Manuel Carvalho, jornalista que, de vez em quando, diz umas coisas, esceve hoje, acerca do Brasil: “o que está em causa é apenas um expediente legal e processual para derrotar no parlamento o que o PT ganhou nas urnas”. Faz lembrar o que por cá se passou e que levou ao poder, não quem ganhou as eleições sem maioria parlamentar, mas precisamente o contrário do que significava a minoria relativa que obteve e a não tão grande minoria que se lhe opunha. Disso não se lembra o senhor Carvalho. Compreende-se. Tal lembrança não está a dar.
Adiante. Não foi o PT que ganhou as eleições. O PT tem 68 deputados em 513, menos 18 que em 2010. Foi a sua líder que ganhou. Como se trata de uma Constitução presidencialista, a eleita ficou no direito de formar governo. Mas teve que o formar com base num parlamento onde o seu partido não passa de insignificante minoria, e onde há mais uns vinte e tal. A Presidente nunca teve uma maioria estável a seu lado, nem uma oposição coerente, só gozou de circunstanciais conveniências, joguinhos, mexericos e “conveniências”.
Um sistema desgraçado, num país onde se faz partidos como quem faz ovos mexidos, só podia dar no que deu. Quando as coisas começaram a correr mal, com a inflacção a voltar, a economia a cair,a indisciplina social e fiscal a grassar, as “broncas” a rebentar por todos os lados, inevitável se tornou a criação do inimigo principal, ou do bode expiatório. Para o efeito, só dona Dilma estava à disposição, ou mercia ser seleccionada.
Aliás, contribuiu para facilitar as coisas. Há anos que a sua política não passa da repetição exagerada de slogans, há anos que a figura da presidente se desligou totalmente dos problemas da nação e se perdeu em parangonas vazias e em causas sem efeito. Dir-se-á que Lula era mais ou menos a mesma coisa, o mesmo primitivismo, o mesmo parlapaté, etc. Mas Lula tinha muito para gastar e tinha um país cheio de nova vitalidade. Gastou quase tudo, não deixou mais que uns trocos, políticos e financeiros, à sua bem amada sucessora . O caminho para a construção do bode expiatório estava feito. A senhora só teve que o percorrer, eventualmente convencida de que não havia cheks and balances que a pudessem ameaçar. Se hoje os seus adversários não têm outro objectivo político que não seja apeá-la, ela também não tem outro senão o de se aguentar. O Brasil alinha, esquecido de si mesmo.
O sistema implode, todo ele, entre gritaria política e barulheira social, parecendo não haver quem tenha prestígio moral ou estatura política para o reformar de alto a baixo, que é do que o Brasil precisa. Se querem um sistema do tipo americano precisam de o copiar um bocadinho melhor, de alterar sistema eleitoral com a serena violência da razão, de depurar partidecos sem expressão ou de expressão meramente local, de proporcionar a formação de maiorias coerentes, de rever os equilíbrios de poder…
Mas isto está longe. Parece que por lá, como por cá, há vacas sagradas que podem mais que a razão ou os interesses gerais.
18.4.16

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