IRRITADO

Um blogue de António Borges de Carvalho

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


  • A asneira é livre

    Após o anúncio da CML de que iria nivelar por cima as cérceas da Avenida da república, apareceu a correr o excelentíssimo vereador Fernandes, clamando para os jornais que se tratava de péssima proposta uma vez que as novas cérceas, "vão impedir a circulação do ar".

    Faltou-lhe acrescentar que é por causa das cérceas que têm morrido, e morrem diariamente, milhões de novaiorquinos, asfixidos pela falta de ar que os prédios de mais de doze andares provocam. O mesmo se passa em Singapura, Dubai, São Paulo e tantas outras metrópoles onde os turistas costumam ir no intuito de observar as convulsões finais dos asfixiados. Consta que o senhor Bush, conhecido eco-bandido, se prepara para lançar uma taxa especial sobre o turismo asfixial, destinando-se as respectivas receitas a prover aos enterros dos sacrificados pelas cérceas.

    O "Irritado" propõe ao senhor Fernandes que trate de lançar, imediatamente, em colaboração com a Quercus e com o paisagista Teles, um concurso público para a aquisição de garrafas de oxigénio a fornecer gratuitamente a quem quiser circular na Avenida da república, ou mesmo só atravessá-la, depois de acertadas as cérceas. Um grupo de gentis meninas do BE e dos Verdes (por fora) poderia oferecer-se para a tarefa, dando a cada transeunte, com a respectiva garrafinha, uma brochura explicativa das benesses do trotskismo e do marxismo-leninismo no que à falta de ar diz respeito.

    Aqui ficam estas modestas, gratuitas e despretenciosas sugestões.

     

    António Borges de Carvalho

  • Bater no fundo

    Em várias intervenções públicas, o ministro da agricultura do governo do senhor Pinto de Sousa (Sócrates), vituperou, em liguagem digna dos doces tempos do PREC, os malandros dos capitalistas, grandes agrários e quejandos que, em manifestação de reprovável ganância, querem receber umas massas que o Estado, calcule-se, em momento de desvario, prometeu pagar-lhes. Não queriam mais nada!? O senhor é peremptório: não se paga muito aos grandes e pouco aos pequenos. Por isso, o melhor é não pagar a ninguém. Este brilhante raciocínio, através do qual se poderia concluir que um tipo com meio hectare e duas vacas deveria receber tanto, ou mais, para haver justiça, que outro com mil hectares e quinhentas vacas, é de tal maneira estrambólico que até o camarada Jerónimo percebeu a coisa e veio, quiçá pela primeira vez na sua vida (e na nossa) defender publicamente que o Estado tem que pagar o que deve, a grandes e a pequenos. Porquê? Porque até o camarada Jerónimo consegue ser menos estalinista, mais honesto e menos estúpido que o ministro da agricultura do senhor Pinto de Sousa (Sócrates).

    Batemos no fundo. Quando o próprio Estado se recusa a pagar o que reconhece dever, batemos no fundo. Não menos. O Estado não pede uma moratória, por questões de tesouraria. O Estado, não faseia os pagamentos, alegando conveniências orçamentais. O Estado não revê, ou propõe que se reveja certos critérios, por razões técnicas. O Estado, nas palavras do ministro da agricultura, diz que não paga porque não sustenta malandros cheios de dinheiro, repugnantes latifundiários que se locupletam com as mais valias do suor do povo. Sim senhor, prometi pagar. Sim senhor, devo. Mas, a esta gente, não pago. Não pago, não pago, não pago!!!

    Com exemplos destes, como querem que o zé pagode seja sério?

     

    António Borges de Carvalho

      

  • Linguarejar

    Muitas loas se tecem à língua portuguesa. Ele são os ministros, os intelectuais, agentes da administração pública das mais variadas funções e origens, diplomatas, catedráticos, sei lá. Toda a gente cita o poeta, “ a minha Pátria é a língua portuguesa”, toda a gente clama que o português é a terceira língua mais falada no mundo, fora das suas fronteiras de origem… que é preciso defendê-la como o mais precioso dos patrimónios, e por aí fora, blá, blá, blá. E, no entanto, ninguém mexe uma palha contra os atentados diários à dita.

    Os macacões do Corte Inglês são mestres na castelhanização da pobre senhora. Quem lá for – quem lá não vai? – dá com umas baiúcas tituladas “provador”. Já perguntei à menina se morava ali algum provador de vinhos, ou de outra coisa qualquer. É evidente que a menina fez um sorriso estúpido, como se eu viesse de Marte. Mais adiante, umas parangonas rezam: “Carta do Cliente”. Perguntei se tinham lá alguma carta para mim, mas não tinham. Não têm cartas para marcianos. No balcão das comidas, vendem “salpicão de marisco”. Perguntei se era carne de porco com camarões, e a menina mandou-me dar uma curva. Marte não era ali. Três pequenos exemplos num mar deles. Escrevi ao Instituto do Consumidor, a contar esta história. Responderam-me, por carta, preto no branco, que não tinham nada com isso. Era um problema da Inspecção das Actividades Económicas, ou coisa do género.

    Um senhor de Campo Maior lança um café que se chama “Bellissimo café”. Fiz um discurso ao senhor Victor, da pastelaria, dizendo que não percebia porque é que Bellissimo estava em italiano, e café em português. Coitado do senhor Victor.

    Em Cascais há um armazém de lojas chamado Cascais Villa. Assim, com dois LLs. Porquê? Vá-se lá imaginar. Villa, em português, não existe. Mesmo noutras línguas latinas, não se enxerga onde querem chegar com a coisa. Talvez o dono daquilo seja parente do Pancho Villa, não sei.

    O que sei é que há disto pelo país inteiro, aos pontapés, aos milhões. Sei que é fruto de ignorância, de iliteracia, de analfabetismo, ou, como no caso do Corte Inglês, chefiado por tipos que de ignorantes nada têm, de castelhanismo puro, de ilegítima invasão cultural, de tomada de posições. Não é?

    Os ilustres propagandistas da língua, blá, blá, blá, assobiam para o ar. Ninguém liga nenhuma, muito menos os institutos criados, e principescamente pagos, para o efeito.

     

    Que fazer? Nada. Protestar para quê? A malta até gosta!

     

    António Borges de Carvalho
  • Refinados

    Rezam os jornais que a inefável Quercus se revoltou contra a hipótese de vir ser construída, em Sines, uma refinaria monstra. A distinta quão bem intecionada organização adianta uma série de números, demonstrando que, compulsadas as previstas emissões com as exigências do protocolo de Quioto, o país ficará impedido de fazer novos investimentos, bloqueado nas suas perpectivas de desenvolvimento, etc.

    Notável, esta preocupação súbita com o desenvolvimento de Portugal. A Quercus é, por definição, contra tudo: o nuclear, as auto-estradas, as barragens, a co-incineração, Sines com ou sem refinaria, e por aí fora. Nada lhe serve. Nada preenche os especiosíssimos critérios destes “cientistas” tão preocupados que estão com o futuro da humanidade em geral e deste cantinho em particular.

    Só quando, mais uma vez, se querem afirmar contra qualquer coisa é que se lembram do desenvolvimento, como se alguma vez se tivessem preocupado com tal coisa.

    Quando se cometeu o monstruoso crime de acabar com a barragem de Foz-Côa, a Quercus aplaudiu. Quando o senhor Pinto de Sousa (Sócrates) diz que o nuclear está fora da agenda, a Quercus aplaude. Quando o mesmo senhor se prepara para nos cobrar os vinte cinco mil milhões de euros das SCUTS, a Quercus fica feliz. Agora, para travar mais um investimento, a Quercus serve-se da urgência e da necessidade daquilo contra que se bate, manifesta e repetidamente: o desenvolvimento. É claro, dirão os senhores da Quercus, que, quando se referem ao desenvolvimento, querem dizer desenvolvimento “equilibrado”, “sustentável”, e outros doces epítetos, conceito que nem eles sabem o que é, nem são capazes de preencher com quaisquer alternativas. Isto é, são contra “este” desenvolvimento, mas não oferecem outro. Haverá outro?, perguntam os néscios e os ignorantes.

     

    Em matéria de incongruência e de demagogia, porém, os senhores da Quercus são largamente ultrapassados pela plêide de heróis que o senhor Pinto de Sousa (Sócrates) comanda. Senão, vejamos. Há dias, brilhante sessão pública: ministros, directores gerais, cavalheiros da indústria, banqueiros, meninas e adjuntos. Os rapazes brindavam a Nação com mais uma extraordinária benesse: mediante acordo com o senhor Barros, os heróis iam construir a maior refinaria da história (a tal que os senhores da Quercus diziam garrotar o desenvolvimento da Pátria). Tudo um mar de rosas. O senhor Barros tinha reunido uma série de boas e ricas vontades, a obra ia fazer-se, íamos todos ficar mais ricos. Lindo! A Quercus que se lixe. Passados quinze dias, os mesmos heróis, ainda que já sem brilhante sessão pública, comunicavam ao povo que, afinal, o senhor Barros é uma besta e que não querem nada com ele. Em compensação, ó maravilha, os heróis anunciam que a Galp, ela sim, vai construir – mil milhões de Euros! – uma refinaria magnífica, extraordinária, fabulosa. Daqui a uns anos, claro, que isto de promessas tem que se lhe diga. No país, entrarão rios de dinheiro, agora sim, vamos todos ser mais felizes. Vamos a ver o que diz a Quercus, lá dos píncaros da sua autoridade moral (quem lhes paga?).

     

    Qual Barros, qual carapuça! Aldrabões! Capitalistas! Exploradores do povo! O governo do senhor Pinto de Sousa (Sócrates), afinal, não vai em conversas de gente dessa. A brilhante sessão foi um lapso. Daqui a uns anos (já a Santa Engrácia dizia o mesmo) a Galp resolve o problema, e pronto. O governo do senhor Pinto de Sousa (Sócrates), acusado de fazer política de direita (???), tem um ódio visceral a essa coisa a que, num alarde de ignorância e de má fé, chama “neoliberalismo”. Não é por acaso que o ministro da agricultura é leninista, e o das obras públicas também. Fora o que escorre.

    António Borges de Carvalho
  • Declaração

    Aqui há uns anos, um comunicado da Assembleia da República convidava as associações tais e tais (Misericórdias, “parceiros sociais” , universidades, associações de tias…) para, no prazo xis, se pronunciar sobre um qualquer projecto de lei.

    Na altura, escrevi a Sua Excelência o dr. Almeida Santos, presidente do Parlamneto, a protestar contra o facto de tal convite não ser dirigido aos cidadãos, ou também aos cidadãos. Quem é, afinal, o “sujeito” da Democracia? A CIP? A CGTP? A Santa Casa? A associação dos moradores da Lapa? Ou os cidadãos?

    É claro que a minha humilde cartinha caíu no mais roto dos sacos. O senhor presidente Almeida Santos nem sequer se dignou acusar a recepção.

    Os cidadãos são chamados a votar nas alturas próprias. Tudo bem. A seguir, tudo mal. Os cidadãos deixam de existir enquanto sujeitos da democracia. São substituídos, ou por associações privilegiadas, escolhidas a dedo, ou por grupos mais ou menos informais, desde que façam barulho que se ouça. Não sei se é a isto que se chama “democracia” participativa, se quê. Mas sei que são esses grupos quem, por apoio ou oposição, acaba por nos governar. Os cidadãos foram óptimos para pôr os senhores no poder, mas foram esquecidos após as eleições.

    Admito, até aceito, que os governos legítimos tomam as decisões que melhor entendam, por muito que delas discorde. O que já não posso aceitar é que, para me representar, o Governo, ou o Parlamento, ou seja que poder democrático fôr, dê a organizações a que não pertenço o direito de me representar, ou de opinar em meu nome. A mim, não perguntam nada. Mas são capazes de ir consultar o sindicato dos calceteiros sobre matérias qie me interessam.

    É o que, por exemplo, se está a passar com a reforma da segurança social. Há uns senhores, que não me representam, nunca me representaram, nem jamais me representarão, que se vão sentar à mesa com o governo para discutir o assunto. E eu?

     

    Eu aqui deixo a seguinte

     

     

    DECLARAÇÃO

     

    Eu, abaixo assinado, solenemente declaro que não dou procuração seja a quem for não por mim eleito para me representar seja em que discussão ou decisão for. Mais declaro não aceitar, e considerar orgânica, anti-democrática, piramidal, fascista, bolchevique, atrabiliária e ilegítima qualquer decisão na tomada da qual seja dado poder representativo a organizações de qualquer natureza, não legitimadas por sufrágio universal, directo e secreto, para, em meu nome, tomar decisões que me dizem respeito.

    Lisboa, 3 de Maio de 2006

     

    António Borges de Carvalho
  • Inteligência!

    Mais filhos, pagas menos.

    Menos filhos, pagas mais.

    Como a esmagadora maioria tem menos filhos, o que acontece é que a esmagodora maioria vai pagar mais.

    António Borges de Carvalho
  • Assim se faz a História

    Está na moda “comemorar” Chernobil. O desastre e as suas consequências fazem as delícias da chamada comunicação social. Jornalistas e comentadores desdobram-se em diligências, investigações e reportagens. Os antinuclearistas abanam as bandeiras da desgraça e do atrazo obrigatório da nação.

    Seja-me permitido (está na moda dizer “se me permite”, coisa idiota e sem sentido) contar, ou relembrar, um episódio posto na arca dos intocáveis pelo politicamente correcto.

    Quando se deu o desastre, o ilustre democrata e anti-fascista Álvaro Cunhal – que a tumba guarde bem guardado – estava em Kiev, ou por lá passava no regresso de veligiatura em casa do patrão. Chegou a Lisboa poucos dias após os acontecimentos. Entretanto, o cônsul de Portugal tinha feito um comunicado aos portugueses residentes na Ucrânia, aconselhando um prudente regresso a casa.

    Ao desembarcar na Portela, Álvaro Cunhal é recebido pela habitual plêide de jornalistas. O assunto do dia, como é natural, era o acontecido em Chernobil.

    – Senhor doutor, então o que é que Vossa Excelência acha do desastre?

    – Desastre? Isso são manobras da reacção! Não houve desastre nenhum. O que se passa é que uma pequena fuga num reactor nuclear soviético está a ser aproveitada pelas centrais de desinformação do mundo capitalista para pôr em causa o Sol da Terra!

    – Mas, senhor doutor, o próprio Cônsul de Portugal avisou…

    – Alarmismo! O cônsul está a prestar serviços à reacção! Os estudantes e outros portugueses que lá estão, estão muito bem, podem ficar descansados que tudo se encontra devidamente controlado!

    As sábias palavras do ilustre senhor não terão sido exactamente estas, mas lembrarei para todo o sempre o que os meus ouvidos ouviram e os meus olhos viram em mais um regresso glorioso de Cunhal a esta pátria, coitadinha, onde que o tenebroso polvo liberal-capitalista ensaiava a retoma das posições perdidas por acção das massas que, actuando sob a direcção das vanguardas do socialismo real, tinham levado por diante uma gloriosa caminhada para a sociedade sem classes.

    Pena é que, hoje, no meio de tanta reportagem, tanto estudo, tanto comentário, ninguém se tenha lembrado desse episódio grotesco que foi o  das declarações do homem à chegada a Lisboa.

    Assim se faz a história.

    António Borges de Carvalho

     
  • Regresso ao passado

    Uma das diferenças mais importantes entre o governo actual e os anteriores (leia-se os Governos PSD/CDS) é a que diz respeito à forma como, um e os outros, enfrentam ou enfrentaram os problemas orçamentais legados pelo guterrismo. No tempo de Ferreira Leite/Bagão Félix, procurava-se soluções que fizessem o Estado pagar as facturas da desgraça socialista. Agora, procura-se pagar as mesmas facturas por recurso directo ao bolso dos cidadãos.

    Às tão criticadas receitas extraordinárias, às execrandas transferências de fundos, às "manobras contabilísticas", tão violenta, tão virulentamente criticadas, contrapõe o executivo Pinto de Sousa (Sócrates) os aumentos de impostos, por vezes da mais imoral das formas (caso dos combustíveis), os cortes nas pensões (não se diga que é só para o futuro porque há muito boa gente que já os sofre no presente, mais que não seja por subreptícia via fiscal), os congelamentos salariais, ainda por cima ao mesmo tempo que não contem, nem diminui – como fizeram os anteriores – a despeza pública, ou o aumento do número de funcionários.

    Nem uma das promessas eleitorais viu, nem se pode presumir que venha a ver, qualquer sombra de cumprimento. Talvez isto não seja verdade. Por exemplo, no que respeita à promessa do "entra um, saem dois", não há dúvida de que o governo se ocupa afanosamente da primeira parte da promessa (entra um) deixando para melhores dias, a segunda (saem dois). Em relação às promessas, para já, é o que temos.

    A Drª Ferreira Leite – coitada, relegada pelo situacionista "Expresso" para um cantinho do segundo caderno enquanto o sotryteller Tavares tem a metade de honra da página dois para tecer "isentas" loas ao governo – diz, com alguma razão, que este governo recorre, como o anterior, a receitas extraordinárias, através dos aumentos de impostos, como tal adjectivados pelo homem da pasta das finanças. Como se engana a pobre senhora! Como é possível que ela acredite que os aumentos de impostos são feitos a título extraordinário! Uma receita extraordinária define-se como não repetível, como não fruto da gestão "do exercício", exactamente o contrário do que o governo está a fazer! Não há nada mais ordinário, em todos os sentidos, do que aumentar os impostos. Compreende-se que a senhora queira manter um certo nível no debate, e evite críticas mais acerbas. Mas podia não ir tão longe.

    Como é possível acreditar neste governo, em termos de finanças públicas, com a despeza a aumentar como aumenta?

    No tempo de Guterres, as contas públicas apresentaram um défice que punha o país fora das normas do Pacto de Estabilidade. Pelo contrário, os governos que lhe sucederam puseram-nas dentro dos limites estabelecidos, e as suas contas foram acreditadas por Bruxelas. Esta tão simples verdade não é reconhecida, nem pelo poder, nem pelo coro de panegiristas que integra a generalidade dos media. Pelo contrário. O governo que temos tratou de arranjar um relatório em que se diz que, se não forem tomadas medidas, o défice será de 6,83% (!). Esta teórica previsão, por mais fiável que seja, não deixa de ser teórica nem deixa de ser previsão. Mas a mentira institucionalizada transforma-a em verdade verificada e vende às pessoas, entre parangonas de feito histórico, que vai reduzir o défice para… 6%! Por outras palavras, o governo propõe-se aumentar o défice para mais do dobro e diz ao povo que o vai reduzir! Como é possível que não haja, neste pobre país, uma revolta de opinião, como é possível que os comentadores, os jornais, as televisões, alinhem neste monumental embuste e colaborem na trafulhice como se de coisa séria se tratasse?

    No Sábado, o storyteller protesta energicamente contra aqueles que exigem do governo resultados ao fim de (só) um ano de gestão. Ele, que não deu um segundo, e achou muito bem que outros fizessem o mesmo, a Santana Lopes e a Bagão Félix, acha pouco um ano, no caso do senhor Pinto de Sousa (Sócrates)! Onde vamos parar, com fazedores de opinião deste calibre?

    Com mestria circense, o governo atira à cara das pessoas com miríficos projectos. Ele é um impossível aeroporto, ele é um TGV que ninguém sabe bem para onde vai, nem como, nem porquê, ele é investimentos para 2012(!), num nunca acabar de um futuro imaginário que, se se realizasse, jamais teríamos dinheiro para pagar.

    Todos os relatórios, de todas as agências da especialidade, apontam no mesmo sentido: descalabro, desgraça, perda de terreno em relação à Europa (seja o que for que "Europa" queira dizer). Só Pinto de Sousa (Sócrates) acha que não, que todas as instâncias internacionais estão erradas. Só Portugal (o governo) sabe o que vai acontecer.

    Orgulhosamente sós.

    António Borges de Carvalho
  • Quorum

    Muita tinta tem corrido sobre o “escândalo” da falta de quorum no Parlamento no momento das votações.

    Caiu o Carmo e a Trindade. Consta até que o Senhor Presidente, que nunca foi admirador da Instituição Parlamentar e jamais a tratou com um respeito por aí além, vai aproveitar a deixa para o seu primeiro discurso oficial, na próxima terça-feira.

    Todos os habituais críticos – quem o não é, nesta terra de invejosos e politicamente iletrados? – se encarniçam, felizes pela oportunidade que lhes é dada, contra a “malandragem” que repoltreia a inutilidade nas cadeiras de São Bento.

    Veja-se onde chegámos:

    Ontem, na SIC Notícias, uma senhora do PSD, ao que consta consorte de um conhecido banqueiro, dizia que vivemos numa democracia “formal” e que é preciso que ela se torne “material”. A sua parceira de debate, luminária do PC, aplaudiu com entusiasmo. Onde chega a ignorância de uma e a esperteza da outra!

    Ontem também, o presidente do GP do PSD veio propor um sistema de vigilância do comportamento dos deputados através de uma qualquer comissão de “independentes”, ou coisa que o valha, não eleitos. Como é possível que um deputado, ao que julgo jurista (o pai dele foi meu professor de direito constitucional, mas não deve ter ensinado coisa nenhuma ao filho) produza uma enormidade deste calibre? Onde chega a tendência para a asneira!

    Como é costume, a informação, quase em uníssono, tece sobre o assunto as mais irresponsáveis considerações. Dos órgãos de informação em geral não se espera outra coisa. É normal, é costume, é assim. Os produtores de opinião em Portugal, de Eça de Queiroz a Álvaro Cunhal, nunca suportaram nem compreenderam a representação inorgânica da sociedade. Não há nada a fazer. O que não se aprende em séculos – quase dois – não se aprende em definitivo.

    Onde estaria a democracia portuguesa se não fosse a pressão europeia? A resposta é simples: estava morta e enterrada por muitos dos que, no dia a seguir ao enterro,  começariam a nobre luta pelo seu regresso.

    O problema põe-se ao contrário do que fazem os comentadores.

    Os males do sistema não estão nas ausências às votações. Não estar presente em certos momentos é uma atitude política legítima. Os males do sistema não estão no facto de as pessoas gostarem de ver mais gente na sala quando a TV transmite bocados, devidamente “editados”, das sessões parlamentares. Alguma vez alguém viu, na Câmara dos Comuns, os seiscentos e cinquenta deputados britânicos?

    Os males do sistema não são função dos “chorudos” ordenados dos deputados, como reza o politicamente correcto.

    O que se devia, então, alterar? Do ponto de vista da lei eleitoral, a meu ver, nada. O sistema funciona, é justo, e não deve ser mexido.

    Do ponto de vista do recrutamento, vários problemas há que afectam a qualidade dos nossos representantes.

    O primeiro é o desprezo dos mais aptos pelo sistema parlamentar. Lembro-me, como exemplo entre todos significativo, de o Dr. Sá Carneiro ter imposto aos seus ministros que se candidatassem a São Bento, para o segundo mandato da AD. O doutor Cavaco recusou liminarmente tal hipótese. É pecha da sociedade portuguesa este distanciamento dos homens de valia e de sucesso em relação à Instituição parlamentar. Responsabilidades sociais, sim, mas poucas. Responsabilidades parlamentares, nenhumas, que isto de andar nas bocas do mundo é uma chatice e, ao contrário do que dizem os jornais, não dá dinheiro que “cheire” a quem já o ganha. Não há, na classe empresarial, e até intelectual, de sucesso, a mais pequena noção de responsabilidade pública, nem sequer a compreensão do facto de que o bom funcionamento das instituições é do interesse, não só da sociedade em geral, mas dessa classe em particular. Trata-se de uma questão estrutural. Não sei se não será preciso outra ditadura para que esta gente o compreenda.

    Outro problema é o da exagerada influência local na selecção dos candidatos. Os partidos dependem muito da militância local, e cedem demais às exigências da parvónia. O mesmo com as juventudes. Os partidos precisam do barulho que os jovens fazem, e vai de lhes dar lugares no parlamento, criando uma classe política profissional sem outras qualificações que não sejam as da militância partidária. Não sou contra a existência de políticos profissionais, sou contra a sua fabricação em comícios e arraiais.

    Os vencimentos dos deputados, por ridículos em relação à função, são outra pecha do sistema, uma vez que afastam os melhores, e impedem os poucos desses que, apesar de tudo, vão existindo, de se dedicar, já não digo em exclusivo, mas a cinquenta por cento que seja, à vida parlamentar.

    Tudo ao contrário, pois, do que, em analfabruto coro, se tornou politicamente correcto. A Instituição parlamentar deve ser dignificada e defendida sejam quais forem as faltas de comparência dos deputados. Já agora, se o senhor Pinto de Sousa (conhecido por Sócrates) quiser fazer passar as suas propostas de lei, que tome conta da sua gente. Se o não faz, o problema é dele, e não nosso, ou do Parlamento, como se diz por aí.

    António Borges de Carvalho

  • O caldeirão

    A “The Economist” desta semana, acabadinha de chegar, titula, com ironia ou amargura:  “Outra semana em grande para a Europa – paralisia em Itália, rendição em França”. Em fundo, reproduz o Inferno de Bosh, com o mafarrico a presidir à cozedura dos pecadores no caldeirão da história.

     

    Comentei neste blog, há poucos dias, o miserável recuo do senhor Chirac que, cedendo à turba-multa, desautorizou o seu primeiro ministro e deitou para o lixo o que poderia ser um elemento, ainda que tímido, de uma reforma desesperadamente indispensável.

    Um bom exemplo de “democracia” participativa, como por cá é conhecido o sistema.

     

    Em Itália, se é verdade que o senhor Berlusconi falhou nas suas promessas de reforma, não o é menos que o saco de gatos em que o inenarrável Prodi se meteu integra, agora com o imenso poder de bloquear tudo o que lhe vier à cabeça, as franjas irreformáveis da esquerda mais troglodita e cega que imaginar se possa.

     

    Isto quer dizer que, em dois pilares fundamentais da Europa do Euro, uma crise de gigantescas dimensões está a dar passos seguros, alicerçada na cegueira que o estado providência criou. O sacrossanto “direito ao trabalho” de uns lança milhões para o desemprego e cria os fundamentos da destruição a curto prazo de tudo o que diz defender. Isto, por estúpido respeito à cartilha e por voluntária cegueira em relação ao século e ao mundo. Estupidez e cegueira tanto mais graves quanto, mais do que propostas teóricas de reforma, não são poucos os exemplos dos que, reformando, longe estão da fatalidade da crise, ainda que não deixem, por culpa de italianos, franceses e quejandos, de vir a ser afectados por ela.

     

    Nós, por cá, todos bem. Digamo-lo com a mesma ironia ou com a mesma amargura da manchete da “The Economist”. O monstro estatal, por entre parangonas de falsa reforma, estende as suas garras, aumenta impostos, ignora as expectativas que criou e, enquanto mais que duplica o défice (de 2,9 para 6 por cento, pelo menos), vai dizendo, para que ecoe nuns media de papalvos, idiotas e aparatchiks, que o está a reduzir em 0,85 pontos percentuais.

    Para o português médio, o trabalho continua a ser um direito, nada tendo de obrigação. Coitadinhos dos preguiçosos, dos néscios e dos inúteis, que não exercem tal direito. Para o português médio, o desemprego é a solução. Fazer o que fazem brasileiros e ucranianos é que não. T’arrenego!, que me caem os parentes na lama!

    O português médio não tem culpa. Foi esta a educação que, como se fosse democrática, lhe deram na escola e inscreveram na mais nobre das sedes: a Constituição. No fundo no fundo, todos pensamos como nos foi ensinado: alguém há-de resolver isto. Eu, que só exijo o que me é devido, tenho o direito de assobiar para o ar. Quem vier atrás que feche a porta.

     

    Só não nos é dado pensar, nem os fazedores de opinião se preocupam com isso, que a fogueira já está acesa e que o mafarrico nem precisa de se preocupar em arranjar mantimentos. Nós iremos, felizes e contentes, cheios de “direitos” e de orgulho, meter-nos no caldeirão.

    António Borges de Carvalho
  • Que tristeza!

    Parece que o novo Presidente da República escolheu o ridículo como principal tema do seu início de mandato.

     

    Foi a comovente visita ao hospital das crianças, com Sua Excelência a perguntar aos doentinhos se estavam bons e a primeira dama (como ela deve gostar que lhe chamem primeira dama!) a puxar-lhe a manga, não é bons, filho, é melhores, pergunta-lhes se estão melhores!, os médicos a furtar-se a questões não vá o patrão Pinto de Sousa – Sócrates para povo – zangar-se, o gáudio dos empregados do senhor Oliveira, tão sibilinamente reportado no DN, o desprezo “ignoratório” do Expresso, a declaração de que agora é que isto vai começar, saio do casulo mas não comento nada, nada, olhem a ética… São Pancrácio nos valha, tanta cavadela, tanta minhoca!

     

    Agora, mais uma vez com os empregados do Oliveira a gozar perdidamente, é a exposição, com honras de museu, de Sua Excelência de calções, das notas que teve na quarta classe, dos feitos técnico-literários do professor, um narcisismo de pacotilha, uma pirosada sem nome, uma coisa de tal forma ridícula que apetece dizer, se quisermos manter o respeito que o senhor certamente merece, que foi induzida por terceiros, não iniciativa do próprio, que tem que surgir quem o salve dos seus áulicos, que não pode ser assim… O pior é que não foram os áulicos quem desencantou as fotografias do menino de calções, nem as pautas das notas, nem…

    Não pensemos mais nisto, por amor à Pátria e por respeito pelas instituições. 

    Apesar de tudo, é preciso ter fé, mesmo que, até ver, só nos dêm motivos para descrer.

     

    António Borges de Carvalho  
  • Vidas

    Há muitos anos, conheci uma senhora que, depois de anos e anos de trabalho como criada de servir -como se chamava, à época, às funcionárias do serviço doméstico – fazia, aqui e ali, pequenos trabalhos de costura. Ajudada pela reforma dos rurais não contributivos do dr. Marcelo Caetano, ia levando uma vida relativamente digna. Era uma simpatia. Não conhecia histórias outras que as da sua vida. Costumava contá-las, repetindo-se, mas sempre com um grande sentido de humor e de humanidade. Às vezes, dizia: Ai, se eu soubesse escrever, a minha vida dava um romance!

    Provavelmente, tinha razão. A sua vida, nas mãos de um escritor, talvez se transformasse numa obra de arte. Nas mãos dela, é pouco provável.

    Os escritores- os propriamente ditos, não falo dos contadores de histórias – pegam na memória, lançam os dados que ela lhes dá, pegam nas suas faces visíveis, que são o visível do invisível, juntam-lhes imaginação, sentimento, poder descritivo, conhecimento das armadilhas da linguagem escrita, talento, e produzem romances. Não auto-biografias, raramente memórias.

    O que se passava com a senhora que conheci e que, muito legitimamente mas sem conhecimento de causa, dava à sua vida uma importância que não tinha, passa-se hoje com pessoas que se julgaria imunes a tais ilusões. Uma senhora, professora doutora cujos talentos não me atreverei a pôr em causa, publicou um livro sobre a sua vida. Muitos dizem, e com razão, que valeu a pena por se tratar de um testemunho histórico sobre uma certa sociedade e uma certa época. Mas, muito para além disto, o livro é um produto absolutamente pessoal, isto é, não trata de vidas de romance mas de pessoas concretas, vivas, com nomes e actos – por vezes os mais pessoais e íntimos – escarrapachados de forma por demais crua, e sempre dizendo quem fazia o quê, porquê, como e quando.

    Será que as mulheres não estão obrigadas aos deveres de cavalheirismo que os homens costumam atribuir-se?

    Pergunto-me porque será que uma senhora professora doutora tem, em relação à sua própria vida, exactamente o mesmo tipo de sentimentos que animavam a costureira analfabeta. Mas tenho a certeza de que a costureira, se escrevesse o romance da sua vida, teria a educação sentimental suficiente para não pôr a nu a vida de terceiros.

    Facto é que a coisa parece fazer escola: um advogado de Lisboa (aliás "intimamente" citado no livro da professora doutora) publica um livrinho sobre a sua vida, ou episódios dela. Dá-nos a imagem de um homem inteligente, por vezes conta episódios interessantes, mas, ao contrário da sua colega, faz alarde de um talento não cultivado, e o livro sabe muito a manta de retalhos. Além disso, a ausência de um revisor competente enche-o de erros de pontuação, alguns de ortografia, pleonasmos, etc. Uma pena.

    Uma diferença fundamental distingue as duas manifestações literárias, inspiradas pelas mesmas motivações e presunções que enchiam a cabeça da costureira: O advogado fala de si mas, para além de algumas referências, sempre simpáticas, a familiares já desaparecidos – o livro é dedicado ao seu pai – não cita nomes, muito menos nomes de pessoas que ainda hoje se cruzam com ele na rua. Um cavalheiro.

    Francamente, espero que a moda não pegue, nem à maneira da professora doutora, nem à do advogado.

    Um grande intelectual português escrevia há tempos que gostaria de escrever um romance, mas não era capaz. Era bom que outros, intelectuais ou não, percebessem, primeiro, que a sua vida, enquanto tal, não é tão interessante como julgam, segundo, que, para estes voos literários é preciso um tipo de trabalho muito diferente daquele que estão habituados a fazer.

    António Borges de Carvalho

  • Independências

    Julgam os mais desprevenidos, ou os ignorantes, que a chamada independência dos Tribunais tem a ver com a faculdade de julgar livremente, ou seja, se confunde com a irresponsabilidade dos juízes no que se refere à decisão de sentenciar no sentido que entenderem, sem outro guia que não seja a Lei, sem outra referência que não seja o conteúdo do processo, sem outras pressões que não sejam as da sua consciência. Neste sentido, não há quem não compreenda que a independência dos juízes é essencial, e não há quem não aceite que não possam ser responsabilizados pelo teor das suas decisões.

    Mas o que se passa nada tem a ver com esta independência. As associações sindicais dos juízes, em autêntica diarreia corporativa, classificam qualquer mexida no seu estatuto ou nas suas condições de trabalho como gravíssimo atentado à "independência" dos tribunais. Trata-se, aqui, de outra independência. Não a dos juízes, enquanto tal – e só enquanto tal, mas a de uma classe que parece considerar como atentado à própria justiça qualquer, por pequena que seja, interferência nas suas regalias, como se, idealmente, tal classe devesse estabelecer os vencimentos dos seus membros, o seu horário de trabalho, etc. Clamam que os juízes não são funcionários públicos. Então, o que são? Profissionais liberais? Empregados de uma empresa privada? Artistas convidados? Tarefeiros?

    Quem lhes paga? Não é o Estado?

    Chega-se qao ponto de "demonstrar" que, se aos juízes for dado o mês de Agosto de férias, ficarão impedidos de gozar os 22 dias úteis a que os demais cidadãos têm direito. A não ser que utilizem um calendário especial, "independente", só para eles, não se vê como tal coisa pode ser possível.

    Tudo isto, com certeza, são considerações de um cidadão desprevenido, ou ignorante.

    Mas, como os desprevenidos e os ignorantes (ainda) têm direito à opinião, não podem deixar de opinar que ficaria muito melhor aos senhores magistrados dignificar, eles próprios, a sua magistratura, do que andar aos gritos a exigir que outrem o faça por eles.

    António Borges de Carvalho

  • Uma geração a contas com o futuro

    O senhor Chirac e o seu primeiro ministro não são aquilo a que se chama gente simpática. Um como outro têm o rei na barriga, acham-se importantíssimos, e não têm nada de novo (nem de bom) para dar ao mundo. Em política externa são iguaizinhos aos socialistas. Em questões internas, coitados, perceberam que a França está no plano inclinado de uma crise sem precedentes, e que o "estado social", tal como é, se tornará, a curto prazo, insustentável. 

    Dispensar um trabalhador, com ou sem justa causa, é, para as empresas francesas, de uma complexidade burocrática tal que há profissionais especializados na matéria, bem pagos, sem os serviços dos quais a coisa se tornaria quase impraticável. A segurança social padece da mesma burocratite. Uma folha de salários, prémios e descontos, é matéria de tal forma intricada que só a empresas muito grandes é viável ter especialistas para a elaborar. A generalidade das empresas entrega a terceiros tal tarefa, e não há um só pequeno comerciante ou industrial que, mesmo para um ou dois empregados, não tenha que recorrer ao outsourcing ".

    O desemprego em França é muito mais grave do que noutros países desenvolvidos, não só pela quantidade crescente de desempregados, mas também, ou talvez principalmente porque, dos que têm emprego, a percentagem dos que deixariam de o ter se se racionalizasse a burocracia é enorme, ou seja, o falso emprego é uma realidade social gritante e um peso na economia que se vai tornando, em tempo de vacas magras (ou menos gordas) cada vez menos sustentável.

    Muitos anos de habituação a direitos sociais que tornam a sociedade francesa refém do estado e transformam o estado num administrador de regalias, parece terem metido no sangue e no coração dos franceses a ilusão de que é possível continuar na mesma sejam quais forem as circunstâncias.

    Quando vemos a juventude francesa descer à rua da forma como o fez contra o já defunto PEC, o que mais impressiona é a recusa de uma geração de encarar o futuro com sentido de responsabilidade, de ambição, de luta pela vida, de assumpção das dificuldades como incentivos a fazer mais e melhor. Uma sociedade em que, aos vinte anos, se acha que um emprego é uma coisa estática, para uma vida, em vez de um degrau para outro melhor, não está, evidentemente, a construir um futuro viável.

    Os intoleráveis senhores Chirac e de Villepin já recuaram. Qualquer coisa vai mudar, não se sabe ainda o quê, mas já é certo que o objectivo de tal mudança será que tudo fique na mesma, a fim de não excitar a ira dos étudiants1. E, depois das manifestaçãoes e do recuo dos senhores, a França continuará, paulatinamente, na ilusão de que é possível continuar a viver como vive, de que a PAC é eterna, de que a sua importância global é de ferro.

    António Borges de Carvalho

    1Note-se que étudiant quer dizer estudante universitário. São os mais qualificados quem protesta, não os que têm menos oportunidades. Estes, os petits français, os portugueses e quejandos que mourejam para eles, continuarão a mourejar como sempre fizeram.

  • A agenda nuclear

    Há tempos, um conhecido financeiro anunciou que estaria em posição de construir e pôr a funcionar uma central nuclear sem custos para o estado. A resposta do governo foi uma não resposta, isto é, José Sócrates (Pinto de Sousa), ou alguém por ele, limitou-se a dizer que o nuclear estava “fora da agenda”. Muito bem, pensaram os ecologistas mal informados. Muito bem, pensaram os media, sedentos de politicamente correcto. O Expresso até publicou duas páginas de antinuclearismo militante, sem contraditório. Parece que José Sócrates (Pinto de Sousa) foi ao encontro dos mais profundos desejos da pátria ao recusar tão horrorosa proposta. 

    Apesar de tudo, algumas almas, eventualmente minoritárias, interrogaram-se sobre a justeza da posição. Num momento em que a Europa inteira relança os seus programas nucleares, em que se aceleram os estudos e os programas para novas tecnologias e novas gerações de centrais, em que as economias emergentes se preparam, em força, para o nuclear – 50 centrais na China, 20 na Índia, por exemplo – por que carga de água recusa o governo português estudar, sequer, a proposta do tal senhor? Então não era de esmiuçar a coisa? De saber quando, como, a quanto, em que condições chegaria a electricidade à indústria e a casa das pessoas, vinda da tal central?

    Apesar de tudo, algumas almas olharam à sua volta e observaram esta extraordinária coincidência: os países mais desenvolvidos da Europa Ocidental são exactamente aqueles que, ou produzem e distribuem energia nuclear, ou a recebem de terceiros (a Dinamarca, por exemplo) a preços competitivos.

    Portugal, porém, orgulhosamente só (quem é que isto me faz lembrar?), diz que o nuclear está fora da agenda. Nem pensar.

    Hoje, porém, com as parangonas laudatórias do costume, aí está ele, o nosso bem amado José Sócrates (Pinto de Sousa), degraus do Eliseu acima, de chapéu na mão, a pedir conselhos ao imperador sobre… energia nuclear. O senhor Chirac, que de comércio muito sabe, far-lhe-á parte, imperialmente, da excelência da tecnologia francesa nesta matéria. Ou seja, com Chirac, o nuclear entra na agenda socrática (coitadinho do Sócrates, o propriamente dito). Milagre!

    O mais tristemente interessante é que vão ser os mesmos senhores e senhoras (donos da opinião em Portugal) que deixaram passar sem uma palavra de crítica ou de estranheza a primeira postura do senhor Sócrates (Pinto de Sousa), a vir enaltecer  mais esta grande jornada da política externa do governo. Podem olhar, orgulhosamente acompanhados, para o espelho, e contemplar a sua impecável coerência e a sua intocável independência de profissionais da informação.

     

    António Borges de Carvalho

  • Ignorâncias

    Umsenhor cujo nome me escapa, anafado, matulão, de barbicha, ar profundo, tem assento frequente numa televisão qualquer. Foi um dos principais apoiantes da candidatura do senhor Soares. É, ou presume-se que seja, figura importante do PS. Disseram-me que até já foi secretário de estado. Pouco ou nada diz de interessante, seja qual for o ponto de vista de quem o ouve. Mas tem um leit motiv de que nunca se esquece: sempre que perora para o povo, com ar seriíssimo, invectiva aquilo a que chama neo-liberalismo, na sua opinião a mais horrorosa das coisas.

    Com ou sem neo, o liberalismo é, há cerca de um século, o bode espiatório de todos os ditadores. Salazar odiava-o, considerava-o o pai de todos os problemas, o maior culpado da desorganização do estado e da miséria das gentes. Hitler e Mussolini alinhavam pela mesma cartilha: o estado liberal era o inimigo a destruir, se se quisesse construir o socialismo. É evidente que, no mesmo pelotão, alinhavam Lenine, Estaline, Enver Hoxa, Álvaro Cunhal e tantos outros, Pinochet, por exemplo. Alinham Fidel Castro, Kim Jong Il e Jerónimo de Sousa. Alinham, do alto da sua paranóica ultra-bempensância, os ilustres políticos do BE, com tribuna e tempo de antena em tudo o que é media.

    A esta ilustre plêiade de finos democratas junta-se o senhor do PS que perora na televisão. Junta-se o próprio PS, pelo menos nas formulações teóricas com que, por vezes, brinda o pagode.

    O liberalismo é, em relação a todos os socialismos (de esquerda e de direita), o inimigo a abater. É o seu contrário, tem por axioma que a unidade é o homem, o indivíduo, não a sociedade, o colectivo. Por isso que não haja poder totalitário, ou autoritário, que o não odeie. O liberalismo parte do princípio de que a evolução da sociedade se faz através do exercício pacífico da liberdade individual, não por meio de saltos qualitativos dados sob a batuta de formulações teóricas mais ou menos revolucionárias.

    Se se quiser olhar para os últimos cem anos de história, não se encontrará um só caso, um só, em que à abolição do estado liberal não tenha correspondido a da própria liberdade. Poder-se-á dizer que, exclusivamente na esfera económica, ditaduras tem havido que mantêm uma fachada liberal. Mas não se poderá afirmar a contrária, isto é, que jamais tenha havido um regime que, respeitando a liberdade, tenha negado, pelo menos de facto, o liberalismo.

    Se não há liberalismo, não há liberdade. Não faltam factos para o provar.

    Por isso que, quando se vê estes novos luminares da luta contra o "neo-liberalismo", apetece lembrar algumas pequenas-grandes verdades, a fim de fazer pensar que o futuro, se construído sobre mentiras, não deve ser grande coisa.

    António Borges de Carvalho

     

  • Abominável Indecência

    Há dias, declarou o ministro das finanças do governo Sócrates (Pinto de Sousa) que iria legislar no sentido de levantar o sigilo bancário aos cidadãos que apresentassem reclamações às finanças.

    Na opinião de Sua Excelência, o cidadão que tiver a ousadia de pôr em causa as contas do seu departamento passa, automaticamente, a ser supeito das maiores trafulhices e a ver a sua vida financeira vasculhada pela polícia.

    O que é que isto faz lembrar? Pensemos um bocadinho. Faz lembrar os engajadores de emigrantes que ameaçam as famílias dos clientes, que ficaram  no país de origem, das piores perseguições caso não cumpram as suas ordens no país de destino. Faz lembrar as represálias da mafia. Faz lembrar métodos nazis e estalinistas. Faz lembrar uma data de coisas. Não, leitores, não faz lembrar o dr. Oliveira Salazar que, sendo um ditador repugnante, jamais se lembrou de uma destas.

    O que aconteceu? Nada. Criticaram os jornais esta abominação? Não. Exgiram os partidos da oposição, os sindicatos, os media, a demissão do ministro, como aconteceria em qualquer país civilizado? Não. Publicou o primeiro ministro um desmentido, um pedido de desculpas, uma afirmação de lapso? Não. Apareceu algum "opinion maker" a condenar a abominação? Não.

    Pelo contrário. Tudo continuou como dantes. O ministro lá está. A abominável proposta é capaz de passar mesmo a ser lei. A opinião pública, sedenta de se excitar com qualquer porcaria, está calma, tranquila, e é levada por aqueles a quem competiria alertá-la, a achar que voive no melhor dos mundos.

    Onde vamos parar? 

    António Borges de Carvalho

  • Aldrabices

    Factos:

    1. Desde a entrada no Euro, Portugal cumpriu as regras do Pacto de estabilidade, no que ao limite do défice diz respeito;

    2. Durante o consulado Guterres, o limite foi ultrapassado em 0,3% do PIB, ou seja, o défice foi de n3,3%;

    3. Durante o consulado Barroso o défice foi mantido dentro dos limites do Pacto;

    4. O mesmo aconteceu no ano em que Santana Lopes foi o responsável;

    5. As contas de Santana Lopes foram aprovadas pelo Eurostat;

    6. O Governo Sócrates (Pinto de Sousa) acaba de anunciar, com parangonas de êxito, que o défice vai ser de 6%.

    Estes factos, indesmentíveis, não provocaram qualquer reacção da nossa "comunicação social", nem se viu qualquer comentador "independente" analisar, minimamente que fosse, tais indesmentíveis verdades, nem gritar que o rei vai nu.

    O que se "vende" à opinião pública é a tese de que o Governo é uma plêiade de heróis, capazes de reduzir o défice de, 6,85 para 6%.

    Que pensar? Estarão os "comunicadores" atacados de uma espécie de gripe mental? Ter-se-ão vendido ao Sr. Sócrates (Pinto de Sousa)? Serão, todos eles sem excepção, estúpidos? Ainda não perceberam a cabala miserável que é inventar um défice inexistente para, a partir de uma realidade imaginária, vir a louvaminhar uma pura aldrabice?

    À consideração de quem ainda insista em pensar. 

    António Borges de Carvalho