IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


Viva a República!

Em 5 de Outubro, o Senhor Presidente da República proferiu o discurso da praxe, no Largo do Município, perante aproximadamente vinte e oito populares, vinte e sete dos quais passavam ali por acaso, sendo o vigéssimo oitavo tontinho da cabeça. Se não foi assim, teve a aproximação.

Por estas e por outras, os discursos do 5 de Outubro, em anos anteriores, faziam-se a bom recato, dentro das portas da CML, com a sala cheia de convidados de função.

O Senhor Presidente, cheio de fervor, veio à procura do povo, sem perceber que o povo não liga bóia ao 5 de Outubro e que, se é maioritariamente republicano, isso se deve ao facto de não estar para se maçar com mais uma querela política, não por ter alguma estimação pelos gloriosos revolucionários da Rotunda.

O Senhor Presidente veio falar de corrupção, e tem sido louvaminhado por isso, à esquerda e à direita. Fica-me uma sensação de déja vu, mas, por ser parvo, devo estar sozinho.

A outra parte do discurso, de que poucos falam, é muito mais interessante. O Senhor Presidente diz que não quer que o Estado se meta em versões oficiais ou oficiosas da História. Isto, para "não dividir os portugueses".

Quer dizer: ou o Senhor Presidente aceita a versão da História que é politicamente correcto propalar nestas comemorações, acha que está certa, e não quer ouvir quem a põe em causa, o que é grave, ou então o Sehor Presidente sabe que tal versão é um chorrilho de mentiras, e acha melhor não se meter no assunto, o que é gravíssimo.

Em suma, o Senhor Presidente disse coisas razoáveis e coisas originais, só que as razoáveis não eram originais e as originais não eram razoáveis. Por outras palavras, perdeu uma bela ocasião para estar calado. Passe a falta de respeito, se acham que o é. Das suas afirmações pode concluir-se que a verdade, sendo incómoda, podia pôr os portugueses uns contra os outros, à la limite criar alguma guerra civil. O Senhor Presidente não percebe que a verdade sobre a República só incomodaria meia dúzia de saudosistas, mais o vigéssimo oitavo tontinho. Os restantes ficariam agradecidos pelo esclarecimento, e não iam, a correr, pôr em risco a sacrossanta República, ou seja, a estabilidade do presidencial job.

A coisa é retomada por um editorial do Expresso onde, a propósito do discurso e à maneira do dr. Sampaio, se escreve que "a ideia de serviço público desinteressado, o trabalho, a probidade, a honradez são, sem dúvida, valores republicanos…" e que "foi esta cultura de um Estado respeitador e respeitável que guiou os republicanos há cem anos".

Na senda da "análise" ínsita no editorial citado, é legítimo pensar, ou concluir, que é nesta versão da história que o Senhor Presidente não quer que se mexa.

Um regime que nasce do assassinato de um Homem desinteressado, trabalhador, probo e honrado, que se funda e se defende por intermáedio de um "exército" de terroristas, que se sustenta e mantem por via do terror, que persegue, prende, deporta, assassina quem se atreve a vir para a rua reclamar, para além dos seus próprios políticos, que se rodeia, ou deixa rodear por quem não é probo, nem honrado, nem trabalhador nem desinteressado, que "oferece" à Pátria que diz defender um dos mais longos períodos de instabilidade política e de ausência de segurança e de ordem da sua história, que a mete numa guerra que não era sua, que, numa segunda fase, "dá" ao país quase meio século de autocracia provinciana, retrógrada e policial, dificilmente se pode considerar como tendo tendo dado ao país "um Estado respeitador e respeitável".

Enfim, a verdade é uma coisa, a história oficial é outra. E o melhor, na opinião do Senhor Presidente, é não mexer na… História. Pode cheirar mal.

 

António Borges de Carvalho



Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *