O IRRITADO nunca leu um livro da autoria do senhor José Rodrigues dos Santos.
Porquê?
Há que confessá-lo. O IRRITADO amarinha pelas paredes, todo encaracolado, quando o homem lhe pisca o olho ou lhe diz “especialmente para si” com aquela carinha de parvo que Deus lhe deu. O IRRITADO tem do homem a ideia de um serventuário do senhor Pinto da Sousa. O IRRITADO acha pornográfico que o homem se tenha demitido e tenha ficado no emprego, com as mesmas regalias que tinha antes de se demitir.
Portanto, o IRRITADO, em várias versões, tem contra o homem um parti-pris dos diabos.
Feita a confissão, há que dizer que não está em causa a qualidade literária do que o homem escreve, sobre a qual o IRRITADO se não pronuncia por desconhecimento de causa. Os livros que já publicou, com grandíssima propaganda e assinalável sucesso, dão, pelos títulos e parangonas da publicidade, ideia de que se trata de um storyteller à maneira anglo-saxónica, num tipo de literatura muito vendida mas de fraca “substância”. O que não quer dizer que o IRRITADO a não leia, às vezes com prazer.
Parece que o livro que agora nos entra pela porta dentro quer queiramos quer não, descreve uma espécie de “memórias” de Moçambique e da respectiva guerra contra Portugal. Quanto à guerra, deve tratar-se de coisa de ouvir falar, uma vez que, nascido em 1964, não é provável que o escritor se lembre dela nem um bocadinho que valha a pena. O que o impedirá, nem seja a quem for, de escrever sobre ela.
Segundo os panegíricos lidos e ouvidos pelo IRRITADO, parece que a mais importante “mensagem” sobre a guerra transmitida pelo escrito é a da condenação do acontecido em Viriamu, no Norte de Moçambique.
O IRRITADO conhece várias versões desta história, das que dizem ter havido um horrível massacre, com homens, mulheres e crianças barbaramente assassinados sem que mal algum tivessem feito, às que alegam não ter havido massacre de espécie nenhuma, apenas uma intervenção militar de rotina contra o inimigo, dentro do admissível e legal num teatro de operações daquele tipo.
Demos de barato que houve um massacre.
O que choca, e já choca há muitos anos, é a insistência no assunto, como se pouco mais tivesse havido digno de nota em 13 anos de guerra. Choca que um só massacre em 13 anos e três frentes, seja testemunho da crueldade das nossas tropas em vez de sinal claro de comportamento exemplar e digno.
Para quem, como o autor do IRRITADO, tem no bucho 27 meses de Norte de Angola, na chamada ZIN (Zona de Intervenção Norte), muito haveria que contar sem nada ter a ver com massacres e desgraças afins.
O autor do IRRITADO viu morrer alguns militares, não viu nenhum inimigo morto, e testemunha de palavra de honra a extraordinária obra de assistência social, humanitária e cultural das nossas tropas em terras tidas por hostis, a sua relação, talvez primitiva, ou “portuguesa”, com as mais inóspitas comunidades, relação muito mais traduzida em empatia e amizade que em tiros e batalhas, que também houve.
O que choca é a tendência fadistóide dos portugueses para se auto-flagelar, ainda por cima cheios de razões para fazer o contrário.
Não sei, nem vou saber, se o livro do piscador-de-olho-da-televisão, é um testemunho deste escarafunchar nas feridas ou não.
Mas é essa a sensação com que se fica ao ler a publicidade.
25.10.10
António Borges de Carvalho

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