IRRITADO

Um blogue de António Borges de Carvalho

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


  • Grande País!

    Ficaria mal à incompetentíssa (ou…) equipa de arbitragem que valida golos metidos com a mão à vista de toda a gente pedir aos lesados e a nós todos desculpas pelo sucedido?

    O que vejo é um jogador do Sporting a dizer que está tudo OK, e umas “autoridades” quaisquer a dizer que os árbitros em causa são magníficos e que vão continuar a sua obra sem mais problemas.

    Que país é este? Portugal.

    Que futebol é este? O Português.

    E pronto.

     

    António Borges de Carvalho
  • Independência

    Ao longo dos últimos dias, o patego espectador da televisão tem sido brindado com a publicidade relativa ao lançamento do “SOL”.

    Até aqui, tudo bem.

    O problema é que tal publicidade é ilustrada com uma, ao que julgo inexistente, primeira página do dito jornal, onde avulta uma monumental fotografia do senhor Pinto de Sousa (Sócrates) e uma manchete que reza “Sócrates imparável”. Ou seja, à borla, o senhor Pinto de Sousa (Sócrates) apanha com um banho de triunfal publicidade à custa dos pobres compradores do nóvel semanário.

    Sabida que é a apetência do partido do senhor Pinto de Sousa (Sócrates) pela manipulação da informação, talvez tal publicidade se deva a uma espécie de sangria em saúde por parte do plumitivo, como quem diz dou-te esta publicidadezinha, e, em troca, não me chateias, OK?

    Ou então, então não sei, talvez seja esta a independência do “SOL”, eventualmente inspirada pelo senhor Lima.

    António Borges de Carvalho

  • Parecer de um laico

    Já toda a gente (toda?) percebeu que, afinal, o Papa fez um discurso académico em que (auto) criticava a sua igreja, ao mesmo tempo que defendia a compatibilidade entre crença e razão, e dizia não à violência em nome de Deus.

    Nada, absolutamente nada, do que disse, continha qualquer ofensa ao que se chama Islão, ainda menos qualquer ideia de superioridade ou de desprezo em relação a tal entidade.

    Compreende-se que a barbárie islâmica tenha aproveitado para fazer um xarivari dos diabos. Estão ali para isso. São niilistas, querem a guerra pela guerra, a morte pela morte, e compram as ideias de condotieris auto iluminados que, com cobertura religiosa, defendem interesses e estratégias de poder que pouco têm a ver, para além do primitivismo, do atrazo e da ignorância das massas que atiram para a rua, com crenças religiosas ou justas reclamações em relação ao que se chama Ocidente.

    O mais grave, porém, é a reacção imediatista, sensacionalista e acrítica dos media ocidentais. Foi tal o barulho, não dos “protestantes”, que fizeram as habituais encenações para “ocidental” ver, mas dos órgãos de informação do lado de cá, que a ninguém informaram de forma a que fosse dado perceber, ou sequer poder analisar, o que, na verdade, se passou. Os nossos órgãos de “informação” tão só trataram de, pressurosamente, isolar uma citação feita pelo Papa em tom crítico, fazendo dela o conteúdo ideológico do discurso.

    Eu próprio, ao ver as primeiras notícias sobre o assunto, achei estúpido, ilógico, irracional e imprudente que o Papa se tivesse pronunciado como eu era “informado” que o tinha feito.

    Afinal, toda, mas toda a “informação” veiculada pela televisão e pela imprensa era falsa e manipulada de acordo com os interesses da barbárie.

    Aos poucos, as coisas foram-se clarificando. Só faltaria acontecer o que não vai acontecer: o público pedido de desculpas por parte das RTP’s e quejandos, necessáriamente acompanhado dos respectivos pedidos de demissão dos seus excelentíssimos e intocáveis directores.

    António Borges de Carvalho
  • Odete, a magnífica

    Em antena, dona Odete Santos, mais aquela senhora da pastinha na testa que é a nova patroa do PSD em Lisboa. Não vi tudo. Fugi. Odete cospe um ódio de tal maneira concentrado, refinado, em estado puro, sem misturas, sem cambiantes, um ódio total, retorcido, seco, duro, profundo, um ódio elaborado, aboborado em anos e anos de educação, ódio de madrassa, ódio de quem recusa tudo o que não seja o que vem num livro qualquer, ou o que leu num livro qualquer, ou que lhe instilaram, anos e anos a fio numa escola qualquer. Ódio que recusa a civilização, que propõe a barbárie, que recusa terceiros, que parte de uma verdade única e total. Ódio virulento, que tudo torce, tudo inverte, tudo questiona a não ser o próprio ódio. Ódio que não é cego, que sabe o que quer destruir, que de mais nada cuida senão de si próprio, ódio da estirpe do fascismo islâmico, cuspido, atirado à cara dos outros, agressivo, sem escrúpulo, acrítico, ódio que não é estúpido, é pensado, niilista, fundamental, ódio de escola, de formação, de afirmação, de escarro sobre quem dele não partilha.

    Para a senhora, as torres gémeas não caíram, três mil pessoas não morreram, nada há a lembrar a não ser Salvador Allende e o seu 11 de Setembro. Pinochet e Fidel não são duas faces da moeda do totalitarismo, não senhor, Fidel é um santo, Pinochet um demónio. Kim Jong Il é um herói, Pol Pot um traidor. Não, não houve nenhum atentado em 11 de Setembro, em Nova Iorque, houve tão só, noutro ano, muito antes, a invasão do palácio onde, em Santiago, fervilhava o socialismo real.

    Há momentos em que a natureza do PC, habitualmente enroupado em democráticas vestes, vem ao de cima na sua crueza, na sua verdade, no seu ódio mortal à democracia, a quem a representa e a quem gosta de viver nela. Nesta medida, fiquei grato à Odete. É que, no clima pastoso em que vivemos, podemos tender a esquecer quem é quem, e quem quer o quê.

    António Borges de Carvalho
  • Valha-me São Pancrácio!

    Andam para aí uns turistas políticos a perorar sobre o “plafonamento” da segurança social do Estado, responsabilizando cada um pelo seu próprio futuro. Por outras palavras, do que se trata é de encarregar o Estado de prover, via descontos obrigatórios durante a vida “útil”, para uma vida “inútil” minimamente digna, deixando a cada um o ónus de aumentar, por esforço próprio e voluntário, os seus proventos em tal período.

    Sacrilégio!

    Não, meus senhores, os portugueses têm, obrigatoriamente, de comer o que o Estado lhes quiser dar. Se quiserem mais, que se sacrifiquem! Ser responsáveis é que não!

    O que os turistas da política propõem seria, a prazo, uma profunda revolução cultural, quer dizer, se cada um tivesse a liberdade, sem aumento de custos ou com eles (uma decisão individual, que horror!), de decidir sobre o seu futuro, em causa ficaria aquilo para que todos nós trabalhamos e que tão caro pagamos: o sacrossanto socialismo. Mutatis mutandis, o mesmo socialismo que o doutor Salazar, com outras roupagens, defendia e praticava.

    Como o fim primeiro do Estado, em Portugal, não é o de, garantindo um mínimo, libertar as pessoas para que cada um atinja, nos limites da Lei, o que as suas capacidades e sua vontade conseguirem, ficam os cidadão prisioneiros do espartilho em que o chamado Estado Social os contém.

    O senhor Pinto de Sousa (Sócrates) foi peremptório: o socialismo, mesmo falido, é para continuar.  

    Depois, criticam os portugueses por ser subsídio-dependentes, por não ter iniciativa, por esperar do Estado tudo e mais alguma coisa. Valha-me São Pancrácio! Pois se é esta a filosofia do Estado!

     

    António Borges de Carvalho
  • Casas para o Povo!

    Li, num jornal qualquer, que há, em Portugal, mais habitações per capita do que na Alemenha. Não fiquei surpreendido.

    A República, nas suas duas primeiras versões, ou seja, desde os seus tristíssimos quão repugnantes primórdios, dedicou-se à nobre tarefa de destruir o mercado de arrendamento. Na sua terceira versão acabou com ele em definitivo.

    Em paralelo com esta nobre missão, a III República convenceu os portugueses de que, ou compravam uma casa, ou não eram gente. Desenvolveu incentivos vários ao endividamento imobiliário, criou condições óptimas para que a banca visse no respectivo crédito o negócio dos negócios e, mantendo as rendas antigas ( a recente reforma do arrendamento é uma máquina de aumentar os impostos, não uma “reconstrução” do mercado), provocou uma inflação brutal nas novas, empurrando por essa via, ainda mais, para a  “necessidade” de ter casa própria.

    As poupanças dos portugueses, ao contrário das dos alemães, foram desviadas da economia, o mercado de capitais nunca se democratizou, e todos, a começar pelos felizes proprietários de um andar hipotecado ad aeternum, sofremos com isso.

    Os portugueses vão tendo cada vez mais casas e ficando cada vez mais tesos.

    Não há pior cego do que o que não quer ver. Nesta matéria, o governo do senhor Pinto de Sousa (Sócrates) é mestre.

    António Borges de Carvalho

  • Consensos

    Quando as pessoas querem fazer o que gostavam de fazer, mas não podem, entretêm-se com palavras. Querem descansar a consciência, talvez cumprir promessas, inventar ou re-inventar um poder a que se julgam com direito, dar conteúdo ao que pensam vazio, dar-se importância, ver-se ao espelho dela.

    Não sei se é isto o que se passa com o neo-central bloquismo do Senhor Presidente. Se não é, parece. Havia um tipo que dizia que, em política, o que parece é. Talvez tivesse razão.

    O doutor Cavaco Silva desdobra-se, por isto e por aquilo, em propostas de consenso entre o PS e o PSD.

    Talvez tenha razão no que propõe. Talvez haja reformas que devam ser feitas com garantias de longo prazo.

    Mas, para um velho que, como eu, recorda que o doutor Cavaco:

    a) fez campanha, em 84/85, contra o bloco central;

    b) construiu o seu poder por via da contestação, e da condenação, do bloco central;

    c) se fez eleger como líder do PSD porque bateu, dentro do partido, os adeptos do bloco central;

    d) tomou, como primeira missão da sua vida de líder político, a destruição do bloco central;

    e) destruiu o bloco central;

    f) afirmou, por várias formas e modos e métodos, a perversidade do bloco central;

    g) etc.,

    não deixa de ser interessante ver:

    Ou o que os cargos fazem às pessoas, ou que a coerência é uma batata, ou que as conveniências, em certas pessoas, são prevalentes, ou que a sede de protagonismo é inelutável, ou o que é a apetência pelo poder, ou, ou, ou.

     

    Quando terá este pobre país um Presidente que perceba a sua função, mais, que entenda a sua função pode ser muito mais útil se não se meter onde não é chamado? Sabe-se que um Presidente não é um Rei, nem lhe pode chegar aos calcanhares. Mas há, por essa Europa civilizada fora, alguns presidentes que imitam bem, e que conseguem dignificar o seu mister e o seu país.

    António Borges de Carvalho
  • Sujeiras

    Na página 8 da edição de 1 de Setembro do "Público", encontramos um mimo de pusilanimidade jornalística. Dona Esther Mucznik publica um artigo, aliás bem escrito, bem fundamentado e credível. Nele tece a dita senhora alguma considerações sobre certas manifestações públicas de islamitas em Londres, onde cita a fraseologia dos cartazes: Europe you will pay, Your 9/11 is on it’s way!!, Be prepared for the real Holocaust!, Islam will dominate the World! e Freedom go to hell, são algumas das mimosas e exemplares frases presentes em tais cartazes.

    Muito bem. A este respeito, o que faz o "Público"? Ilustra o artigo com uma fotografia de uma manifestação onde os cartazes rezam Stop Israeli crimes in Lebanon, Boycott Israel, à mistura com fotografias do ilustre líder do Hezbolah, e mimos do género.

    Isto é, para se sangrar em saúde do crime de publicar um artigo não alinhado com a nacional e internacional cobardia em face do fundamentalismo islâmico, o inenarrável plumitivo tem que dar uma na ferradura, já que cedeu à entrada do cravo. Pior. Como a maioria dos leitores não lerá o texto de Esther Mucznik, o que fica na cabeça dessa maioria é a imagem dos europeus chamberlainianos favoráveis à barbárie, e não as sábias palavras da senhora. 

    As pessoas que não têm cara, ou que têm vergonha da cara que têm, ou que não têm vergonha na cara, procedem assim, a mostrar à saciedade a miséria moral de um jornalismo cobarde e ordinário.

    António Borges de Carvalho

  • Limpezas

    Na mesma edição, o mesmo inefável "Público" dedica chamada de primeira página à festa do seu colega "Avante!", à qual dedica nada menos de três páginas inteirinhas – a 2, a 3 e a 4! – recheadas de parangonas laudatórias, de elogios rasgados, dando ao público (ao respeitável, não a si próprio) a clara noção de que se trata de um evento da mais alta valia democrática e cultural, de uma festa da liberdade, enfim, só faltando oferecer bilhetes às pessoas para que não deixem de se deslocar a tão fantástica quão imperdível manifestação.

    É sabido que o director do "Público" passa a vida, coitado, a ser acusado dos mais horríveis crimes por ilustres democratas – jornalistas cheios de independência, democratas da mais fina gema, tipo Ruben de Carvalho. Não precisava, porém, de ir tão longe, se é que a intenção é a de se lavar de tais acusações (outra se não vislumbra que justifique a coisa), aceitando-as por boas, como é bom de ver. Três páginas – três, as mais importantes do jornal, mais a chamada de primeira página, de louvaminhas e vassalagens, sob a máscara, como é óbvio, de um estilo jornalístico-informativo digno da melhor escola salazarista.

    António Borges de Carvalhp

     

  • Concertações

    A fim de "concertar" os contornos da missão militar portuguesa no Líbano, o PM Pinto de Sousa (Sócrates) vai reunir com o PR Cavaco Silva. O país contempla, e acha bem, já que a informação de que dispõe não opina de outra forma.

    Permitam-me que, deste humilde cantinho, me revolte contra a coisa:

    Primeiro, porque nada, na Constituição ou na Lei, prevê tal "concertação".

    Segundo, porque a decisão de participar na força da ONU já foi tomada. Se já foi tomada sem consulta ou "autorização" do PR, então porque carga de água vai o PM "concertar" a coisa com ele? Será que o PR, além de armado em "comandante", agora também se debruça sobre questões técnico-militares? Não tem a ver com a decisão de participar, mas é ouvido para opinar se se deve mandar uma fragata, um batalhão de engenharia ou uma ambulância?

    Compreender-se-ia que o governo, por uma questão de cortesia, isto é, sem a tal ser obrigado pela Constituição, ouvisse a opinião do PR sobre se devemos, ou não, integrar a força da ONU. Se tal não foi tido por útil, e se a decisão foi tomada pelo governo não tendo ao PR sido dada outra oportunidade senão a de dar, para português ver, alguns anodinos conselhos, então porque carga de água se vai "concertar" com ele os contornos da coisa? Ou o PR aceita a "desautorização" que a decisão representa, ou representaria se ele tivesse autoridade na matéria, e então "come" as sobras, sendo consultado, não para decidir mas para acertar pormenores, ou então teremos que chegar à conclusão de que o PR é uma espécie de conselheiro técnico do Governo, situação em que o espertalhuço do PM parece querer colocá-lo e que ele parece querer aceitar.

    Pode argumentar-se que, se as coisas vão passar pelo Conselho Superior de Defesa Nacional, então o Doutor Cavaco, como seu Presidente, terá que ser informado sobre as matérias que nele irá discutir. Porém, o CSDN não é mais que isso, um conselho que aconselha, não uma instância que decide. E o PR, nele, também não é mais do que isso, um chairman  a quem não compete qualquer decisão.

    Continuamos, pois, a fomentar a confusão institucional que o dr. Sampaio inaugurou quando, com o consentimento do dr. Barroso, se armou em "Comandante". Coisa que é, não só claramente inconstitucional, como aponta para indesejáveis conflitos, num momento, não de todo imprevisível, em que as duas partes (PR e PM) tenham opiniões opostas.

    A ver vamos se não é desta.

     

    António Borges de Carvalho   

     

  • Independências

    Quando uma pessoa se depara com os protestos do senhor Cintra Torres e do Doutor Correia Guedes (Pulido Valente) sobre a manipulação da RTP pelo Governo do senhor Pinto de Sousa (Sócrates), não é possível deixar de pensar que não se está assistir a nada de novo. O PS é igual a si próprio. Foi sempre assim. Agora que uma maioria absoluta o enche de vento, o que é que os senhores queriam?

    Talvez valha a pena recordar que foram os governos do PSD quem, institucionalmente, politicamente, de jure & de facto, "libertou" a televisão pública das grilhetas do governo.

    A coisa durou pouco, se é verdade o que dizem aqueles dois senhores, por certo bem melhor informados do que eu.

     

    António Borges de Carvalho

  • Qualidade à portuguesa

    Num jornal qualquer, vinha hoje, ou ontem, incluído um luxuoso pasquim intitulado "Qualidade".

    Isto trás-me à memória um episódio sobre o qual nunca tinha pensado escrever.

     Aí vai:

    Aqui há uns tempos, a distintíssima Câmara Municipal de Lisboa, para licenciar umas obrecas num T1, obrigou-me a requintes de projectos de especialidades e afins. Compreende-se, um T1 é obra! Entre aqueles, contava-se o projecto de instalações de gás, o qual, dada a inegável transcendência técnica da sua elaboração, tinha de ser aprovado por uma coisa que, salvo erro, se chama Instituto Português da Qualidade. Lá tive que contratar um engenheiro devidamente credenciado na matéria e, um mês depois do dictat camarário, fui (há testemuhas!), pletórico de entusiasmo, com o projecto debaixo do braço, ao tal instituto.

    Fica o dito ali para Oeiras, num destes sítios recentemente urbanizados que não fazem parte do mapa de um velho lisboeta. Trata-se de uma construção de gosto duvidoso, pelas minhas contas para aí com uns 25 anos, sem manutenção exterior de nenhuma espécie. À entrada, um portão aberto e uma baiuca com um guarda.

    – Alto aí, onde é que pensa que vai? – gritou o fulano.

    – Vou ao Instituto Português de Qualidade! – gritei eu.

    Os gritos justificam-se pelo facto de as pessoas, como é de norma, entrarem com os carros pelo lado direito, e a baiuca estar, muito inteligentemente, do lado esquerdo, a uns bons sete metros. Chovia que Deus a dava, e não me apetecia nada apanhar uma carga de água para ir à baiuca explicar a minha, humilde quão honesta, pretensão. Mas, que remédio, lá tive que ir explicar as coisas ao senhor guarda, o qual, como é óbvio, jamais sacrificaria a sua qualidade de vida deslocando-se até mim, inda por cima à chuva.

    Conseguida a benesse da autorização para entrar, dei comigo, depois de arrumar a viatura no local indicado pelo guarda – não, esses são para o pessoal, as pessoas vão para ali!, tinha o homem decretado, indicando-me o melhor sítio para quem quisesse apanhar mais um bom duche, dei comigo, dizia, diante de uma porta de vidro, meia desengonçada, onde, sob o respectivo alpendre, se amontoavam caixotes e caixas de cartão em quantidades consideráveis.

    Entrei num hall onde a floresta de caixotes continuava a dar-me as boas vindas. Sacudi as águas pluviais que escorriam pelo fatinho e dirigi-me ao elevador. Carreguei no botão. A porta abriu-se e, lá de dentro, saíu uma senhora que, com ar aterrorizado – parecia que tinha visto um bicho – me disse:

    – Ai, o senhor não se meta nesta coisa! É um perigo!

    E fugiu a sete pés pela escada acima.

    Dando mostras de pouco comum bravura, entrei no elevador. Carregeui no botão. Gemendo nas corrediças, a porta fechou-se atrás de mim. O elevador, após uns sobressaltos mecânicos, arrancou. Vai daí, em vez de parar no terceiro andar, só o fez no quarto. Lá me enganei no botão, pensei, com a humildade que me caracteriza. Carreguei no botão que tinha um 3 escrito. Desta vez, o elevador protestou. Deu três pinotes, e aí vai ele por aí abaixo, até ao rés do chão. Diga-se em abono da qualidade da coisa que, para aí à quinta tentativa, acabou por me obececer, não sem mais protestos de serralharia.

    Orgulhoso por ter, assim, dominado a rebelde máquina, entrei no terceiro andar com o precioso projecto debaixo do braço. Já não sei quem indicou-me a menina a que me devia dirigir. A pobre pequena não devia ser daquelas que têm lugares dos bons para o carro. Estava numa espécie de saguão, onde mal cabia uma secretária. Não tinha porta, nem um sítio para o respeitável público se sentar. Como não havia outros cidadãos para ser atendidos, concluí que a coisa ia ser rápida. No entanto, a menina estava ao telefone. Olhou-me com um desprezo de gelo, e continuou a conversa de serviço em que estava empenhada. Fiquei a saber a que boite tinha ido na véspera, bem como as tentativas de aproximação de diversos cavalheiros interessados – que levaram com os pés, claro, tás a ver, filha, não é, não queriam mais nada!

    Facto é, há que confessá-lo, que a menina acabou por me atender. Lá deu entrada ao complicadídssimo projecto do gás. Vitória!

    – Dentro de umas semanas recebe a resposta.

    Agradeci penhorado e, felicíssimo por mais este triunfo a somar-se aos muitos da minha vida, retirei-me com toda a dignidade, desta vez pelas escadas.

    Para cúmulo da felicidade, quando passei pelo guarda e lhe acenei com um sorriso, o tipo respondeu com o seu melhor esgar.

     

    E assim, a revista "Qualidade", entregue com o jornal, foi direitinha para o caixote.

     

    António Borges de Carvalho

  • Dona Constança

    Dona Constança Cunha e Sá insurge-se, salvo erro no "Público", contra o apagamento político de Sua Excelência o Presidente da República. Na opinião da distinta senhora, o PR mais não faz que pescar popularidade em acções inconsequentes e sem nenhuma importância, em vez de tomar as necessárias medidas para, em consonância com a sua campamha eleitoral, fazer sair o país da miséria em que se encontra, transformar o Estado numa coisa mais credível, mais fiável, mais útil e menos pesada, etc. etc, blá blá blá.

    Tem a dona Constança toda a razão. Só que o que está errado é fazer campanhas eleitorais com base no prometido exercício de poderes que se não tem, não é não os exercer, pelo simples facto de os não ter.

    Expliquemo-nos: o PR não tem qualquer tipo, ou sombra, de poder executivo. Cabe-lhe nomear uns altos funcionários, por proposta do Governo – podendo, por isso, exercer esse poder pela negativa -, cabe-lhe presidir a umas coisas, como o Conselho de Estado ou o de Defesa Nacional – onde nem sequer tem voto de qualidade, e pouco mais. Cabe-lhe vetar umas coisas, quando entenda, mas nem sequer pode levar a sua até ao fim, caso o Parlamento lhe dê com os pés. Tem, é certo, o poder de dissolução, coisa que não se faz no dia a dia e que é legítimo pensar não dever ser usada sem grave crise parlamentar – neste aspecto o golpe de Estado constitucional do dr. Sampaio não deve, ou não devia, servir de precedente. Até do ponto de vista militar é preciso torcer por completo a Constituição para dar ao Comando Supremo das Forças Armadas outro conteudo que não o que, lapidar e claríssimamente, nela se encontra definido, quer dizer, limitado.

    Se, em Portugal, houvesse um republicanismo mais inteligente, menos culturalmente obtuso, e menos "francês", o Presidente seria eleito no Parlamento, como acontece nas repúblicas modernas e civilizadas, sendo-lhe conferidas funções "reais", e não avatares de "poder" e mezinhas idiotas destinadas a "justificar" a eleição por sufrágio universal, a duplicação das legitimidades populares, a desresponsabilização dos governos, e por aí fora.

    É certo que surgiram, em plena campannha eleitoral, alguns neo-presidencialistas, eventualmente inspirados em regimes sul-americanos ou no esgotadíssmo modelo da V República francesa. Possuídos de nóvel sanha cavaquista, estes senhores queriam que o seu (quantas vezes desde a véspera) grande líder, tivesse os poderes que, na sua errónea suspeição eleitoral, julgariam úteis. Facto, porém, é que não os tem.

     

    Um "bom" Presidente, no respeito pela Constituição e para nosso bem, não pode deixar de ser um digno representante da República – nos termos constitucionais, não o é, nem da Nação, nem do Povo, nem dos Portiugueses, muito menos de todos eles – e pouco mais, ou mais nada. Se presidir com dignidade a uns desfiles, se der uns beijinhos às crianças, se for a umas inaugurações, se fizer uns discursos patriótico-culturais, se souber comer à mesa, se se ajeitar a fazer o nó da gravata, se falar inglês e francês, chega, e é preciso. Se se começar a meter o bedelho onde não é constitucionalmente chamado, então, pior que um peso morto, torna-se um trambolho do regime.

     

    Dona Constança Cunha e Sá põe as coisas de pernas para o ar. O actual Presidente, se tem pecado, é por excesso, não por defeito.

     

    António Borges de Carvalho

  • Coelho, o obscuro

    Nas mais recônditas profundezas da política portuguesa havia um senhor, de nome Coelho, que ninguém conhecia, mas que era perito em puxar cordéis por dentro do PSD. Um aparatchik, um profissional acabado. A certa altura, porém, alguém achou que o partido estava farto do fulano e deu-lhe um pontapé pela escada acima. O homem homem passou a frequentar aviões a jacto, e a mostrar-se nos corredores de Bruxelas e Estrasburgo. MPE, pois então! RH! Honorevole!

     

    Até aqui, tudo bem. Um percurso impecável, comum a outras gentes. O pior é que o nosso Coelho tanto se mostrou, tanto trabalhou nos corredores – a sua especialidade – que acabou, calcule-se, em Presidente da Comissão Encarregada de Investigar os Voos da CIA que Transportavam Terroristas, Suspeitos e Similares para Locais Desconhecidos (não sei se é assim que se chama, mas tanto faz). Olaré. O nosso homem passou a ser importante. Ao fim de vinte anos, ou mais, de vida política, ei-lo que salta para as páginas dos jornais. Ele é declarações bombásticas. ele é lições de moral a estes e àqueles, ele é investigações, relatórios, comunicados, ele é a dona Ana – aplicada, e requentada discípula do camarada Arnaldo Matos – em histéricas declarações e aplausos, irmanada com o colega do PSD, em repenicada demonstração das virtualidades do Bloco Central(!!!???), ele é uma presença diária nos media, enfim, um fartote. Coelho aparece na CNN, na BBC, é citado no Financial Times, no Le Monde, no Herald Tribune! Um az!

    A CEIVCTTSSLD produz o seu relatório, para gáudio dos novos Chamberlaines, dos comunas, dos BEs, da internacional bem-pensância, dos adeptos do senhor Castro, do senhor Il, do Amadinejá, do Hassad, do Laden e quejandos. Pois então! Parece que havia aviões de um aliado a ser abastecidos nos aeroportos dos aliados do aliado, sem que se soubesse exactamante, mas se pudesse calcular, quem eram os passageiros que transportavam. E, se fossem suspeitos de terrorismo, como os membros da CEIVCTTSSLD, e muito bem, achavam, então que se investigasse e punisse o hediondo crime de deixar passar, ou aterrar as aeronaves dos aliados do aliado nos respectivos aeródromos. Nem mais.

    É que Coelho, o obscuro, tem que deixar de ser obscuro. Seja à custa do que for!

    Por cá, o DN vem dizer que o senhor Pinto de Sousa (Sócrates) se está nas tintas para os ditames do senhor Coelho e da dona Ana. O DN enganou-se. No mesmo dia, o senhor Costa diz que não, que está à espera da formalização das coelhais exigências para, então, considerar. Mas que, acrescentou, o ilustre governo que temos tem dado todas as informações que lhe têm sido pedidas, pensa-se que pelo senhor Coelho.

     

    A ver vamos os próximos capítulos desta desgraçada novela. Na certeza, porém, de que o principal objectivo da presidência da coisa (a CEIVCTTSSLD), ou seja , a saída de Coelho, o obscuro, das mais recônditas profundezas da política portuguesa – e internacional! – já foi brilhantemente conseguido .

    António Borges de Carvalho

  • Férias

    O blog tem estado parado. O verão tem sido óptimo, a paciência pouca. Para ocupar o bestunto, com o calor que esteve, pus-me a ler. Dos livrinhos que fui consumindo, uns bons outros péssimos, há um que recomendo: !"Shalimar o Palhaço" de Salman Rushdie.

    Antes de mais, uma palavrinha para a tradutora: parabens! Não sei quem a senhora é, mas, para um desgraçado como eu que se irrita com as traduções que por aí andam, as mais das vezes feitas por quem nem português sabe, nem a língua que traduz, nem o sentido do que está a traduzir, esta tradução é um raríssimo achado. Pena que a senhora pratique um certo tipo de erros (infinitos no plural e coisas no género) mas, de um modo geral, a tradução é magnífica.

    O livro é uma saga indo-paquistaneso-ocidental escrito por quem domina as mais apuradas técnicas do discurso romanesco. Mas, para além da qualidade literária e da história, ou das múltiplas histórias que conta, o autor escalpeliza as verdadeiras raízes e a natureza autêntica do fundamentalismo islâmico. Num mundo que parece querer recusar-se a compreender quem é o inimigo, e porque actua como actua, a leitura de Shalimar o Palhaço é qualquer coisa de extremamente importante.

    A não perder. Ajuda imenso a tirar a cabeça da areia.

     

    António Borges de Carvalho

  • A loucura no poder

    Rezam os jornais que entra hoje em vigor o Novo Regime do Arrendamento Urbano, mais uma preclara inicitiva do governo do senhor Pinto de Sousa (Sócrates).

    Aparecem os nabos do costume a perorar sobre o assunto: um tal Metelo, ao que parece representante de uns senhorios, e um outro cujo nome me escapa e que diz representar “os inquilinos”. Conheço vários proprietários sem que nenhum deles seja filiado do senhor Metelo, e inúmeros inquilinos que nem sabem quem é o outro. Antes de mais, conviria que alguém puzesse a questão de saber a que título e com que legitimidade aparecem tais nabos com direito de cidade e de antena, a representar quem, evidentemente, não representam.

    Bom, deixemo-nos de fait divers. Eles lá sabem, e pronto.

     

    Importante seria fazer umas continhas antes de começar a tirar conclusões e, por maioria de razão, antes de começar a legislar.

     

    Dizem os entendidos que há 420.000 fogos com rendas antigas, não sei se no país se só em Lisboa. Os mesmos entendidos dizem que há rendas de 15 euros, em fogos completos, não em quartos.

     

    Vamos por partes, e com números muito modestos.

     

    – Utilizemos os últimos 32 anos (a partir de 1974);

    – Consideremos:

       – €600 como renda antiga média/ano (€50/mês)

       – Uma actualização acumulada de 50 vezes

       – A percentagem de manutenção/conservação utilizada pelas Finanças (15%)

       – Um IRS médio de 25%

     

    Agora, façamos umas continhas simples, tudo a valores actualizados. As conclusões são as que seguem:

     

    – Rendas pagas: € 8.064.000.000

    – Rendas que deviam ter sido pagas: € 403.200.000.000

    – Rendas “não pagas”: € 395.136.000.000

    – Conservação/manutenção sobre o pago: € 1.209.600.000

    – Conservação/manutenção sobre o actualizado: € 60.480.000.000

    – “Subtraído” à conservação/manutenção: € 59.270.400.000

    – “Subtraído” ao mercado: € 335.865.600.000

    – “Subtraído” aos cofres do Estado: € 83.966.400.000

     

    E assim:

     

    a)      O mercado do arrendamento foi completamente destruído, e substituído pelo monumental endividamento das famílias que toda a gente conhece;

    b)      A aplicação das poupanças foi desviada da economia para a chamada “casa própria” com dramáticas consequências para a mobilidade, a estabilidade, e as opções das pessoas;

    c)      O Estado, que tanto se queixa de falta de dinheiro e que tão mal gasta o que vai tendo, ficou sem, pelo menos (porque se houvesse manutenção havia mais IVA, mais emprego, etc.), mais de oitenta mil milhões de Euros nos últimos 32 anos.

    d)      O que resta do mercado de arrendamento é violentamente injusto e não tem quaisquer condições para melhorar, nem no quadro actual nem no do NRAU;

    e)      Se se fizesse uma actualização adequada e autêntica das rendas, o Estado cobraria em impostos muito mais do que o necessário para ajudar os que verdadeiramente precisassem, podendo usar o restante para prover a condições excepcionais de rehabilitação urbana. A “questão social” resolver-se-ia sem convulsões, como já aconteceu aquando da actualização extraordinária dos anos oitenta – o fundo de auxílio aos inquilinos foi utilizado a menos de 5%!

    f)        O NRAU protege os parasitas, agrava os problemas, aumenta as condições para o aumento da conflitualidade social;

    g)      Nenhum senhorio (só um doido) irá, de baraço ao pescoço, pedir às finanças que lhe reavaliem a propriedade, para, de imediato, ver o IMI decuplicar e, a longo prazo, aumentar (não mais que €50 por ano!!!) miseravelmente a rendazita ao inquilino, na certeza, ainda por cima, de que só o fará se se endividar previamente para pagar as obras que as finanças impuzerem.

     

    Muito mais há a dizer. Mas não vale a pena, pelo menos por agora. É melhor parar, antes que me irrite mais do que de costume.

    Certo será que vivemos num país de doidos, de irresponsáveis e de idiotas.

     

     

    António Borges de Carvalho

      

     

     
  • Coerências

    CODIGO CIVIL (CC)

     

    Artigo 1106º

    Transmissão por morte

     

    1-     O arrendamento para habitação não caduca por morte do arrendatário quando lhe sobreviva:

    a)      Conjuge com residência no locado ou pessoa com quem o arrendatário vivesse no locado em união de facto e há mais de um ano;

    b)      Pessoa que com ele residisse em economia comum há mais de um ano.

    …

     

    Novo Regime do Arrendamento Urbano (NRAU)

     

    Artigo 57º

    Transmissão por morte no arrendamento para habitação

     

    1-      O arrendamento para habitação não caduca por morte do primitivo arrendatário quando lhe sobreviva:

    a)      Cônjuge com residência no locado;

    b)      Pessoa que com ele vivesse em união de facto, com residência no locado;

    c)      Ascendente que com ele convivesse há mais de um ano;

    d)      Filho ou enteado com menos de um ano de idade ou que com ele convivesse há mais de um ano e seja de menor idade ou, tendo idade inferior a vinte seis anos, frequente o 11º ou 12º ano de escolaridade ou estabelecimento de ensino médio ou superior;

    e)      Filho ou enteado de maior idade, que com ele convivesse há mais de um ano, portador de deficiência com grau comprovado de incapacidade superior a 60%.

    …

     

    Aqui temos, preto no branco, um magnífico exemplo da exemplar técnica jurídica do PS. Os distintos governantes que as eleições nos deram começam por alterar o CC. O artigo 1106º reza, ou passa a rezar, que sucede no arrendamento qualquer pessoa que viva com o inquilino em economia comum há mais de um ano. Qualquer pessoa.

    O NRAU, por seu lado, reza mais ou menos o contrário: não é qualquer pessoa, não senhor. São só os que o NRAU quer.

     

    Pergunta o idiota do cidadão: quem manda? O CC ou o NRAU? À primeira vista, será o Código, uma vez que é hierraquicamente superior. Ou não? Com o socialismo socraticóide tudo é possível.

     

    Acrescentemos mais dois mimos:

    1-     No citado artigo do CC, a alínea a) do número 1 reza, para as pessoas a que se refere, que têm que viver com o arrendatário há mais de um ano. Para as restantes (as da alínea b))… também! Então para que serve haver duas alíneas? Perguntem aos socraticóides.

    2-     O NRAU vem contradizer as liberalidades do CC. Mas, atenção! Se o arrendatário lá tiver em casa um menino, que até pode ser um matulão de 26 anos que, adiantadíssimo, está no 11º ano, têm o menino e o matulão direito à casinha do falecido papá. E, se tiver por lá deficientes, a mesma coisa, ou seja, compete ao senhorio desempenhar, e pagar, as funções sociais que o Estado socraticóide se recusa a desempenhar.

     

    Só estes dois artiguitos, mera amostra, dariam pano para mangas, se quiséssemos continuar a analisá-los. Para quê? Como se vê pelos exemplos supra, o SIMPLEX é muito mais COMPLICADEX do que a mais rebuscada e ínvia das cabecinhas poderia imaginar.

     

    António Borges de Carvalho

     
  • Operação Da Vinci

    O senhor Dan Brown é um exímio contador de histórias. Os seus livros obedecem a um modelo fixo, que se resume num minuto: um crime envolto em mistério, um senhor professor perito em certas matérias, uma pequena giríssima que também sabe muito, uma paixão óbvia, uma investigação pejada de peripécias, uns tipos péssimos e sem escrúpulos que, nas malhas da intriga, acabam por não ser assim tão péssimos – às vezes até são uns fulanos pacholas – e uns gajos pacholas que, lá para o fim, afinal são péssimos. O tema é sempre mais ou menos esotérico, sociedades secretas, serviços de espionagem, hackers da pior espécie, políticos sem escrúpulos, intrigas no Vaticano, mensagens crípticas, monumentos alquímicos, e por aí fora. Com estes ingredientes, aliados a uma escrita torrencial, o senhor Brown é o escritor ideal para quem não consegue dormir em voos de longo curso ou quer passar um fim de semana fora das preocupações da segunda-feira.

     

    Umberto Eco, que, sobre muitas das matérias que servem de mote ao senhor Brown  sabe mais que qualquer outro ser vivo, diz que o homem “é um farsante”. Compreeende-se a indignação do medievalista. Mas, francamente, acho demais gastar adjectivos deste tipo com o senhor Brown. É que duvido que pela cabeça do homem alguma vez tenha passado defender alguma tese, ou demonstrar seja o que for. O que ele quer, e fá-lo como ninguém, é entreter as pessoas e ganhar dinheiro com isso. Não sendo aquilo a que chamo um Escritor, não tenho dúvidas de que, lado a lado com J.K.Rowling, se trata do mais eficiente e bem sucedido contador de histórias do nosso tempo. Não tem nada a ver com um Philip Roth, com um John Irving, com uma Margareth Atwood, mas dá “bigodes” aos Grishams, aos Crichtons, aos Follets e quejandos. Sabe daquilo a potes. Por muito que doa às nossas pretensões, ou às nossas legítimas exigências intelectuais ou emocionais, lê-lo é um prazer, um prazer simples, simplista, se se quiser, mas um prazer na mesma.

     

    Posto isto, devo confessar o espanto que senti, aqui há tempos, quando um amigo me fez parte da sua indignação pelos ataques do homem ao Opus Dei, bem como pela sua “negação” de verdades bíblicas que são sagradas para os católicos. Não discuti o assunto com o meu amigo, porque percebi que, sem o saber, exagerava, isto é, sem ter lido o “Código Da Vinci” , teria sido por alguém induzido a condená-lo, como se de coisa digna de condenação se tratasse. Para além de ser, como acima digo, uma simples história (ou “estória”, como dizem os analfabetos pretenciosos), se espremido, o “Código” não é, nem é uma catilinária contra o Opus Dei, nem convence, ou, na minha óptica, pretende convencer as pessoas de que Jesus Cristo teve filhos de Maria Madalena. Isto é, os dois “crimes” que lhe são assacados nunca foram praticados. Servindo-se, com os exageros a que, como escritor, tem direito, de certas características do Opus, lança um assassino impiedoso, fundamentalista da organização, numa senda de crimes inomináveis, alegadamente a mando do respectivo prelado. Porém, lá para os últimos capítulos, o leitor fica ciente de que o assassino era um doido varrido e o prelado um tipo porreiríssimo, apenas preocupado em defender a sua verdade sem recorrer a nada de menos lícito. Quanto ao “casamento” de Jesus com Maria Madalena, a coisa é de tal e tão propositada forma inverosímil, para não dizer ridícula (a menina da história, agente dos serviços secretos franceses, é, nem mais nem menos que descendente directa do casal) que ninguém poderá dizer, ou que Brown quis demonstrar a realidade histórica do enlace, ou que, seja quem for, ficará convencido, disso ou do contrário, depois de ler o livro.

    A sincera indignação do meu amigo não tinha, por tudo isto, qualquer espécie de razão de ser.

     

    Mas as coisas não ficaram por aqui. Com o anúncio do lançamento de um filme com o mesmo título, o “Código Da Vinci” voltou a ser objecto de um sururu dos diabos. Multiplicaram-se as sessões em que “especialistas” autorizados, académicos, prestigiados “schollars”, se debruçavam sobre a infâmia, a fim de demonstrar, não sei se por A+B, a sem razão da blasfémia.

    Estes tipos fazem uma tempestade num copo de água, pensei. Que parvoíce! Então não percebem que é um filme de aventuras, como os do “enrola a fita” do meu tempo?

    Não tinha, à altura, percebido o que se estava a passar. Até que li, na “Time”, um dossier sobre o assunto. Era uma peça mais ou menos inócua, isto é, não defendia nenhum dos lados da estranha, quão mirífica, barricada. O que saltava à vista era que, pela priemira vez, dignitários do Opus Dei se mostravam, abertos, afáveis, pessoas como nós, que tinham uma forma muito própria de viver a sua crença, sem que tal representasse qualquer pecado social ou se envolvesse de um secretismo pouco simpático. O dossier da “Time” repetiu-se por todo o mundo. Em Portugal, o veículo foi, se não me engano, a “Visão”. Coisas estranhas, diria inaceitáveis, ou inacreditáveis, como o silício e a “disciplina”, aparecem como as mais normais das práticas. Os “tenebrosos” chefes da organização são, afinal, simpaticíssimos sacerdotes, bem postos, que vivem numas casas óptimas, cheias de bibliotecas e de quadros. As mulheres da organização não são as sopeiras dos numerários, mas senhoras de alta posição social ou cultural que oferecem à obra os seus serviços. E assim por diante. Como a “Time” sugeria nas entrelinhas da peça, o Opus Dei, em universal e concertada operação  “virou” a seu favor aquilo que, a fim de excitar a indignação dos crentes, tinha considerado como um vil ataque.

     

    Não faço ideia de quem tem razão, se alguém a tem, nem, para ser franco, estou muito preocupado com o assunto. Mas acho interessante verificar três verdades que me parecem evidentes:

    1. O senhor Brown não demonstra nada, nem, propriamente, ataca seja quem for. Vende livros.

    2. O Opus Dei montou uma operação, primeiro para condenar, depois para negar as “verdades” do senhor Brown.

    3. Finalmente, o Opus Dei, aproveita a polémica que alimentou para lançar, urbi et orbe, uma operação de “limpeza”, de clarificação e de prestígio do seu nome.

     

    E pronto. Há, neste mundo, tipos inteligentes. Para quem goste, para quem não goste, e para quem nem uma coisa nem outra.

     

     

    António Borges de Carvalho

     
  • Protocolos

    Andei de férias, por sítios onde não há carrilhos, nem sócrates, nem rangéis. Um alívio.

    Mal chego, dou de caras com a importantíssima polémica do protocolo de Estado.

    Em mais uma notável erupção da inteligência que o caracteriza, decidiu o PS dar honras de Lei do Parlamento ao protocolo de Estado. Com certeza cansados de não fazer nada, frustrados por passar a vida em São Bento a cohonestar as asneiras do governo, os ilustres deputados socialistas resolveram… legislar. Sobre quê? A coisa não foi fácil. Pensaram, pensaram e, brilhantemente, resolveram dar ao protocolo honras de Lei.

    Desde há imemoriais tempos que o protocolo era mister de sabedores, dedicados e delicados funcionários, ao que julgo do MNE, os quais, segundo as conveniências do momento e a disposição de quem manda, lá iam ajeitando as coisas. A senhora B à esquerda do senhor A, o secretário C na fila 2, o autarca D no corredor, enfim, questões da maior importância para o futuro da Pátria iam-se resolvendo a contento.

    É natural que a reacção dos portugueses ao relevantíssimo projecto de Lei do PS tenha sido nenhuma. Mandaram a coisa às urtigas. Que lhes interessa a senhora B, o senhor A, e mais todos os que se acotovelam para a parecer na fotografia? Nada.

    Minto. A polémica surgiu, mas só no que respeita ao saneamento dos dignitários da Igreja Católica. Não se percebe por que carga de água os génios do socialismo à portuguesa se haviam de lembrar de tal coisa. Há quase mil anos que se procedia, com as variantes do tempo, de certa maneira. Porquê mudar?

    Porquê esta manifestação de jacobinismo serôdio? Porquê não compreender que há tradições que não fazem mal a ninguém, antes pelo contrário? Porquê querer pôr no mesmo prato da sociedade portuguesa a Igreja Católica e a IURD ou o professor Karamba?

    O sono da razão engendra monstros.

    De positivo, nisto tudo, só a reacção dos bispos:

    – Ai é? Vão chatear o Camões!

    Calculo, como se compreende, a frustração dos promotores da ideia. Queriam fazer uma provocaçãozinha. Para tal, deram-se ao trabalho (ao trabalhão!) de fazer um projecto de Lei. No fim, a montanha pariu um rato. Em vez de polémica, levaram com os pés. Coitadinhos.

     

    António Borges de Carvalho

  • Selvajarias

    O jardim do Marquês de Marialva, no Campo Pequeno (antigo Largo Dr. Afonso Pena) está, há anos e anos, votado ao mais repugnante abandono. Passam vereações e Presidentes, Juntas de esquerda e de direita, e as árvores sem ser podadas, a relva comida por ervas daninhas, os caminhos cheios de buracos, caca de cão por todos os lados, “homelesses” nas paragens dos autocarros, o parque infantil um horror, o parque de jogos esburacado… etc. etc.

    Acresce a esta brilhante situação a selvajaria terceiro-mundista do estacionamento, a Polícia que não faz nada porque é teritório da EMEL, a Emel que não faz nada porque é teritório da Polícia, os passeios com as pedras soltas, onde ainda as há, as valetas entupidas, as monumentais poças de água quando chove, o ecoponto que é um ecoporco, e por aí fora.

    Vai daí, o excelentíssimo vereador Prôa, rapa da prôa e informa que vai tudo ser arranjado a expensas da sociedade que reconstruiu a Praça de Touros, como compensação dos estragos motivados pelas obras.

    À primeira vista, tudo bem.

    Só que os tais estragos são orçados em 738 mil euros (150 mil contos) e as obras em 824 mil (165 mil contos).

     

    Ora bem:

    a)      as obras só destruiram uma pequena parte do jardim, o resto era um caos, mesmo sem as obras;

    b)      165 mil contos dão para… em matéria de jardins… nem queiram saber.

     

    Nestas coisas, como em muitas outras, honny soit qui mal y pense. Não deixa de parecer estranho:

    1. Que o promotor da Praça de Touros aceita responsabilidades que, evidentemente, lhe não cabem;

    2. Que tire do bolso uma tão importante verba (sete contos e quinhentos por metro quadrado! – irão plantar relva de ouro?), só para reconstruir uma coisa que não estragou e cuja ausência de manutenção não é da sua responsabilidade.

     

    Mas… tudo bem. Se o jardim ficar bonito, tudo bem. Se a Polícia, e a EMEL, passarem a ter um mínimo de critério para regular o estacionamento, óptimo. Se, a partir da reconstrução, alguém fizer manutenção, encantado. Se as senhoras, meninas e demais selvagens, proprietários de canídeos, forem multados pelos xixis e cócós dos ditos e se virem obrigados a mandá-los para a quinta ou para o matadouro, maravilha.

     

    Só que, ou me engano muito ou nada disto vai acontecer. Com a abertura das novas facilities vai dar-se a total “selvagização” de toda a área. Os polícias vão sumir-se da zona ao fim de três dias, os jardineiros da Câmara vão aparecer como sempre, de seis em seis meses. A malta vai pôr os carros, como aconteceu no Colombo e acontece no Carte Inglês, em tudo quanto é sítio menos no parque de estacionamento. Uma coisa que podia ser um valor acrescentado para a cidade, vai ser uma bagunça digna de um bazar turco.

     

    E lá se foram os milhões. Continuaremos, selvagens e felizes. Como sempre.

    Muito gostava de me enganar!

     

     

    António Borges de Carvalho