É já um dado adquirido que a política externa e as prioridades estratégicas do EUA e da Europa se afastam a olhos vistos.
O que, a este respeito, se tornou visível para o grande público aquando da oposição franco-germânica à guerra do Iraque, não é mais que a ponta de um iceberg que, dir-se-á desde o fim da guerra fria, se vinha formando.
A recusa da Europa, mais por razões eleitorais do que por pensamento estratégico, em se reorganizar e reequipar militarmente, vinha de mais longe, mas encontrava um bom pretexto na existência e na fiabilidade do “guarda-chuva” americano. Os aliados do lado de lá do Atlântico insistiam na necessidade de algum equilíbrio e na interoperabilidade dos sistemas, mas a diversidade de interesses tecnológicos e industriais, por um lado, e considerações de política interna, por outro, impediram que esse objectivo fosse prosseguido de forma consistente.
Ironicamente, foram os europeus os primeiros a ser “vítimas” da situação que criaram. Ainda no tempo do Presidente Clinton, e um pouco à revelia dos interesses americanos, foi a “Europa” – leia-se, sobretudo a França – quem veio, a propósito da intervenção na Sérvia, “exigir” a cooperação dos EUA, sem a qual a acção se teria saldado por dezenas de milhares de mortos. Foi a solidariedade dos americanos, que no assunto não tinham qualquer sombra de interesse, o que o evitou tal derramamento de sangue[1].
A resposta a este acto de solidariedade não se fez esperar. Na primeira oportunidade, os dois mais importantes países europeus não só recusaram – o que poderia ser aceitável – apoio militar ou até político à iniciativa iraquiana de George W. Bush, como trataram de a pôr em causa e de a ilegalizar e ilegitimar por todos os meios políticos e jurídicos ao seu alcance. Não cuidaram, sequer, de ter em conta que essa intervenção era, à luz do direito invocado, tão ilegal como a da Sérvia. Com uma diferença: é que George Bush fez o que pode para fazer passar a sua decisão no Conselho de Segurança, ao passo que os europeus nada de parecido fizeram a respeito da guerra contra a Sérvia.
Estas atitudes não podem deixar de ter consequências negativas na manutenção do chamado “transatlantic link”.
O correr do tempo vem juntar a tudo isto as emergências asiáticas. Fatalmente, estas criam, para a super-potência, prioridades outras que não aquilo a que se chamou “defesa do Ocidente” ou do “mundo livre”. O putativo, mas previsível, não êxito das operações no Iraque, as “perseguições” europeias aos métodos menos ortodoxos que parecem ter sido usados pelos americanos na luta contra o terrorismo, a monumental pressão dos media e dos fazedores de opinião sobre os públicos europeus contra os EUA, tudo parece conjugar-se para pôr fim à solidariedade transatlântica.
Se a este progressivo afastamento viesse juntar-se alguma “independência” europeia em termos de defesa e segurança, dir-se-ia não haver motivos para inquietação de maior. Os dois lados do Atlântico, firmados em valores comuns, prosseguiriam caminhos diversos mas basicamente afins. A Europa, potência económica global, proveria às suas necessidades em matéria de defesa e segurança.
O problema é que tal não acontece. Ao mesmo tempo que se afasta, politicamente, do seu aliado tradicional, a Europa deixa alargar o “gap” defensivo, arriscando-se a que as mais que óbvias novas prioridades estratégicas norte-americanas, aliadas ao ambiente crispado que se criou, impeçam a repetição do preenchimento de tal “gap” por forças americanas.
A própria NATO é hoje mais um utensílio de segurança do que uma aliança defensiva com sólidos fundamentos ideológicos, e consequência de políticas comuns.
Quando Robert Kagan fala da “quebra da legitimidade geral americana no Ocidente devido ao fim da guerra fria”, parece-me não estar a colocar a questão da melhor forma. Foram os europeus, e não só, nem principalmente, o fim da guerra fria, quem pôs em causa essa legitimidade, bem como a liderança do dono do “guarda-chuva”.
Parece, por outro lado, evidente não ser verdade que, como diz Kagan, “a Europa já não precisa dos Estados Unidos para a sua segurança”. Para além de outros exemplos, as guerras da Jugoslávia demonstraram à saciedade o contrário.
As diferenças de “approach” político entre os europeus e os americanos são legítimas, mas não o é, da parte dos governos europeus em relação aos seus povos, que a tais diferenças não correspondam políticas de informação da opinião pública que permitam o desenvolvimento dos meios que possam dar foros de verdade às palavras do analista.
Kagan diz, desta vez com inteira razão que, no Báltico e na Europa central, “as alianças dos EUA são claramente mais fortes”.
Neste sentido, bom seria que o Ocidente europeu percebesse que, no caminho que actualmente percorre, está não só a condenar a ligação transatlântica, como a, em vez de unir, dividir, mais uma vez, o seu próprio continente.
António Borges de Carvalho
[1] Nunca será demais sublinhar, a respeito da guerra contra a Sérvia, que a primeira intervenção militar da NATO se deu para defender uma comunidade muçulmana contra uma cristã, coisa não só “esquecida” pelos muçulmanos como menorizada pelo Ocidente, por razões que à razão escapam.

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