, que se considera um “fantasma que aterroriza os outros”. Estão a ver a humildade? A categoria moral do pacóvio? O que pode a circunstância de, se calhar, ter percebido que não presta para mais nada? No paroxismo da inveja e dos maus sentimentos, mima-nos com esta: (Passos Coelho) “foi o mais votado, não o vencedor”. A baixeza de sentimentos chega ao pondo de achar que, em democracia, perde quem tem mais votos.  

    Mais grave que a petulância palerma e bacoca desta desgraça em forma de gente é a propaganda acéfala que por aí grassa na desinformação geral, coisa que, em Portugal, se chama “comunicação social”. Vale mais o fait divers que a substância das coisas.

    Uma olhadela à “informação” de hoje é disso prova. É feita de bocas e boquinhas, de disse-que –disse, de intriguinhas, de episódios menores, de tricas e triquinhas. As parangonas, e não só, dedicam-se a tudo menos ao que interessa. O que interessa, no plano político, social, nacional, é a doutrina adoptada, as ideias, o conteúdo do discurso final do chefe político do partido, as bases do seu pensamento, o que o distingue do social-comunismo-radicalismo no poder, o que se pode dele esperar ou não esperar. Goste-se ou não se goste (isso fica para quem comenta ou opina), informar seria fazer o compte rendu – propriamente jornalístico, propriamente informativo – do muito que foi dito (ideias princípios, caminhos, intenções, prospectivas…) pelo líder no encerramento do congresso. Foi mau? Foi bom? Que se deixasse o julgamento às pessoas, não através de episódios mas sobre o que, de substancial, foi afirmado. Que as pessoas ficassem a saber o que podem esperar ou não esperar, não o que de passou de “social”, de lateral, de anedótico, mas do que, fundamentalmente, foi afirmado.

    Deu-se mais direito de cidade a quem não vai mandar e que, com direito a tal, se manifesta (os que lá foram, os homens, não os ratos – rios, leites, pachecos…) do que a quem fica com a s responsabilidades do futuro.

     

    Em resumo, para a “informação” o que interessa é o que vende. Pobre de quem compra.

     

    4.4.16