Ontem, o representante dessa coisa absurda e ilegítima que dá pelo eufemístico nome de “Associação Sindical dos Juízes”, veio à liça em defesa da greve geral, ao ponto de dizer que a corporação está a estudar a participação dos dignos magistrados em tal coisa.
Isto, imagine-se, porque os ditos passam a ser taxados nos subsídios de renda de casa que o Estado lhes dá.
É sabida a rebaldaria que há na distribuição e utilização de tais dinheiros. Segundo os jornais têm referido, há juízes, não poucos, que receberão a massa tendo casa a dois passos, ou que a empanturram vivendo com a família ou equivalente. Por outras palavras, o taco que recebem transformou-se num reforço encapotado do vencimento, desta feita sem impostos, e não no pagamento de uma renda que, dentro de certos limites e condições, os juízes se vejam obrigados a pagar por residir longe da sua residência habitual.
Por outras palavras, trata-se de um privilégio abstruso e absurdo. Quando um profissional “normal” aceita ser colocado, durante uns anos, num determinado local, o que tem que fazer é mudar de casa, e pronto.
Com os juízes é pior. Sabem perfeitamente que a profissão que escolheram implica, durante a carreira, várias mudanças de local de trabalho com a consequente mudança de residência.
É possível que um largo número destes profissionais tenham embarcado na compra de uma casa, a que se consideram amarrados para a vida. Foi por isso – a segurança de emprego, ou seja, a paralisia pessoal que corta as pernas às pessoas e ao país – que escolheram ser empregados do Estado, ainda que veementemente recusem o “epíteto” de funcionários públicos. Que ideia! São órgãos de soberania!
Órgãos de soberania que têm sindicato e ameaçam fazer greve? O que é isto? É qualquer coisa que faz lembrar a república das bananas… podres.
Acresce que, das classes profissionais desta pobre terra, se as há privilegiadas em matéria de vencimentos, reformas, etc., a dos juízes é uma delas.
Se tivessem um mínimo de noção da dignidade dos lugares que ocupam, os juízes:
a) Não tinham sindicatos, já que, na sua opinião, não são funcionários;
b) Não faziam reivindicações do tipo das dos cidadãos comuns;
c) Seriam os primeiros a alinhar nos sacrifícios dos demais.
Para cúmulo da indignidade, os dirigentes da “Associação”, não encontram nada melhor, para defender a sua fuga a tais sacrifícios que exigir ao governo que lhes entregue a relação de todas as benesses, subsídios e gorjetas dos boys dos gabinetes.
Não se põe em dúvida que esta rapaziada goza de mordomias dificilmente aceitáveis, mas ir buscá-las, a título de ameaça ou vingança, é de uma baixeza sem nome.
A total ausência de dignidade e de brio por parte de uma classe para quem a dignidade devia ser coisa indispensável e motivo de orgulho e distinção, é talvez o sinal mais grave da degenerescência da democracia em Portugal.
Quem poderá meter esta gente na ordem? Não, não é o povo, que não a elege. Quem, então, se os órgãos a quem cabe vigiá-la se metem em copas e deixam andar o sindicato em roda livre?
Quando é que alguém explica aos juízes que a sua sagrada independência é a independência no acto de julgar, não é a de fazer o que lhes der na gana sem que ninguém lhes toque? Como é possível pedir responsabilidade aos portugueses se, aos mais altos níveis, se passa o que passa?
20.10.10
António Borges de Carvalho

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