O New York Times publicou uns extractos de relatórios de agências secretas dos EUA, que referem que os riscos de terrorismo continuam a ser fortes, não se podendo afirmar que a política externa do país tenha contribuído para a sua diminuição. Isto é, dizem que os terroristas continuam activos, confessando, implicitamente, a incapacidade própria para antecipar ou controlar as suas actividades com a eficácia desejável.
A universal bem-pensância, especialista em tiros no pé, interpreta o relatório desta espantosa forma: como o senhor Bush é uma besta, arranjou maneira de aumentar exponencialmente as actividades dos terroristas, sendo sua a culpa, por exemplo, dos atentados de Madrid e Londres, da guerra entre xiitas e sunitas no Iraque, do reaparecimento dos talibãs no Afeganistão, dos míssieis do Hezbollah e da guerra do Líbano, da doutrinação das madrassas, das manobras da Alcaida e, já agora, de todos os males que afligem a civilização.
Mais. Se, amanhã, uns selvagens quaisquer rebentarem com a Torre Eifel, a culpa será, obvia e evidentemente, do senhor Bush!
Tudo isto é limpo, cristalino, e não suscita quaisquer dúvidas. A Alcaida, coitada, é uma organização de caridade, o Hezbollah dedica-se à pesca, os ódios entre xiitas e sunitas são uma consequência directa dos exemplos fornecidos pelos cristãos quando se combatiam entre católicos e protestantes, quem sabe se até o Senhor Dom Manuel Primeiro não inspirará a coisa por ter ter expulsado os judeus há quinhentos anos. E, se falarmos de história, também não foi o Islão quem invadiu os reinos cristãos do Ocidente, foram estes quem, por razões religiosas, e para arranjar um pretexto para as cruzadas, excitaram a justa luta daqueles e os levaram a sentir-se obrigados a vir por aí fora. Nos nossos dias, a NATO, ao meter-se na guerra do Kosovo, não estava, como dirão os adeptos do senhor Bush, a defender pelas armas uma comunidade islâmica contra uma cristã. Não senhor, estava simplesmente a defender a utilização das conhecidas reservas de petróleo ali existentes.
A universal bem-pensância não tem dúvidas nenhumas. Se o senhor Bush não existisse, já o terrorismo islâmico teria acabado há muito tempo. Se o senhor Bush não existisse já os palestinianos tinham feito as pazes com os israelitas, o Hezbollah já se tinha desarmado, o senhor Sadam, socialista da mais fina gema, indefectível democrata, continuaria a governar o seu povo com eficiência e justiça.
Ontem, o senhor Coelho acusou o senhor Pacheco Pereira do nefando crime de achar que o novo PGR deveria ser escrutinado pelo Parlamento antes de tomar posse. A razão de tal acusação não é a opinião em si, mas o facto de se tratar duma prática em uso… nos EUA! O crime não é ouvir o futuro PGR no Parlamento, é fazer uma coisa que os americanos também fazem!
Ontem, também, o senhor Silva vem a público, no “Público”, com uma diatrie delirante. Leu (terá lido?) o New York Times, pegou numas partes da coisa, e aí vai disto. Ainda não consegue provar, por razões de calendário, que o 11 de Setembro foi uma consequência directa da invasão do Iraque, mas lá chegaremos.
Se Bush não existisse, tudo seria um mar de rosas. Se a minha avó tivesse rodas…
António Borges de Carvalho

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