IRRITADO

Um blogue de António Borges de Carvalho

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


  • Omeletes sem ovos

    As socraticóides invectivas contra a Madeira, bem como as ameaças desbragadas do dr. Alberto João, tiveram o perverso efeito de fazer com que ninguém percebesse o que está, exactamente, em causa.

    Do lado de “cá”, entendido o lado de cá como o do sr. Pinto de Sousa (Sócrates) – t’arrenego!, a coisa é simples: a Madeira atingiu um estado de desenvolvimento que já lhe não permite usufruir das ajudas financeiras do costume.

    Do lado de lá, quer dizer do lado do sr. Jardim, o problema resume-se a puro “colonialismo”, incompetência, sanha política de vingança do PS, uma corja, uma cambada, uns finórios sem escrúpulos, enfim, coisas que fazem parte do léxico do senhor, e que não saberei repetir.

    O deputado Silva, eleito na Madeira, veio, num telejornal qualquer, levantar uma ponta do véu sobre esta história. Parece que do que se trata é de uns compromissos financeiros do governo regional, assumidos na vigência da Lei anterior (uns meros 150 milhões de Euros…), a que a Lei em discussão recusa consagrar cobertura. Vistas as coisas assim, parece evidente que a Madeira teria o direito de contraír a dívida quando a contraíu, assim como teria, em face da lei em vigor à data, legítimas expectativas de ver a sua cobertura consagrada. O mais que se pode dizer é que o sr. Alberto (como soe dizer-se nestes tempos de má educação) contou, coitado, com o ovo no rabinho da galinha. Talvez o não devesse ter feito, mas não é grave se o fez.

    Certo é que não se trata de novo endividamento. A Madeira parece não exigir mais que a cobertura de compromissos legalmente contraídos, durante a vigência de uma lei que o permitia.

    Foi isto o que julgo ter ficado a perceber depois de ouvir o deputado Silva.

    Nesta guerra, se há a tal história da contenção das despezas públicas, blá, blá, blá, não pode, também, deixar de haver um tratamento “específico” da Região Autónoma da Madeira. Donde, o senhor Jardim tem todo o direito à indignação. Tanto mais que o seu colega açoreano está contentíssimo com o que vai receber por virtude da mesmíssima lei que recusa à Madeira os tais cento e cinquenta milhõesinhos.

    Já que se não vence o homem pelos votos, que se vença pela fome.

    Ao contrário do senhor Pinto de Sousa (Sócrates) – v.g. casos Ota e TGV – não será, ao senhor Jardim, permitido fazer omeletes sem ovos.

    António Borges de Carvalho
  • Aldrabices

    O Diário de Notícias, hoje, descobriu a pólvora. Portugal é o país da Europa que mais tem aumentado os impostos nos últimos vinte anos. Nada menos que dez por cento em relação ao PIB.

    Dirão os socraticóides que a coisa se justifica pela imperiosa necessidade de reentrar nos limites do pacto de estabilidade. Coisa que, nos bons tempos do PSD/CDS, poderia ser consequente, dado que, nesses dourados anos, o défice se manteve, de facto, em tais limites, apesar das invectivas do dr. Sampaio e da demais oposição.

    O senhor Pinto de Sousa (Sócrates), nesta matéria, seguiu um caminho exemplar: Começou por mandar calcular um défice putativo, como quem diz: se não me vestir fico nu; se não fizer pela vida, morro à fome. Lapidar. Calculada a coisa com a extremosa colaboração de Sua Excelência o Governador do Banco de Portugal, logo o senhor Pinto de Sousa (Sócrates) veio proclamar que os governos anteriores tinham deixado a Nação a pão e laranjas, com um défice astronómico, uma coisa insustentável. E como a moral socialista  é contra as receitas extraordinárias, horroroso pecado, vai de cair em cima do pessoal com impostos.

    Tudo aldrabice. Desde o governo socialista do Engª Guterres que Portugal não ultrapassava, em défice das contas públicas, os 3% do PIB. Tudo verificado e aprovado pelas distintíssimas instituições Europeias. As contas Barroso/Santana Lopes estavam, direitinhas como um fuso, dentro dos critérios estabelecidos. À rasquinha, dir-se-á. Mas estavam. Factos são factos. O resto é conversa, é paleio político de gente que não sabe o que faz e se escuda com inventados erros de terceiros.

    Os resultados estão à vista, e são hoje objecto da manchete do DN. Só é pena que os comentadores de serviço não tirem daí as mais óbvias consequências políticas.

     

     

    António Borges de Carvalho
  • Encravatis sumus

    O endividamento dos portugueses continua a fazer as delícias dos comentadores, sempre tão prontos a falar do problema, sempre tão parcos em lhe descobrir as causas.

    Há dias, li uma senhora que escrevia que “as autoridades financeiras e governamentais insistem em ser mais liberais que os liberais e em abandonar à sua sorte um país maioritariamente marcado pela ignorância económica”.

    À excepção dos infelizes, por falsos, adjectivos com que qualifica as autoridades financeiras, a senhora, de um modo geral, até tem razão e, pelo artigo fora, vai aflorando algumas coisas sérias e bem observadas.

    O problema é que a senhora não percebe que o que há não é liberalismo a mais, mas exactamnente o contrário.

    Nas economias liberais o destino das poupanças é livremente escolhido pelos seus donos, e vai direitinho para a economia, para os fundos de pensões, para a bolsa, para a dívida pública, isto é, cada um, liberalmente, escolhe o destino do que poupa, sem ser “empurrado”, pelo Estatdo e pela banca, para um objectivo único. Em Portugal, sobretudo por intervencionismo anti-liberal do Estado (irracional e oportunisticamente aproveitado pela banca), as poupanças da classe média, maioritariamente média-baixa, como é óbvio, são canalizadas, socialisticamente, para um fim único: o da habitação dita “própria”.

    A destruição, persistente, continuada, violenta, do mercado de arrendamento, conduziu a esta extraordinária realidade: é, ou parece, mais “rentável” comprar uma casa do que investir na economia ou até, estranhamente, no futuro de cada um. Esta falácia foi objecto de isenções fiscais e dos mais diversos “impulsos” do estado socialista, o que levou os portugueses à triste ilusão de que a chamada casa própria é uma espécie de objectivo primeiro de uma vida. A ninguém foi explicado que o que fica para uma vida inteira é um buraco mensal obrigatório, uma machadada na mobilidade de cada um, uma rigidez em si contrária à própria natureza humana, no que esta tem de mais interessante: a variedade de opções. A habitação deixa de ser um elemento dinâmico, a variar ao sabor da boa ou má sorte, dos altos e baixos da vida, do alargar e encurtar das famílias, para passar a constituir uma espécie de mausoléu, nas prateleiras do qual se arrumam pais e filhos, sejam quais forem as oportunidades e os azares da vida de cada um.

    Desgraçadamente, as pessoas, ao optar por se “enfiar” numa hipoteca eterna, têm alguma razão.  Vejamos porquê.

    Apesar das sucessivas “reformas” do regime jurídico do arrendamento urbano, a situação não conheceu melhoria. Pior. Criou-se, e mantem-se, um duplo regime. De um lado, os inquilinos vitalícios, os arrendamentos transmissíveis(!), com habitação a custo zero – a situação está longe de se poder alterar com a nova arrancada burocrática do governo do senhor Pinto de Sousa (Sócrates) – de outro, os novos arrendatários, que pagam rendas exorbitamtes para as características do nosso mercado.

    Num regime liberal, o yeld do arrendamento é, por implícita regra tacitamante aceite, compaginado com a valorização, e é destes dois elementos que nasce o valor de mercado do investimento imobiliário. O yeld puro (grosso modo, a renda), mais a valorização, constituem o critério para a avaliação do investimento. As subidas e as descidas do interesse de tal investimento variam segundo as flutuações dos diversos mercados. Daqui que a renda seja, em relação ao que se investe, apenas uma parte do interest e, por isso, se torne muito mais baixa que a prestação a pagar em caso de hipoteca. O investimento em habitação transforma-se numa questão financeira, mais tomada por fundos de investimento que por particulares e, neste sentido, mais democratizado.  

    O investimento em casa própria acaba por tomar uma posição secundária nas opções das famílias, que obtêm, num vastíssimo, e livre, mercado de arrendamento, as oportunidades que lhes interessam em determinado momento, e que não comprometem outros destinos da poupança, nem outras opções de vida.

    Por cá, tudo está torcido. Compra casa quem não tem dinheiro para tal, ficando “encravado” a perder de vista, aluga casa quem dispõe de rendimentos para a comprar, mas é mais esperto do que isso.

    Entretanto, o Estado socraticóide, vai estendendo as suas garras aos arrendamentos antigos, cujos “aumentos” autoriza em x, a longo prazo, desde que suba o IMI em nx, e já!

    Proliferam,  com grandes choraminguices nos jornais, os leilões dos apartamentos dos infelizes que caíram na esparrela sem fazer contas. Não falta quem tire o Cerelac da boca dos filhos para pagar a casa à banca. Abundam os que não podem aceitar um bom emprego em Setúbal porque estão amarrados a um T2 em Vila Nova de Gaia.

    E não vai ser, nem o “Simplex”, nem o “Plano Tecnológico”, nem o “PRACE”, nem o MIT, nem nada do que o senhor Pinto de Sousa (Sócrates) vai fazendo ou quer fazer, quem porá fim a esta desgraça.

    Que haja quem culpe esta situação de ser “mais liberal que os liberais”, é coisa que a minha estupidez jamais perceberá.

     

    António Borges de Carvalho
  • Uma pergunta muito estúpida

    Se Portugal é o maior consumidor per capita de alimentos marinhos no espaço comunitário, se Portugal tem a maior zona marítima do sobredito espaço, e se importa 75% do que consome:

    Porque raio de carga de água anda, há anos e anos, a dar cabo da sua frota pesqueira?

  • O Socialismo Ofendido

    Há para aí uns três anos fui a um concerto, precedido de uma série de hapennigs, em Belgais, numa casa onde Maria João Pires criou uma espécie de centro cultural. Uma aventura para lá chegar, uma picada tenebrosa, montes e vales de discutível beleza e brutal ferocidade. Foi um fim de tarde inesquecível. Ouvir a senhora tocar, ao ar livre, no silêncio sepulcral de nenhures, sem que fossem permitidos aplausos ou manifestações histéricas, gritinhos de bravô, pedidos de encores e mariquices do género. Uma coisa de um mundo que não existe, uma espécie de entrada no Paraíso.

    Paguei uma soma ridícula pelo inestimável espectáculo.

    Aqui começa o problema.

    É que a senhora, em vez de pôr as pessoas a pagar (eu pagaria o que fosse, dentro do que posso, para lá ir outra vez), a fim de poder financiar a sua obra, não senhor, a senhora achava, e acha, que os poderes públicos, isto é, o meu dinheiro mais o dos meus concidadãos com outras preferências, têm a mais estrita obrigação de lhe pagar o que fôr necessário para manter a coisa.

    Num país de tradição anglo-saxónica, uma instituição tipo Belgais teria um grupo de sponsors, uma comissão de fund raising, uns sócios beneméritos, etc., e não precisaria de mais nada nem de mais ninguém para sobreviver e progredir. Por cá, não é assim. Os chamados, com ou sem justiça, criadores culturais, acham que, por o serem, têm o direito de ser pagos pelo dinheiro da comunidade. O "povo" tem obrigação, através dos impostos, de lhes pagar para que eles "dêm" ao "povo" o que têm para dar. Só que, neste sentido, o povo não existe, o que existe são pessoas que, como eu, ficam extasiadas com uma tarde em Belgais, e outras, a quem Belgais não diz absolutamente nada. Num raciocínio anglo-saxónico, melhor dizendo, liberal, os tipos como eu que paguem à Maria João Pires. Outros haverá que paguem a outras marias joões.

    Maria João Pires não é mais que um exemplo das entorses que o socialismo (de esquerda e de direita) tem provocado nas meninges das pessoas, sendo já parte da "massa do sangue" dos portugueses.

    Uso o exemplo dela por ser, talvez, o mais exagerado. É que a senhora não se fica pelos protestos. Zangada com o Ministério da Cultura, ou com Câmara Municipal, ou seja lá com que colector de impostos for, porque não lhe não paga o que ela acha de justiça, emigra e dedica-se a dizer mal da mãe-Pátria a tudo quanto é cão. Em autêntica paranóia socialista, a senhora chega ao ponto de afirmar, a despropósito, que os Estados Unidos da América são… uma ditadura.

    Presto homenagem à lógica do seu raciocínio. Nos EUA, a senhora, se lá criasse um Belgais, teria que fazer pela vida. Para pagar as suas iniciativas, não andaria, de certeza, a comer do dinheiro de quem não gosta de a ouvir tocar nem aprecia o que ela ensina às criancinhas. Nos EUA as pessoas são livres de pagar o que muito bem entendem a quem muito bem entendem. O que pagam ao Estado é para todos, não para as inflorescências da sociedade civil, tenham o valor que tenham, na opinião de cada um.

    Ela não percebe que, se fosse para os EUA e tivesse lá uma boa iniciativa, como Belgais era, se calhar tinha imenso êxito e montes de dinheiro para aplicar.

    O problema é que isto não entra numa cabeça retorcida pelo socialismo.

    A este respeito, parece que não há nada a fazer. Paciência.

     

    António Borges de Carvalho

  • Viva a República!

    Em 5 de Outubro, o Senhor Presidente da República proferiu o discurso da praxe, no Largo do Município, perante aproximadamente vinte e oito populares, vinte e sete dos quais passavam ali por acaso, sendo o vigéssimo oitavo tontinho da cabeça. Se não foi assim, teve a aproximação.

    Por estas e por outras, os discursos do 5 de Outubro, em anos anteriores, faziam-se a bom recato, dentro das portas da CML, com a sala cheia de convidados de função.

    O Senhor Presidente, cheio de fervor, veio à procura do povo, sem perceber que o povo não liga bóia ao 5 de Outubro e que, se é maioritariamente republicano, isso se deve ao facto de não estar para se maçar com mais uma querela política, não por ter alguma estimação pelos gloriosos revolucionários da Rotunda.

    O Senhor Presidente veio falar de corrupção, e tem sido louvaminhado por isso, à esquerda e à direita. Fica-me uma sensação de déja vu, mas, por ser parvo, devo estar sozinho.

    A outra parte do discurso, de que poucos falam, é muito mais interessante. O Senhor Presidente diz que não quer que o Estado se meta em versões oficiais ou oficiosas da História. Isto, para "não dividir os portugueses".

    Quer dizer: ou o Senhor Presidente aceita a versão da História que é politicamente correcto propalar nestas comemorações, acha que está certa, e não quer ouvir quem a põe em causa, o que é grave, ou então o Sehor Presidente sabe que tal versão é um chorrilho de mentiras, e acha melhor não se meter no assunto, o que é gravíssimo.

    Em suma, o Senhor Presidente disse coisas razoáveis e coisas originais, só que as razoáveis não eram originais e as originais não eram razoáveis. Por outras palavras, perdeu uma bela ocasião para estar calado. Passe a falta de respeito, se acham que o é. Das suas afirmações pode concluir-se que a verdade, sendo incómoda, podia pôr os portugueses uns contra os outros, à la limite criar alguma guerra civil. O Senhor Presidente não percebe que a verdade sobre a República só incomodaria meia dúzia de saudosistas, mais o vigéssimo oitavo tontinho. Os restantes ficariam agradecidos pelo esclarecimento, e não iam, a correr, pôr em risco a sacrossanta República, ou seja, a estabilidade do presidencial job.

    A coisa é retomada por um editorial do Expresso onde, a propósito do discurso e à maneira do dr. Sampaio, se escreve que "a ideia de serviço público desinteressado, o trabalho, a probidade, a honradez são, sem dúvida, valores republicanos…" e que "foi esta cultura de um Estado respeitador e respeitável que guiou os republicanos há cem anos".

    Na senda da "análise" ínsita no editorial citado, é legítimo pensar, ou concluir, que é nesta versão da história que o Senhor Presidente não quer que se mexa.

    Um regime que nasce do assassinato de um Homem desinteressado, trabalhador, probo e honrado, que se funda e se defende por intermáedio de um "exército" de terroristas, que se sustenta e mantem por via do terror, que persegue, prende, deporta, assassina quem se atreve a vir para a rua reclamar, para além dos seus próprios políticos, que se rodeia, ou deixa rodear por quem não é probo, nem honrado, nem trabalhador nem desinteressado, que "oferece" à Pátria que diz defender um dos mais longos períodos de instabilidade política e de ausência de segurança e de ordem da sua história, que a mete numa guerra que não era sua, que, numa segunda fase, "dá" ao país quase meio século de autocracia provinciana, retrógrada e policial, dificilmente se pode considerar como tendo tendo dado ao país "um Estado respeitador e respeitável".

    Enfim, a verdade é uma coisa, a história oficial é outra. E o melhor, na opinião do Senhor Presidente, é não mexer na… História. Pode cheirar mal.

     

    António Borges de Carvalho

  • Coitados dos nossos netos!

    O inenarrável Coelho continua ao ataque. Os governos, os parlamentos, os polícias, os exércitos, as irmãs da caridade, tudo, todos, estão, ou deviam estar ao seu serviço.

    O impossível Coelho é uma máquina. Uma máquina imparável, infatigável.O espectacular Coelho explora até à exaustão a janela de oportunidade que lhe foi aberta para sair dos mais obscuros corredores da política. Nesta coisa da luta contra o terrorismo, o impagável Coelho não tem dúvidas: o que é preciso é descredibilizar os EUA, preferencialmente arrastando com eles os europeus e outros que tais, desde tenham aeroportos onde deixem aterrar os aviões dos aliados, nefando crime merecedor das mais rebuscadas investigações. Deixemos sossegados os bin-ladens, os ezebolás, mais a restante plêiade de impolutos patriotas. Preciso, é acelerar a contestação a esta maldita civilização, dita cristã e ocidental, que, por o ser, tem a mais estrita obrigação de se martirizar e deixar acorrentar pela barbárie.

    Ninguém ouviu da boca do espantoso Coelho qualquer palavra sobre a exploração irracional, abusiva, mentirosa e feroz, da lição universitária do Papa. Ninguém ouviu dele uma palavra no aniversário do 11 de Setembro, ninguém lhe conhece declarações sobre os atentados de Londres ou de Madrid.

    Conhecido é que o Coelho persegue, anatemiza, condena, critica, despreza todos os que lhe não prestem a devida vassalagem, todos os que lhe não forneçam, com submissa prontidão, o que ele quer que forneçam (sublinho, não o que têm para fornecer mas o que ele quer que forneçam), não obedeçam, no que ele acha que é o devido tempo, às suas convocatórias, lhe não dêm satisfação aos mais policiescos instintos. Na sua douta opinião, os governos europeus devem-lhe obediência e, sobretudo, devem dizer-lhe quem eram, para onde iam, de onde vinham, os passageiros dos aviões americanos que tiveram a ousadia de pousar nos seus aeródromos. Se as opiniões do Coelho fizessem escola, a partir de agora todos os aviões que por cá pousassem teriam que entregar ao Coelho a ficha policial de cada um dos passageiros transportados, não fosse algum deles ser suspeito de terrorismo e, nessa qualidade, merecer o mais profundo respeito e a melhor das atenções.

    Nunca ninguém viu (aliás poucos serão os que, alguma vez, deram pela coelhal existência) o senhor Coelho defender os direitos humanos dos bósnios, dos croatas, dos imigrantes, das mulheres dos talibãs, dos cubanos, dos norte-coreanos, o direito de Israel à simples existência, e por aí fora.

    O Coelho não está satisfeito com as informações, com os documentos, com o que dizem os governos dos países livres. Não! O Coelho quer mais. Quer aparecer no Diário de Notícias, no Público, na CNN, onde seja que a sua nobre missão o justifique. A nossa “comunicação social”, ao serviço do inimigo (bem se viu, no caso da lição do Papa), dá-lhe espaço e imagens, todos os dias e a todos os propósitos.

    Há quem diga que as civilizações desaparecem quando perdem a noção da defesa dos valores que as fazem existir, e passam a dar ao inimigo as mesmas prerrogativas que dão aos seus. Há quem diga que as civilizações desaparecem quando passam a dar mais atenção aos erros próprios do que às manobras dos seus inimigos. Na nossa, parece que se tornaram mais ouvidos os que se entretêm a condená-la dos que os que, melhor ou pior, se propõem defendê-la.

    Se os coelhos proliferarem, coitados dos nossos netos!

     

    António Borges de Carvalho
  • Questões Metafísicas

    Sua Eminência Reverendíssima o Senhor Cardeal Patriarca de Lisboa, Dom José Policarpo, veio há dias declarar que a questão do aborto não era uma questão religiosa. Também acho. O que não entendi, à altura, foi a razão pela qual Sua Eminência vinha fazer tal declaração. É que, se é verdade que o aborto é um problema da sociedade civil em geral, não o é menos que, para a Igreja Católica (julgava eu, na minha estupidez) é, também, ou principalmente, um problema religioso, uma vez que tem a ver com questões dogmáticas que (julgava eu, na minha estupidez) são inultrapassáveis para ela.

    Recorri a uma pessoa das minhas relações, versada nestas matérias. Obtive a explicação: Sua Eminência disse o que disse para chamar a atenção dos leigos para o assunto, isto é, para evitar a abstenção dos que, não tendo convicções católicas, poderiam, apesar de ser contra o aborto livre, não ir votar.

    Aceitei a explicação, mais por delicadeza que por concordância.

    Ontem, porém, ao ler os jornais, a minha incompreensão chegou a insuspeitados píncaros.

     

    Sua Eminência vem dizer:

    a)      Que não dará indicação de voto às pessoas;

    b)      Que a abstenção é a melhor solução em caso de dúvida;

    c)      Que a Igreja não se vai envolver na defesa do Não.

     

    Pergunta a minha estupidez:

    a)     Como é que Sua Eminência não percebe que está a favorecer o Sim?

    b)     Se a Igreja não mudou de posição, o que a leva a "defendê-la" desta estranha forma?

    c)     Porque é que a Igreja, tão activa no último referendo sobre o assunto, desta vez se fecha em copas?

    d)      O que pensarão os fiéis católicos desta coisa toda?

    e)    Será que Sua Eminência acha que, lançando a confusão, aumenta as abstenções e, com isso, aumenta as hipóteses de o Não ganhar?

    e)      Será que as abortadeiras do Bloco de Esquerda e quejandos vão fazer uma manifestação de apoio a Sua Eminência?

     E eu? Continuo estúpido, ou haverá alguém me explique a coisa a contento? 

     

    António Borges de Carvalho
  • Da Catalunha…

    O senhor Maralhal, ou Margalhal, ou lá o que é, Presidente da actual e sapateiral Catalunha, veio enaltecer o magnífico serviço prestado à sua causa pelo tablóide “SOL” ao publicar uma sondagem em que vinte e tal por cento dos portugueses dizem que seriam a favor de uma união ibérica, o quer que isso possa querer dizer.

    O General De Gaulle disse um dia que le Portugal est une Catalogne qui a réussi. Isto é, como a Catalunha n’a pas réussi, o fulano quer agora apanhar a boleia, generosamente oferecida pelo “SOL”, para dar o salto para uma união qualquer em que a Catalunha e Portugal tenham o mesmo tipo de estatuto. O fulano não percebe, porque não quer perceber, qual foi o preço, em sangue e chatices, da réussite portuguesa. Não percebe, porque não quer perceber, que não é, verosimilmente, possível ou aceitável que as duas nações venham a ter um estatuto semelhante no espaço (geográfico) peninsular.

    Ao contrário do que pensam algumas boas almas, o facto de as duas economias se entrançarem cada vez mais nada tem a ver com a evolução política dos dois estados. Olhem o exemplo do Reino Unido e da República da Irlanda, para o qual muito bem Medeiros Ferreira chama a atenção.

    No aspecto meramente económico a Espanha é, para nós, um mercado de quarenta milhões, sendo nós, para ela, um quarto disso em matéria demográfica, e menos que esse quarto em poder de compra. Se não soubermos aproveitar, é porque somos nabos, não é porque as oportunidades não estejam lá.

    Do ponto de vista político, o que pretendem o “SOL” e o senhor Margallo? Ir buscar ao fundo da história e aos confins das almas nacionalismos canoros e belicosos? Transformar os portugueses em etarras? Dar argumentos aos skin heads, aos comunas e a quejandos? Armar um borburinho onde há paz e concórdia? A idiotia armada em tese política não é coisa que se perdoe.

    “Percamo-nos”, com a Espanha, no espaço europeu, na confederação europeia, na federação europeia, no que aí vier, que alguma coisa virá. Sejamos capazes de explorar as oportunidades que o abater das fronteiras económicas cada vez mais abrirá. Sejamos amigos. Mas não mexamos, meus amigos, em águas que só nos podem afogar.

      

    António Borges de Carvalho

     
  • Uma estreia Promissora

    Sua Excelência o Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, recém eleito, apressou-se a fazer algumas reclamaçõesde de altíssima importância, entre elas avultando a de que, ele, Sua Excelência o próprio, deveria ser membro do Conselho de Estado. E tem Sua Excelência toda a razão! Então, ele, o próprio, a 4ª figura do Estado, não é Conselheiro de Estado? Que horror! Que incongruência! Julgo que todos concordarão que devia ser, de imediato, aberta uma vaga para Sua Excelência, o próprio, no Conselho de Estado. Sua Excelência não explica, certamante por modéstia, à luz de que critério deveria a coisa ser feita: se por inerência, o que implicaria uma revisão constitucional à medida, se por designação da Assembleia da República, o que parece improvável, se por designação do Presidente da República, o que, mais verosimilmente, poderá estar no espírito de Sua Excelência. Um recado para Belém, dirão, se derem pela coisa, os fazedores de opinião.

    Mas mais. Sua Excelência, uma vez eleito, desatou a bombardear à esquerda e à direita, começando pela demolição do “pacto sobre a Justiça” – um chorrilho de asneiras, na douta opinião de Sua Excelência. E ainda mais, que não valerá a pena referir.

    Acresce que Sua Excelência, e muito bem, tem um passado (e um presente?) de activista corporativo, ou sindical, se se quiser.

    No tempo da ditadura, as corporações eram um órgão constitucional que amamentava o partido único. Hoje, são espontâneas, democráticas, e amamentam-se a si próprias, mediante protestos, reivindicações e opiniões. Ser Juiz, nesta óptica, é mais ou menos o mesmo que ser trolha, serralheiro, ou montador de automóveis. Compreende-se.

    A simples circunstância de, entre outros candidatos, ter sido eleito quem foi, diz tudo o que há a dizer sobre o que, realmente, preocupa a corporação.

    A estreia de Sua Excelência não podia ser mais prometedora.

      

    António Borges de Carvalho
  • O Museu Salazar

    Reza um jornal qualquer que, em Santa Comba Dão, umas santas almas vão erigir um museu em honra do doutor António de Oliveira Salazar. Tratar-se-á de recuperar as instalações do senhor, e de musear o seu arquivo, ou aquilo que, do seu arquivo, anda por aquelas bandas.

    Deste humilde cantinho, permito-me fazer uma sugestão: porque não integrar o tal museu, como secção, ou dependência, no museu da República?

    Por muito que custe aos manuéis alegres da nossa praça, o doutor Oliveira Salazar foi o chefe da segunda República. Re-adoptou as cores do partido republicano para a Bandeira Nacional, borrifando-se, como a primeira República, num azul e num branco com oito séculos de História. Re-adoptou, como hino nacional, uma marchinha ultra-patriotiqueira e ultra-republicana. Levou às últimas consequências o patriotismo colonial que tinha sido uma das principais bandeiras do 5 de Outibro. Não consta, além disso, que Craveiro Lopes fosse filho de Óscar Carmona, nem que Américo Tomás fosse filho de Craveiro Lopes, pelo que se deve considerar afastada qualquer hipótese dinástica na chefia do Estado da ditadura. Esta foi uma República, mais nada senão uma República. Restará aos manuéis alegres da nossa praça falar de democracia, blá, blá, confundindo-a com a República, estúpida falácia que, enquanto tal, não carece de demonstração, dado o sem número de repúblicas que são ditaduras, e as inúmeras monarquias que são democracias. E, se os manuéis alegres e quejandos, quiserem argumentar com a obra política e social da primeira república, a fim de a separar da segunda, lembremos, a título de exemplo, que as leis “celeradas” da Monarquia foram repetidas quase ipsis verbis pelos homens do 5 de Outubro[1], que a obra social dos mesmos se saldou pelo esmagamento dos desfavorecidos (de forma bem mais violenta que a usada pelo Salazar) [2], e que o país foi “governado” pelas alfurjas terroristas de Lisboa durante quatorze anos, com dois de ditadura militar pelo meio, para compôr o ramalhete.

    A primeira república foi esta miséria, a segunda uma ditadura tout-court. Ficam bem, muito juntinhas, uma ao lado da outra, no mesmo museu, museu de coisas a não repetir e a lembrar q.b..

    Salazar e Afonso Costa lado a lado, que delícia!

    Num tempo em que se prega, tanto a gosto do dr. Sampaio, a excelência das “virtudes republicanas”, talvez fosse de começar a praticá-las, se é que existem, não falsificando a História.

    Mas isso é coisa de que quem quer ser cego jamais fará.

     

     

    António Borges de Carvalho


    Bibliografia

     [1]  Pulido Valente, Vasco – O Poder e o Povo

    [2] Oliveira, César – O sindicalismo e a Primeira República

     
  • Ai que medo!

    Anda meio mundo aterrorizado com o filme do senhor Al Gore. É caso para isso. Parece que a Terra está a aquecer, o gelo dos polos a derreter, o mar a subir, a terra a secar, enfim, um oceano de desgraças que põem a nossa espécie em risco, augurando um mundo invivível para os nossos filhos e netos. Acresce que a culpa de toda esta miséria é nossa. Ansiosos por viver cada vez melhor, enchemos o ar de CO2, abrimos buracos na camada de ozono, consumimos as reservas do planeta, respiramos, cagamos, fumamos – pecado dos pecados! – sujamos tudo, estamos a dar cabo de tudo.

    Se os conselhos do senhor Gore não forem seguidos, a humanidade acabará em breve.

    A "ecologia" – um negócio bem montado e altamente lucrativo – apoderou-se do planeta. A "ecologia" polui a humanidade com o mais eficaz dos ingredientes: o medo.

    Aqui há dias, uma das minhas netas, depois de fazer xixi, recusou-se a puxar o autoclismo. É que, explicou, se o fizesse, estaria a gastar água desnecessariamente e, por isso, a gastar um bem indispensável à vida e a condenar não sei quantos milhões de pessoas à morte pela sede. As novas gerações vivem no terror do sida, da gripe das aves, do tabaco, da desertificação, e não sei de quantas mais desgraças, devidamente empoladas pelas escolas e pelo filme do Al Gore.

    A aceitar as teses do senhor, devidamente "provadas" perante o público, concluiremos que a nossa vida tem que mudar, e mudar depressa, sob pena de estarmos a acabar com a humanidade.

    Se não estivesse errado, seria, pelo menos, pretensioso. O planeta conheceu as mais diversas eras, glaciares e tórridas, sofreu formidáveis alterações, a era dos dinossauros acabou, sabe-se lá porquê, destruindo toda a vida superior em todo o planeta. Tudo isto se processou ao longo de milhões de anos, sem que houvesse emissões de CO2, sem que ninguém fumasse, sem pesticidas nem insecticidas nem manipulações genéticas, sem que a camada de ozono fosse ofendida, sem que a humanidade, sequer, exixtisse.

    Os dados fiáveis existentes sobre o clima têm uns cento e tal anos, o que, claramente, não chega para tirar conclusões. Um pequeno exemplo: entre 1940 e 1970, a temperatura global baixou. Porquê? Ninguém sabe. Em 1940 havia mais emissões que em 1970? Claro que não. O que são, ou o que provam, cem anos de estatísticas na vida do planeta? Nada. Rigorosamente nada. Zero.

    Há, nestas horrificantes especulações, um problema de escala, que não se ultrapassa com estatísticas.

    Quero dizer com isto que é inútil procurar diminuir a poluição, ou evitar intervenções que, pelo seu volume, ponham em causa equilíbrios sem se cuidar de saber se se podem repor, mesmo que de outra forma? Com certeza que não.

    O que quero dizer é que não é aterrorizando a humanidade com falácias, completamente desfasadas da escala planetária, que se consegue seja o que for, a não ser encher os bolsos do senhor Gore ou de alguém por ele com bilhetes de cinema.

     

    António Borges de Carvalho

  • Quem quer começar?

    Jean François Revel dizia que o liberalismo era o capitalismo segundo a Lei. Dizia também que la démocratie ne connaît que des individus et non pas des communautés ou des groupes.

    Não há um liberalismo sem o outro, isto é, introduzir políticas liberais meramente económicas, mantendo os comportamentos individuais nas baias do dirigismo, é o mesmo que introduzir as regras do futebol num jogo de cricket.

    Ao ver, pelo menos através dos comentadores de serviço – que é o que se vê, os resultados do "Compromisso Portugal", fica-se com a sensação de que, ou os homens do Compromisso nada vêm para além da coisa económica, ou os comentadores de serviço não sabem do que estão a falar.

    Há tempos, estive numa sessão promovida por um estimável movimento que se intitula "Direita Liberal", ou coisa que o valha. Achei que a iniciativa tinha graça e interesse. Mas fiquei abismado, não só pela falta de preparação filosófica e teórica dos intervenientes, como pela vontade, colectivamente assumida, ou de dar ao liberalismo um conteúdo de direita, ou de dar à direita uma máscara liberal. O que, num primeiro comentário, me leva a dizer que os jóvens do tal movimento estão a prestar à esquerda o melhor dos serviços, já que é a esquerda, não mal informada mas maliciosamente desinformadora quem, todos os dias e por todos os meios, procura encostar à direita a filosofia liberal. Quando, na tal sessão, tive oportunidade de intervir, procurei explicar que a direita em Portugal – e não só – sempre foi ferocíssimamente anti-liberal. Isto causou, na sala, um sururu de surpreza e incredulidade. Talvez por isso, nunca mais fui convidado para tais sessões. O que não fará grande mal. Nem eu, ali, mudaria de ideias, nem os meus jóvens interlocutores estariam dispostos a pensar de outra maneira.

    A direita, em Portugal e não só, sempre teve, na sua génese, na sua prática, no seu desenvolvimento e no seu poder, uma matriz declarada e militantemente anti-liberal. Salazar, embora ao contrário dos seus colegas italianos e alemães, não utilizasse a palavra socialismo, praticava-o, sob outras vestes, é certo, mas tendo, como ponto de partida, a mesma condenação do liberalismo, do individualismo e do sufrágio universal como fonte da legitimidade política.

    Nenhuma das formações políticas do pós 25 de Abril fez, a não ser por piada, do liberalismo a sua bandeira. O CDS nasceu democrata cristão, oriundo, portanto de doutrinas mais ou menos eclesiásticas que tinham por fim acabar com os desmandos do liberalismo, conferindo à "pessoa humana" o conteúdo "social" que tanto o individualismo liberal como o colectivismo socialista lhe "roubavam". Quando, em 1985, Lucas Pires se entregou a devaneios liberais, foi de imediato contradito, desapoiado, apeado, quer por freitistas, quer por adrianistas. O PSD, após a uma fase inicial de desmando socialistóide, confessou-se social-democrata, com o conteúdo que cada um queira dar a tal expressão. O PS, após a fase marxista, ainda que de inconfessa forma, passou a social-democrata, não deixando de manter alas ma(r)ximalistas, hoje muito empenhadas em mostrar que, quem manda, são os movimentos "cívicos" e não os representantes eleitos. O PC é o PC, o BE a mesma coisa sob diversos slogans, ou roupagens, se se quiser.

    Então o liberalismo é de esquerda?, perguntar-se-á com toda a pertinência. A resposta é: Não sei. Nos EUA, é. No RU, está ao centro. Pela nossa Europa fora, vai-se metendo, humildemente, pelos interstícios do sistema, ou dos sistemas que procuram alguma viabilidade económica para sobreviver. Está um pouco por toda a parte, e nada em parte nenhuma. Onde não há, de todo, morre-se de fome.

    É evidente que, sob um ponto de vista económico, Portugal tem que se liberalizar, com todas as consequências, algumas más, no curto prazo, outras boas, mas não imediatamente visíveis ou "sentíveis". Disso, nem o mais socialista dos socialistas (de esquerda e de direita) tem a menor dúvida. Simplesmente, num país que, há muitos, muitos anos (pelo menos a partir de 1910) se alimenta de cartilhas, à certeza do diagnóstico não corresponde a aplicação das terapêuticas. Abrem-se torneiras, mas não se liberta o caudal. Do CDS ao PS, que não se fale nas experiências alheias. Nem pensar! Isso dos êxitos da Espanha, do boom irlandês, da riqueza da Finlândia, do "milagre" britânico, tudo não passa de experiências, talvez boas para os outros, mas que, por cá, se não aplicam. Nem a Constituição deixa, nem o "povo português" está preparado para tal. O doutor Salazar raciocinava exactamente da mesma maneira: o "povo português" não está preparado para ir a votos! Com outro guarda-roupa, a peça é a mesma. No que respeita aos partidos comunistas, a questão nem se põe, uma vez que, talvez mais sinceramente que os demais, a cartilha é o que importa: se Cuba e a Coreia do Norte são as desgraças que são, isso deve-se ao inimigo externo – leia-se aos EUA – e não à injusta ineficácia do sistema ou ao universal falhanço da doutrina.

    Para além das formulações teóricas, ninguém, por outro lado, é capaz desta simples verificação: a Liberdade anda de mão dada com o capitalismo liberal. Pode haver capitalismo (não liberal, isto é, fora da rule of law) sem liberdade, mas jamais esta existiu sem aquele.

    Da recusa primária do liberalismo, bem ancastrada na cabeça de cada um e até na Constitução, nasce a recusa de tudo o que possa contribuir para libertar, responsabilizando, o pobre do cidadão (a questão da segurança social é um pequeno exemplo disto). As empresas, os municípios, as organizações "cívicas" são, como toda a gente sabe, Estado-dependentes.

    E cada um de nós? Cada um de nós, a quem é recusado, sob a máscara de "direitos", o mais elementar livre arbítrio? Trata-se de um problema moral, ou sociológico, se se quiser. Mas é tanto ou mais importante que o problema económico. Levará, ou levaria, se para isso houvesse vontade, gerações a resolvê-lo.

    Quem quer começar?

     

    António Borges de Carvalho

  • O túnel I

    O senhor Miguel Coelho, um dos mais successful, dos mais arrogantes e dos mais primáriosaparatchiques do PS, veio exigir a abertura do túnel do Marquês, na parte em que as obras já chegaram ao fim, isto é, das Amoreiras à Rotunda.

    Até aqui, muito bem. Sem disfarçar o incómodo, estou de acordo, julgo que pela primeira vez, com o tal Coelho. Até porque a sua exigência vem provar à saciedade que, apesar da ferocíssima luta que o homem travou contra o túnel, quem tinha razão, como quase sempre, era Santana Lopes: o túnel é uma infraestrutura fundamental e preciosíssima para a cidade.

    O senhor Rodrigues, antigamente conhecido por homem probo, discreto, competente e sério, hoje na mais completa das fossas morais por causa do problema do Audi (que miséria, que nojo!), opõe-se à pretensão do espantoso Coelho. Porquê? Ele lá saberá. Se calhar quer fazer uma festança numa inauguração mais completa e mais próxima das eleições, sem cuidar dos interesses dos munícipes e dos visitantes. E lá obrigou o PSD a votar contra a coelhal pretensão, na extraordinária companhia… do PC!

    O munícipe, para quem a Câmara, as mais das vezes, outra coisa não é senão um inimigo público, não percebe. Tem desculpa. É burro.

     

     

    António Borges de Carvalho
  • O Túnel II

    Já que se fala do túnel, das demoras, das terríveis “ilegalidades”, das prepotências do dr. Santana Lopes – que tinha a lata, imagine-se, de querer cumprir uma promessa eleitoral – dos boicotes políticos da oposição (PS, PC, BE) mascarados de legalismo e de preocupações técnicas e urbanísticas, ocorre-me um assunto ao qual, por ser da maior importância, ninguém liga nenhuma.

    Passo a explicar.

    O conhecido Fernandes, candidato do BE e actual vereador (julgo que com o pelouro dos chatos) comandou uma acção popular contra o túnel. Leia-se contra Santana Lopes. A acção andou pelos tribunais. Acabou por ser considerada improcedente, com trânsito em julgado. Pelo caminho, foram as obras do túnel embargadas, assim ficando vários meses. O custo da paragem cifra-se em vários milhões de Euros.

    Acontece que, se eu embargar uma obra de um meu concidadão, e tal embargo vier a ser considerado improcedente, tem o meu concidadão o direito a ser indemnizado por mim, pelo valor dos prejuízos que lhe causei, e eu a mais estrita obrigação de lhe pagar o que for julgado devido, por acordo ou por sentença judicial. Não é? É.

    No caso do senhor Fernandes, não é. Por iniciativa do chatérrimo senhor, a CML vê-se lesada em milhões, e o senhor continua, calmamente, não só a pagar nadíssima, como a prégar moral a toda a hora.

    Não sei, nem me interessa saber, se, no caso de uma acção popular, o cumprimento da obrigação pode ser legalmente exigido. Mas tenho a certeza de que, em termos morais (não é disso que o senhor Fernandes passa a vida a falar?), a CML e, por via dela, os seus munícipes, têm o mais óbvio e o mais sagrado direito a exigir os milhões que o malandrão e os seus sequazes devem à cidade.

    Qual seja a autoridade e a credibilidade moral do fulano para andar a exigir mundos e fundos a este e àquele, a acusar (às vezes por processos policiescos, muito do agrado do BE e da PIDE) este e aquele de tudo e mais alguma coisa, é matéria que, aos cidadãos e aos criadores de opinião, muito devia interessar, mas não interessa nada.

     

    António Borges de Carvalho
  • Se a minha avó tivesse rodas

    O New York Times publicou uns extractos de relatórios de agências secretas dos EUA, que referem que os riscos de terrorismo continuam a ser fortes, não se podendo afirmar que a política externa do país tenha contribuído para a sua diminuição. Isto é, dizem que os terroristas continuam activos, confessando, implicitamente, a incapacidade própria para antecipar ou controlar as suas actividades com a eficácia desejável.

    A universal bem-pensância, especialista em tiros no pé, interpreta o relatório desta espantosa forma: como o senhor Bush é uma besta, arranjou maneira de aumentar exponencialmente as actividades dos terroristas, sendo sua a culpa, por exemplo, dos atentados de Madrid e Londres, da guerra entre xiitas e sunitas no Iraque, do reaparecimento dos talibãs no Afeganistão, dos míssieis do Hezbollah e da guerra do Líbano, da doutrinação das madrassas, das manobras da Alcaida e, já agora, de todos os males que afligem a civilização.

    Mais. Se, amanhã, uns selvagens quaisquer rebentarem com a Torre Eifel, a culpa será, obvia e evidentemente, do senhor Bush!

    Tudo isto é limpo, cristalino, e não suscita quaisquer dúvidas. A Alcaida, coitada, é uma organização de caridade, o Hezbollah dedica-se à pesca, os ódios entre xiitas e sunitas são uma consequência directa dos exemplos fornecidos pelos cristãos quando se combatiam entre católicos e protestantes, quem sabe se até o Senhor Dom Manuel Primeiro não inspirará a coisa por ter ter expulsado os judeus há quinhentos anos. E, se falarmos de história, também não foi o Islão quem invadiu os reinos cristãos do Ocidente, foram estes quem, por razões religiosas, e para arranjar um pretexto para as cruzadas, excitaram a justa luta daqueles e os levaram a sentir-se obrigados a vir por aí fora. Nos nossos dias, a NATO, ao meter-se na guerra do Kosovo, não estava, como dirão os adeptos do senhor Bush, a defender pelas armas uma comunidade islâmica contra uma cristã. Não senhor, estava simplesmente a defender a utilização das conhecidas reservas de petróleo ali existentes.

    A universal bem-pensância não tem dúvidas nenhumas. Se o senhor Bush não existisse, já o terrorismo islâmico teria acabado há muito tempo. Se o senhor Bush não existisse já os palestinianos tinham feito as pazes com os israelitas, o Hezbollah já se tinha desarmado, o senhor Sadam, socialista da mais fina gema, indefectível democrata, continuaria a governar o seu povo com eficiência e justiça.

    Ontem, o senhor Coelho acusou o senhor Pacheco Pereira do nefando crime de achar que o novo PGR deveria ser escrutinado pelo Parlamento antes de tomar posse. A razão de tal acusação não é a opinião em si, mas o facto de se tratar duma prática em uso… nos EUA! O crime não é ouvir o futuro PGR no Parlamento, é fazer uma coisa que os americanos também fazem!

    Ontem, também, o senhor Silva vem a público, no “Público”, com uma diatrie delirante. Leu (terá lido?) o New York Times, pegou numas partes da coisa, e aí vai disto. Ainda não consegue provar, por razões de calendário, que o 11 de Setembro foi uma consequência directa da invasão do Iraque, mas lá chegaremos.  

     

    Se Bush não existisse, tudo seria um mar de rosas. Se a minha avó tivesse rodas…

     

     

    António Borges de Carvalho
  • Aznar na Parvónia

    O senhor Aznar (RTP, 25/09) não trouxe propriamente nada de novo. O que disse já se sabia. Era a verdade. A Parvónia ouviu-o, mas duvido que tenha aprendido alguma coisa.

    Consta que o senhor Aznar cobra $25,000 (vinte e cinco mil dólares dos EUA) por cada aparição pública. Para a Parvónia, porém, foi de borla.

    A Espanha chegou onde chegou através da política de liberalização do senhor Aznar (diga-se, por razões de justiça, que, timidamente, o senhor Gonzalez já tinha, neste sentido, aberto algumas portas). A Espanha chegou onde chegou porque o senhor Aznar teve a coragem de não ter medo do desemprego – que chegou a números incríveis – e soube separar o trigo do joio, deixar morrer o que não servia para nada, melhorar a competitividade, aumentar a produção, fazer subir todos os índices de crescimento, positivar estes e outros parâmetros que, na Parvónia, enchem inutilmente a boca dos dirigentes e dos intelectuais.

    Ou seja, o senhor Aznar percebeu o que estava em causa e agiu em conformidade. Na Parvónia também se percebe o que está em causa. Mas não se aje em conformidade.

    Para a Parvónia, as cartilhas do socialismo (de esquerda e de direita) continuam a dominar o “pensamento”. As circunstâncias não interessam. A experiência e os resultados dos demais são negligenciáveis. Importante é ser-se anti-liberal, mesmo sabendo de ciência certa que a cartilha não enche a barriga a ninguém.

    O senhor Aznar não tem medo de assumir as suas posições, nem de ser fiel ao seu passado e aos seus amigos. Quando a representante da Parvónia procurou arranjar desentendimentos entre ele e o senhor Bush, Aznar respondeu que sim, que o Bush era um chato porque não o deixava fumar ao almoço.

    O partido do senhor Aznar perdeu as eleições em Espanha. No entanto, toda a gente sabe, embora não o diga, que quem as ganhou foi a Alcaida. Ou não?

    O senhor Aznar vê com tristeza as consequências. Um país democrático que negoceia com terroristas, uma Catalunha que se “desprende”, um povo entretido com querelas “fracturantes”, um governo que, em vez de unir, desenterra fantasmas há décadas esquecidos.

    A Parvónia, esparvoada, admira. Até é capaz de achar que o senhor Sapateiro é um génio. Até é capaz de achar que dar cabo da obra do senhor Aznar é um feito.

    A Parvónia é capaz de tudo, menos de deixar de ser Parvónia.

    António Borges de Carvalho
  • Consultores

    Um tal Dias, fulano que conheci há uns trinta anos, escreve, julgo que semanalmente, no extraordinário jornal que dá pelo nome de “Público”.

    Em baixo, no fim dos artigos, o incauto leitor é informado sobre a profissão do articulista ou, se quiserem, sobre a qualidade em que escreve: consultor. Consultor jurídico? Consultor de engenharia civil? Consultor económico? Consultor fiscal? Consultor quê? Não é, ao leitor, dada a oportunidade de saber perante quem está, embora a inclusão da referência profissional queira inculcar na mente de cada um que o articulista, ou o jornal, e muito bem, querem “informar” o leitor sobre a formação, ou a profissão, de quem escreve. A palavra consultor tem, além de tudo mais, um sabor a isenção, a independência, trata-se de alguém a quem nos podemos dirigir à procura de um parecer técnico, parecer que nos será dado segundo critérios profissionais, com exclusão de quaisquer outros.

    Acontece que o tal Dias é, há mais de trinta anos, uma espécie de chefe das relações públicas do Comité Central do PC. Não se lhe conhece outra actividade nem se sabe qual a sua profissão de origem, se é que a tinha. Mas sabe-se que, se a tinha, desde tenra idade a não exerce. Tudo leva a crer que, se o tal Dias alguma consultadoria pode oferecer, será em marxismo-leninismo, em ditadura do proletariado, em agit-prop, ou outras nobres e equivalentes matérias.

    Que o tal Dias queira desinformar as pessoas intitulando-se consultor, pode compreeender-se. É, aliás, um tipo de “informação” que assenta como uma luva num porta-voz do PC.

    Mas que o “Público” colabore, consciente e propositadamente, em tal e tão desavergonhada aldrabice, é impróprio de um jornal digno desse nome.

     

     

    António Borges de Carvalho
  • Leituras

    Será que o Tavares leu o discurso do Papa? Pensava deixar aqui um apelo ao Núncio Apostólico para que lhe mandasse o texto completo. Pensando melhor, é capaz de não valer a pena.

    Estaremos perante mais um mullah das Avenidas Novas?

     

     

    António Borges de Carvalho
  • Entrar nos eixos

    Boas notícias do “Eixo”. Parece que a dona Ângela entrou em fase de recuo. O “Eixo”, tão laboriosamente construído por esses dois luminares da política europeia que se chamam Chirac e Schroeder, entrou em crise. O senhor Schroeder já foi à vida. O senhor Chirac está quase a voltar a estar a contas com a Justiça. E a dona Ângela parece ter percebido que deixar-se embalar nos doces braços do senhor Putin não é coisa com futuro, sobretudo para quem não pode deixar de ter boa imagem no Báltico e na Polónia.

    A Rússia, em matéria energética, dispõe já de várias facas e vários queijos. As garantias que dá de não interrupção do abastecimento ao Ocidente não terão nenhum significado se não houver, do outro lado, argumentos de tal maneira fortes que contenham indesejáveis manifestações de poder por parte dos putines. Infelizmente, tais argumentos não abundam. Bem pelo contrários, são os russos quem toma posição em indústrias estratégicas ocidentais, chegando ao ponto de já exigir posições na administração da EADS. Os efeitos do “Eixo”, reveladores de evidentes desiquilíbrios, começam a ser inquietantes.

    Nunca foi bonito que os dois países mais poderosos da UE tenham “fundado”, à revelia de parceiros e aliados, alianças informais a leste, ainda por cima passando por cima do “leste próximo” cujos interesses e sensibilidades soberanamente ignoraram.

    Não se pode acusar Moscovo de ter aproveitado as oportunidades que lhe foram oferecidas. Pode, e deve, é acusar-se quem lhe abriu portas sem cuidar das correntes de ar.

    Enfim, saúde-se a tomada de consciência da dona Ângela. Espere-se pelo advento da dona Ségolène ou do senhor Sakozy. A ver se o “Eixo” entra nos eixos.

     

     

     António Borges de Carvalho