Ele há injustiças flagrantes.
Há dias, um ministro do chamado governo, sem préstimos que se vissem, levou a mal ter sido soezmente criticado por dois plumitivos da praça de Lisboa. Quem não se ofende não é filho de boa gente, diz, sábia, a voz do povo. Ofendido, o nosso homem, indubitavelmente filho de gente tida por boa, não se queixou à PGR, não deu entrevistas agrestes aos órgãos de informação, não exigiu, não conspirou – como faria o seu bem amado Pinto de Sousa – para que os ofensores fossem despedidos, para que os directores dos jornais que albergaram as ofensas fossem apeados, não arranjou tramóias para os comprar, nada. Coitado, limitou-se a, modesta e discretamente, consubstanciar o seu grito de alma numa pequena local inserta nas redes sociais, sítio onde tanta gente, sem razão alguma, tece acerca do semelhante as mais rascas aleivosias. No pequeno texto, pleno de justa indignação, limitava-se, certamente em sentido figurado, a dar parte da vontade que sentia em dar um par de bofetadas aos autores dos verrinosos comentários que a seu respeito publicaram.
Caiu o Carmo e a Trindade. A alcateia de críticos, com a bênção do seu amigo Costa, saltou-lhe às canelas, e de tal maneira o fez que o infeliz senhor teve que apear-se, ou ser apeado, do seu altar ministerial. Compreende-se que assim tenha sido. Mas deixa de se compreender se considerarmos o que segue.
Contrastando com esta triste história, temos uma outra, também protagonizada por um membro do chamado governo, com préstimos comparáveis aos do colega. Trata-se indivíduo que ninguém saberá como chegou a ministro da defesa, coisa até hoje reservada a figuras com peso político e provado conhecimento das matérias que o cargo envolve. Deu-se a conhecer por ter o costume de andar desargalado, por não ter um mínimo de pose, ou de gravitas, normalmente dignificadoras do exercício do cargo. Chegou ao ponto de manifestar a mais reles desconsideração pelos titulares da realização prática da Defesa, ao passar, sem gravata, revista a tropas impecavelmente fardadas para, militarmente, o saudar. Não contente com o alarde de estilo que isto representa, aproveitou a primeira oportunidade para vir à praça pública exibir-se, desconsiderando a cadeia de comando, fazendo exigências absurdas sobre um não caso elevado à importância pelos habituais lobis cuja caracterização não sujará este texto. Passou por cima de tudo o que havia a passar, alardeou para tal razões “constitucionais” e empolou o acontecido de forma absolutamente mentirosa, ao miserável serviço das exigências de um certo politicamente correcto.
Um general honrado demitiu-se, as pessoas de bem indignaram-se. Mas a criatura continua ministro, com o apoio do chamado primeiro-ministro e a enternecida bênção do Presidente da República. O que quer dizer que, institucionalmente, as Forças Armadas estão irreparavelmente reduzidas à não existência enquanto tal. O que quer também dizer que a atitude do homem, se comparada com as primárias bofetadas do colega, se reveste de uma gravidade correspondente a um ensaio de pancadaria na dignidade do Estado.
Simbólicas ameaças de bofetadas, em frente de real pancadaria institucional, são brincadeira de criança inconsciente. No entanto, umas provocam a queda do seu autor, outras são consagradas como legítimas ao mais alto nível.
Ao que chegámos!
14.1.16

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