Umsenhor cujo nome me escapa, anafado, matulão, de barbicha, ar profundo, tem assento frequente numa televisão qualquer. Foi um dos principais apoiantes da candidatura do senhor Soares. É, ou presume-se que seja, figura importante do PS. Disseram-me que até já foi secretário de estado. Pouco ou nada diz de interessante, seja qual for o ponto de vista de quem o ouve. Mas tem um leit motiv de que nunca se esquece: sempre que perora para o povo, com ar seriíssimo, invectiva aquilo a que chama neo-liberalismo, na sua opinião a mais horrorosa das coisas.
Com ou sem neo, o liberalismo é, há cerca de um século, o bode espiatório de todos os ditadores. Salazar odiava-o, considerava-o o pai de todos os problemas, o maior culpado da desorganização do estado e da miséria das gentes. Hitler e Mussolini alinhavam pela mesma cartilha: o estado liberal era o inimigo a destruir, se se quisesse construir o socialismo. É evidente que, no mesmo pelotão, alinhavam Lenine, Estaline, Enver Hoxa, Álvaro Cunhal e tantos outros, Pinochet, por exemplo. Alinham Fidel Castro, Kim Jong Il e Jerónimo de Sousa. Alinham, do alto da sua paranóica ultra-bempensância, os ilustres políticos do BE, com tribuna e tempo de antena em tudo o que é media.
A esta ilustre plêiade de finos democratas junta-se o senhor do PS que perora na televisão. Junta-se o próprio PS, pelo menos nas formulações teóricas com que, por vezes, brinda o pagode.
O liberalismo é, em relação a todos os socialismos (de esquerda e de direita), o inimigo a abater. É o seu contrário, tem por axioma que a unidade é o homem, o indivíduo, não a sociedade, o colectivo. Por isso que não haja poder totalitário, ou autoritário, que o não odeie. O liberalismo parte do princípio de que a evolução da sociedade se faz através do exercício pacífico da liberdade individual, não por meio de saltos qualitativos dados sob a batuta de formulações teóricas mais ou menos revolucionárias.
Se se quiser olhar para os últimos cem anos de história, não se encontrará um só caso, um só, em que à abolição do estado liberal não tenha correspondido a da própria liberdade. Poder-se-á dizer que, exclusivamente na esfera económica, ditaduras tem havido que mantêm uma fachada liberal. Mas não se poderá afirmar a contrária, isto é, que jamais tenha havido um regime que, respeitando a liberdade, tenha negado, pelo menos de facto, o liberalismo.
Se não há liberalismo, não há liberdade. Não faltam factos para o provar.
Por isso que, quando se vê estes novos luminares da luta contra o "neo-liberalismo", apetece lembrar algumas pequenas-grandes verdades, a fim de fazer pensar que o futuro, se construído sobre mentiras, não deve ser grande coisa.
António Borges de Carvalho

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