IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


Ai “Rivóli”, “Rivóli”

Talvez desde os tempos do Marquês de Pombal, ou da segunda fase do seu mandato – quando o primado do Estado atingiu o auge – que os portugueses vivem, de uma forma ou de outra, com uma justificação ou outra, “aculturados” por essa colossal entidade, em princípio criada para os servir, mas que se serve deles e lhes paga com empregos, com benesses, com subsídios, com nepotismos vários, e se substitui a eles na obtenção e concessão dos meios que, em princípio, por eles deviam ser gerados e geridos.

Avessos à evolução, os portugueses preferem “avançar” com base em roturas. Mas, apesar delas ou seja qual for o seu sentido, o primado do Estado mantém-se, a sua missão de guardião das liberdades individuais sossobra perante a afirmação da sua majestade.

 

Vem isto a propósito da presente “guerra” que se trava no Porto, entre um grupo de “agentes culturais” e a Câmara Municipal, sobre a gestão do teatro Rivoli.

É que a CMP, para o efeito figurando o Estado, a coisa pública, parece que quer entregar o teatro à iniciativa privada, acabando com a política de subsídios a fundo perdido que vinha a ser seguida, ou seja, abrindo uma brecha nas suas “obrigações” socias e culturais.

A coisa está de tal forma quente que já vi escrito que a Câmara “demite-se totalmente da gestão do seu principal teatro municipal… resumindo o Porto a uma expressão assumidamente paroquial”.

Não consigo enxergar em que medida é que o tal teatro, por ser gerido por privados, resumirá o Porto a uma expressão paroquial, ainda por cima “assumidamente”. Confesso que nem percebo bem o português do comentador. Cito-o por ser paradigmático quanto à virulência da “justa indignação” do “povo”.

Haverá quem diga que os protestantes são do PC, do BE, ou similares. Julgo esta análise errada, por redutora.

Os protestantes encaram o problema à portuguesa: são “agentes culturais”, por conseguinte “têm o direito” a ser pagos pela coisa pública. É um raciocínio comum. A coisa pública é dona, patroa, de nós todos. Portanto, tem que nos pagar, subsidiar, gerir. Tudo isto por uma questão de princípio, e até que a morte nos separe.

 

Os portugueses são avessos ao risco, não admitem o seu próprio insucesso nem estão preparados para aguentar as consequências negativas do que fazem. Aliás, é por partirem do princípio fadista de que não têm nem terão “sorte”, que preferem o guarda-chuva estatal (ou camarário, tanto faz) à assumpção da iniciativa e às suas possíveis consequências.

A “qualidade” dos “agentes culturais” em fúria é bem documentada por uma fotografia que um jornal ontem publicava: uma protestante menina empunhando um cartaz onde se lia qualquer coisa como O Rivóli (sic) é nosso. O acento agudo chega para avaliar, sem temer erros de análise, quem está envolvido na luta.

Mas não é, nem especialmente nem sobretudo por se estar perante um grupo de analfabetos que o assunto merece comentário. Lembro-me de, aqui há uns anos, a propósito de uma questão semelhante, ter lido que o actor/encenador Luis Miguel Cintra – que, obviamente, não escreve Rivoli com acento agudo – por ser “criador”, se acha no “direito” de ser pago pelo Estado.

É neste género de estúpida ilusão que vivemos, sendo legítimo presumir que, a este respeito, não há nada a fazer. É que a coisa funciona nos dois sentidos. A Câmara do Porto não teve mais que uma crise de soluços.

 

António Borges de Carvalho


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