Tecem-se por aí os mais rasgados encómios à Academia Sueca, por ter dado o Nobel da Paz a… um economista.
De repente, descobriu-se que o micro-crédito é um remédio óptimo para a pobreza, chegando-se so ponto de até o Senhor Presidente da República Portuguesa vir à televisão apanhar o combóio dizendo que é grande amigo do premiado!
Estou de acordo com tudo. O premiado é um herói. Se é verdade que tirou muito gente da miséria, se é verdade que pôs muito gente a trabalhar para si própria – novos capitalistas, dirá, inteligente como é, o camarada Jerónimo – o homem merece todos os elogios pelo sistema que inventou, merece prémios, merece admiração, merece tudo!
Posto isto, julgo que o facto de lhe ter sido dado o Nobel da Paz, em vez de outro qualquer – o da economia, por exemplo – merece alguma reflexão.
É que a essa escolha subjaz uma premissa mais que discutível: a de que a saída da miséria promove a Paz, ou, dito de outra maneira, que a miséria é a causa da ausência de Paz.
Não foi por ser mais miserável que os demais que Napoleão quis conquistar a Europa.
Não foi por os alemães serem um povo miserável que Hitler entrou na Áustria, tomou os Sudetas, invadiu a Polónia…
Modernamente, não eram miseráveis, bem longe disso, os fulanos que se espetaram contra as Torres de Nova Iorque.
Os terroristas que destruiram o combóio espanhol tinham emprego, segurança social, reforma garantida, casa… os canalhas do metro de Londres a mesma coisa.
Não é miserável o senhor Bin Laden nem os seus apaniguados.
A esmagadora maioria das sociedades verdadeiramente miseráveis não são ninhos de terroristas nem invadem o parceiro.
Se o Irão prepara bombas nucleares e ameaça destruir Israel, tal não se deve à fome ou à miséria da população.
Por outro lado, também é facto que um dos países mais miseráveis do mundo – a Coreia do Norte – é, simultâneamente, uma ameaça à Paz.
Também é facto que há bombistas suicidas que, para além dos putativos prémios que os esperam no céu de Alá, recebem uns dolarezitos para a família antes de se imolar, assassinando quem estiver por perto.
A ausência de Paz é fruto de dois elementos que, enquanto tal, podem não ser um mal: o Poder e a Ideologia.
O niilismo fundamentalista (a ideologia) não é fonte de insegurança e de guerra por nascer das condições de miséria dos povos, mas do "conhecimento" da verdade "única" que, como tal, é justo impor a terceiros. As massas pobres podem servir de carne para canhão aos detentores da "verdade", mas não são elas a razão primeira dos males que causam.
A vontade de domínio (o poder) não advém da sede que dele têm os miseráveis, mas da insatisfação permanente que dele é própria.
O Poder insatisfeito e a Ideologia totalitária/fundamentalista, ou, as mais das vezes, a explosiva mistura de ambos, podem servir-se dos pobres para os seus fins, contra a Paz e a Segurança de terceiros. Mas nem sempre precisam de tal matéria-prima, nem é, repito, essa matéria prima o que está na origem do problema.
Por isso que a insistência de tantos pensadores – os da Academia Sueca, por exemplo – em estabelecer uma relação, virtualmente exclusivista, entre a miséria e a ausência de Paz, seja um erro crasso e um perigoso desvio da inteligência crítica.
Fazer os impossíveis por acabar com a pobreza, como fez o economista do Bangladesh, sim senhor, e já!
Cometer erros infantis quanto à razão das coisas pode ser, para quem os comete, uma boa acção. Mas equivale, para quem quiser pensar a Paz, a pôr as coisas de pernas para o ar.
António Borges de Carvalho

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