IRRITADO

Um blogue de António Borges de Carvalho

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


  • VIRIAMU

    O IRRITADO nunca leu um livro da autoria do senhor José Rodrigues dos Santos.

     

    Porquê?

    Há que confessá-lo. O IRRITADO amarinha pelas paredes, todo encaracolado, quando o homem lhe pisca o olho ou lhe diz “especialmente para si” com aquela carinha de parvo que Deus lhe deu. O IRRITADO tem do homem a ideia de um serventuário do senhor Pinto da Sousa. O IRRITADO acha pornográfico que o homem se tenha demitido e tenha ficado no emprego, com as mesmas regalias que tinha antes de se demitir.

    Portanto, o IRRITADO, em várias versões, tem contra o homem um parti-pris dos diabos.

     

    Feita a confissão, há que dizer que não está em causa a qualidade literária do que o homem escreve, sobre a qual o IRRITADO se não pronuncia por desconhecimento de causa. Os livros que já publicou, com grandíssima propaganda e assinalável sucesso, dão, pelos títulos e parangonas da publicidade, ideia de que se trata de um storyteller à maneira anglo-saxónica, num tipo de literatura muito vendida mas de fraca “substância”. O que não quer dizer que o IRRITADO a não leia, às vezes com prazer.

     

    Parece que o livro que agora nos entra pela porta dentro quer queiramos quer não, descreve uma espécie de “memórias” de Moçambique e da respectiva guerra contra Portugal. Quanto à guerra, deve tratar-se de coisa de ouvir falar, uma vez que, nascido em 1964, não é provável que o escritor se lembre dela nem um bocadinho que valha a pena. O que o impedirá, nem seja a quem for, de escrever sobre ela.

    Segundo os panegíricos lidos e ouvidos pelo IRRITADO, parece que a mais importante “mensagem” sobre a guerra transmitida pelo escrito é a da condenação do acontecido em Viriamu, no Norte de Moçambique.

    O IRRITADO conhece várias versões desta história, das que dizem ter havido um horrível massacre, com homens, mulheres e crianças barbaramente assassinados sem que mal algum tivessem feito, às que alegam não ter havido massacre de espécie nenhuma, apenas uma intervenção militar de rotina contra o inimigo, dentro do admissível e legal num teatro de operações daquele tipo.

     

    Demos de barato que houve um massacre.

    O que choca, e já choca há muitos anos, é a insistência no assunto, como se pouco mais tivesse havido digno de nota em 13 anos de guerra. Choca que um só massacre em 13 anos e três frentes, seja testemunho da crueldade das nossas tropas em vez de sinal claro de comportamento exemplar e digno.

    Para quem, como o autor do IRRITADO, tem no bucho 27 meses de Norte de Angola, na chamada ZIN (Zona de Intervenção Norte), muito haveria que contar sem nada ter a ver com massacres e desgraças afins.

    O autor do IRRITADO viu morrer alguns militares, não viu nenhum inimigo morto, e testemunha de palavra de honra a extraordinária obra de assistência social, humanitária e cultural das nossas tropas em terras tidas por hostis, a sua relação, talvez primitiva, ou “portuguesa”, com as mais inóspitas comunidades, relação muito mais traduzida em empatia e amizade que em tiros e batalhas, que também houve.

    O que choca é a tendência fadistóide dos portugueses para se auto-flagelar, ainda por cima cheios de razões para fazer o contrário.   

     

    Não sei, nem vou saber, se o livro do piscador-de-olho-da-televisão, é um testemunho deste escarafunchar nas feridas ou não.

    Mas é essa a sensação com que se fica ao ler a publicidade.

     

    25.10.10

     

    António Borges de Carvalho

  • ATRÁS DO GANA

     

    Mais um alto serviço ficamos a dever ao senhor Pinto de Sousa, tão eficazmente preocupado com o nosso prestígio internacional: passámos do 8º para o 40º lugar na classificação de uma agência qualquer, no que diz respeito à “liberdade de expressão”.

    Assim:

    2007, 8º;

    2008, 16º;

    2009, 30º;

    2010, 40º.

    Estamos honrosamente atrás da Namíbia, de Cabo Verde, do Gana, etc.

     

    Seja qual for o valor desta classificação, a tendência é clara no que se refere à consideração internacional que o senhor Pinto de Sousa provocou e merece. O pior é que não é só ele que a merece, somos todos nós.

    Por mais que o senhor deputado do BE, por exemplo, se esprema a dizer que, no caso PT/TVI, o senhor Pinto de Sousa fez o espantoso passe mágico de dizer o contrário da verdade sem mentir, quem vê estas coisas percebe o que o senhor deputado não quis perceber.

    Por mais que o senhor Pinto de Sousa goze da protecção de juízes, procuradores, jornais, maçonarias e tutti quanti, só o “portuga” ignaro parece não ver a verdade, ou fingir que não vê.

    Por mais que se grite que esta gente não manipula, nem aldraba, nem torce a verdade, nem anda a enganar este mundo e o outro, a verdade, para nossa vergonha, salta aos olhos do mundo inteiro.

     

    Vergonha?

    Vergonha sim, porque não somos capazes de pôr fim à ditadura “democrática” que nos esmaga.

    Porque não somos capazes, a começar pelo Presidente da República, de pôr na rua o mais inacreditável primeiro-ministro da nossa história.

    Porque ainda há quem “negoceie” com ele.

    Porque o nosso futuro é cada vez mais negro e não nos livramos do primeiro responsável por tal negrura, liberdade de expressão incluída.

     

    25.10.10

     

    António Borges de Carvalho

  • PRODUTIVIDADE

    É incontroverso que o senhor Fernando Pinto, vindo do Ultramar para salvar a TAP, conseguiu inegáveis progressos na situação do gigante estatal.

    Publicadas algumas estatísticas, verifica-se que as vendas quase duplicaram, que os prejuízos baixaram significativamente, que a dívida não cresceu tanto como era costume, que o património em aviões mais que duplicou, etc.

     

    Aqui há uns anos, uma publicação da especialidade punha o dedo numa ferida que é habitual em tudo o que é público em Portugal: todos os rácios referentes ao número de empregados estavam no fim de todas as tabelas, entre os países ocidentais. Funcionários por avião, por passageiro, por milha, por serviços prestados…

    A conclusão era que, uma vez comparada com as suas congéneres, a TAP empregava mais ou menos o dobro do pessoal de que precisaria para operar o que operava. Um sinal evidente dos índices de produtividade da empresa, comuns à generalidade da economia mas dificilmente compreensíveis numa empresa cujos meios de produção são, em geral, tecnologicamente modernos e eficientes.

     

    O mesmo handicap parece evidente nos números agora publicados. É que, para melhorar o que melhorou, a TAP aumentou os seus quadros de pessoal em 49%, ou seja admitiu mais 4.397 funcionários! Em matéria de produtividade, a TAP deve estar na mesma, ou pior.

     

    O IRRITADO deseja os maiores sucessos ao senhor Fernando Pinto e à TAP. Mas há razões para duvidar que ele consiga ultrapassar a pecha número um da nossa economia: a fraquíssima produtividade de que tanto se fala e contra a qual tão pouco, ou nada, se faz.

     

    25.10.10

     

    António Borges de Carvalho

  • DESGRAÇA!

    Tem-se ouvido por aí, da parte de comentadores afectos ao governo que temos, afirmar que o dito não tem qualquer obrigação de prestar contas sobre a aplicação do PEC II. Ao ponto de haver uma criatura que diz jamais ter sido o caso, pelo menos previamente à apresentação do orçamento.

    Se calhar até tem razão. Recordemos, por exemplo, que o senhor Pinto de Sousa, coitado, ao tomar posse, como não sabia as contas que estavam para trás, teve de encomendar ao camarada Constâncio um orçamento “especial” – que faria inveja ao Bandarra -, demonstrando que o défice era de mais de 6%, coisa que jamais constou de quaisquer contas e não se encontra referido no Eurostat nem qualquer documento autêntico, anterior ou posterior à tal posse. O orçamento Constâncio, “especial” e “futurológico”, viria a servir para construir novas “verdades” e para enaltecer a grande obra que o senhor Pinto de Sousa viria a realizar e que está à vista de todos.

    Presentemente as coisas apresentam-se de forma totalmente diferente. O PSD não exige que o governo apresente contas sobre uma execução orçamental que ainda não findou. O que exige é que o governo preste contas sobre a execução de um acordo que, com grande sentido de Estado, o PSD subscreveu e cuja execução tem todo o direito a conhecer. Acresce que tudo indica que tal acordo foi celebrado sobre uma proposta do governo que não passava de mais uma das aldrabices em que é especialista, ou que foi executado com os pés. Isto porque, como é evidente, os resultados demonstram uma coisa ou outra, ou as duas, e à saciedade.

    A confirmá-lo, aí está o rapazola do beicinho à banda a declarar que “o Governo – o gê maiúsculo é dele – não tem mais informação” a dar sobre o PEC II. Uma afirmação que confirma, sem deixar sombra de dúvida, todas as certezas acerca da total ausência de seriedade desta gente, a sua brutal incompetência, a sua arte da mentira esgrimida como se fosse a mais séria das verdades.

    O rapazola do beicinho à banda, marionete do senhor Pinto de Sousa, é bem uma das repugnantes imagens do poder político que entre nós vigora.

     

    O nosso drama é termos uma constituição que não permite dar, quanto antes, guia de marcha ao beicinho para a escola primária de Mentirokusen, na Namíbia, e, ao Pinto de Sousa, para a câmara de Aldrabarém, na Papuásia, levando consigo a escumalha que o segue e apoia. Até as alfurjas agradeceriam.

    A nossa triste sina, com o esmerado apoio do Presidente da República, é ficar entregues, pelo menos mais um ano, às contas de somir desta gente.

     

    Maior desgraça, não sei se há.

     

    23.10.10

     

    António Borges de Carvalho

  • JUSTIÇA DE CASTELA

    Há uma coisa, cujo nome me escapa, formada por jornalistas, que tem a nobre missão de “julgar” as atitudes dos colegas no que ao cumprimento do código deontológico da profissão diz respeito.

    Tal coisa levou mais de um ano a apreciar a publicação, por um tal Marcelino, evidentemente ao serviço do Partido Socialista e do amigo Oliveira, de correspondência pessoal de dois colegas, com evidentes e eficazes intenções políticas.

    Dado, no entanto, o bom comportamento anterior, o tal Marcelino não foi objecto de qualquer castigo. Continua, calmamente, no exercício do alto cargo profissional que o amigo Oliveira lhe confiou.

     

    O que mais espanta, no meio disto tudo, é que, tendo o tal Marcelino cometido um crime tipificado no Código Penal e tendo ofendido grave e publicamente elementares direitos constitucionais, não foi objecto de qualquer procedimento do ministério público ou fosse de quem fosse.

    Por contraste, os tipos do “Sol” têm suado as estopinhas por ter publicado documentos oficias, portanto públicos, acerca do senhor Pinto de Sousa e sua gente (o arquitecto Saraiva anda a sacudir a água para o capote dos seus subordinados, mas isso é outra história).

     

    A conclusão é que, se se for socialista ou apaniguado, a Lei serve para ser torneada, ou interpretada de forma “piedosa”. Os exemplos abundam.

    Se a tal gente se não pertence, o melhor é pôr-se a pau e não levantar o rabinho do selim.

     

    23.10.10

     

    António Borges de Carvalho

  • O ESTADO DA NAÇÃO

    Afinal, os “pais da Pátria”, a Assembleia, dita “da República”, servem para quê?

    Vejamos: um orçamento do Estado é uma Lei, anualmente obrigatória, que é votada pela tal Assembleia, tida por representante dos eleitores.

    Cabe ao governo elaborar e propor tal Lei, aos deputados discuti-la, modificando-a ou não, e aprová-la ou não por maioria simples.

    Este é o sistema.

     

    Vejamos o que se passa:

     

    O governo do partido socialista, na sua versão minoritária, é tão arrogantemente autoritário como o era na versão anterior.

    O Partido Socialista jamais procurou fosse que acordo fosse, fosse com quem fosse.

    Quando formou governo, recusou liminarmente a formação de uma maioria, apesar de as eleições lhe terem posto à disposição pelo menos três diferentes opções.

    Substituiu qualquer negociação por uma intolerável farsa, convocando os partidos para uma espécie de sessão de cumprimentos a sua excelência Pinto de Sousa.

    Apesar de o líder da oposição ter tido a democrática e patriótica caridade de deixar passar dois planos de austeridade, PEC’s de seu nome, o governo não só não os cumpriu como imporia a mais elementar honestidade, como, despótico que é, se recusou a dizer porquê, aos deputados e aos eleitores.

    Quando o líder da oposição se ofereceu para estudar com o Pinto de Sousa as formas de consenso possíveis, após um primeiro encontro concluiu que o Pinto de Sousa não era sério nem se podia negociar com ele num plano minimamente responsável, como, aliás, claramente declarou, e sem desmentido possível.

    Apesar disso, o líder da oposição teve a ingenuidade de propor algumas condições para poder assumir uma papel positivo na discussão, é certo que um pouco às cegas já que não é possível apresentar propostas fundamentadas no total desconhecimento dos seus eventuais fundamentos, que lhe são, e a todos nós, despoticamente sonegados.

    Agora, cai o líder da oposição na anti-parlamentar esparrela de tentar chegar a um acordo qualquer via negociações de gabinete.

    A ingenuidade e a boa-vontade têm limites mais curtos dos que Passos Coelho lhes atribui.

    Se há um erro fatal na gestão política de Passos Coelho é o de querer acreditar que é possível negociar seja o que for com um político (Pinto de Sousa) que, como (por defeito!) muito bem diz Helena Matos, “é ignorantíssimo, não tem sentido de Estado e tomou decisões na sua vida académica, profissional e política que a maior parte dos portugueses, até o conhecer como primeiro-ministro, repudiariam liminarmente”.

    Passos Coelho errou ao admitir que tinha com quem falar.

    Não tinha nem tem: para haver um gentlemen’s agreement são precisos dois gentlemen, pelo menos.

    Passos Coelho errou ao pensar que tinha tempo para se afirmar como alternativa, ou seja que, para que se pudesse ter alguma esperança no futuro, a primeira, a mais urgente de todas as prioridades, não era livrar-nos de um homem do calibre do Pinto de Sousa, que nos ofende a honra de cidadãos, que insulta a nossa inteligência, que a cada passo nos engana, que tudo promete e nada cumpre, ou que só cumpre o que é ruinoso e enganador.

     

    Agora, por fora do Parlamento – para que serve o Parlamento? – , mais uma vez Passos Coelho insiste na honesta procura de uma solução que lhe permita deixar passar um orçamento que não especifica nem quantifica cortes na despesa, que não justifica o aumento brutal de impostos, que não diz o que correu mal em relação ao que a ingenuidade de Passos Coelho tinha deixado passar.

    Tudo isto ao mesmo tempo que o Lacão o insulta de forma soez, vil, ordinária, e que aquele tipo do beicinho à banda se repoltreia em dislates televisivos para consumo da plebe.

     

    Passos Coelho já devia saber, e de ciência certa, que está a ser empurrado para um beco sem saída, que está a ser vítima da sua própria boa-fé, que esta gente não merece diálogo, nem consideração, nem benefício da dúvida, nem tem outro objectivo senão entalá-lo.

    Se deixar passar o que lhe querem impor, disso ficará refém durante quase um ano, enquanto os seus algozes lhe prepararão a cama, para vir a entregar-lhe, após algumas benesses eleitorais, um país ainda mais arruinado do que já está. Ou, pior ainda, usar tais benesses para ganhar de novo as eleições, mais uma vez despudoradamente enganando o povo.

    Se não deixar passar, o mesmo ano servirá para, diariamente, ser acusado de traição à Pátria e passar a réu de todos os males que, entretanto, o PS não deixará de causar.

     

    Conselho do IRRITADO:

     

    Caro Dr. Passos Coelho

     

    Deixe passar o orçamento sem mais conversas.

    Explique porquê, não com considerações partidárias, mas demonstrando que, em nome de um futuro menos negro, não há outra coisa a fazer.

    Nunca mais tente negociar com gente que não lhe merece, nem a ninguém, a mais leve sombra de confiança. Eles que se amanhem com a trampa em que vegetam.

    Denuncie-lhes as trafulhices todos os dias.

    Não confie no Presidente da República.

    Continue a ser sério.

    Sem medo dos Soares & Cª, seja tão liberal quanto puder.

    Só há duas coisas que não vale a pena tentar:

    a)    Calar os “independentes” do seu partido, a começar por esse monumental intriguista/boatista/trafulhista que se chama Marcelo;

    b)    Ultrapassar a estupidez constitucional que o impede de acabar já com os coveiros do país.     

     

    22.10.10

     

    António Borges de Carvalho

  • SUGESTÕES PARA EMENDAS

     

    O senhor Lima, do “Sol”, critica o PC por defender “ditaduras peudo-socialistas”.

    Eu também critico. A emenda é que tais ditaduras não são pseudo-socialistas. São mesmo socialistas.

     

    Uma rapariga que, à conta do jornal privado chamado “Público”, anda há meses a passear na América do Sul, de onde manda umas crónicas literário-politicológicas, chegou à conclusão que o senhor Llosa, que ganhou o Nobel, “na sua primeira viagem depois do anúncio do prémio falou um pouco de tudo, como fazem os príncipes renascentistas”.

    Os príncipes renascentistas não fazem coisa nenhuma, porque o Renascimento já lá vai há séculos, o mesmo se passando com os respectivos príncipes. Resta saber se os tais príncipes, coitados, falavam um pouco de tudo.

    Não resisto a citar, da mesma senhora, este profundo pensamento: “quando se olha do centro, o que está mais longe são as margens”. Hihi.

     

    21.10.10

     

    IRRITADO

  • UMA VERGONHA SEM NOME

     

    Ontem, o representante dessa coisa absurda e ilegítima que dá pelo eufemístico nome de “Associação Sindical dos Juízes”, veio à liça em defesa da greve geral, ao ponto de dizer que a corporação está a estudar a participação dos dignos magistrados em tal coisa.

    Isto, imagine-se, porque os ditos passam a ser taxados nos subsídios de renda de casa que o Estado lhes dá.

    É sabida a rebaldaria que há na distribuição e utilização de tais dinheiros. Segundo os jornais têm referido, há juízes, não poucos, que receberão a massa tendo casa a dois passos, ou que a empanturram vivendo com a família ou equivalente. Por outras palavras, o taco que recebem transformou-se num reforço encapotado do vencimento, desta feita sem impostos, e não no pagamento de uma renda que, dentro de certos limites e condições, os juízes se vejam obrigados a pagar por residir longe da sua residência habitual.

    Por outras palavras, trata-se de um privilégio abstruso e absurdo. Quando um profissional “normal” aceita ser colocado, durante uns anos, num determinado local, o que tem que fazer é mudar de casa, e pronto.

    Com os juízes é pior. Sabem perfeitamente que a profissão que escolheram implica, durante a carreira, várias mudanças de local de trabalho com a consequente mudança de residência.

    É possível que um largo número destes profissionais tenham embarcado na compra de uma casa, a que se consideram amarrados para a vida. Foi por isso – a segurança de emprego, ou seja, a paralisia pessoal que corta as pernas às pessoas e ao país – que escolheram ser empregados do Estado, ainda que veementemente recusem o “epíteto” de funcionários públicos. Que ideia! São órgãos de soberania!

    Órgãos de soberania que têm sindicato e ameaçam fazer greve? O que é isto? É qualquer coisa que faz lembrar a república das bananas… podres.

    Acresce que, das classes profissionais desta pobre terra, se as há privilegiadas em matéria de vencimentos, reformas, etc., a dos juízes é uma delas.

    Se tivessem um mínimo de noção da dignidade dos lugares que ocupam, os juízes:

    a) Não tinham sindicatos, já que, na sua opinião, não são funcionários;

    b) Não faziam reivindicações do tipo das dos cidadãos comuns;

    c) Seriam os primeiros a alinhar nos sacrifícios dos demais.

     

    Para cúmulo da indignidade, os dirigentes da “Associação”, não encontram nada melhor, para defender a sua fuga a tais sacrifícios que exigir ao governo que lhes entregue a relação de todas as benesses, subsídios e gorjetas dos boys dos gabinetes.

    Não se põe em dúvida que esta rapaziada goza de mordomias dificilmente aceitáveis, mas ir buscá-las, a título de ameaça ou vingança, é de uma baixeza sem nome.

     

    A total ausência de dignidade e de brio por parte de uma classe para quem a dignidade devia ser coisa indispensável e motivo de orgulho e distinção, é talvez o sinal mais grave da degenerescência da democracia em Portugal.

    Quem poderá meter esta gente na ordem? Não, não é o povo, que não a elege. Quem, então, se os órgãos a quem cabe vigiá-la se metem em copas e deixam andar o sindicato em roda livre?

    Quando é que alguém explica aos juízes que a sua sagrada independência é a independência no acto de julgar, não é a de fazer o que lhes der na gana sem que ninguém lhes toque? Como é possível pedir responsabilidade aos portugueses se, aos mais altos níveis, se passa o que passa?

     

    20.10.10

     

    António Borges de Carvalho

  • ALTOS CRITÉRIOS

    O IGESPAR, pressurosa instituição pública que sucedeu ao trambolho que se chamava IPAR, ou parecido, entidade ultra-socialista que se arroga poderes imensos sobre aquilo que é dos outros, além da sua “gestão”, resolveu meter-se com um cartaz que apareceu no Chiado, a tapar as obras de um prédio. O cartaz é branco, tem uma senhora com um vestido azul e umas frases de publicidade a um armazém qualquer. Nada de chocante. Pelo contrário, é uma “ilha” branquinha num mar de borradas que cobrem as obras da cidade, as do Estado incluídas.

    Parece que a CML autorizou o tal cartaz – e cobrou a respectiva taxa, pois então, ainda que o espaço lhe não pertença.

    Vai daí o IGESPAR opôs-se. Que não, que o cartaz está desenquadrado, que não respeita um edifício histórico, que pópópó e pópópó.   

     

    Ocorre perguntar porque é que o IGESPAR não interveio quando o Costa mandou pintar – e pagou – por maluquinhos pinta-paredes um quarteirão inteiro da Fontes Pereira de Melo.

    Se calhar, nos altíssimos critérios do novo trambolho, tratava-se de “arte”, o que não é o caso do prédio do Chiado. Se os tipos das obras as tapassem com uma coisa toda rota e toda suja, como é o caso que, mais abaixo, se passa a esquina da Rua Ivens, o IGESPAR achava muito bem.

     

    Altos critérios da coisa pública.

     

    20.10.10

     

    António Borges de Carvalho

  • RENDOSAS RENDAS

    No mesmo dia em que os jornais titulam que há 117.000 rendas abaixo de 5 euros por mês, e 357.000 abaixo de 60 euros, a dona Roseta anuncia, entre uma série de patacoadas, que a CML vai criar o lugar de provedor… do inquilino.

    Pura estupidez, provocação, ou tão só malhas que o socialismo tece?

     

    20.10.10

     

    António Borges de Carvalho

  • TRADUÇÕES E CONFUSÕES

     

    Com altos aplausos da DECO (uma agência de venda de porcarias mascarada de “defesa do consumidor”), o governo anda a lançar uma nova versão das leis que nos desgovernam. Segundo a propaganda, trata-se de “traduzir” as leis em linguagem que as pessoas entendam.

     

    O problema está mal posto.

    Ou as leis são terrivelmente complicadas (não deve haver um só artigo que não tenha várias redacções e modificações, nada se aplica a não ser “com a redacção que lhe foi dada” pelo diploma xis, o qual, por sua vez, é fruto de uma alteração ao diploma zê, e etc. por aí fora), o que é o caso e, nessa altura o que havia a fazer era simplificá-las, ou codificá-las, ou desconfusioná-las, ou não são, mas a terminologia técnica utilizada exige algum conhecimento dos conceitos. Neste último caso, ou tais conceitos se podem exprimir em linguagem corrente e então que se redija as leis em conformidade, ou não podem, e haverá que as redigir como não pode deixar de ser.

     

    Se os trutas do governo são capazes de tudo “traduzir”, então vão-se às leis, re-redijam-nas, e deixa de ser preciso “traduzi-las”.

     

    O problema, meus amigos, são dois:

    a)   Grande parte das leis que os nossos legisladores dão à luz são escritas por tipos que não sabem nem direito nem português, sendo muitas vezes ininteligíveis, até para o jurista mais pintado;

    b)   Há conceitos que, pela sua própria natureza, exigem apreciação técnica que o cidadão comum não domina, pelo que “traduzi-las” só pode aumentar a confusão.

     

    Posto isto, o melhor é que os tipos do governo se deixem de “traduções”, aprendam português e tratem de descascar a ordem jurídica da pessegada que a caracteriza.

     

    15.10.10

     

    António Borges de Carvalho

  • MARXISMO AMBIENTAL

     

    A secção B2 do PC, conhecida por “Os Verdes”, resolveu propor que, na Constituição, passe a constar a proibição da energia nuclear.

     

    Como parêntesis, o IRRITADO sugere que proponham também a proibição do “neo-liberalismo” – para o que teriam o entusiástico apoio do Dr. Mário Soares, das sanitas turcas – dados os eflúvios pouco ecológicos que exalam, ou da feijoada – que contribui para o aumento dos gazes provenientes do cólon, ricos em CO2 como se sabe.

     

    Fecho o parêntesis.

     

    Os vermelhos às riscas verdes querem igualmente que a Constituição obrigue ao combate às “alterações climáticas”, à “defesa da biodiversidade”, à garantia do “direito à água”, e mais não sei que alarvidades.  

     

    Ao mesmo tempo que a Europa digna desse nome está a caminhar no sentido do reforço energético que só o nuclear pode garantir, estes paspalhos querem proibir a coisa ao mais alto nível, como se a Constituição fosse o programa político do PS, ou do PC na sua versão melancia.

    As “alterações climáticas”, se as há – o que é cada dia mais duvidoso – são uma das mais caras e destrutivas teorias jamais inventadas, a arruinar um mundo que foi de luxo mas já não é.

    Parvoíces destas na Constituição? Basta o que basta, que já é demais. Se fossem brincar com os outros meninos lá do centro de trabalho do PC, não era melhor?

     

    A defesa da biodiversidade é um objectivo que o IRRITADO aceita e apoia. Mas, que diabo, o que tem a Constituição a ver com as calças?

     

    E o “direito” à água? De estalo, não é? Talvez, com alguma boa vontade, os verdes às riscas pudessem lá pôr também o direito ao vinho, a uns bagacitos e umas bejecas.

    Aqui fica mais esta sugestão. De borla!

     

    Muito a sério. Esta gente, sob as ordens do PC, quer arranjar forma de ocupar tempo de revisão constitucional com maluquices, a fim de que a discussão de coisas sérias, que há tantas, fique prejudicada.

    Chama-se a isto abuso de poder.

     

    15.10.10

     

    António Borges de Carvalho

  • PEDERASTIA HISTÓRICO-CASTELHANA

     

    Um castelhano qualquer, muito conhecido na “cafeteria” lá do bairro, resolveu dedicar-se à distinta tarefa de demonstrar que, para além de Alexandre da Macedónia, Ricardo Coração de Leão e mais umas centenas de figuras históricas, o Senhor Dom Pedro I, o Infante Dom Henrique, Dom Afonso de Albuquerque, o Senhor Dom Sebastião e outros mais eram, passe a expressão… paneleiros!

     

    Este novo Petrónio, resolveu arranjar tema para um “Satyricon” de trazer por casa.

    A diferença é que, segundo se crê, o elegante Petrónio falava de si e dos seus amigalhaços de forma mais ou menos picaresca. O castelhano, residente nas Canárias – onde deve ter conhecido o Saramago – fala dos outros, com “seriedade” histórica, procurando destruí-los ou aniquilar a imagem deles a que temos direito.

     

    Sei que quem isto ler dirá que o IRRITADO está velho, não percebe a evolução dos tempos. Ser bicha é, nos nossos dias, motivo de consideração social, política e legislativa, para além de fonte de direito. A coisa justifica, como é lógico, um orgulho sem limites por parte dos praticantes e é, obrigatoriamente, credora do respeito e da admiração dos que o não são. O IRRITADO ou é estúpido ou está com os pés para a cova.

     

    Houve uma editora portuguesa – a porcaria dá dinheiro – que se apressou a traduzir e publicar as aleivosias do “historiador”.

    Um jornal qualquer dedicou duas páginas inteirinhas a esta obra “de referência”, como soe dizer-se destas trampas.

     

    Como vêm, o rabichismo é como o orçamento. Avança a olhos vistos, com previsíveis resultados.

     

    15.10.10

     

    António Borges de Carvalho

  • ALEGRE E O TRABALHO INFANTIL

     

    Segundo o senhor Alegre (de Mello Duarte, pelo lado do seu honrado pai), o Doutor Silva anda a fazer propaganda eleitoral à custa das criancinhas.

    Porquê? Porque, nas suas viagens pelo país, aparecem sempre umas meninas e uns meninos a agitar freneticamente bandeirinhas da república.

    Dando de barato saber se o Presidente anda a fazer propaganda eleitoral ou não, o que esta douta opinião do Alegre revela é um ciúme do caneco. Ele, o maior, o poeta, o português magnífico, o locutor da guerra do ultramar que tantas informações deu aos movimentos de “libertação”, ele, o patriota, coitado, não tem criancinhas à espera dele em parte nenhuma, ainda menos com bandeiras da república.

     

    Chatice, não é?   

     

    15.10.10

     

    António Borges de Carvalho

  • PROTESTO!

     

    Calcule-se que a PJ, após mais de um ano de investigações, apanhou uma série de indivíduos ou, em linguagem técnica, “desmantelou uma rede” que se dedicava à honesta tarefa de pôr na net fotografias eróticas de meninas e respectivos contactos, a fim de oferecer os horizontais serviços das ditas ao respeitável púbico. As meninas, como é lógico, pagavam a publicidade a quem lhes prestava tão relevante serviço, aliás meritório, sobretudo na época de desemprego que o país atravessa.

     

    Não se percebe lá muito bem que crime perseguiu a PJ.

    É que basta comprar o Diário de Notícias, o Correio da Manhã e outros pasquins para se ter à disposição inúmeras ofertas de “brasileirinhas fofas”, “mulatinhas desinibidas”, “trintonas faz-tudo”, etc., e até de “rapazes” espadaúdos e sem exigências quanto ao sexo ou ao número de clientes por sessão, tudo devidamente ilustrado por rechonchudas bimbas e pernocas de todos os tamanhos e feitios. Tudo gente que paga aos jornais exactamente pelo mesmo serviço que os fulanos da “rede” prestam, ou prestavam.

     

    Aqui a razão do meu protesto. Então os rapazes que põem as pequenas na net são uns bandidos da pior espécie, e os outros, que as põem nos jornais, são uns gajos porreiros? Os primeiros são culpados de ganhar dinheiro com as suas actividades, e os outros, que também ganham dinheiro com elas, são uns cidadãos exemplares?

     

    Protesto. Ou há moralidade ou comem todos!

     

    Meninas à sala!

     

    15.10.10

  • BONS NEGÓCIOS

     

    Como é sabido, o governo das ilhas adjacentes dos Açores, em alta demonstração de patriotismo, de fidelidade aos compromissos assumidos, de respeito socialista pelos “trabalhadores”, de preferência pela indústria nacional, etc., recusou receber o navio que encomendou aos estaleiros de Viana do Castelo (nacionalizados, “nossos”) porque, dada uma alteração, aprovada, ao projecto, o tal navio dava menos 2 nós de velocidade que o previsto.

    Com equivalente demonstração de qualidade de management, a mesma gente alugou na Grécia os necessários substitutos por uma verba que, em dois anos, será mais ou menos igual à que pagaria aos ENVC. Em relação à recepção do navio, a coisa apresenta, entre outras, estas diferenças: dois anos passados os Açores ficam sem nenhum navio tendo gastou o mesmo dinheiro e continuando a gastá-lo nos anos seguintes.

    Se acrescentarmos que o aluguer dos navios aos gregos foi feito por “ajuste directo” e por uma verba que, colossalmente, ultrapassa o que a lei estipula, aí teremos, por um lado, o que é “gestão” nos Açores e, por outro… por outro é legítimo pensar uma série de coisas em que o nosso socialismo é especialista.

     

    Para além de algumas referências nos jornais e no IRRITADO, o assunto caiu em saco roto. O governo deve ter achado muito bem, ou seja, muito socialista, o Tribunal de Contas parece não ter dado por nada, o PGR também não, a “Judite” não tem a ver com o caso, a oposição também não, parecendo que, apesar das centenas de milhões deitados ao mar, tudo não passou de negligenciável fait divers. Um entre muitos outros tão ou mais caros que este.

     

    Mas o governo, como é sabido, zela pelos nossos interesses.

    Vai daí, tratou de arranjar um cliente para ficar com o navio. Quem? Quem havia de ser senão o camarada Chávez. O mesmo Chávez que é íntimo do senhor Pinto de Sousa e que, segundo as agências internacionais, transformou a Venezuela no devedor mais perigoso do mundo, no menos fiável, no que apresenta maiores riscos de caloteirice, PIGS incluídos.

    As negociações, diz o governo, vão de vento em popa. Quando chegar a altura de pagar logo se vê, não é?

     

    A coisa não acaba aqui. Com pompa e circunstância, o  aparatchik Perestrelo “vendeu” outros dois navios ao Chávez por cento e trinta milhões. Os navios serão entregues daqui a três anos, sendo desconhecidas as respectivas condições de pagamento e as garantias oferecidas.

     

    Resta observar que os êxitos comerciais do governo socialista parecem reduzir-se a contactos privilegiados com o camarada Chávez e com o simpático Cadáfi, dois magníficos trutas da nossa praça. É o que se chama promover “produtos transaccionáveis”. Por outras palavras, fazer o “bem” olhando a quem.

     

    14.10.10

     

    António Borges de Carvalho

  • MAIS PERGUNTAS ESTÚPIDAS

     

    A reforma das reformas de Monsieur Sakozy (em Portugal seria Prof. Sarkozy, Doutor Sarkozy, Dr. Sakozy, Eng. Sakozy, Arq. Sarkozy…) tem provocado a indignação das gaulesas massas. Indignação propriamente dita, porque é indigno de pessoas de bem, ou do povo francês, indignar-se por ter que trabalhar mais dois anitos. Indigno e estúpido, já que os tais dois anitos poderiam das aos protestadores algum acréscimo de segurança quanto ao futuro… das suas reformas.

    Aqui há uns quinze dias houve um milhão nas ruas, diz a polícia, houve dois milhões, dizem os “trabalhadores”.

    Anteontem houve 65.000 pessoas, segundo a imprensa, que andaram aos gritos pelo mesmo motivo. Os jornais portugueses atribuem a estes protestos significados vários: o Sarkozy tem ali um problema para resolver, os protestos populares aumentam de tom, a contestação vai de vento em popa… tudo “análises” do mesmo jaez.

     

    As perguntas são as seguintes:

    a) Tendo os protestadores de rua baixado de um ou dois milhões para sessenta e cinco mil, como é possível tirar daí conclusões deste tipo?

    b) Que os protestadores são estúpidos já o IRRITADO tinha percebido. Mas, neste caso, fica a dúvida: os nossos jornais também são estúpidos, ou é o IRRITADO que não ter o juízo todo?

     

    *

     

    Portugal foi eleito para o Conselho de Segurança da ONU, em posição de “não permanente.

    Pois. Parabéns.

     

    As perguntas são estas:

    a) Qual é a real vantagem da eleição para Portugal, para além do “prestígio” de a ter ganho, depois da desistência do Canadá?

    b) Quanto vai custar ai país tão honrosa distinção (viagens, diplomatas, apartamentos, ajudas de custo, despezas de representação, subsídios de deslocação, viaturas, funcionários, etc.?

    c) Qual será o resultado final em matéria de custos/benefícios? Imponderável?

     

    13.10.10

     

    António Borges de Carvalho

  • DO QUE ÉPRECISO

     

     

    O senhor Pinto de Sousa aposta forte no chumbo do orçamento. Uma evidência clamorosa.

     

    Ao PM interessa, acima de tudo, continuar a chafurdar na trampa que criou com a sua ignorância, a sua propaganda sem freio, a sua teimosia pacóvia, o seu parlapaté aldrabão, a sua flagrante desonestidade, a sua evidente indignidade, sobretudo a sua inesgotável sede de poder.

    Sendo o poder o seu único objectivo, os meios para lá se manter são indiferentes. Aí está a última campanha eleitoral para o provar àqueles que ainda não tinham percebido a inumana monstruosidade – o senhor Pinto de Sousa – com que o país lida, com que o país é desavergonhadamente enganado, amarfanhado, arruinado.

     

    Nada melhor para ele que ver o orçamento chumbado e ficar com sete meses de folga para acusar o PSD de irresponsabilidade e ausência de patriotismo e para, à última da hora, ir buscar umas massas aos duodécimos de 2010 e enganar outra vez uma sociedade que quer ser ajudada a ignorar os seus reais problemas, não vendo nada para além de uns tostões que, à custa seja do que for, lhe metam no bolso.

     

    As hostes socialistas, proto-socialistas, para-socialistas e zarolhas, amontoam razões para obrigar o PSD a deixar passar a última indignidade – o orçamento. 

     Deveria perguntar-se a tal gente: porquê o PSD?

    Porque deixou passar ou aprovou os PEC’s?

    Porque o bloco central é inultrapassável e inevitável?

    Porque não o CDS, ou o PC mais o Bloco?

    Por alma de quem é que estes três da vida airada não são tidos por “traidores à pátria” se chumbarem o orçamento, mas tal é assacado, em exclusivo, ao PSD?

     

    A situação tornou-se de tal maneira violenta na cabeça das pessoas que já lá não cabe outra solução que a de ser o PSD a abster-se. Outras possibilidades de voto são “cientificamente” colocadas de lado pelos fazedores de opinião, talvez porque, no fundo, sejam tão ignaros como a generalidade dos que ainda põem a hipótese de apoiar o senhor Pinto de Sousa.

     

    Perversamente, o PSD, devendo recusar mais esta aldrabice da clique socrélfia, está condenado a ter que a deixar passar.

    Porquê? Porque o mais imediato e nobre objectivo nacional é, desde há anos, acabar com o poder do poder canalha que nos ofende e porque a melhor forma de o atingir é deixr passar o orçamento e deixar esta gente enterrar-se até Maio. Então, só então, dar-lhe a estocada final. De outra forma, corremos o risco de ver esta porcaria prolongar-se por mais três anos.

     

    Resta saber como pode o PSD, depois das afirmações de princípio já produzidas, deixar passar a coisa com dignidade e sem perder a face. É difícil, mas terá que ser.

     

    Antes de mais, é preciso não ter ilusões. O PS do senhor Pinto de Sousa, como muito bem Passos Coelho disse, não merece a mais leve sombra de confiança. Pelo contrário, é capaz de se comprometer com uma coisa e fazer exactamente o contrário, como à saciedade está demonstrado. Poderá chegar-se ao ponto de, no debate na generalidade, o PM encher o plenário de promessas de alteração para a discussão na especialidade, levando o PSD à abstenção e, na comissão, faltar a tudo o que sugeriu e deixar o PSD a falar sozinho, sem margem de manobra para alterar o sentido de voto na votação final.

     

    Parece, por isso, que o PSD só tem uma solução;

    a) Na abertura do debate, produzir uma declaração, duríssima mas bem-educada, recusando-se a participar na discussão, saindo do plenário e recusando qualquer qualidade moral ou política ao PM e ao governo para discutir com pessoas de bem. Assim lhes retirará a oportunidade de arranjar um bode expiatório para as futuras desgraças que a sua comprovadíssima incompetência não deixará de produzir.

    b) Voltar à sessão para se abster, sem mais discussões ou discursos, deixando a batata quente nas mãos de quem a aqueceu.

    c) Anunciar uma moção de censura para Abril.

     

    Discutir com esta gente é descer ao seu nível.

    Passos Coelho já o percebeu. Que aja em conformidade, é o que o IRRITADO ceseja.

     

    12.10.10

     

    António Borges de Carvalho

     

    PS (post scriptum!) – dirá quem acompanha os estados de alma do IRRITADO que, há bem pouco tempo, o dito defendeu com unhas e dentes o chumbo do orçamento. É verdade. O IRRITADO pensa que nada do que vem desta gente merece aprovação. Ou é mau ou é mentira. Mas é altura de fazer as contas necessárias (política de objectivos!) e pensar qual será a melhor e mais rápida maneira de defender o interesse nacional, mandando o parvalhão para casa, ou para a cadeia, ou para um tacho qualquer bem longe daqui.

  • AINDA O 5 DE OUTUBRO

     

    Com a devida vénia, a seguir transcrevo a parte de um artigo de Alberto Gonçalves, publicado no DN de ontem, na parte em que se refere ao 5 de Outubro. 

     

    A REPÚBLICA DOS BANANAS

     

    A 5 de Outubro de 1910 um bando de rústicos hasteou uma bandeira na varanda da Câmara Municipal de Lisboa e implantou, como se implanta um dente, a República. As baixas foram mínimas, e isso já incluindo os dois líderes revoltosos mortos horas antes por malucos (no caso do almirante Reis, tratou-se de suicídio). A resistência do regime anterior, atarantado, caduco e fatalmente “aberto”, foi residual. O interesse do povo foi quase nulo. A bandeira em causa foi a do Partido Republicano, que contava com a simpatia de uns poucos milhares de lisboetas e o desprezo do resto do Pais. O País caiu assim, feito fruta, nas mãos dos rústicos, que se achavam iluminados por frequentar 
    o Rossio e ter ouvido uns delírios em francês. Mesmo por comparação com os desvarios precedentes, estava inaugurada uma época de caos económico, totalitarismo político, perseguições religiosas e ideológicas, discriminação cívica, atentados regulares e geral atraso de vida. E imensa retórica progressista. A deposição da monarquia significou a troca do privilégio de classe pelo privilégio da falta dela, o que não sendo tão mau quanto soa não é tão bom quanto a propaganda oficial jura.  A 5 de Outubro de 2010, o regime em vigor festejou, com tiques devotos, o centenário desse encantador período. Humor negro? Quem dera. Os senhores que hoje mandam nisto celebram a ascensão da I República porque, em larga medida, essa é a sua ascensão. O mofo jacobino e maçónico que tomou conta de Portugal há cem anos é o mofo que desde então sempre nos regeu, com uma longa interrupção para o mofo seminarista, igualmente conhecido por Estado Novo. Se entretanto Portugal mudou muito, quase nada se deveu ao esforço próprio. Nas últimas décadas, as dádivas e o crédito alheios emprestaram-nos o verniz de “modernidade” que disfarçou, mas não impediu, a falência iminente, a corrupção genética e a aversão à autonomia dos cidadãos. Os cidadãos, diga-se, também não ajudam, visto que assistem a tudo com a indiferença de há um século. Excepto quando lhes dá ou retira o amparo, as pessoas não pensam que o Estado e o poder sejam assunto seu. No fundo, e com relativa razão habituaram se a pensar que são assunto “deles”. E “eles” festejam: a desgraça a que, perante a apatia geral e a impunidade,

    nos conduziram.

    ABC

  • SERVIÇO PÚBLICO

    Muito se tem falado na privatização da RTP.

     

    Há para todos os gostos, desde os que consideram sacrossanta a existência de tal coisa, até aos que acham que devia ser privatizada quanto antes, fosse a que preço fosse.

     

    O que se passa é mais ou menos o que segue:

    A RTP é sustentada:

    a)   Por um imposto (taxa!) que, com esta eufemística designação, é cobrado mensalmente em todos os recibos da EDP;

    b)   Por receitas de publicidade, como qualquer canal privado;

    c)    Por “indemnizações compensatórias” gentilmente cedidas pelo Estado;

    d)   Por “dotações de capital”, igualmente provenientes dos cofres públicos.

     

    Não sei qual o montante do imposto cobrado, certamente muitos milhões. Não sei o valor das receitas de publicidade, mais uma caterva de milhões. No que às “indemnizações compensatórias” diz respeito, temos que, em três quartos deste ano, vão em 122,5 milhões. Em dotações de capital, a coisa vai em 88 milhões no mesmo período. Uma simpática verba de 200.500.000 euros, ou seja, cerca de 40.196.641 contos.

    Por via fiscal e através da “taxa”, pagamos à RTP verias centenas de milhões de euros, quer vejamos a RTP quer não. É um “serviço” que temos que pagar quer queiramos quer não, quer o usemos quer não.

    Acresce que, enquanto os outros canais de sinal aberto se sustentam via venda de serviços de publicidade e têm uma situação económica e financeira que parece não causar grandes preocupações, a RTP acumula crónicos prejuízos, só aliviados no tempo do senhor Almerindo Marques, e logo retomados, e em grande.

    Posta assim a nu a desgraça que a RTP é para os nossos bolsos, é de perguntar até que ponto se justifica o alegado “serviço público”, ainda por cima e as mais das vezes mero serviço governamental, que só deixou, fugazmente, de o ser, nos consulados de Barroso e Santana Lopes.

     

    Alegar-se-á que há serviços que não podem ser rentáveis mas são necessários, como a RTP África, a RTP Internacional e, até certo ponto a 2.

    Talvez. Fica, no entanto, por demonstrar se tais serviços, se prestados por companhias privadas contratadas pelo Estado, não seriam substancialmente mais baratos do que são hoje.

     

    Daí que seja indiscutível:

    a)   Que a RTP é um dos cancros económicos e financeiros de Estado;

    b)   Que uma estação de televisão não é deficitária por natureza ou por divina determinação;

    c)   Que não há qualquer justificação para que tenhamos que pagar uma taxa por um serviço que deveria ser rentável sem esmolas ou extorsões;

    d)   Que a RTP só não é vendida, ou dada, se continuarmos a viver num Estado ladrão;

    e)   Que, em alternativa à venda ou à doação, se poderia fechar simplesmente a chafarica.    

    Todos ganharíamos com isso.

     

    10.10.10

     

    António Borges de Carvalho