IRRITADO

Um blogue de António Borges de Carvalho

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


  • NOTÍCIAS DO MANICÓMIO

    Desde segunda-feira em fuga por longes terras, em descanso das pátrias guerras.

    Ai de mim, caí hoje na asneira de, num computador emprestado, abrir a página do “Observador”. O produto está a cair, o desemprego a aumentar, a luta pela estatização de tudo e mais alguma coisa continua, triunfante e ruinosa. Adiante.

    Interessante a sério é a questão da alheira. Parece que, por unanimidade, os nossos ilustres representantes dedicam o seu precioso tempo a discutir o problema da alheira. Não percebi bem, certamente por falta de patriotismo. É que não se trata de fazer exigências quanto à qualidade do produto, a fim de nos proteger das alheiras aldrabadas que por aí andam a dar cabo do almoço de cada um. Seria, convenhamos, assunto de somenos, próprio de funcionários, indigno da alta apreciação parlamentar.

    O que se passa é que os representantes do povo querem proteger, subsidiar, isentar, propagandear a alheira, na sua qualidade de “bem cultural”, “civilizacional”, joia sem preço da gastronomia universal, etc. Este nobilíssimo objectivo é pasto de discussões e desacordos, sendo de presumir que a esquerda prefira uma alheira às riscas e a direita aos quadrados.

    Seja como for, os deputados que se divirtam.

    Já agora, acho que deviam constituir uma comissão para a protecção do chouriço mouro, e outras para a linguiça, o pastel de bacalhau, a cabeça de pescada e tantas e tão preciosas outras contribuições da Lusitânia para o progresso da humanidade.

    E porque não legislar no sentido de obrigar o governo a apresentar à ONU, devidamente instruída, a candidatura da alheira a património da humanidade, qual Taj Mahal da Beira Alta?

     

    13.5.16

  • DA EXISTÊNCIA DE SÓCRATES

    Diz-se por aí que José Pinto de Sousa, dito engenheiro Sócrates, foi à abertura do túnel do Marão para mostrar que “ainda existe”.

    Não precisava. Não só existe como está bem representado nas altas esferas do poder. Tem Costa na chefia do chamado governo, seu fiel colaborador de sempre e ex-número dois, homem que apeou o seu sucessor, Seguro, que não o tolerava, que repôs no galarim a sua gente (César, Ferro, Campos, Santos Silva…), que foi buscar o seu mais próximo colaborador e seguidor – seu quase alter ego – Silva Pereira, para escrever a moção do chefe ao congresso do partido. E por aí fora.

    O PS de Seguro foi varrido, os seus homens, esses sim, passaram a não existir, a andar por aí, ignorados, indignados mas tímidos, todos devidamente substituídos por gente de confiança, a gente do convidado do Marão.

    O PS de Sócrates existe, sim, e está no poder, correcto e aumentado. Sócrates também. A sua obra continua, de vitória em vitória, até à (nossa) derrota final.

     

    Aquilo no Marão foi só fumaça: cada um para seu lado mas as alminhas bem juntas. Como sempre.

     

    8.5.16

  • “OBRA SOCIAL”

    O que se pode concluir da arenga do chamado ministro da solidariedade, ou lá o que é, ontem no Parlamento, é… nada. Nem que ele faça o desenho que prometeu para “explicar” o que não faz a mínima ideia de como se explica. Ou, se faz, esconde.

    Em meia dúzia de palavras, o que está em causa é a decisão do chamado governo de pegar numa data de milhões de euros e de os aplicar na “reabilitação urbana”. Quantos milhões? 500, 1.400, 1.500? Ninguém saberá ao certo quantos: o que se sabe ao certo é que o chamado primeiro-ministro diz uma coisa e o do desenho diz outra, aliás prática habitual desta malta – olhem os tipos das finanças! – talvez por aplicação do princípio da “incerteza criadora”.

    A genialidade da medida está na fonte do dinheirinho: as reservas dos fundos de pensões da Segurança Social, isto é, uma forma original de “gestão” das contribuições das pessoas para reforma de cada um.

    Tal gestão não é coisa fácil. Onde pôr a massa a render de forma que se multiplique, que gere rendimentos, que contribua para a sustentabilidade do sistema? Pode admitir-se que haja fundos da SS aplicados no imobiliário, desde que tal aplicação tenha fortes sinais de produzir bons resultados com riscos diminutos, o que é o contrário do que propõem o chamado primeiro-ministro e o de desenho: reabilitação urbana para habitação social, com rendas administrativas.

    É sabido que a habitação social, pela sua própria natureza e independentemente da sua valia enquanto tal, nunca foi, não é, nem jamais será uma aplicação rentável para os capitais nela investidos. O chamado governo é que não percebe isto, nem com cinquenta desenhos. Como não percebe nada de nada, para além de vacuidades e demagogias.

    Sejamos justos: é capaz de haver aqui uma certa esperteza. É que, para haver reabilitação é preciso que haja casas para reabilitar, como diria o amigo banana. As casas que há, na sua maioria, não são do Estado, são de particulares. Por isso, disse o tipo do desenho, o capital a investir é muito mais que os 500, ou 1.000, ou lá o que é. Junta-se-lhe o real estate, que é dos particulares. Ou seja, mais uma vez o Estado “gere” o que não é seu, adianta dinheiro (que será a restituir) ao mesmo tempo que priva os particulares do rendimento, reduzido este a “rendas sociais” que, como diz a prática e a praxe pública, se não forem pagas não privam ninguém da casinha, privam é os verdadeiros investidores daquilo que é seu.

    Postas as coisas de outra maneira, o Estado socialista prepara-se para mais uma operação de esbulho, a que chama “obra social”. Com as consequências sociais, económicas e financeiras que não é preciso ser bruxo, nem muito esperto, para imaginar.

     

    6.5.16     

  • APELO AO BOM SENSO

    Senhor Presidente

    Acabo de o ver um senhor de sessenta e tal anos aos pulinhos, desajeitado e ridículo, no meio de inúmeras e gozosas criancinhas. Não queria acreditar em tão patética cena. Depois, realizei que o pobre senhor era nem mais nem menos que o Presidente da III República Portuguesa, ou seja, Vossa Excelência.

    Devo dizer-lhe, senhor Presidente, que tive mais pena que vergonha.

    Mas há pior. Vossa Excelência lançou entre nós, antes da sua viagem a Moçambique, a ideia de que ia até lá num papel de mediador entre as partes que por lá se guerreiam. Visitou, em Roma, a Comunidade de Santo Egídio, que tem experiência na matéria, servindo-se da visita para vestir as mediadoras vestes. Finalmente, chegado a Maputo, bem se fez a tal piso. Levou com os pés, diplomaticamente ou não tanto. Os seus tão proclamados amigos moçambicanos, em bom português, disseram-lhe claramente que não queriam que se metesse onde não era chamado. Um tristíssimo flop.

    Há mais. Decidiu Vossa Excelência entrar na polémica do acordo ortográfico. Não o critico pela intenção, mas, que diabo, devia ter-se precavido. Não precisava para nada de receber lições do tenebroso Santos Silva, o chamado ministro dos negócios estrangeiros. Mal Vossa Excelência tinha declarado a sua intenção e já aquele trauliteiro profissional lhe dava com os pés, em conferência de imprensa quem sabe se convocada exactamente para isso.

    Muito tem Vossa Excelência sido criticado nestas páginas. Com o desgosto de um eleitor que confiou em alguma independência da sua parte e que o tem visto totalmente alinhado com o chamado governo, a papaguear por palavras suas as que o chamado primeiro ministro vai dizendo. Não estaria certo que criticasse ou fizesse a “vida negra” ao chamado governo. Nenhum dos seus eleitores lho pedriria. Mas, da mesma forma, nenhum dos seus não eleitores imaginaria possível que chegasse ao ponto de seguidismo a que se tem dedicado.

    Senhor Presidente, permito-me chamar a sua atenção para a necessidade de refrear a sua mal informada ou mal pensada ânsia de popularidade. Há limites para tudo. Há poças onde não de deve pôr o pé. O bom senso não fica mal a ninguém.

    Pense nisto. Olhe que os dois exemplos que acima refiro são paradigmáticos. Por quem é, preserve-se um bocadinho mais. Nem o senhor nem nenhum português perderá nada com isso.

       

    Melhores cumprimentos

    IRRITADO

     

    5.5.16

  • OTIPO QUE ANDA AOS PAPÉIS

    Segundo o próprio afirmou, é seu hábito, em manifestações e comícios, andar a apanhar papéis, cartazes, tichartes e outros produtos deixados no chão pela maralha. Sinal claro, diga-se, da utilidade social e política desse monstro intelectual chamado Pacheco Pereira. O heróico navegante das mais chilras água da política, nacional e não só, foi chamado pela televisão pública para apresentar os seus preciosos arquivos de autocolantes, pins, panfletos, “pichagens”, boinas do Che e outros produtos populares, coisas de que, diz, tem armários e armários cheios lá em casa. Parece que publicou uns livrinos dedicados a tais e tão interessantes conteúdos. Propõe a sua exegese, condição indispensável para quem quiser fazer “história”. E precisa vender os livrinhos, como é natural. A preciosa e prestimosa RTP está, como é de timbre, atenta às necessidades do fulano

    Compreenda-se. O absurdo estatal chamado RTP acha-se o lugar ideal para oferecer um bom quarto de hora em horário nobre ao marquetingue do Pacheco. Até aí, tudo benzinho: trata-se de obra social destinada a dar-lhe algum a ganhar. Antes isto que a técnica de vendas do livro do Pinto de Sousa, mais eficaz mas só para milionários.

    Nada benzinho é que, feita, pro bono, a propaganda das pachecais edições, se tenha passado a um interminável comício político em que o vendedor de papéis velhos teve oportunidade de espraiar as suas conhecidas opiniões, os seus odiozionhos serrubecos, as suas vingançazinhas de carroceiro intelectual.

    Tal como o IRRITADO, a seu tempo, teve ocasião de dizer, não é por acaso que a RTP deu guarida a uns “independentes”, entre os quais a dona Ana Lourenço, figura grada e inconfessa da central de publicidade da geringonça.

     

    A tradição, interrompida durante os anos do governo anterior, foi repescada: a TV pública é a TV do governo, e o resto é conversa.

     

    4.5.16

  • FISCALIDADE DE ESTALO

    Em conferência de imprensa convocada para o efeito, o grande apoiante das ideias vernáculas da Bloca, dito ministro Cabrita (em linguagem bloquista leia-se Cabrito) informou os súbditos da seguinte estonteante medida:

    “ O (chamado) governo celebrou um acordo de harmonização fiscal com São Tomé e Príncipe, o Barain e o Vietnam”.

    Consta que está em organização uma manifestação de agradecimento e apoio ao chamado governo por esta tão importante e corajosa medida, própria gente tão nobre e séria quanto o Cabrita.

     

    2.5.16

  • MENTIRAS OFICIAIS

    Com magna publicidade, o chamado ministro da defesa anunciou, feroz, que vai ser feita uma inspecção ao Colégio Militar em que será dada particular atenção ao horrível caso dos deficientes sexuais.

    Numa pequena local, algum proto-fascista fez saber que tal inspecção (sem particular atenção a coisíssima nenhuma) foi agendada, com muitas outras, pelo General Inspector Geral do Exército (hoje CEME) há para aí seis meses.

    Donde se conclui que o que o chamado ministro disse era, como de costume, propagandística aldrabice.

     

    2.5.16

  • O MINISTRO E O SEU AVATAR

     

    Sua Excelência Mário Nogueira, Ministro da Educação, antigo catedrático de trabalhos manuais nomeado para o governo pela CGTP à ordem do comité central, está muito contente com aquele rapazola de negra barba, seu avatar oficial, bem como com a funcionária que, na imagética oficial, substitui, com respeito pelas quotas sexuais, a Secretária de Estado apontada pela Bloca.

    A prová-lo, a gravação* a seguir transcrita de um dos últimos diálogos travados entre Sua Excelência e o rapazola:

    – Olá filho, bom dia!

    – Como está Vossa Excelência?

    – Bem, como sempre, aqui no meu gabinete da FENPROF, a olhar o Tejo, coisa deslumbrante…

    – Em que posso ser útil a Vossa Excelência?

    – Estava a pensar em alterar essa coisa dos exames… estás fazer muitas concessões… é preciso mais coerência!

    – Sabe Vossa Excelência a contestação que tem havido.

    – Isso é bom. Dá-lhes mais na touca. Já disseste lá na assembleia que quem manda és tu (em meu nome, claro), e fizeste muito bem. Agora, tens que continuar.

    – Anda para aí uma confusão dos diabos.

    – Aumenta-a! É para isso que aí estás. Tira os exames do 4º, passa para o 7º, ou para o nono, ou tudo ao contrário, não interessa, o que é preciso é que os tipos saibam quem manda e se habituem, tás a perceber?

    – Com certeza, senhor Ministro, com certeza.

    – Nessa dos colégios particulares, meu rapaz, estás a ser manso. A ordem é acabar com eles, com todos, o objectivo é estatizar a educação sem ficar nada de fora, percebes? Será que, como andaste lá pelas Ilhas Britânicas, ainda sofres de influências capitalistas?

    – Dizem que há escolas particulares com qualidade e que as pessoas em muitos casos as preferem.

    – Pois é por essas que deves começar! Quanto melhores mais merecem a morte, uma vez que podem contribuir para o descrédito do Estado, e nós somos o Estado, ou para lá caminhamos.

    – Bem, se Vossa Excelência acha…

    – Evidentemente. E tu, ou achas também, ou deixas de achar seja o que for, estás a perceber?

    – Vossa Excelência desculpe, mas não foi minha intenção…

    – Vê se metes isto na cabeça: nos colégios privados, os professores não são funcionários públicos. Podem ser avaliados e até ser despedidos quando não prestam. O mesmo se passa com as mulheres da limpeza, os contínuos, etecetera. Não vês isso? Não vês o que isso ofende a universalidade estatal, o que isso prejudica a unicidade da oferta educativa que, como tudo o resto na vida, tem que funcionar na órbita do Estado, tem que obedecer à CGTP, tem que estar enquadrado pela minha autoridade, pela do Arménio, do Jerónimo, do Comité? Não vês isso?

    – Senhor Ministro, desculpe, mas o governo é do PS…

    – Ai ai ai! Isso são formalismos fascizantes. O PS é um veículo, um cavalo que montamos para estender as nossas normas, afim de demonstrar ao povo que o melhor é entrar nos salutares mecanismos do centralismo democrático. Eles no PS até gostam de ser montados… vê como aplaudem as nossas reuniões.

    – Com certeza, senhor Ministro.  

    – Oficialmente, passamos a reunir todos os trimestres, a fim de que toda a gente perceba quem manda mesmo. Não impede que estejas a todo o momento pronto para receber as minhas instruções.

    – Com certeza, senhor Ministro.

    – Estás contente? Olha que não é todos os dias que um chamado ministro é tratado por Ministro… com ordenadinho, carrinho, motoristazinho e tudo. Porreiro, não é?

    – Sim senhor Ministro.

    – Pronto, por hoje á tudo. Se te portares mal, faço três manifs, quatro greves, oito manifestos… e o Costa põe-te na rua. O problema é teu. Adeus.

    – Adeus senhor… pling!

     

    2.5.16

     

    *Gravação efectuada por uma mosca tecnológica às ordens do IRRITADO.

  • A GERINGONÇA FUNCIONA!

    Quase histérico de alegria, o chamado primeiro-ministro anunciou urbi et orbe que a geringonça funciona. Gaudeamus!

    E não são só os votos do PC e da Bloca, unidinhos ao PS, a aprovar, com pés e mãos, o PE que tinham previamente chumbado.

    Há outras coisinhas a demonstrar o magnífico funcionamento da coisa.

    Ora vejam o que é a geringonça a funcionar:

    – O investimento privado está a zero;

    – O investimento público não existe;

    – A confiança das famílias desceu, e não foi pouco;

    – Dos dinheiros do Portugal 20/20, nem um cêntimo;

    – O emprego, em três meses, perdeu 20.000 postos de trabalho (tinha ganho 50.000 no último ano);

    – A economia regista perdas, aliás reconhecidas pela própria geringonça, que já não sabe o que há-de fazer às suas “previsões”;

    – As exportações estão a cair sem detença;

    – O abastecemento público está em risco, apesar do magnífico acordo a que a chamada ministra do mar chegou com os estivadores, pondo-se às ordens deles, tipo Maduro;

    Isto consta das contas do INE. Mas há outras contas, internas e externas a dizer o mesmo. E há o Finantial Times e o Bloomberg, para citar só duas fontes das muitas inquietas sobre o que por cá se passa.

     

    Aqui temos o que é a geringonça a funcionar, com os elogios dos seus “mecânicos” e a esfusiante alegria do Senhor Presidente da República.

     

    1.5.16

  • CONSENSOS

    Foi com inesperada surpreza que ouvi Sua Excelência o Presidente da República que temos dizer que há inúmeros consensos políticos em Portugal, consensos que “não precisam de assinaturas em papéis”. O pior é que, quando quis enumerá-los, bateu na rocha. Quais consensos? “Na política externa, na defesa” e… embatucou. Nem ele sabe que outros consensos haverá. Porque não há mais consensos nenhuns, zero com o PS e, com os outros geringonços, nem os que o PR rebuscou.

    Calculo as gargalhadas de Cavaco Silva.

     

    1.5.16

  • DA HONRADEZ DO CHAMADO GOVERNO

    Nota prévia:

    Pelo que tenho ouvido, parece que há quem não tenha percebido o que escrevi acerca do caso Uber/Táxis.

    Esclareço: não sou, em princípio, inimigo da desregulamentação do transporte de passageiros. O que sou é contra haver uns regulamentados outros não.

     

    Posto isto, algo mais grave se levanta.

    O chamado governo declarou que a Uber é ilegal. Os Tribunais sentenciaram o mesmo. Depois… nada aconteceu. O chamado governo não só não acabou com a app, contradizendo-se a si próprio, como entrou em “concertação” com os seus promotores. Palavra dada palavra desonrada. Não cumpre o que afirmou, nem a sentença judicial que o obrigaria a ser sério. Depois, chama a “isto” Estado de Direito! Já é hábito.

    Outro caso, ainda mais grave:

    Os membros e apaniguados do chamado governo ficaram, a seu tempo, contentíssimos com os acórdãos do Tribunal Constitucional tendentes a arruinar as políticas do governo anterior. Este, honradamente, acatou os acórdãos e alterou em conformidade o que havia a alterar.

    Ora o primeiro acórdão do TC deste ano, salvo erro o nº 1/2016, impunha que o Estado pagasse umas massas a quem, constitucionalmente, tinha direito a elas. A CGA, tendo o encargo de pagar o devido, começou por proceder de acordo com isso, e informou os beneficiários, por escrito, que pagaria em Março. Não pagou, nem em Março nem em Abril. Perguntada porquê ao balcão, os respectivos funcionários (vários) respondem que “o governo deu ordens para não pagar”, não se sabendo se pagará, nem quando nem como.

    Quer dizer: esta gente, tão pronta a exigir dos outros o cumprimento da legalidade, e da legalidade constitucional por maioria de razão, não cumpre, nem a lei ordinária, nem a constitucional. Não aceita cumprir sentenças, nem dos tribunais comuns, nem do Constitucional.

     

    À atenção de quem ainda acha que esta gente tem alguma coisa de honrado.

     

    30.4.16

  • OS VOOS DO DINHEIRINHO

    Causando largo afã mediático, o Banco de Portugal divulgou que, na sequência do socialismo tarado, ou socrélfio, hoje de novo em moda, os portugueses puseram a milhas quase cinco mil milhões de euros. Depois, nos anos da troica, foram mais moderados: mais ou menos metade daquilo em quatro anos.

    Dos cerca de dez mil milhões que partiram, menos de quatro centenas de milhar são de particulares, o restante é de empresas, parece que algumas do Estado.

    Todas estas transferências foram feitas com autorização e registo do BdP, e dentro da legalidade vigente na Europa, ou seja, da livre circulação de capitais.

    Longe de mim achar bem, ou mal. Só caso a caso seria possível julgar, o que não é coisa que interesse aos críticos em acção: o que lhes interessa é o barulho e a condenação popular mal informada e fácil.

    Onde está o crime? Em parte alguma que não seja a percepção pública da coisa, largamente exponenciada pelas charamelas da “informação” e pelas bocas da Bloca de Esquerda, adjacentes e apaniguados, o que não integra o conceito de crime mas funciona como se integrasse.

    Quem não gosta, que ponha em causa a livre circulação de capitais vigente na UE e a universal existência de offshores. Estará no seu pleno direito. Mas o que disto passe é conversa politiqueira, ordinária e pidesca.

    Outra coisa será saber se os exportadores do dinheirinho tiveram dele dividendos. Se os declararam ao fisco e pagaram o devido, acabou a história. Se não declararam, então que sejam perseguidos. A história acabará, dolorosamente para eles, mais tarde. Mas acabará na mesma.

    Outra história, essa mal conhecida como é natural, será a dos que ficaram de fora, os que puseram o taco a voar sem dar satisfações e por meios fraudulentos. Esses onde estão? Parece que há por aí umas investigações. Que proliferem e cheguem a bom termo.

     

    Vir insinuar acusações contra quem cumpriu a lei é que não cola, ou não devia colar. Ainda menos com a colaboração do BdP.

     

    29.4.16

  • INADEQUAÇÃO

    Confesso a minha visceral inadequação a inúmeros aspectos da vida moderna. Passo bem sem apps, tenho um ódio gigantesco a call centers, quando me falam em “atendimento personalizado” já sei que é o contrário e fujo, não acredito na antropogénese do “cientificamente” indiscutível aquecimento global, abomino jogos electrónicos, acho que o Jackson e o Prince eram seres repelentes, desprezo revistas cor de rosa, e assim por diante. In short, este mundo já não me diz grande coisa, estou bom para morrer, prouvera que sem chatices de maior.

    Vem este arrazoado – que, ao contrário do que possam pensar, não tem nada de triste – a propósito, calcule-se, da manifestação de hoje, os taxistas contra uma coisa que anda por aí, chamada Uber. Esclareço que me é indiferente que haja ou não haja Uber a funcionar. É claro que, numa cidade como Lisboa, talvez a capital europeia onde é mais fácil apanhar um taxi, a Uber faz tanta falta como uma viola num enterro. Que exista, se há quem goste. O que não me é indiferente é que o Estado, depois de declarar a coisa totalmente ilegal, não mexa uma palha para dar cabo dela e ponha polícias a perseguir quem se lhe opõe.

    Um alvará de taxi custa uma fortuna, é mais barato e mais fácil comprar um Mercedes que pô-lo na praça. O número de taxis é limitado. Os impostos sobre os taxis são violentos, como sobre a generalidade de tudo o que mexe e não mexe. Os motoristas têm que ser habilitados com uma carta especial. Regras macacas, tarifas reguladas por maquinetas e mais não sei quantas obrigações, regulamentos, portarias e outras fantasias, e até têm que pintar os carros com cores obrigatórias.

    Nada disto se aplica aos carros da Uber. Nada. Não há limites, pode haver cem, mil ou dez mil, de qualquer cor e tamanho, os motoristas têm as mesmas habilitações que eu, as tarifas são o que se combinar. Os polícias mais depressa prendem um vendedor de castanhas assadas que não pagou a licença da Câmara, que um Uber que nunca pagou nada a ninguém.

    Das duas uma. Ou o Estado acaba com a regulação dos taxis e cada um passa a poder transportar cada qual quando, onde, como e pelo preço que lhe apetecer sem pagar nada ao Estado, à Câmara, seja a quem for, e sem nenhuma regra específica, isto é, totalmente à balda (confesso que a ideia, no fundo, não me desagrada), ou a macacagem da Uber é sujeita aos mesmos ditames, custos e demais gentilezas e limitações administrativas que os taxis. Bastaria aplicar-lhe a regra do alvará dos táxis, com numerus clausus, para acabar com a rebaldaria e a “evasão fiscal”.

    Fica a pergunta: porque é que as “autoridades” em geral e o governo em particular têm, em relação à Uber, a postura doce que não têm para o vendedor de castanhas ou as cadeiras das esplanadas? Porque é que, andando para aí a fazer uma propaganda cretina contra os automóveis, protegem, por omissão, a proliferação de “uberes”? Porque é que rodeiam toda e qualquer actividade de inexpugnáveis florestas de taxas e regulamentos, e fecham os olhos às actividades da Uber?

    Fica a resposta: porque a Uber é tecnológica, inovadora, adequada, está na moda, sinal de modernidade. É a resposta própria da República das Bananas, com constituição e tudo.

     

    29.4.16

  • CHERNOBYL

    Parece que há trinta anos rebentou a central nuclear da URSS implantada em Chernobyl, Ucrânia. Ainda hoje há quem sofra as consequências do atraso científico e tecnológico do comunismo soviético, do desprezo soviético pela segurança dos seus próprios escravos, do estado da abandono de uma instalação a que se ficou a dever o desastre.

    E por cá? Alguém se lembrou de ir buscar aos arquivos as reacções dos nossos políticos? Nem pensar! Acho que valia a pena. Lembro, por exemplo, que o Cônsul de Portugal em Kiev recomendou a retirada da zona dos estudantes portugueses que por lá andavam. E lembro mais: o camarada Álvaro Cunhal, chegado de Kiev, condenou violentamente a atitude do Cônsul (certamente um fascista!) que estava a fazer uma tempestade num copo de água, uma vez que tudo não passava de simples avaria técnica que as autoridades já tinham dominado.

    Há mais quem se lembre. Mas não convém mostrar. Eles até estão no governo, e não são para brincadeiras!    

     

    27.4.16

  • SUGESTÃO

    Marcelo Rebelo de Sousa, na sua qualidade de PR, afirmou: “ouvi dos partidos uma posição muito construtiva”. Isto, acerca do tão badalado PE. Previamente à audição dos partidos, tinha Sua Excelência feito, com seu altíssimo critério, uma selecção, a qual deixou de fora o PSD e o CDS. Estes não era preciso ouvir, pois já tinham passado por Belém para “apresentar cumprimentos”.

    Apraz-me contribuir para a clarificação das palavras de Sua Excelência, que deveriam ser como segue: “ouvi dos partidos que apoiam o governo uma posição muito construtiva; dos outros nada ouvi, porque não os quis ouvir”.

    Aqui fica a sugestão, para o caso de a Presidência querer esclarecer a opinião pública.

     

    27.4.16

  • SERVIÇO PÚBLICO, SERVIÇO PRIVADO

    A RTP3, que até começou bem, está já nas mãos de “quem sabe”. O programa de debate “O outro lado” presenteia a canalha com três opinantes: um socialista desvairado (Adão da Silva), um esquerdista feroz (não-sei-quantos Tavares) e um rapazito meio contestatário do PPD, que não é parvo mas está perturbado pela ambição.

    Um pluralismo equilibrado, como é de ver, certamente do agrado da Presidência.

    Fora do “serviço público”, por exemplo na TVI, temos, em matéria de pluralismo, mais ou menos a mesma receita. Um programa – não me lembro do nome – presidido pela espernéfica senhora Constança e Sá, oferece-nos as abalisadas opiniões de um velho da Bloca de Esquerda, do alter ego do Pinto de Sousa (o abominável Silva Pereira) e, na mais triste solidão, o Rangel do PSD.

    Tudo nos conformes e, excusado será dizer, com silencioso aplauso do homem do costume.

     

    27.4.16

  • CORONÉIS DE ABRIL E OUTROS DEMOCRATAS

    Com a retoma da sua presença na AR, os antigos capitães vieram, imponentes e convencidos, proclamar a sua noção de democracia constitucional, isto é que a democracia ou é de esquerda ou não é democracia. Se gerar governos não de esquerda, quer dizer, que lhes não de agradem, não é democracia. Só há povo soberano, ou parlamento que tal nome mereça, se escolher ou gerar governos de esquerda. Um exemplo para nós e para o mundo, não é? Não é, mas devia ser. O exemplo de que, se ainda houvesse por cá democracia digna desse nome, este núcleo de coronéis de aviário jamais seria convidado para uma cerimónia dita para comemorar a democracia. Quem se exclui uma vez, devia ser excluído de todas.

    Já agora, uma homenagem a Salgueiro Maia. É que, consumadas as coisas, voltou ao quartel.

    E os outros? Quantos destes senhores ganharam os galões a trabalhar? Em que unidades militares prestaram serviço depois do 25? Aqui está uma estatística que os chamados “jornalistas” devem à Nação.

    As noções democráticas desta malta foram, aliás, bem expressas e sublinhadas por essoutra grande figura do actual poder, um tal César, um tipo dos Açores. Afirmou ele, qual Vasco Gonçalves ou qual Silva Pais, que quem não está com o governo está contra o país: assim, dito e escrito. “A oposição ao PS é oposição ao país”. Quem não for amigo da geringonça é traidor à Pátria.

    E ainda há quem estranhe que uma senhora tenha dito que esta gente cheira ao pior do salazarismo!

    Eis o regresso do Tarrafal sob novas vestes!

     

    26.4.16

  • O CARRINHO DOS MORANGOS

    Os nossos corações ficaram lacrimejantes de ternura ao ver o nosso Presidente colher morangos, exprimindo, pleno de amor ao próximo, a sua surpresa por ver o carrinho onde os punha virar à esquerda, quer se queira quer não.

    Não fora, na véspera, ter o mesmo senhor incitado uma criancinha a escrever com a esquerda, que é, dizia, o mais natural quando se tem a direita por baixo, e ficaríamos com dúvidas quanto ao verdadeiro significado do tão popular e afectuoso caso do carrinho dos morangos.

    Perito na condução de carrinhos que viram à esquerda e na produção de conselhos às criancinhas, o nosso bem amado chefe vai fazendo o seu caminho de indiscutível independência e benéfica influência popular.

    Amanhã, dia da Liberdade, vê-lo-emos mostrar, uma vez mais e em várias ocasiões e lugares, o caminho certo que escolheu para a Pátria, pleno de institucional equidistância.

    O exemplo dos morangos frutificará!

    Bem haja!

     

    24.4.16

  • 25 DE ABRIL

    Já que vem aí o 25, vamos a ele. Amanhã é domingo, 2ªfeira é feriado, o IRRITADO vai a banhos. Fica um testemunho adiantado, ou não comemorativo.

    Não irei ao ponto de dizer que o 25 foi como o terramoto de Lisboa, já que, se não fosse o terramoto, a cidade não tinha conhecido a modernidade da baixa pombalina. Seria demais. Seria até injusto. Mas que há semelhanças, há.

    O 25 e os dias seguintes foram porreiros. Até fui, e não estou arrependido, à manifestação do 1º de Maio. Mas o que se lhe seguiu não teve nada de positivo, bem pelo contrário, e ainda hoje, de que maneira, lhe sofremos as consequências.

    As forças “libertadoras” do 25 (o MFA) eram maioritariamente constituídas por ignaros aspirantes ao mais primário dos bolchevismos e a uma ditadura que, enquanto tal, faria do Salazar um menino do coro.

    Por isso que seja pelo menos abusivo dizer que o 25.4 foi a data fundadora da democracia da III República. Tal democracia foi ganha (depois de “devidamente” entregues os territórios ultramarinos a ditaduras bolchevistas) mais de um ano depois, com o país à beira de uma guerra civil, em 25.11.75. E só viria a poder considerar-se minimamente “normal” depois de revista a Constituição em 1982, data em que ficou amputada de uma importante parte do marxismo castrense que a infectava, e não castrense, que ainda infecta.

    A história é o que é, quer dizer, é o que fizerem dela os historiadores oficias e/ou os da moda. É por isso, por exemplo, que o Colombo é louvado como descobridor da América. Não vale a pena lutar contra o que está estabelecido “histórica” ou “cientificamente”.

    É aguentar e não bufar. Be happy.

    Comemorem o 25. Non e vero, nem bene trovato, mas é o que há.

     

    23.4.16

  • FLOP

    Para que serve, afinal, a fabulosa investigação jornalística sobre os documentos roubados à Mossak Fonseca?

    Para encontrar negócios offshore do senhor Salgado e do seu BES? Toda a gente sabia disso (houve até, há anos, aquela anedota que dizia que a Catarina Salgado, mulher do Pinto da Costa, era filha do Ricardo Salgado e de uma offshore…): as autoridades judiciais andam há anos em cima do assunto. Para saber que o amigo do Pinto de Sousa e seus apaniguados usaram ou usam contas daquelas? Mais uma vez, não há quem não saiba, é chover no molhado. E por aí fora.

    Onde estão os anunciados cartéis da droga, acoitados em ilhas e paraísos? Não estão lá, ou são gente do melhor? E os financiadores do terrorismo, tudo malta fixe, não usam a coisa? Os vendedores de armas ilegais, os compradores do petróleo ao Daesch, os traficantes de virgens, não constam? Não há disso?

    O que há é perseguiçãozinha, invejazinha, fabricação de manchetes… nada que, a não ser pela rama, vá recuperar impostos, destapar crimes, punir burlas, trazer algum bem à humanidade, ao Estado, à transparência ou mesmo a “valores” da moda. Por esmagadora maioria, os “apanhados”, ou não passam de malandrecos, ou “valem” peanuts, ou não fizeram nada de ilegal. É vê-los aí, nas primeiras páginas, enlameados pelo que está a dar mas, aposto, sem ponta por onde se lhes pegue ou valha a pena pegar.

    O que se passa afinal, se atendermos a dois ou três princípios que se julgaria importantes para a vida em sociedade? Passa-se que bandos de hackers, de assaltantes, de violadores de correspondência, de intrusos sem mandato, entram onde não deviam, apossam-se o que não é deles e, depois, apresentam-se ao respeitável público como santos saneadores da vida das nações. Nem sequer usam os materiais de que se apossaram para apresentar casos duvidosos às autoridades dos respectivos países. A utilidade é a simples denúncia de nomes, suspeitos ou não seja do que for, mas que, por obra e graça desta “investigação” movida pela “justiça informativa”, milhares de pessoas, com culpas ou sem elas, são tornadas suspeitas… de quê? Porque não vão mais fundo, antes de encher primeiras páginas com nomes, sem cuidar de saber se têm, no cartório, seja que culpa for? Faz lembrar os “arquivos Mitrokin”, grande malha do “Expresso”. Salvo meia dúzia de excepções, outra coisa não aconteceu senão salvar a face a dúzias de espiões soviéticos de alto coturno, misturados que foram com gente cuja culpa era a de fazer parte de listas maradas do KGB que tão só significavam que os burocratas de tal e tão distinta organização se entretinham, nos cafés de Lisboa, a brincar com nomes quando não tinham mais nada que fazer.   

     

    Ainda vai passar muita água por baixo das pontes até que esta mina informativa se esgote. Um ou outro tipo vai ter umas chatices mais graves ou mais caras do que as causadas pelas parangonas, os que já estavam a ser investigados continuarão a sê-lo, haverá mais uns, quase todos para arquivar, e a coisa acabará por ter parido um rato.

    Está certo: o que interessa aos promotores do ciclone é explorar o filão até que o público se canse. Quando a matéria deixar de vender, outra se arranjará.

    O pior é que, entretanto, caiu por terra uma série de valores que sustentavam as democracias ocidentais. Talvez seja o dealbar de nova civilização: a dos bufos, dos polícias privados e da “justiça” popular.

     

    Um flop, mas um flop perigoso.

     

     

    23.4.16