Sua Eminência Reverendíssima o Senhor Cardeal Patriarca de Lisboa, Dom José Policarpo, veio há dias declarar que a questão do aborto não era uma questão religiosa. Também acho. O que não entendi, à altura, foi a razão pela qual Sua Eminência vinha fazer tal declaração. É que, se é verdade que o aborto é um problema da sociedade civil em geral, não o é menos que, para a Igreja Católica (julgava eu, na minha estupidez) é, também, ou principalmente, um problema religioso, uma vez que tem a ver com questões dogmáticas que (julgava eu, na minha estupidez) são inultrapassáveis para ela.
Recorri a uma pessoa das minhas relações, versada nestas matérias. Obtive a explicação: Sua Eminência disse o que disse para chamar a atenção dos leigos para o assunto, isto é, para evitar a abstenção dos que, não tendo convicções católicas, poderiam, apesar de ser contra o aborto livre, não ir votar.
Aceitei a explicação, mais por delicadeza que por concordância.
Ontem, porém, ao ler os jornais, a minha incompreensão chegou a insuspeitados píncaros.
Sua Eminência vem dizer:
a) Que não dará indicação de voto às pessoas;
b) Que a abstenção é a melhor solução em caso de dúvida;
c) Que a Igreja não se vai envolver na defesa do Não.
Pergunta a minha estupidez:
a) Como é que Sua Eminência não percebe que está a favorecer o Sim?
b) Se a Igreja não mudou de posição, o que a leva a "defendê-la" desta estranha forma?
c) Porque é que a Igreja, tão activa no último referendo sobre o assunto, desta vez se fecha em copas?
d) O que pensarão os fiéis católicos desta coisa toda?
e) Será que Sua Eminência acha que, lançando a confusão, aumenta as abstenções e, com isso, aumenta as hipóteses de o Não ganhar?
e) Será que as abortadeiras do Bloco de Esquerda e quejandos vão fazer uma manifestação de apoio a Sua Eminência?
E eu? Continuo estúpido, ou haverá alguém me explique a coisa a contento?
António Borges de Carvalho

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