IRRITADO

Um blogue de António Borges de Carvalho

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


  • Anedotário I

    Anuncia o Diário de Notícias que a despeza com o complemento solidário a pagar às pessoas com mais de oitenta anos é muito menor do que se esperava, dada a contabilização dos “rendimentos dos ascendentes” de tais cidadãos.

    De facto, e ao contrário do que seria de supor, os paizinhos e as mãezinhas dos cidadãos com mais de oitenta anos têm rendimentos de sobra, o que “limita o acesso dos potenciais beneficiários”.

    Como é óbvio, quem ganha com isto são os cidadãos que, além de ter mais de oitenta anos, são órfãos. Parece-me de inteira justiça.

    Para o Estado, dada a escassez do número de órfãos com mais de oitenta anos, trata-se de uma inesperada quão benvinda poupança.
  • Anedotário II

    Há dias, foi anunciado na RTP, com a pompa do costume, que ia haver um PAE (Portuga de Alta Estilha) de Lisboa a Vigo, com paragens numa data de sítios, Porto incluído.

    A Excelentíssima Senhora Dona não sei quantas, Secretária de Estado dos Transportes, aparece nos jornais, dois dias depois, a dizer que ligação entre Porto e Vigo nem pensar, não é rentável.

    Quer dizer: ou o anúncio do governo era mais uma aldrabice e a senhora secretária de estado é que tem razão, ou a dita senhora anda a nadar e não percebe nada do assunto. Ou nem uma coisa nem outra. As aldrabices são tantas, que tanto faz. Até podem anunciar o PAE Lisboa-Vladivostoque, ou a ponte ferroviária para Nova Iorque. Como é tudo mentira, isto é, como, ao contrário do que pensa o (ex) marxista-leninista-estalinista Lino, ministro das obras públicas, neste caso as mentiras repetidas não se tornam verdades, é igual ao litro.

    Quem quiser pensar um bocadinho, poderá olhar à volta: o Thallys vai de Paris a Bruxelas sem parar, e de Bruxelas a Franfurt a mesma coisa; o Eurostar, para ir de Paris a Londres, abranda à entrada do chunel e pára uns dois minutos à saída; o TGV do Midi não faz menos de 400 quilómetros de cada vez. Então como é que se pode conceber o PAE a parar na impagável OTA, no Entrocamento, em Coimbra, em Aveiro…e parece que não é tudo? Quem será capaz, para além do senhor Pinto de Sousa (Sócrates) y sus muchachos, de defender que vale a pena gastar aqueles milhares de milhões para poupar menos de uma hora de Lisboa ao Porto?

    Segundo tudo indica, o PAE para Madrid vai ter destino semelhante. Não sei se parará em Vendas Novas e Montemor, mas pouco faltará. Quando entrar em Espanha, deixa-se de paragens. Talvez valha a pena. Para o governo, que vive de anúncios grotescos e megalómanos, já vai valendo.

     

    Do Algarve, chega a justa indignação do povo, representado pelo PPD José Vitorino, um rapaz cheio de qualidades. Vai queixar-se a Bruxelas por não estar previsto o PAE para a Ponta de Sagres. Além de tudo mais, é uma ofensa ao Senhor Infante, que se verá privado do interface do PAE na sua Via e das paragens nas marinas e nos campos de golf. Compreende-se.

    Se eu fosse ao Vitorino, não me preocupava com o assunto. Trata-se de fogo de vista.

     

    Entretanto, o (ex) marxista-leninista-estalinista Lino, anunciou que vai lançar um concurso de ideias para a designação da coisa. Humildemente, aqui vão algumas:

    – CSA – Combóio do Socialismo Acelerado

    – CAB – Combóio da Aceleração do Buraco

    – DVD –Depressa se Vai Devagar

    – SFR – Sócrates com Fogo no Rabo

    – HPJ – Hás-de Pagá-lo com Juros

    – RLM – Rápida Ligação à Miséria

    – OCRAVF – Ota mais Combóio De Alta Velocidade é o Fim

     

    Sua Excelência espera a colaboração dos portugueses para encontrar o nome e, sobretudo, para pagar as tropelias

  • Um magnífico negócio

    Com grande alívio das almas, a barragam de Cabora Bassa foi, finalmente, passada para controlo moçambicano.

    Sursum corda!

    Segundo o senhor Pinto de Sousa (Sócrates) fechou-se uma página do – horroroso! -passado, abriu-se outra para um – magnífico! – futuro.

    Promete sua excelência que Moçambique vai pagar nada menos que 750 milhões de dólares, cujo financiamento, segundo um ministro lá do sítio, se vai ver como será.

    Coisa estranha, na passada sexta-feira, os 750 milhões eram 950, duzentos para já, o resto logo se vê, pelo menos segundo informava a distinta RTP. Entre sexta e terça, (4 dias) parece que os milhões encolheram: os primeiros duzentos sumiram-se, os logo se vê logo se verá.

    Ainda mais estranho, ouvi dizer que os 950 (ou os 750) não pagariam mais que o que Moçambique já devia.

    Enfim, um imbróglio inextricável. Posso admitir que não houvesse outra solução. Posso admitir que o óptimo fosse inimigo do bom, do assim-assim, ou mesmo do péssimo. Mais difícil de comer é a forma idiota e triunfalista como a história foi vendida aos portugueses. Somos ou não, como sempre, considerados como um bando de ignorantes e de analfabrutos?

    Registe-se, esperando para ver, se, mais uma vez, os 950 milhões, ou os 750 (à vontade do freguês) não vão ter que nos sair do bolso, numa primeira fase, para nos serem devolvidos (se forem), com grande foguetório, numa segunda. Com prazos a perder de vista, como muito bem disse aos mentecaptos da RTP, nas entrelinhas, um ilustre moçambicano que já não sei quem era.

    Um futuro cheio de promessas, esta socraticóide “nova página” das nossas vidas.

     

    António Borges de Carvalho

     
  • Castelhanismos

    O nosso bem-amado Primeiro Ministro apareceu nos telejornais a anunciar mais uma extraordinária benesse para o povo. Trata-se de uns tipos que vão fazer uma fábrica de painéis solares. A coisa merece todos os encómios da parte do governo que temos. Não se ficou a saber quais foram os incentivos, as isenções fiscais, as facilidades financeiras que o dito governo generosamente concedeu aos empreendedores espanhóis da coisa. Mas isso é um pormenor sem importância.

    Por mim, não acho mal. Nem bem. Nem antes pelo contrário.

    O que me trás a referir a espampanante cerimónia é um facto tão simples quão repugnante: por trás do senhor Pinto de Sousa (Sócrates), havia um painel que rezava: “Fábrica de assemblagem de…”.

    Percebi do que se tratava. No entanto, sempre a duvidar de mim mesmo – um vício idiota, fui ao dicionário. As minhas suspeitas eram fundadas. Assemblagem não existe em português, língua certamente bárbara para gosto castelhano. Neste canto da Península diz-se montagem, não é?  

    Quando eu era rapazinho e alguém dizia “vou a Espanha”, era costume responder: “trás de lá uma espanhola desmontada”. Perante a estranha encomenda, o viajante perguntava: “para quê?”. E lá vinha a ordinaríssima e pornográfica resposta: “é para montar cá”.

    Na versão moderna, legitimada com a nobre chancela e a augusta presença do primeiro ministro, dir-se-á que as espanholas passam a ser assembladas. É mais fino.

     

    Se você for às secções de roupa do Corte Inglês, dá com umas baiucas encimadas por um letreiro que diz “Provador”. Se se dirigir à menina e perguntar se se trata do gabinete de algum provador de vinhos, ela fica atrapalhadíssima e, como está proibida de ser malcriada, faz-lhe um sorriso amarelo e não responde.

    Se for até lá abaixo, dá de caras com anúncios a uma coisa que se chama “Carta de Compras”. Na melhor das intenções, interroga o pessoal sobre se se trata de compras por carta, se oferecem alguma carta náutica a quem fizer compras, se é publicidade mal redigida a um baralho de cartas, se quê. Após algumas diligências, a sua curiosidade é satisfeita: a palavra quer dizer “lista”, ou seja, trata-se de uma lista de compras. Mas como "lista", em castelhano, quer dizer "pronta", os canalhas preferem dar a coisa a entender à sua maneira.

    Se for à secção de papelaria, encontra os mais extraordinários nomes para as coisas mais vulgares e comezinhas. Traduções para quê?

    Dizem que é obrigatório rotular os produtos em português. No entanto, parece que, se a redacção de origem for em castelhano, já não é assim tão obrigatório.

    Escrevi sobre o assunto a uma organização estatal que se chama Instituto do Consumidor. A resposta foi que não tinham nada com isso. Pois não.  

    O consumidor português não tem, com a aprovação explícita do senhor Pinto de Sousa (Sócrates), o direito de ver as coisas escritas na sua língua.

     

    Já que falo do Corte Inglês, não resisto a deixar uma pergunta estúpida: se a coisa fosse portuguesa, será que aquela espantosa rampa no estacionamento teria sido autorizada? Estou em crer que não.

    Mas devo ser parvo, ou sofrer de nacionalismo primário. A minha opinião, como se estivesse embriagado, põe-se de lado. Rima, e é verdade.

     

    António Borges de Carvalho
  • Coitadas das criancinhas!

    Para quem é pai, ou avô, de criancinhas várias, cada vez se torna mais difícil transportá-las.

    Ele é o banquinho especial que, para pôr e tirar do carro, dá cabo dos neurónios a qualquer mortal. Ele é o sistema de amarrar o pimpolho, quebra cabeças mesmo para especialistas em coisas estúpidas. Ele é os diversos zingarelhos, oficialmente adaptados a cada faixa etária, se os pequenos têm x anos é um, se tiverem y é outro e, se tiverem z, aindo outro. Até aos doze anos!

    Em caso de acidente, o papá, se ainda for vivo, assistirá à agonia da prole enquanto luta com vários processos de libertação, um para cada faixa, isto se os gasganetes dos miúdos não tiverem já sido cortados pelos inenarráveis cintos.

    Consta que há quem defenda que os bombeiros, cuja meritória acção é muitas vezes necessária nestas emergências, vão receber instrução específica no IST, a fim de poder, em menos de dez minutos, sacar os acidentados dos seus banquinhos.

     

    Lembro-me dos heróicos tempos em que andava de Renault 5, mai-la cara-metade, mais a funcionária doméstica, mais quatro filhos, mais a bagagem daquela malta toda, a caminho da Arrábida ou do Algarve. Mais tarde, a mesma trupe, já de Volvo (magno progresso!), à qual se acrescentavam 5 bicicletas, para o Algarve, ou um velho amigo que gostava de ir comigo assistir a comícios da AD em Trás-os-Montes. Lá se passava o Espinhaço de Cão, ou o Marão, tudo numa boa, como se diz agora! Que saudade!

     

    Hoje, se você não tiver as cadeirinhas todas que os tipos querem, não só é considerado como um péssimo pai, ou avô, como tem que pagar a respectiva multa e levar uma descompostura de alguma comissária adjunta da PSP, ou do sô guarda da GNR. E, se os mandar prégar para outra freguesia, ainda apanha mais uma bordoada por não respeitar a autoridade! Porra para isto!

     

    Ai, quem me dera ser fabricante de cadeirinhas!

     

    António Borges de Carvalho
  • Os Grandes deste Mundo

    Ontem fui ao cinema Monumental, sala número não sei quantos. Modernices. Vou pouco ao cinema porque deixou de haver intervalos, o que é uma forma proto-fascista, ou proto-comunista, de proibir as pessoas de fumar e de fazer chichi.

    Já não me lembro do filme, mas a minha mulher diz que era uma pequena maravilha. Acredito nos critérios da senhora, pelo que considero o meu tempo bem empregue.

    Fomos a pé, avenida da República (t’arrenego!) acima. A noite estava calma, cálida, convidava ao passeio. Tudo normal.

    Até que… até que, chegados ao Saldanha, damos com três carros da PSP à porta do BES. Assalto? Reféns? Mortos e feridos?, são os pensamentos que assaltam o portuga perante tal aparato. Os chuis, porém, conversavam no passeio, o que nos sossegou. Não devia haver azar.

    Mais adiante, na Praia da Vitória, três ou quatro carrões pretos estavam estacionados na contra-mão, na faixa de cargas e descargas. A porta dos cinemas era marcialmente guardada por dois GOE’s, ou equivalente, armados até aos dentes. Lá em cima, a seguir às bilheteiras, dois gorilas com cara de poucos amigos e uma espiral de plástico a esparguetar do ouvido, olhavam o povo com ar ameaçador.

    Temos aí um granjola qualquer, pensei. Será o Cadafi? O Dos Santos? O aiatola Camané? O Hugo Chaves? Quem?

    À saída, o mesmo aparato. Ou me engano muito ou havia ainda mais forças no terreno. Intrigado, aproximei-me de um BMW, viatura que parecia ser a mais imponente.

    E fez-se luz! Não, meus queridos amigos, não era o Cadafi, nem o Dos Santos, nem o aiatola, nem o Huguinho.

    A matrícula da rebrilhante viatura rezava P-papo seco da República-R. Quem tinha ido ao cinema era nada mais nada menos que o SEPRPPDAACS; Sua Excelência o Presidente da República Portuguesa, Professor Doutor Anibal António Cavaco Silva!

     

    No comments.

     

    Cheguei a estar tentado a esperar para ver sair Sua Excelência e quem o acompanhava, mas a minha mulher agarrou-me por um braço e, irritadíssima, arrastou-me até casa.  

     

    António Borges de Carvalho
  • Da Desunião Transatlântica

    É já um dado adquirido que a política externa e as prioridades estratégicas do EUA e da Europa se afastam a olhos vistos.

    O que, a este respeito, se tornou visível para o grande público aquando da oposição franco-germânica à guerra do Iraque, não é mais que a ponta de um iceberg que, dir-se-á desde o fim da guerra fria, se vinha formando.

    A recusa da Europa, mais por razões eleitorais do que por pensamento estratégico, em se reorganizar e reequipar militarmente, vinha de mais longe, mas encontrava um bom pretexto na existência e na fiabilidade do “guarda-chuva” americano. Os aliados do lado de lá do Atlântico insistiam na necessidade de algum equilíbrio e na interoperabilidade dos sistemas, mas a diversidade de interesses tecnológicos e industriais, por um lado, e considerações de política interna, por outro, impediram que esse objectivo fosse prosseguido de forma consistente.

     

    Ironicamente, foram os europeus os primeiros a ser “vítimas” da situação que criaram. Ainda no tempo do Presidente Clinton, e um pouco à revelia dos interesses americanos, foi a “Europa” – leia-se, sobretudo a França – quem veio, a propósito da intervenção na Sérvia, “exigir” a cooperação dos EUA, sem a qual a acção se teria saldado por dezenas de milhares de mortos. Foi a solidariedade dos americanos, que no assunto não tinham qualquer sombra de interesse, o que o evitou tal derramamento de sangue[1].

    A resposta a este acto de solidariedade não se fez esperar. Na primeira oportunidade, os dois mais importantes países europeus não só recusaram – o que poderia ser aceitável – apoio militar ou até político à iniciativa iraquiana de George W. Bush, como trataram de a pôr em causa e de a ilegalizar e ilegitimar por todos os meios políticos e jurídicos ao seu alcance. Não cuidaram, sequer, de ter em conta que essa intervenção era, à luz do direito invocado, tão ilegal como a da Sérvia. Com uma diferença: é que George Bush fez o que pode para fazer passar a sua decisão no Conselho de Segurança, ao passo que os europeus nada de parecido fizeram a respeito da guerra contra a Sérvia.

    Estas atitudes não podem deixar de ter consequências negativas na manutenção do chamado “transatlantic link”.

    O correr do tempo vem juntar a tudo isto as emergências asiáticas. Fatalmente, estas criam, para a super-potência, prioridades outras que não aquilo a que se chamou “defesa do Ocidente” ou do “mundo livre”. O putativo, mas previsível, não êxito das operações no Iraque, as “perseguições” europeias aos métodos menos ortodoxos que parecem ter sido usados pelos americanos na luta contra o terrorismo, a monumental pressão dos media e dos fazedores de opinião sobre os públicos europeus contra os EUA, tudo parece conjugar-se para pôr fim à solidariedade transatlântica.

    Se a este progressivo afastamento viesse juntar-se alguma “independência” europeia em termos de defesa e segurança, dir-se-ia não haver motivos para inquietação de maior. Os dois lados do Atlântico, firmados em valores comuns, prosseguiriam caminhos diversos mas basicamente afins. A Europa, potência económica global, proveria às suas necessidades em matéria de defesa e segurança.

    O problema é que tal não acontece. Ao mesmo tempo que se afasta, politicamente, do seu aliado tradicional, a Europa deixa alargar o “gap” defensivo, arriscando-se a que as mais que óbvias novas prioridades estratégicas norte-americanas, aliadas ao ambiente crispado que se criou, impeçam a repetição do preenchimento de tal “gap” por forças americanas.

    A própria NATO é hoje mais um utensílio de segurança do que uma aliança defensiva com sólidos fundamentos ideológicos, e consequência de políticas comuns.

    Quando Robert Kagan fala da “quebra da legitimidade geral americana no Ocidente devido ao fim da guerra fria”, parece-me não estar a colocar a questão da melhor forma. Foram os europeus, e não só, nem principalmente, o fim da guerra fria, quem pôs em causa essa legitimidade, bem como a liderança do dono do “guarda-chuva”.

    Parece, por outro lado, evidente não ser verdade que, como diz Kagan, “a Europa já não precisa dos Estados Unidos para a sua segurança”. Para além de outros exemplos, as guerras da Jugoslávia demonstraram à saciedade o contrário.

    As diferenças de “approach” político entre os europeus e os americanos são legítimas, mas não o é, da parte dos governos europeus em relação aos seus povos, que a tais diferenças não correspondam políticas de informação da opinião pública que permitam o desenvolvimento dos meios que possam dar foros de verdade às palavras do analista.

    Kagan diz, desta vez com inteira razão que, no Báltico e na Europa central, “as alianças dos EUA são claramente mais fortes”.

    Neste sentido, bom seria que o Ocidente europeu percebesse que, no caminho que actualmente percorre, está não só a condenar a ligação transatlântica, como a, em vez de unir, dividir, mais uma vez, o seu próprio continente.

     

    António Borges de Carvalho


    [1] Nunca será demais sublinhar, a respeito da guerra contra a Sérvia, que a primeira intervenção militar da NATO se deu para defender uma comunidade muçulmana contra uma cristã, coisa não só “esquecida” pelos muçulmanos como menorizada pelo Ocidente, por razões que à razão escapam.
  • Os incómodos da dona Helena

    A Exmª Senhora Dona Helena Roseta confessa-se “incomodada” com os elogios da direita à governação do senhor Pinto de Sousa (Sócrates). Pobre senhora. Digo pobre senhora por ironia, uma vez que não tenho pena nenhuma dos seus incómodos. Lembro-me dela, já com idade para ter juizo, coladinha ao dr. Sá Carneiro, e não aprecio as viagens ideológicas em que se tornou especialista.

     

    Tenho pena, sim, da tal direita. Da direita que não é capaz de perceber que estamos perante um governo de esquerda, esquerda arrogante, ignorante, falaciosa e estúpida. Perante gente que, até agora, mais não fez que declarações bombástico-propagandísticas, que não foi capaz de manter o défice onde a direita o deixou, que aumenta a despeza pública, que cai a quatro patas em cima das pessoas (isto é socialismo, e do mais primário), que aumenta brutalmente os impostos, que lança projectos magalómanos, ruinosos e inviáveis (outra característica do socialismo), que não pôs em prática nada do que propagandeou (o PRACE é uma miragem, o Simplex ninguém sabe o que é), que condiciona a informação, que, saloio e fadista, lambe as botas ao Bill Gates, que não cumpriu uma só das promessas eleitorais que fez, que mentiu e mente a torto e a direito, que anuncia o “fim da crise”, que “não sabe” que a electricidade vai aumentar, que manda soldados para o Líbano servir o Ezebolá, que, que, que…

     

    Tenho pena que os democratas do centro e da direita (Marcelo, Ribeiro e Castro e Nobre Guedes são os citados pela senhora, mas há muitos mais), por ódios menores internos ao seu próprio meio, não queiram perceber o que se perdeu nas últimas eleições e tenham este comprazimento em elogiar, não o adversário (o que se poderia entender, se fosse justo e merecido) mas a falácia socialista que nos governa, em persistir em dar tiros no pé, em se rever  na sua inoperância, em não dar pelas suas carências ideológicas, em não ultrapassar os seus medos, em não ter imaginação nem sentido crítico.

     

    Percebe-se que os últimos saudosistas do salazarismo “apreciem” a “autoridade”, o “cortar a direito” e outras qualidades do senhor Pinto de Sousa (Sócrates). Apreciam tudo o que for anti liberal. É normal. Está-lhes na massa ideológica.

     

    Dos outros, e de nós todos, tenho pena.

     

    António Borges de Carvalho
  • Do Simplopliploplex e da nova filosofia do direito

    As distintas autoridades que temos proporcionaram ao DN uma reportagem sobre a aplicação do novo regime do arrendamento.

    Pode ler-se nela, ou concluir-se dela:

    a) Que está tudo atrazado;

    b) Que a regulamentação se encontra em elaboração;

    c) Que talvez lá para Março as coisas comecem a mexer;

    d) Que as novas rendas, na maior parte dos casos, serão faseadas ao longo de 10 anos;

    e) Que o aumento do IMI é imediato.

    Para “esclarecimento” do povo, as distintas autoridades que temos remetem para um sítio na internet, www.portaldahabitacao.pt . É de experimentar. Uma delícia. O portal presenteia o respeitável público com um impresso “simplificado”. Vejam pelos vossos olhos a simplificação. É notável. Mais. O impresso não serve para nada, isto é, não é possível preenchê-lo na net. Quem quiser que o leve à câmara, às finanças, mais não sei onde. Nem as câmaras, nem as finanças, nem o não-sei-onde o recebem, porque não sabem do que se trata.

    Saibam ainda que tudo (as avaliações destinadas a aumentar as rendas em 10 anos e a aumentar o IMI já) será devidamente tratado por umas comissões – que ainda não existem – onde os interesses dos inquilinos e dos senhorios serão acautelados por representantes das “respectivas” associações. Quer dizer: se você for inquilino, mas não pertencer à “respectiva” associação, será “representado” por ela, quer queira quer não. O mesmo se você se atrever a ser um senhorio não arregimentado, isto é, ver-se-á “representado” por uns tipos que não sabe quem são e a quem não deu procuração para coisíssima nenhuma.

    A filosofia do Simplopliploplex introduz um novo instituto, que consiste num mandato em que o mandatário não foi mandatado mas manda na mesma, em nome de um mandante que não o mandatou.

    À atenção dos pensadores, dos teóricos e dos filósofos do Direito.  

     

     

    António Borges de Carvalho
  • Ah! Grande PC!

    Aqui há uns dois anos, aquele rapazola com olho de pescada que comanda a mesnada do PC na Assembleia declarou que a Coreia do Norte é uma democracia. À altura, houve quem pensasse que o fulano ia ser corrido. Não foi. Pelo contrário, ficou, e de pedra e cal. Só tinha dito a verdade, coitadinho.

    Desta vez, os rapazes foram ainda mais longe. Em socorro das bombas do camarada Kim Il Sung, o Avante! veio dizer que são óptimas, que dão imensa segurança ao povo, que se destinam a matar os maus, a defender os bons e a fornecer ao orbe o equilíbrio estratégico que tanta falta lhe faz.

    Que interessa que a Coreia do Norte seja a mais hedionda ditadura do planeta? Que interessa que os “cidadãos” do país morram de fome aos milhões porque o regime só tem paparoca para a nomenclatura? Que interessa que seja o chamado Ocidente, sempre generosamente estúpido, quem vai dando, dado, algum pãozito para a barriga das “massas” que vivem sob o azorrague do comunismo zuchista? Nada, não interessa nada. O importante, para o PC, é que a ideologia por lá em vigor é a sua, e que a sua ideologia é a única coisa verdadeiramente importante deste mundo, independentemente dos seus abomináveis resultados.

    Fundamentalismo na sua expressão mais sórdida e mais primitiva.

     

    Tudo tem o seu lado positivo. Pode ser que alguns dos filiados dos sindicatos dominados pelo PC percebam que os seus dirigentes se estão nas tintas para o seu bem estar e não perseguem outros objectivos que não os da defesa da ideologia, doa a quem doer, a começar pelos seus associados. Pode ser que alguns percebam que é a defesa da ideologia a culpada de grande parte das “derrotas” que têm sofrido.

     

    Não sei porque estou hoje tão optimista. Algum ataque de estupidez.

    António Borges de Carvalho
  • O Museu Salazar II

    Já que tenho hoje o PC na berlinda, apraz-me registar a nobre reacção do povo comunista de Viseu à hipótese de fundação de um museu dedicado ao autocrata Salazar.

     

    Aproveito o ensejo para renovar a proposta, que inseri noutro post, de integrar tal museu no da República, uma vez que o dito senhor personifica a mais longa fase do regime. Far-se-ia a devida justiça às Repúblicas, a primeira e a segunda, responsáveis pela destruição do regime democrático em Portugal, em vez de deixar de fora aquele que é o seu mais lídimo, significativo e duradouro representante.

     

    À atenção dos museologistas responsáveis.

    António Borges de Carvalho
  • O dr. Sampaio terá falecido?

    O senhor Pinto de Sousa (Sócrates) teve a subida honra de apresentar à Nação o seu orçamento para 2007.

    Independentemente das ignóbeis medidas que o documento consagra, é visível à saciedade que a sua mais importante, senão única, motivação, é a da redução do défice público.

    Mais uma vez Pinto de Sousa (Sócrates) se desdiz, sem pudor, sem vergonha, sem dignidade. Quem não se lembra dos programas, na RTP, que punham frente-a-frente dois jóvens políticos – Santana Lopes e Pinto de Sousa (Sócrates) – que, à altura, ninguém imaginava viriam a ser primeiros ministros? Discutia-se, ao tempo, e não há tanto tempo assim, a negregada política, aliás bem sucedida, de contenção orçamental da drª Manuela Ferreira Leite. Com a virulência mecânica que o caracteriza, Pinto de Sousa (Sócrates) anatemizava as ideias da senhora, a quem, semanalmente, acusava de cegueira, de dar primazia ao problema orçamental em prejuízo das questões sociais e económicas, de arruinar o país e os portugueses com medidas violentas sem outra intenção ou outro horizonte que não fosse o da contenção do défice pela contenção do défice.

    O mesmo veio a acontecer com, ou contra, Santana Lopes/Bagão Félix e a sua política orçamental, aliás também bem sucedida, acusada de ser mera continuação da de Manuela Ferreira Leite.

    Não houve pecado que não fosse atribuído a tais políticas. Infelizmente para o senhor Pinto de Sousa (Sócrates), em termos orçamentais os objectivos dos governos Barroso/Santana foram, nos limites da fasquia europeia, conseguidos, sem que os sacrifícios exigidos à sociedade tivessem qualquer comparação com os que ele agora exige, isto para ficar dentro dos limites de fasquia bem mais modesta, e mais de cinquenta por cento para além da dos seus antecessores.

    Alinhando, do alto do seu cargo, com a oposição, o senhor Presidente Sampaio entrou na luta lado a lado com Pinto de Sousa (Sócrates). É dele a célebre frase "há vida para além do défice", em si mais demolidora do que qualquer discurso parlamentar ou qualquer comentário de jornal.

    Agora que, para atingir o nobre objectivo de rebentar com todas as escalas europeias, o senhor Pinto de Sousa (Sócrates) se atira como um lobo esfaimado à fazenda e ao bem estar dos seus concidadãos, sobretudo os mais fracos, onde está o dr. Jorge Sampaio? Parece que deixou de existir. Terá falecido?

    António Borges de Carvalho
  • Ai “Rivóli”, “Rivóli”

    Talvez desde os tempos do Marquês de Pombal, ou da segunda fase do seu mandato – quando o primado do Estado atingiu o auge – que os portugueses vivem, de uma forma ou de outra, com uma justificação ou outra, “aculturados” por essa colossal entidade, em princípio criada para os servir, mas que se serve deles e lhes paga com empregos, com benesses, com subsídios, com nepotismos vários, e se substitui a eles na obtenção e concessão dos meios que, em princípio, por eles deviam ser gerados e geridos.

    Avessos à evolução, os portugueses preferem “avançar” com base em roturas. Mas, apesar delas ou seja qual for o seu sentido, o primado do Estado mantém-se, a sua missão de guardião das liberdades individuais sossobra perante a afirmação da sua majestade.

     

    Vem isto a propósito da presente “guerra” que se trava no Porto, entre um grupo de “agentes culturais” e a Câmara Municipal, sobre a gestão do teatro Rivoli.

    É que a CMP, para o efeito figurando o Estado, a coisa pública, parece que quer entregar o teatro à iniciativa privada, acabando com a política de subsídios a fundo perdido que vinha a ser seguida, ou seja, abrindo uma brecha nas suas “obrigações” socias e culturais.

    A coisa está de tal forma quente que já vi escrito que a Câmara “demite-se totalmente da gestão do seu principal teatro municipal… resumindo o Porto a uma expressão assumidamente paroquial”.

    Não consigo enxergar em que medida é que o tal teatro, por ser gerido por privados, resumirá o Porto a uma expressão paroquial, ainda por cima “assumidamente”. Confesso que nem percebo bem o português do comentador. Cito-o por ser paradigmático quanto à virulência da “justa indignação” do “povo”.

    Haverá quem diga que os protestantes são do PC, do BE, ou similares. Julgo esta análise errada, por redutora.

    Os protestantes encaram o problema à portuguesa: são “agentes culturais”, por conseguinte “têm o direito” a ser pagos pela coisa pública. É um raciocínio comum. A coisa pública é dona, patroa, de nós todos. Portanto, tem que nos pagar, subsidiar, gerir. Tudo isto por uma questão de princípio, e até que a morte nos separe.

     

    Os portugueses são avessos ao risco, não admitem o seu próprio insucesso nem estão preparados para aguentar as consequências negativas do que fazem. Aliás, é por partirem do princípio fadista de que não têm nem terão “sorte”, que preferem o guarda-chuva estatal (ou camarário, tanto faz) à assumpção da iniciativa e às suas possíveis consequências.

    A “qualidade” dos “agentes culturais” em fúria é bem documentada por uma fotografia que um jornal ontem publicava: uma protestante menina empunhando um cartaz onde se lia qualquer coisa como O Rivóli (sic) é nosso. O acento agudo chega para avaliar, sem temer erros de análise, quem está envolvido na luta.

    Mas não é, nem especialmente nem sobretudo por se estar perante um grupo de analfabetos que o assunto merece comentário. Lembro-me de, aqui há uns anos, a propósito de uma questão semelhante, ter lido que o actor/encenador Luis Miguel Cintra – que, obviamente, não escreve Rivoli com acento agudo – por ser “criador”, se acha no “direito” de ser pago pelo Estado.

    É neste género de estúpida ilusão que vivemos, sendo legítimo presumir que, a este respeito, não há nada a fazer. É que a coisa funciona nos dois sentidos. A Câmara do Porto não teve mais que uma crise de soluços.

     

    António Borges de Carvalho
  • Um novo feriado

    O dia 18 de Outubro deveria passar a ser feriado nacional. Comemorar-se-ia a maior série de asneiras seguidas, ou simultâneas, do governo do senhor Pinto de Sousa (Sócrates) e, Deus queira, o princípio do desmascarar da sua mesnada.

    Deixemos o orçamento para outra oportunidade. Vamos por partes.

    Ele foi a despedida da tropa (v. post desta data), ele foi a história das SCUTS (v. post seguinte), ele foi, maravilha das maravilhas, o que se passou sobre a história do aumento da electricidade. Para quem ainda não se espantou nem indignou com o governo que temos, acabaram as desculpas.

    É assim: a electricidade vai aumentar… dezasseis por cento!

    Porquê? O ministro da economia não sabe. Coitadinho. Pelo contrário, confessa-se “surpreendido” com a notícia, proveniente de uma tal ERSE, com quem o Governo não deve ter contactos. É normal. Ele, coitadinho, que só tem boca para anunciar maravilhas, para dizer que a crise já lá vai, que vamos todos ficar a nadar em dinheiro, ele não sabia, coitadinho, de nada. Ainda esperei que afirmasse que isso dos 16% é uma ninharia, e que devíamos todos ficar muito agradecidos por ser tão pouco.

    Mas não: o encarregado de, por outras palavras, vir dizer tal coisa, foi um secretário de estado qualquer, como segue: a “culpa” do aumento é… “dos consumidores, que estiveram vários anos a pagar menos do que deviam” (sic). Os consumidores são uma corja.  Deverá a corja, como é de inteira justiça, a passar a pagar o preço “justo”, devidamente acrescido dos “juros” relativos ao passado.

    A exemplaridade das declarações destes dois ilustres membros do Governo daria, num país civilizado, para o fazer cair. Por cá, nem pensar.

     

    A electricidade em Portugal já era, mutatis mutandis, mais cara do que na maioria dos países de que andamos a orgulhar-nos de ser “parceiros”. Note-se que, de uma forma ou de outra, todos eles utilizam energia nuclear, coisa que por cá, segundo o nosso bem amado primeiro ministro, “não está na agenda”. Competirá, como é óbvio, normal e natural, aos culpadíssimos consumidores pagar as opções de agenda do senhor Pinto de Sousa (Sócrates).

    A EDP, que se saiba, não apresenta prejuízos. Mesmo assim, é de compreender que almeje, coitada, ter mais uns lucrozitos, dados os aumentos dos custos de produção e as indexações em vigor. Ainda por cima, diz-se, vai haver umas vendas, uma trocas de titulares do capital, coisas deste género. Mais uma vez, como é de inteira justiça, deverá a corja contribuir para as valorizações que se tornarem necessárias ao “bom funcionamento” e à “transparência” do mercado. Isto é tão óbvio, tão claro, que a ninguém devia ser dado recalcitrar.

    E o Mibel? Essa mezinha que ia dar a todos os portugueses triliões de quilouotes por dois tostões. Como é de compreender, trata-se de uma questão cuja tecnicidade a põe ao abrigo da compreensão da corja.

     

    Tende fé, portugueses, bom povo! Pinto de Sousa (Sócrates) is watching you!

     

    António Borges de Carvalho
  • As SCUTS da nossa desgraça

    Ou muito me engano, ou, em matéria de dignidade, fiabilidade, honorabilidade, estamos (quase) a bater no fundo.

     

    Ontem, em todos os telejornais, ou quase (eu vi-o, e ouvi-o, três vezes) apareceu o ministro das obras públicas a explicar que isso das SCUTS era coisa que já tinha dado o que tinha a dar, mas por partes.

    Não há um único português – nesta altura do campeonato tenho a impressão que até o deputado Cravinho já percebeu – que não saiba que as SCUTS foram uma asneira brutal, prejudicial, demagógica, inútil e injusta.

    Não há um único português – nesta altura do campeonato tenho a impressão que até o deputado Cravinho já percebeu – que não saiba que nenhum dos apregoados efeitos benéficos das SCUTS, em termos locais, se verificou.

    Não há um único português – nesta altura do campeonato tenho a impressão que até o deputado Cravinho já percebeu – que não saiba que quem se farta de rir com as SCUTS são os turistas que vêm a Lisboa, os tipos que vão aos touros a Espanha e quejandos. Conheço um inglês que anda sempre para baixo e para cima e que me pergunta porque é que tem que pagar pelos trinta quilómetros de Cascais a Lisboa, e não paga nada pelos outros trezentos, ao que lhe respondo que o melhor é deixar de fazer esforços para perceber as nossas particularidades, isto para não dizer que sofremos de inultrapassável e visceral estupidez.

    Não há um único português – nesta altura do campeonato tenho a impressão que até o deputado Cravinho já percebeu – que não saiba que os custos das SCUTS são incomportáveis para o país, e que vamos todos (sobretudo os “mais desfavorecidos”, que o socialismo diz proteger) pagar com língua de palmo as viagens do inglês, dos aficionados e dos demais utilizadores das borlas do deputado Cravinho e do PS que a sorte nos deu.

    Arrisco uma opinião, quiçá abusiva e condenável: o deputado Cravinho já percebeu, mas não dará o braço a torcer. Pelo contrário. Primeiro ele, depois o interesse dos cidadãos.

     

    Quase me esquecia de que isto vem a propósito da insistente presença do preclaro ministro, antigo destacado militante do PC, nos telejornais de ontem.

    Desde a campanha eleitoral que os altifalantes do senhor Pinto de Sousa (Sócrates) apregoam aos sete ventos que jamais se virão a pagar portagens nas SCUTS, ideia absurda de medonhos santanistas sequiosos de sacar algum ao povo. Não! Nem pensar! É um ponto de honra, um inultrapassável compromisso, uma benesse socialista que ninguém se deveria atrever a pôr em causa.

    Agora, vem o ministro dar a cara pela taxação de algumas SCUTS, não todas (por enquanto, digo eu).

    E, horribile visu, Sua Excelência encontrou, no programa eleitoral e de governo do senhor Pinto de Sousa (Sócrates), uma linha onde se pode pendurar a decisão. Notável.

     

    Como é evidente e decorre do que acima digo, acho que ou há moralidade ou comem todos. Por conseguinte, julgo que, simplesmente, não devia haver SCUTS.

    O problema não está nas novas portagens mas na brutal indignidade das aldrabices do Governo.

    Em matéria de SCUTS, ou me engano muito ou só estamos a ver a ponta do iceberg.

    Em matéria de desfaçatez, temos o melhor governo do século.

     

    Uma nota ainda sobre os magníficos jornalistas que temos. Todos os que vi insistiam com Sua Excelência sobre o facto de as SCUTS ora taxadas serem no Norte, melhor dizendo, à volta do Porto. Não seria isso uma provocação ao bom povo da ridente e produtiva Região Metropolitana? Isto, para os chamados jornalistas, era o que havia a explorar. Que se lixem as incongruências do Governo. Nada melhor que aproveitar a oportunidade para arranjar mais uns gritos da morcãozada contra o centralismo de Lisboa. Uns discursos do Pinto da Costa y sus muchachos vinham mesmo a calhar nesta altura. Davam umas manchetesinhas que venderiam imenso. Nenhum dos ditos jornalistas teve a hombridade de dizer o que, em matéria de portagens, se passa cá por baixo. O ministro, é claro, arranjou umas “estatísticas” esfarrapadas, e pronto. Serviço público.

    Bem espicaçada pelos media, e enquanto renderem, espera-se as manifestações de “justa indignação” do povo do Bolhão.

    NB. Eu não dizia?. Hoje, a manchete do Diário de Notícias – primeira página, cinco colunas – é sobre as guerras a propósito das SCUTS. O aumento da electricidade aparece na página 6 do suplemento de economia, sem chamada no caderno principal e sob o exemplaríssimo título “Governo estuda forma de minorar aumento dos preços da electricidade”.

    Grande Governo! Grande Diário de Notícias!

     

    António Borges de Carvalho
  • Três perguntas (muito) estúpidas

    I

    A tropa que vai para o Líbano fez a sua cerimónia de despedida. Discretamente, o Governo não se fez representar.

    O que mudou?

    O ilustre ministro andava em Moscovo, sabe Deus a fazer o quê. Os secretários de estado (quem são?) não constam. A tropa reagiu disciplinadamente. Diz-me o mindinho que os generais ficaram ofendidos, o que terá efeitos ao retardador, como é óbvio.

    Ou será que Portugal manda tanta tropa para as sete partidas do mundo, que a coisa se tornou corriqueira e os soldados já nem um abracinho de despedida merecem?

    Obs. De qualquer maneira, a projecção universal desta grande potência fica garantida. O Ezebolá, rapaziada patriótica, agradece.

     

    II 

    Quem passeia para os lados do Alqueva tem esta magnífica sensação: do lado espanhol, estendem-se campos verdejantes, devidamente regados com a água que tanto nos custou a “embalsar”; do lado de cá, rega não há. Rima, e é verdade.

    Estará o Governo a juntar dinheiro para a Ota?

     

     

    III

    A cidade está pejada de cartazes onde aparecem, lado a lado, o Vasco da Gama e a Rosa Mota, o Senhor Dom Afonso Henriques e a Amália. É só escolher.

    Será serviço público?
  • Mais uns tostões

    A propósito do meu post  “Floresta de Enganos”, que se segue a este, aqui vai uma história exemplar, e verdadeira, bem marcante da forma como o senhor Pinto de Sousa (Sócrates) se atira às pessoas como um lobo esfaimado:

     

    Umas boas centenas de milhar de donas de casa receberam das Finanças uma cartinha registada a exigir a entrega do “modelo 10” relativo a 2005.

    É evidente que nenhuma dona de casa, enquanto tal, sabe o que é o modelo 10.

    Vai às Finanças. É-lhe é dito que se trata de um papel destinado a declarar os ordenados das empregadas domésticas. Às espantadas cidadãs, é acresentado que não têm desculpa por não conhecer tal obrigatoriedade, uma vez que vem expressa no Código do IRS. Lapidar.

    A coisa passa-se assim:

    As empregadas domésticas que são cumpridoras fazem a decleração do IRS. As patroas que são cumpridoras pagam a segurança social das empregadas. O Estado, por estas vias, ou por uma delas, resolve fazer as necessárias verificações. Então, embora o tal Código já esteja em vigor há uns anos, resolve, este ano pela primeira vez, mandar a cartinha.

    Para quê? Para verificar se as empregadas domésticas declararam ao Estado rendimentos inferiores aos auferidos? Não, até porque é evidente que as patroas, quando são informadas do que se trata, pedem às empregadas a sua declaração, e escrevem no modelo 10 exactamente o mesmo que as empregadas. Por aqui, como é evidente, o Estado não tem nada a ganhar.

    Então porque é que gasta dinheiro a escrever cartas registadas às pessoas?

    Por zelo burocrático? Não.

    Para ver se vai buscar uns cêntimos aos bolsos das funcionárias? Nem pensar.

    O mistério resolve-se da seguinte forma:

    Como as pessoas que receberam a cartinha deviam ter entregue o modelo 10 até Fevereiro, e não o fizeram, as Finanças aplicam-lhes a pastilha: 50 Euros de multa!

     

    Veja-se, admire-se, louve-se, a esperteza, a inteligência do socraticóide poder: já que as funcionárias domésticas, por motivos óbvios, não rendem nada em termos de imposto de rendimento, vai de ir arranjar uma catraca para sacar algum às patroas. Num cálculo quiçá abusivo, se admitirmos a existência de meio milhão de patroas nestas condições, teremos a módica receita de 25 milhões de Euros.

    Genial!

     

    Se acresentarmos a isto que os vencimentos do pessoal doméstico, ao contrário de todos os outros, não são dedutíveis em sede de imposto de rendimento, teremos o quadro completo.

     

    Não há como Pinto de Sousa (Sócrates) para promover a justiça fiscal!

     

    António Borges de Carvalho

     
  • Floresta de enganos

    Muito boa gente, insuspeita de simpatias socialistas , isto é, de simpatia pelo PS, anda para aí a louvar a coragem, a determinação, a frontalidade do senhor Pinto de Sousa (Sócrates), que toma medidas que ninguém mais foi capaz de tomar, que combate os privilégios das corporações, que diminui a despeza e aumenta a receita, um homem como deve ser, que domina o défice e vai cumprir as metas a que se comprometeu, enfim, um coro de louvaminhas pouco comuns.

    Permito-me discordar. Nunca tive medo de estar na contra-corrente, e aceitei sempre pagar o preço que isso custasse. Na fase da vida em que estou, ainda por cima, já não pago preço nenhum.

    Assim, deixem-me discordar à vontade.

    No que ao défice diz respeito, a única verdade provada é a seginte:

    Portugal, antigo bom aluno da Europa (consulado Cavaco) pôs as contas do Estado dentro dos critérios do pacto de estabilidade (défice até aos 3% do PIB). Veio Guterres, começou a gastar dinheiro como um doido, e ultrapassou os 3%. Uma desgraça. Veio Barroso, aumentou o IVA de 17 para 19%, vendeu umas coisas, fez umas “gestões” contabilísticas, e o défice voltou aos carris. Veio Santana e, sem aumentar fosse que imposto fosse, fez umas transferências, e ficou-se pelos 2,9%. Poderão dizer o que quiserem, poderão anatemizar as receitas extraordinárias, poderão odiar o senhor (Santana) à vontade (a esquerda é o que é, a direita, para tiros no pé, tem uma pontaria invejável), poderão dizer que a situação das finanças públicas era insustentável, que vinham aí dias terríveis, mas a verdade continuará a sê-lo, quer queiram quer não. O défice ficou abaixo dos 3%, continhas certas, devidamente aprovadas pelos ilustríssimos tecnocratas da UE! O resto são fantasias, elocubrações teóricas, exercícios de futurologia, ou puras aldrabices.

    Veio Pinto de Sousa (Sócrates), e tudo mudou. Começou por inventar um défice da 6,83% – pura ficção – para agora vir dizer que o vai baixar para 4,6. Nunca será demais dizer que o que Pinto de Sousa (Sócrates) vai fazer, se o conseguir, é aumentar o défice de 2005 (2,9%) para os tais 4,6 , isto é, em vez de o diminuir, vai aumentá-lo em 1,7%, ou seja, em relação ao pacto de estabilidade, o défice de 2006 vai ultrapassar os critérios em nada menos que 57%!!!

     

    Para chegar a este brilhante resultado, e a mero título de exemplo, o que fez o senhor Pinto de Sousa (Sócrates)?

    – Aumentou o IVA;

    – Aumentou os impostos sobre os produtos petrolíferos;

    – Aumentou, via manobras diversas, o IMI;

    – Baixou as pensões;

    – Acabou com as isenções fiscais;

    – Aumentou o IRS;

    – Fechou maternidades, serviços de urgência, escolas…

    – Diminuiu o investimento público;

    – Declarou que só pagará a quem deve, se pagar, quando muito bem lhe der na gana,

    e,

    apesar de tudo isto,

    é discutível que tenha baixado as despezas do Estado, havendo sérias dúvidas sobre se não as terá aumentado, e muito!

     

    Tudo somado, continuam as boas e felizes almas a dizer maravilhas, que atacou as corporações, que se atirou aos “previligiados”, que moralizou a vida pública, que promoveu a ciência e a tecnologia, etc., etc..

    Até se diz, e o senhor Pinto de Sousa (Sócrates) é o primeiro nos megafones, que a economia está a crescer por virtude das corajosas, inteligentes e bem sucedidas medidas por ele tomadas.

    Há quem confesse que o miserável crescimento da economia portuguesa se deve, exclusivamente, ao aumento das exportações. Mas falta quem sublinhe que, se assim é, e é assim mesmo, o crescimento se deve exclusivamente ao aumento da provura, via cresciemento dos clientes externos, não ao nosso!

     

    Vivemos numa floresta de enganos, num mar de aldrabice, de “lata”, e de propaganda.

    Quando é que as boas almas começam a perceber isto? Quando é que, fora do campo dos partidos comunistas (há três no parlamento), que atacam as medidas o senhor Pinto de Sousa (Sócrates) por serem de “direita” (???), aparecerá quem clame que o rei vai nu?

     

     

    António Borges de Carvalho
  • O Nobel da Paz

    Tecem-se por aí os mais rasgados encómios à Academia Sueca, por ter dado o Nobel da Paz a… um economista.

    De repente, descobriu-se que o micro-crédito é um remédio óptimo para a pobreza, chegando-se so ponto de até o Senhor Presidente da República Portuguesa vir à televisão apanhar o combóio dizendo que é grande amigo do premiado!

    Estou de acordo com tudo. O premiado é um herói. Se é verdade que tirou muito gente da miséria, se é verdade que pôs muito gente a trabalhar para si própria – novos capitalistas, dirá, inteligente como é, o camarada Jerónimo – o homem merece todos os elogios pelo sistema que inventou, merece prémios, merece admiração, merece tudo!

    Posto isto, julgo que o facto de lhe ter sido dado o Nobel da Paz, em vez de outro qualquer – o da economia, por exemplo – merece alguma reflexão.

    É que a essa escolha subjaz uma premissa mais que discutível: a de que a saída da miséria promove a Paz, ou, dito de outra maneira, que a miséria é a causa da ausência de Paz.

    Não foi por ser mais miserável que os demais que Napoleão quis conquistar a Europa.

    Não foi por os alemães serem um povo miserável que Hitler entrou na Áustria, tomou os Sudetas, invadiu a Polónia…

    Modernamente, não eram miseráveis, bem longe disso, os fulanos que se espetaram contra as Torres de Nova Iorque.

    Os terroristas que destruiram o combóio espanhol tinham emprego, segurança social, reforma garantida, casa… os canalhas do metro de Londres a mesma coisa.

    Não é miserável o senhor Bin Laden nem os seus apaniguados.

    A esmagadora maioria das sociedades verdadeiramente miseráveis não são ninhos de terroristas nem invadem o parceiro.

    Se o Irão prepara bombas nucleares e ameaça destruir Israel, tal não se deve à fome ou à miséria da população.

    Por outro lado, também é facto que um dos países mais miseráveis do mundo – a Coreia do Norte – é, simultâneamente, uma ameaça à Paz.

    Também é facto que há bombistas suicidas que, para além dos putativos prémios que os esperam no céu de Alá, recebem uns dolarezitos para a família antes de se imolar, assassinando quem estiver por perto.

    A ausência de Paz é fruto de dois elementos que, enquanto tal, podem não ser um mal: o Poder e a Ideologia.

    O niilismo fundamentalista (a ideologia) não é fonte de insegurança e de guerra por nascer das condições de miséria dos povos, mas do "conhecimento" da verdade "única" que, como tal, é justo impor a terceiros. As massas pobres podem servir de carne para canhão aos detentores da "verdade", mas não são elas a razão primeira dos males que causam.

    A vontade de domínio (o poder) não advém da sede que dele têm os miseráveis, mas da insatisfação permanente que dele é própria.

    O Poder insatisfeito e a Ideologia totalitária/fundamentalista, ou, as mais das vezes, a explosiva mistura de ambos, podem servir-se dos pobres para os seus fins, contra a Paz e a Segurança de terceiros. Mas nem sempre precisam de tal matéria-prima, nem é, repito, essa matéria prima o que está na origem do problema.

    Por isso que a insistência de tantos pensadores – os da Academia Sueca, por exemplo – em estabelecer uma relação, virtualmente exclusivista, entre a miséria e a ausência de Paz, seja um erro crasso e um perigoso desvio da inteligência crítica.

    Fazer os impossíveis por acabar com a pobreza, como fez o economista do Bangladesh, sim senhor, e já!

    Cometer erros infantis quanto à razão das coisas pode ser, para quem os comete, uma boa acção. Mas equivale, para quem quiser pensar a Paz, a pôr as coisas de pernas para o ar.

    António Borges de Carvalho
  • Manifs

    A manifestação “generalista” de ontem, inspirada pelo PC, do tamanho do estádio nacional, e a de há dias, mais “pluralista”, dos professores, que encheria o do Belenenses, merecem alguma reflexão.

    Uma e outra tiveram inesperada adesão, com a habitual guerra de números, uns a dizer que eram muitos, outros que não tantos, etc. Indiscutível é que foram expressivas e que não há quem lhes não encontre fundamentos, ou seja, quem não compreenda, à esquerda e à direita, as razões da turba-multa que se sente prejudicada pelas medidas do senhor Pinto de Sousa (Sócrates).

    Para quem se sinta impressionado com as mobilizações conseguidas, uma realidade de sinal contrário deve entrar no prato da balança: as sondagens. Estas continuam a mostrar, clara e unanimemente, que o senhor Pinto de Sousa (Sócrates) continua firme à cabeça de todas as apreciações populares e ganharia, com larga margem e maioria absoluta as eleições, se as houvesse neste momento.

    A democracia das urnas, que é a propriamente dita, diz o contrário da das ruas. Pinto de Sousa (Sócrates) está bem e recomenda-se, o eleitorado continua a apoiá-lo sejam quais forem as mobilizações do senhor Carvalho da Silva, alter ego do camarada Jerónimo, e as histerias dos professores, sedentos de diuturnidades e promoções à papo-seco.

    É bom que as novas gerações, as que não assistiram à revolução leninista de 1975, percebam que, ao longo da história, muitos regimes mais ou menos decentes foram abatidos por manifs e substituídos por hediondas ditaduras.

    Não é um mal em si que, quem o queira fazer, se manifeste nas ruas. O mal está em deixar-se impressionar por isso, ou deixar que as minorias barulhentas acabem por usurpar ou enfraquecer o poder democraticamente eleito.

    Em Portugal existe, a título obrigatório, uma coisa abstrusa que se chama “democracia participativa”, uma cavilhasinha de “poder popular” deixada na Constituição, bem a jeito, pelos esquerdoidismos da época revolucionária. Em si, a expressão até é bonita. Mas parte de uma (propositada) confusão entre o direito que a cada um assiste de participar na vida pública – uma consequência da liberdade de pensamento e de expressão – e o exercício do poder, esse dependente e legitimado pelas urnas, que não pelas opiniões do dia-a-dia, por mais mobilizadoras que sejam.

    Não me sinto feliz por ser governado pelo senhor Pinto de Sousa (Sócrates). Espero, quer dizer, tenho esperança que uma alternativa democrática o venha a apear, e quanto mais depressa melhor. O que não quer dizer que o homem, apesar de mentiroso e insuportável, não tenha todo o direito a exercer o poder. Desejo que se não deixe amedrontar pelas ruas e que perceba que não é delas que lhe vem a legitimidade.

     

     

    António Borges de Carvalho