IRRITADO

Um blogue de António Borges de Carvalho

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


  • NÃO VÁS À VAZ, MEU RAPAZ

     

    “Não é de excluir que quem tem um comportamento irresponsável com a saúde venha a pagar mais por ela ou lhe seja recusado um implante”

    Isabel Vaz, Presidente da Espírito Santo Saúde

     

     

    Assim. Pois. Sic. Ipsis verbis. Nem mais nem menos. Citação sublinhada no “Expresso” de ontem.

    Veja-se o alto sentido moral que anima a nobre senhora e, pelos vistos, a ES Saúde.

    Você fuma. Fica sem uma perna num desastre de automóvel. Se for parar à ES Saúde, será objecto de um despacho da dona Isabel, ou recusando-lhe uma prótese, ou aplicando-lhe um violenta sobretaxa. Se precisar de um pulmão, coisa ainda mais ligada ao seu tenebroso vício, mesmo que haja fartura de pulmões no armazém verá a dona Isabel despachar “indeferido”.

    Você gosta de pastéis de bacalhau. Abusa de tais e tão horríveis fritos. Nem pense ter uma crise de fígado. Se a tiver, é garantido que, por justa intervenção da dona Isabel, ou pagará a sobretaxa da ordem para ser tratado, ou, se precisar de um fígado novo, o melhor é ir ao talho. Dona Isabel condená-lo-á a uma justa morte.

    Você é um benfiquista, sportinguista ou portista empedernido. As emoções da bola dão-lhe cabo do coração. Do alto da sua alta moral, dona Isabel recusar-lhe-á o desfibrilador, ou taxá-lo-á em conformidade. E nada de pace makers ou de outras tecnologias de ponta, que a moral da dona Isabel não consente que se gaste consigo o que pode servir para alguém que não seja “irresponsável” como você, meu caro. De transplantes, nem pó, que a dona Isabel não deixa.

     

    Assim. Pois. Sic. Nem mais nem menos.

    Lúcifer está fora de moda. Para nos fazer pagar pelos nossos pecados – os que estão na lista da ES Saúde, elencados pela senhora – basta recorrer aos bons ofícios da dita.

     

    Se a dona Isabel tivesse nascido há cem anos teria lugar de topo garantido no laboratório do Dr. Mengele. Como nasceu há quarenta e tal tem lugar de Presidente da ES Saúde.

     

    Não vás à Vaz, meu rapaz. Ou morres ou pagarás.

     

    21.3.10

     

    António Borges de Carvalho
  • INÊS DE MEDEIROS II

     

    Excelentíssima Senhora Deputada Dona Inês de Medeiros,

     

    Chère Madame

     

    O IRRITADO teve, aqui há umas semanas, o topete de escrever uma carta a Vossa Excelência sobre a importante matéria das viagens semanais de Vossa Excelência, em classe executiva, a Paris, luminosa quão merecida cidade de residência de Vossa Excelência.

    Permite-se agora o cullot de voltar à augusta presença de Vossa Excelência. Antes de mais, portanto (como diria o camarada Jerónimo), as mais humildes desculpas pelo atrevimento deste seu servo e amigo.

     

    Tem o IRRITADO seguido, com a admiração e a estima que, no fundo da alma, nutre por Vossa Excelência, as vicissitudes por que tem passado a história do ingente problema que a aflige: quem paga as viagens de Vossa Excelência a Paris? Sim. Quem?

    Parece que ninguém!

    Anda meio mundo preocupado com o assunto, sendo o mais aflito de todos Sua Excelência o Senhor Deputado José Lelo[i], mui Ilustre Presidente do Conselho de Administração da Assembleia da República, entidade a quem, sem sombra de dúvida, caberá pagar as viagens de Vossa Excelência.

    Ora, como é sabido, o insigne cidadão tem várias dificuldades do tipo mental, coisa de que não terá culpa, uma vez que já nasceu assim. Daí que, por mais voltas que dê ao limitado bestunto com que foi brindado pela criação, não consegue encontrar o competente penduricalho orçamental onde caibam os 1.200 euros que custa cada viagem de Vossa Excelência.

    Em que triste miserabilismo vive a Pátria do Senhor Dom João V!

     

    Se Vossa Excelência andar por cá uns 10 meses por ano, teremos umas 45 viagens, o que, contas feitas, se cifrará nuns meros 54.000 euros, ou seja, em moeda antiga, uns míseros 10.826.028.000 réis. Em 4 anos de mandato, a coisa não passará, como é evidente, de 43.304.112.000 réis, ou, em moeda republicana, 43.304 contos mais uns pós.

     

    Tem Vossa Excelência toda a razão quando, solene e superiormente, declara “não sei quem paga nem quanto custa”. Era o que faltava, Vossa Excelência preocupar-se com problemas destes, coisa para lelos e quejandos, gente de somenos. Vossa Excelência não sabe, nem tem que saber, o valor em jogo. “Nada disso passa por mim”, declarou. Mais. Vossa Excelência, como é de timbre entre os socialistas, não se preocupa com o assunto. “Escolhi uma (agência de viagens), e passei a marcar por essa: telefono e recebo os bilhetes”. É assim mesmo! A altíssima dignidade de Vossa Excelência não permite, sequer, que erga o mimoso cul da poltrona para tratar de coisas menores. Como é óbvio, alguém trás o bilhete, alguém há-de pagar, Vossa Excelência não desce a problemas de lelos. Viaja, e acabou-se. Muito bem!

     

    Teve o IRRITADO a desfaçatez, na sua anterior missiva, de suscitar a curiosidade de Vossa Excelência para o facto de haver cidadãos – ainda que, como é lógico, gente de qualidade inferior à sua – que fazem Lisboa/Paris/Lisboa por uns 150[ii] euros, no mesmo avião que Vossa Excelência utiliza, mas lá para trás, com o cul não tão à larga e sem champanhe nem refeição quente.

    É certo que Vossa Excelência não tem que descer ao ponto de aceitar sugestões do IRRITADO. Não pode este, porém, deixar de, com todo o respeito, dizer que, se Vossa Excelência o fizesse, o Lelo gastaria 14,5 vezes menos do que vai acabar por gastar com as viagens de Vossa Excelência.

     

    Tudo isto não passa, como é evidente, de fruto da mentalidade capitalista do IRRITADO, coisa incompatível com a majestática dignidade socialista de Vossa Excelência.  

     

    20.3.10

     

    António Borges de Carvalho

     


    [i] Lelo – doido, vaidoso (Dicionário Universal da Língua Portuguesa, Texto Editora).

    [ii] Algo me diz que Vossa Excelência, antes de subir ao altar doirado em que se encontra, viajava por 150 euros, como a plebe. Agora, já nem quer saber quanto custa, ou custava, a sandocha e o assento apertadinho. Pois faz Vossa Excelência muito bem! Socialisme oblige.

  • FORÇA CAMARADAS!

     

    Andam para aí uns artistas, do PS pois então, a querer que o estimado governo do senhor Pinto de Sousa apresente uma Moção de Confiança.

    Força, camaradas! Força! Se for esse o meio de nos livrar do rapazola, ai, que maravilha. Que maravilha seria deixarmos de andar envergonhados, enganados, aldrabados, arruinados por este fulano e pelo bando de desavergonhados em que transformou um partido outrora mais ou menos respeitável.

    A ideia é simples. As sondagens, para já, ainda dão uma margem ao fulano. O Presidente parece que não quer, ou não pode, mexer uma palha. O PSD ainda não estabilizou e, ainda que sejam fraquíssimas as hipóteses de vir a estabilizar, quem sabe?

     

    Lembrados da “técnica” do camarada Sampaio, que esperou calmamente pela reorganização do PS e do PC para perpetrar o seu repugnante golpe de Estado, os artistas têm justificado receio que o Professor Silva faça o mesmo, logo que lhe pareça que o PSD está em boas condições. Por isso, acham que o melhor é provocar desde já a queda do governo, a fim aumentar as hipóteses de continuar no poder, ainda que com menos deputados, ainda que com menos poder, ainda mais dependente de terceiros. O que interessa é o poder, não a legitimidade, não a atitude moral, não as pessoas, não o país. Se estas ninharias interessassem, o PS teria, como é hábito em tantas democracias europeias, outra solução de governo. Cais quê? Dividir o poder? Nem pensar! O senhor Pinto de Sousa montou uma série de teatradas, um montão de enganos, para convencer as pessoas que tinha que governar sozinho. O poder é nosso, não se divide!

     

    A circunstância enche-nos de um misto de esperança e de pavor.

    Nada mais feliz, mais justo, mais ético, do que correr com esta gente. Esperança, pois.

    Nada mais assustador, mais negativo, mais horrendo que correr o risco de que o senhor Pinto de Sousa possa ter mais um voto que o que se classificar a seguir. Pavor, sem dúvida.

     

    O IRRITADO, apesar de tudo, prefere a esperança, a coragem, a dignidade, a luzinha, por pequena que seja, ao fim do túnel onde esta gente nos meteu.

    Por isso, força camaradas! Moção de Confiança, já!     

     

    19.3.10

     

    António Borges de Carvalho
  • POLÍTICA DE NATALIDADE

     

     

    Há, nos EUA, uns bandos de malucos, verdes, socialistas, “amigos” dos animais, etc., – todos fiéis da nova religião do aquecimento global – que, a fim de “salvar a Terra”, preconizam, com copiosa argumentação, o fim “faseado” da humanidade. Só quando esta ficar reduzida a uns 350.000 exemplares poderá, segundo esta gente, chegar-se a um “equilíbrio” que “respeite” os interesses do planeta.

    Um bando de canalhas que não merece crédito? Infelizmente não é bem assim. Mentalidades deste tipo há-as por toda a parte, ainda que mais comedidas nas suas afirmações.

    Por cá, actua-se decididamente nesta direcção. Protegidos por progressista lei da esquerda, realizaram-se em Portugal quase vinte mil abortos, só em 2009, mais mil que em 2008. Em dois anos, cerca de 39.000 fetos foram incinerados nos fornos crematórios do socialismo.

    Seja qual for a posição de cada um em relação à chamada IVG, os números referidos são socialmente assustadores. Mais ainda se, de um ponto de vista “economicista” (palavra tão ao gosto dos demagogos ao serviço do governo), se considerar que, a 200 euros se subsídio de “maternidade” por cada aborto, já lá vão uns 7.800.000 euros. Se o custo, para as “maternidades” do Estado, ou seja, para o contribuinte, for de uns 300 euros por “nascimento”, então teremos qualquer coisa com 20.000.000 arrancados ao nosso pobre bolso com o nobre fim de evitar a “expansão demográfica” do país. Se, a este negro quadro juntarmos os custos que suportamos para a aquisição de preservativos, pílulas preventivas e abortivas e outros produtos que, pelos vistos, há que não use para poder ganhar honradamente 200 euros, então os números devem ser muito maiores.

    Num país que, todos os anos, perde população, este tipo de políticas tem que se lhe diga, não é?

    O senhor Pinto de Sousa, quando olha para o espelho, deve ficar felicíssimo, não é?

     

    19.3.10

     

    António Borges de Carvalho
  • “JUSTIÇA” SOCIAL

     

    Conheci um economista americano que, como a empresa onde trabalhava faliu, andava a distribuir jornais porta a porta. Perguntei-lhe se não se sentia diminuído com a situação. Disse-me que sim, mas que se sentiria muito pior se andasse a viver à custa da caridade dos outros ou de um subsídio a que até tinha direito, mas que preferia “capitalizar”. Mais tarde ou mais cedo, dizia, há de aparecer um job em que possa aplicar os meus conhecimentos e ganhar em conformidade. Entretanto, não me penduro seja em quem for, nem no Estado, nem nas companhias de seguros, nem noutro esquema qualquer.

    Compaginemos este exemplo com um dado que apareceu cá no burgo, aqui e ali, em letra miudinha: só em Janeiro deste ano, em Portugal, houve 19.000 (dezanove mil!) ofertas de emprego que ficaram por preencher. Números oficiais. Quer dizer: houve 19.000 portugueses – só num mês – que preferiram continuar a receber o subsídio de desemprego a ocupar-se de um trabalho desagradável. Na certeza, pensarão, que, quando o subsídio de desemprego chegar ao fim, entrará em acção o subsídio de inserção ou outra marosca qualquer que lhes permita continuar a não fazer nenhum ou prosseguir em biscates paralelos.

     

    Quando se diz, aos gritos, que há não sei quantos mil jovens licenciados à procura de emprego, lembro-me de, já lá vão muitos anos, ter andado, às tantas da manhã, em Munique, num táxi conduzido por um jovem advogado que me explicou que, enquanto procurava uma situação melhor, tinha aceite ser taxista das sete da noite às sete da manhã, já que os horários de dia eram para os “profissionais”. Não se sentia menos digno por causa disto.

    Vá-se lá dar este exemplo aos nossos ilustres “doutores”, quantas vezes “licenciados” em coisas que nem eles sabem o que são nem para que servem.

     

    Se o camarada Louça lesse estas linhas chamar-me-ia os piores nomes. Para ele, há que dar tudo a quem nada faz, porque a “sociedade” deve a todos a satisfação do direito a uma sobrevivência digna e próspera.

    O problema não é o do camarada Louça ou o do camarada Jerónimo, ou do aldrabão Pinto de Sousa – este só quando dá para a propaganda – terem opiniões tão miríficas, para não dizer estúpidas. É, outrossim, o de se ter instalado em Portugal, via um socialismo já endémico, a ideia de que há um semideus, o Estado, que deve tudo, incluindo o que não pode pagar. Como tal semideus lá está, poderoso e inamovível, alguém há-de pagar. O que implica, como é evidente, a ruína do Estado e a miserabilização da sociedade.

     

    Os que precisam “mesmo” da solidariedade dos demais, vão, como não podia deixar de ser, morrendo de fome e de tristeza e de abandono.

    Isto, por exemplo, para que os pilotos da TAP, mais o Picanço, mais a Avoila, mais o xarroco dos bigodes, mais o Carvalho da Silva & Cª Lda possam continuar a fazer as suas greves, as suas manifestações e outras sofisticadas formas de fazer troça de quem precisa.      

     

    18.3.10

     

    António Borges de Carvalho
  • A MATILHA

     

    A partir de Domingo passado, um clamor de indignação se levantou por ermos e povoados, vales e montanhas, rios e marés: Santana Lopes tinha proposto, e o Congresso aprovado, a chamada “lei da rolha”!

    Ribombaram indignações de toda ordem. Do grande democrata Jerónimo ao camarada Louça, do impossível e repenicadamente odioso Assis ao extraordinário Lacão, dos jornais mais à direita aos mais à esquerda, não houve quem não vituperasse a miserável proposta, o desvio fascizante, o regresso o passado, a nova censura, a evidente ofensa aos mais sagrados princípios da Constituição e das Leis, da democracia, dos direitos do homem, do diabo a quatro.

    Até, imagine-se, os três ilustres candidatos (o abominável Coelho, o sossegadíssimo Branco e o rangente Rangel) elevaram as suas doutas vozes para lançar tonitruante anátema sobre a pavorosa iniciativa.

    Imagine-se a gravidade do escândalo.

     

    O pior, ou o melhor, é trocar a coisa por miúdos.

    a)    Todos os partidos têm, nos seus estatutos, normas disciplinares preconizando a punição dos seus membros que contrariem as orientações ou os princípios do partido, o que, aliás, acontece com a generalidade das organizações da sociedade civil, do Benfica à Academia das Ciências, do PS à filarmónica de Alcagonces;

    b)    No PSD, tais normas não constavam dos estatutos, mas de um regulamento disciplinar qualquer;

    c)    Em tal documento eram estabelecidas várias sanções, que podiam levar à expulsão dos prevaricadores, prevaricassem quando prevaricassem;

    d)    A seu tempo, o Dr. Santana Lopes apresentou as propostas de alterações estatutárias que teve por bem;

    e)    Ente elas uma que passava a norma do regulamento referida em a) para os estatutos, ao mesmo tempo que passava a ofensa a tal norma a ser “grave” apenas a dois meses de eleições, e não a poder sê-lo em qualquer altura, como dizia, até agora, o tal regulamento;

    f)      É evidente a intenção do proponente, primeiro de morigerar a aplicação de sanções, segundo de chamar a atenção, para a triste experiência do PSD nesta matéria, sobretudo nos últimos anos.

    g)    Acontece que os três ilustres candidatos à liderança do partido, que não discutiram tal alteração estatutária quando ela foi posta à discussão, que não se opuseram a que fosse aprovada, que não votaram contra ela, que, se calhar, olímpica e propositadamente, a desconheceram, se apressaram, como uns leões, a embarcar na tempestade mediática que a estupidez congénita e o oportunismo idiota da nacional bem-pensância desencadearam em retumbante berraria.

     

    É normal que a coisa rasca e ordinária em que o senhor Pinto de Sousa transformou o outrora respeitável PS trate de aproveitar a onda para tecer, contra o PSD, as alarvidades que entende, sem cuidar, sequer, de olhar para os seus próprios estatutos, onde matéria da mesma natureza é contemplada, e de forma mais punitiva.

     

    O que não é normal nem se pode aceitar é que os três mosqueteiros da treta, em confronto eleitoral no PSD, decidam ocupar-se a desacreditar terceiros que com eles não concorrem – ao ponto, segundo o Branco, de achar a coisa “inconstitucional” – entrando na uivante matilha não se sabe com que fim que não seja dar largas à estupidez própria e desacreditar o partido que pretendem chefiar.

     

    Pobre PSD!

     

    16.3.10

     

    António Borges de Carvalho
  • AINDA AS ESCUTAS

     

    A história das escutas ainda tem que se lhe diga.

    Vejam isto:

    Sua Excelência o Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, afinal, autorizou escutas ao primeiro-ministro! Segundo o seu último e definitivo despacho, havia escutas que tinha autorizado, e escutas que não tinha autorizado. Quanto a estas, é simples: como eram ilegais e como Sua Excelência já tinha escrito, não valem, contenham o que contenham. Quanto a uma outra, cuja validação o PGR tinha solicitado, informando que, na sua opinião, não tinham nada a ver “com a matéria do processo de onde foi extraída a certidão” (o do sucateiro), Sua Excelência opina, e decide, que, apesar de a escuta ser legalmente válida, “afecta o direito fundamental à palavra e autodeterminação informacional”, ordenando por isso a sua imediata destruição.

    Pese embora não constar da Constituição nenhum “direito fundamental à palavra e à autodeterminação informacional” será de atribuir a estranha e rebuscada expressão de Sua Excelência a alguma interpretação extensiva de outro direito fundamental qualquer.

    Atente-se na subtileza dos dois altos magistrados quando dizem que os ditos do primeiro-ministro e do seu amigo Vara nesta escuta nada têm a ver com o processo das sucatas. Note-se que, como ninguém anda à procura das relações do primeiro-ministro com o senhor Godinho, o que interessaria saber era por que carga de água, ou a que propósito, os homens de Aveiro terão achado que tal escuta despertava suspeitas. De quê, não se sabe. Pode imaginar-se mas não se sabe. Como os magistrados de Aveiro não são, manifestamente, nem umas bestas nem uns ignorantes, ou são parte das “forças ocultas” que perseguem o primeiro-ministro ou encontraram qualquer coisa na tal escuta, ora destruída, que despertou o seu interesse, para além do caso das sucatas.

    Os despachos de Suas Excelências têm o condão de, sem mentir, ocultar a verdade, seja ela qual for. Se as escutas não tinham a ver com o processo em investigação, tinham a ver com quê? Mais uma vez é legítimo perguntar o que moveu os magistrados de Aveiro. Facto é que, após os despachos de Suas Excelências, nem judicialmente nem politicamente se pode dar qualquer seguimento ao assunto.

    E ainda há quem diga que, objectivamente, estes doutos juristas não andam a proteger o senhor Pinto de Sousa!

     

    14.3.10

     

    António Borges de Carvalho
  • MAIS UM

     

    Já ninguém tem dúvidas sobre a base aldrabona em que assenta o poder político em Portugal. Não há jornal, nem rádio, nem televisão, nem seja que cidadão for que não esteja de acordo com esta devastadora verdade e que não a diga sem desmentido possível.

    No entanto, não será despiciendo ir assinalando certos novos elementos do pelotão da aldrabice que por aí se vão revelando.

     

    Veja-se o senhor Bava, chefe dos negócios da PT, que, em 25 de Junho de 2009, disse na RTP que não havia ainda fixação do preço a pagar à Prisa por 30% da TVI e que, há três dias, afirmou em São Bento que, a 19 do mesmo mês, já tinha estabelecido um acordo com os espanhóis a tal respeito.

    Para arquivo e memória futura.

     

    Para o mesmo efeito, assinale-se que o senhor Granadeiro também meteu, coitado, os pés pelas mãos na defesa do senhor Pinto de Sousa, já tendo dito e redito, não sei quantas vezes, que o preto é branco e que o branco é preto. Isto, para além de ter sido "encornado" e não ter reagido.

      

    Gente fina é outra coisa.

     

    14.3.10

     

    António Borges de Carvalho
  • DO CONSENSO UNIVERSAL

     

    O tristemente famoso IPCC (International Pannel on Climate Change), da ONU, vai ser objecto de uma operação de vigilância.

    O senhor Banquimune acaba de ordenar a contratação de uma agência científica qualquer para evitar que o tal IPCC continue a manipular dados, a aldrabar números, a arranjar esquemas informáticos marados, tudo a fim de manter viva a “religião” e o terror do aquecimento global.

    A esta série de malfeitorias, o senhor Banquimune chama “erros lamentáveis”, tais que a inacreditável, mentirosa e errónea propaganda sobre, por exemplo, os glaciares dos Himalaias que, no parecer do IPCC “poderão desaparecer até 2035, senão mesmo antes”, “informação” posteriormente emendada, reconhecendo o painel que se trata de 2350 e não de 2035, o que destrói à evidência qualquer hipótese de honestidade da dita.

     

    Veja-se agora o “espírito” que anima o senhor Banquimune. Diz o homem que “temos que agir com dados científicos o mais credíveis possível. É preciso garantir uma transparência total.” Isto, “garantindo” a certeza de que “a ameaça colocada pelas mudanças do clima é real”. Note-se que o homem, seguindo o politicamente correcto, já não fala em “aquecimento global”, a menina dos olhos do IPCC. Nem da “antropogénese” de tal aquecimento. No fundo, é a mesma coisa, isto de achar que o clima está a mudar e que o homem pode fazer seja o que for a tal respeito.

    Por outras palavras, a agência científica tem a missão de vigiar as afirmações do IPCC “desde que” não ponha em causa as suas pré-estabelecidas conclusões! Nas palavras do fulano, desde que se “não se mude o consenso científico sobre as alterações climáticas”.

    Tal “consenso científico”, chavão adoptado pelo senhor Al(drabão)Gore, antes de mais foi sobre o “aquecimento global provocado pelo homem” e não sobre as “mudanças climáticas”, coisa que vai acontecendo todos os dias desde que a Terra é Terra, e que continuará a acontecer quer se queira quer não. Segundo, tal “consenso” é uma manigância inominável: foi obtido num inquérito dirigido a dez mil “cientistas” de todo o mundo, tendo sido obtidas pouco mais de três mil respostas. Destas, uns sessenta por cento concordaram em que as mudanças climáticas, de facto, estavam em curso. Mesmo assim, muitas delas eram apresentadas com as mais justificadas ressalvas.

    Assim estabeleceram a ONU e o Al(drabão)Gore o “consenso universal” sobre a matéria!

    O tal “consenso universal” é responsável pela maior operação de saque dos dinheiros das pessoas da história da humanidade. É lógico: pois se fomos nós a causar o “aquecimento”, seremos nós a ter que pagá-lo. Não é?

    Se isto não é o novo fascismo, ou o novo bolchevismo, desta vez “universal” e “científico”, não sei o que seja.

     

    14.3.10

     

    António Borges de Carvalho
  • CRIME URBANÍSTICO, CULTURAL E PATRIMONIAL

     

     

     

    O IRRITADO já por várias vezes manifestou a sua indignação pela entrega da Casa dos Bicos à chamada Fundação Saramago. Antes de mais porque do conceito de “fundação” faz parte a ideia de que se trata de instituição financiada pelo seu, ou seus, fundadores, e não de uma coisa que os contribuintes têm o dever de sustentar com impostos. Se houver, e acho bem que possa haver, contribuições financeiras para uma fundação, que estas sejam exclusivamente privadas, individuais ou institucionais, mas sempre voluntárias, nunca obrigatórias. Ninguém pode ser obrigado a financiar através de impostos instituições de direito privado, quer concorde quer não com os seus objectivos. Se as fundações não têm, ou não são capazes, ou não querem financiar-se para além dos recursos de quem as funda através de contribuições voluntárias, então que fechem a porta e distribuam os seus activos em função da equidade e das suas normas estatutárias.

     

    A entrega da Casa dos Bicos a José Saramago é, porém, muito mais grave do que as asserções supra podem levar a pensar. Trata-se, não de um edifício qualquer, como os palacetes que a Câmara de Lisboa oferece a diáfanas instituições tipo ligas de propaganda e expansão da homossexualidade. A Casa dos Bicos é um monumento emblemático da cidade e do país, um marco (que devia ser indelével) do período mais brilhante da nossa História, uma peça de arquitectura única no mundo, um património que não pode deixar de ser municipal, ou nacional (já que nunca foi privado) e cujo uso, mesmo que gerido por entidades privadas, não pode, ou não devia poder ser dedicado a fins outros que não a publicitação e o estudo da História de que faz parte.

     

    O monumental escândalo que este negócio provoca, ou devia provocar, tem, além disto, um lado financeiro pelo menos pornográfico. É que a Câmara se prepara para gastar 2,2 milhões de euros do dinheiro compulsivamente pago pelos munícipes para pôr a Casa dos Bicos num brinquinho, devidamente adaptada à vontade da castelhana esposa do senhor Saramago para o que ela muito bem entende e objectiva.

    Tudo de pernas para o ar. Em vez de, como acontece nos países civilizados, haver uma instituição privada que, como mecenas, se ponha à disposição do Estado, ou da Câmara, para recuperar um monumento, a troco ou não da sua utilização para fins culturais ou outros, é a Câmara que vai servir de Mecenas aos megalómanos desejos do senhor Saramago, cidadão ainda por cima bem pouco português*, por mais bem-intencionada que seja, ou fosse, a sua megalomania!

    O escândalo não se fica por aqui. Ninguém sabe o que lá se vai meter. Ninguém estudou, ou avaliou, o que é o famoso “espólio” de José Saramago. Ninguém sabe (como no caso de Berardo) que mais-valias a exposição de tal espólio trará à cultura portuguesa. Às cegas, embarcando na demagogia saramaguiana, a CML entrega ao homem o que é nosso. Sem critério outro que não seja essa demagogia.

     

    Saramago, para quem gosta, é um grande escritor. Ganhou o Nobel por razões que a razão desconhece mas que a política da academia sueca poderá explicar.

    Seja ou não um grande escritor, facto é que Saramago, para além de ter praticado vários crimes contra a Liberdade, é talvez o mais desagradável, o mais antipático, o mais “importantão” de todos os portugueses. A sua castelhana, por seu lado, é uma nulidade cultural. Uma nulidade que aprendeu com o fulano a ser desbocada, insultuosa, antipática e convencida. Uma nulidade que, por gritante ignorância e por primitivismo feminista, quer ser tratada por “presidenta”, como se, se fosse homem, passasse a “presidento”.

    E é a esta gente que o inacreditável Costa se prepara para entregar uma jóia da coroa da cidade e do país, acrescida de 2,2 milhões de euros – sem concurso público – e do que, é mais que certo, se seguirá!    

     

    Parece que houve um vereador da CML que se revoltou contra estas decisões do senhor Costa e dos seus ajudantes Roseta e Fernandes. Que desplante!

    A castelhana, do alto da sua importantíssima importância, certamente servida por esmerada educação, reclamou, dizendo de sua justiça: trata-se de um polémica “rasca, absurda e estúpida”. E justifica-se: então, se a Casa dos Bicos está votada ao abandono, se até “tem infiltrações” (!), não é mais que justo que a CML, responsável por uma propriedade que já não é dela, a entregue ao seu legítimo proprietário nas melhores condições?

    A mulher, ao falar em “rasca”, deve estar a ver-se ao espelho. De “absurda” pouco terá, já que sabe defender interesses que, enquanto tal, nada têm de absurdo. E de “estúpida”, se estúpida não for o antónimo de inteligente, mas de esperta, também nada tem.

     

    Não há, como se sabe, crimes políticos. Mas, já que se fala em crimes urbanísticos e patrimoniais, não teremos aqui um caso para o Costa ir parar à cadeia?

     

    12.3.10

     

    António Borges de Carvalho

     

    * V. artigo do Dr. Saldanha Sanches sobre a residência "offshore" do senhor Saramago, bem cemonstrativa do "patriotismo" do fulano.  

  • BORRAR A PINTURA

     

    No segundo acto do lançamento da sua recandidatura a ocupante do Palácio Real de Belém, o Professor Silva desdobrou-se nas suas habituais tocatas e fugas institucionais, poupando (relativamente) o governo e o primeiro-ministro à expressão dos seus sentimentos mais profundos, e poupando-se a si mesmo de qualquer sombra de responsabilidade no estado de apodrecimento político, social, financeiro, económico e judicial a que isto chegou.

    Compreenda-se a postura.

    A poupança foi, no entanto, longe demais. É que, sangrando-se em saúde em relação ao seu antecessor – o golpista Sampaio – o Professor Silva teve o desplante de, para compaginar a sua actual atitude “estabilizadora” com a prática daquele, teve o desplante a que, caridosamente, se poderia chamar lapsus memoriae, de afirmar que o parlamento de maioria estável PSD/CDS tinha sido dissolvido porque “o Primeiro-Ministro se tinha demitido”.

    Por outras palavras, a fim de mascarar a sua miserável atitude como colaborador activo da golpada, o Professor Silva não hesitou em mudar os factos históricos, trocando a carroça com os bois. É que o Primeiro-Ministro da altura não se demitiu, foi apeado via aquilo a que se chama golpe de estado constitucional, isto é, por meio da utilização da Constituição contra si própria e contra o espírito do legislador que legitimamente a concebeu.

    O Professor Silva borrou a pintura.

    É evidente que muita da gente que o vai reeleger fá-lo-á como Cunhal recomendou aos seus camaradas quando os mandou votar em Mário Soares: “tapem os olhos”, ponham lá a cruzinha e peçam perdão ao camarada Lenine. Desta vez, os eleitores do Professor Silva ver-se-ão obrigados a fazer o mesmo pedindo perdão à consciência, já que votam em quem os traiu. A alternativa seria não votar, o que, quem sabe, traria consequências devastadoras.

     

    Enfim, serviços que a República, de cinco em cinco anos, vai prestando às pessoas.

     

    11.3,10

     

    António Borges de Carvalho
  • O ZÉ NO PAÍS DAS ALDRABICES

     

    Já muita gente o disse, mas, a fim de não pôr o IRRITADO fora do decorrer da história, aqui fica o registo em que o PEC pôs a Nação inteira: o da mais completa, descarada, imoral e evidente aldrabice.

    Os impostos, que não vão aumentar, aumentam brutalmente.

    A classe média, propagandeada como fundamental, vai ser esmagada.

    O investimento, que era coisa a promover, é penalizado.

    As obras públicas, que eram fundamentais e indispensáveis, à excepção do transporte dos madrilenos para a Caparica não são nem fundamentais nem indispensáveis.

    O controlo do défice morreu. É coisa para daqui a uns anos, não se sabe quando nem como.

    O controlo da despesa, dito fundamental, talvez um dia.

    A situação, que há um ano era óptima, que há seis meses era invejável, que há três meses estava a melhorar, afinal é desesperada.

    E assim por diante.

     

    Qual Alice no país das maravilhas, aí vamos nós pelo poço abaixo, mas sem saias que nos sirvam de pára-quedas, antes em movimento acelerado com uma pedreira de aldrabices amarrada ao pescoço.

     

    11.3.10

     

    António Borges de Carvalho

     

     

     

    PS. Já agora, gostava que alguém da política me explicasse como é que se faz o PEC depois do orçamento e não ao contrário.

  • UM RAPAZ ESPERTO

     

    O grande empresário da nossa praça, conhecido entre a malta “fixe” por “amigo Oliveira”, não perde pitada.

    Ninguém tinha dado por que, tirando esta carinhosa expressão, o nosso tycoon socialista, tivesse sido vítima dos furos ao chamado segredo de justiça, coisa que nem o mais pintado saberá exactamente o que seja.

    Mas o homem viu na coisa uma “janela de oportunidade”, como se diz agora. Vai daí, coitadinho, viu-se obrigado a demandar o Estado, pedindo uma pequena gorjeta de um milhão de euros pelos prejuízos que as putativas fugas ao tal segredo lhe causaram.

    A ver vamos se a dignidade do senhor, assim avaliada, se verá reposta pela Justiça. E se, à semelhança do camarada Pedroso, também vai sacar umas coroas à custa do eterno pagante.

     

    11.3.10

     

    António Borges de Carvalho
  • EST MODUS IN REBUS

     

    Atribui-se a Caracala a expressão “aos mortos deve-se sempre a maior das homenagens, desde que se tenha a certeza de que estão bem mortos”.

    Salvo o devido respeito pelos ditos mortos, perdoem-me se exprimo a minha surpresa pelo anúncio da morte do Coronel Costa Martins, “capitão de Abril e servidor da Pátria”, bem como da chusma de loas com que tem sido brindado.

    Para quem viveu aqueles terríveis tempos, o capitão Costa Martins, tendo feito o que tenha feito em 25 de Abril de 1974, foi, abusando de uma Liberdade que odiava, um dos mais ferozes defensores da instauração de uma república soviética em Portugal.

    Gorada esta nobre tarefa, foi para Angola ajudar as facções mais radicalmente bolchevistas do MPLA a destruir a economia e a credibilidade do novo país, com monumentais sacrifícios e ignominiosa escravidão do seu povo.

    Que pátria serviu Costa Martins é coisa que desconheço, como ele desconhecia o conteúdo e o significado da palavra Liberdade.

    É possível defender que os mortos, sejam eles quem forem e tenham feito o que tenham feito, merecem sempre que perante eles nos curvemos. Mas, est modus in rebus, há que manter um certo respeito pelos princípios.

    Por este andar, ainda acabam por pôr o Cunhal no Panteão.     

     

    11.3.10

     

    António Borges de Carvalho
  • PALERMICES, SALOIICES E ALDRABICES

     

    Um brasileiro qualquer, parece que perito em mudar discos em locais nocturnos, veio a Portugal.

    Dizem as crónicas que o tipo, coitado, parece que anda a dormir com a Madona.

    O fulano foi apoteoticamente recebido em Portugal. À chegada ao aeroporto, havia meninas meio histéricas, polícias, guarda-costas, assessores e secretários, ou coisa parecida. Os jornais, as televisões, as rádios, deram ao assunto o “merecido” destaque. As capelinhas enchem-se de gente para ver o camarada mudar discos.

     

    Antes de andar metido – diz-se – nos lençóis da cinquentona, lençóis por onde – diz-se – já passou uma multidão de meninos e meninas, rapazes e raparigas, senhoras e senhores, o rapaz era tão conhecido como o careca do quinto esquerdo.

    Agora, é uma celebridade. Move as gentes como move os discos, anda com as cabecitas à roda, dá entrevistas, passou a cineasta, tem direito escolta.

     

    Nos demais países, não sei o que se passa. Se é como cá, não dou a ponta dum chanfalho pelo futuro da civilização.

     

    *

     

    Por falar em civilização, ocorre-me ao bestunto o parque de estacionamento da Praça de Touros do Campo Pequeno.

    Durante as horas de trabalho a coisa está a abarrotar, o que quer dizer que há inúmeras empresas que dão aos funcionários o fringe benefit de um lugarinho à borla.

    À noite, há lugares com fartura.

    Nos dias em que há espectáculos na Praça, os arrumadores, quando necessário, arrancam os pilaretes da Câmara para pôr centenas de carros em cima dos passeios, em frente dos portões, nas esquinas, em segunda fila, um fartote. A malta bate-se por um sítio qualquer onde meter a carripana.

    No Parque, há lugares com fartura, quase como nas noites normais.

     

    Quer isto dizer:

     

    a)    Que os lisboetas não passam de um bando de selvagens;

    b)    Que a Câmara se está nas tintas para os moradores que lhe pagam o estacionamento, tendo para tal que perder um dia por ano à conta da EMEL e das suas papeladas;

    c)    Que a polícia é uma máquina cara que não funciona, a não ser quando não é precisa;

    d)    Que os donos do parque são uns alarves, porque não pagam a uns polícias para empurrar os carros lá para baixo e para multar os que andam cá em cima a perturbar a vida de quem quer dormir e que, teoricamente, tem direito, outorgado pela EMEL (um organização de tipo soviético), a um lugar junto aos passeios;

    e)    Que não há nada a fazer, pelo menos enquanto a Câmara estiver entregue a quem está;

    f)      Que, se a Câmara estivesse entregue a outros, se calhar era a mesma coisa, uma vez que os polícias foram feitos para passear de carro durante o dia, para fazer umas reclamações sindicais e para, tal como a Câmara, se borrifar no cidadão comum.  

     

    8.3.10

     

    António Borges de Carvalho
  • MÁS NOTÍCIAS

     

    Anos e anos levou a elaboração, a discussão, a negociação, etc. do que começou por ser a “constituição europeia” e acabou, mais modestamente, por se ficar pelo Tratado de Lisboa.

    Era evidente que “a Europa” não podia continuar a funcionar com decisões obrigatoriamente unânimes, nem devia estar sujeita às prioridades de cada presidência semestral. Era evidente que havia que mitigar o “défice democrático” e dar aos processos a celeridade e a legitimidade de que careciam.

     

    Muito bem. Passado o que se passou, o tratado entrou em vigor.

    É tempo de olhar o que se lhe seguiu: nada. Pior: menos que nada.

    Entrou em vigor, mas prisioneiro das vacatia legis que ele próprio estabeleceu, o que quer dizer que entrou em vigor, mas pouco.

    Em ambiente de demissão colectiva, “elegeu-se” um “presidente” que, politicamente, não existe. Um belga obscuro subiu ao pódio, quando se esperava um grande europeu, uma pessoa com provas dadas na política europeia que a fizessem conhecida e aceite pelo cidadão comum, pessoa que se impusesse ao seu respeito e aos dos governos nacionais. O senhor Rompuy pode ser uma excelente pessoa, mas existir não existe.

    No mesmo ambiente, sabe-se lá porquê, foi descoberta uma baronesa socialista, tão conhecida e tão prestigiada como o senhor Rompuy, para assegurar a política externa comum.

    Continuam – quem pode explicar com que lógica? – as presidências rotativas: lá anda o Sapateiro a vender ideias, humildemente seguido pelo inexistente belga, que nem para homem do fato cinzento serve, e pela feiíssima baronesa que, até agora, a única coisa que fez foi primar pela ausência em tudo o que é importante.

    Resta o senhor Barroso. Fez um primeiro mandato sem grande brilho, mas um mandato aceitável e equilibrado. Ganhou o segundo.

    A chamada estratégia de Lisboa, bem anterior ao tratado, atingiu o fim do prazo de validade sem que se possa tirar nada de concreto, ou de útil, da sua execução – ou “implementação”, como se diz agora, a benefício da estupidez nacional.

    Chegou a altura de arranjar outra estratégia, numa atmosfera muito mais problemática que aquela em que a de Lisboa foi aprovada.

    E lá veio o anúncio: será um programa destinado a “assegurar a saída da crise e preparar a economia da EUE para a próxima década”. Algo me diz que esta nova “estratégia” terá o mesmo destino que a de Lisboa, isto é, após dez anos de “aplicação” chegar-se-á à conclusão que não serviu para nada e que a “Europa” continuou a navegar à vista, sem “estratégia” de espécie nenhuma. O senhor Barroso diz que vai apostar nos “nossos pontos fortes” e combater com decisão os “nossos pontos fracos”. O senhor Barroso quer uma economia “hipocarbónica”. Fabuloso. Quer uma “elevada taxa de emprego”. Como? Quer um “modelo económico baseado no conhecimento”. No conhecimento de quê?

     

    Melhor será não ir mais longe nesta tristeza, neste vazio, nesta sensação de que estamos entregues a instituições que, em vez de revitalizadas e funcionalizadas, parecem moribundas, paralíticas, sem alma nem força, servidas por gente politicamente inválida e por uma burocracia que parece metastisar como uma doença má.

     

    Espero bem que esta negra visão do nosso presente como europeus – e das suas consequências lógicas em termos de futuro – não passe de um pouco razoável exercício de pessimismo.

    Mas confesso que, mesmo querendo, não vislumbro seja quem for capaz de acender o archote no fundo do túnel em que vamos às cegas, sem que haja quem nos mostre o caminho nem quem dê sinais de ter ferramentas que o desbravem.

     

    8.3.10

     

    António Borges de Carvalho
  • SINAIS DE ATRASO

     

    Fico siderado com as continuadas presenças do doutor Carvalho da Silva na TV, defendendo as suas greves e as suas teses. O homem é jeitoso, tem um argumentário lógico e é servido por uma retórica cordata e suave. Impinge, de maneira sofisticada, quase académica, as mesmas balelas que o chefe Jerónimo propagandeia de forma primitiva, é certo, mas não menos jeitosa.

    Cheios de alegadas vestes democráticas, mais ou menos os mesmos raciocínios são produzidos pelos intelectuais do bloco de esquerda. Ainda ontem vi aquela morenaça que é deputada do bloco no Parlamento Europeu discorrer, toda boneca, sobre os malefícios do capitalismo e a requintada arte de fazer omeletas sem ovos.

    Vendo as coisas assim, dir-se-á que nada disto tem importância de maior. O PC e o BE, coitados, não têm culpa de partir de premissas irreais, quase oníricas, e de não saber(?) que as suas receitas, divorciadas que estão da natureza humana, têm como únicas consequências de relevo – historicamente provadas – a ditadura e a miséria.

    Pela Europa fora, estes tipos de ideias são hoje, ou odiadas por quem lhes experimentou os resultados, ou residuais, vivendo em banho-maria no seio de pouco representativas franjas da opinião pública.  

    Em Portugal, o problema é que tais ideias atingem quase vinte por cento do eleitorado, sem contar com os resquícios delas que ainda fazem mossa no PS, nem com o generalizado acriticismo de quem diz – ainda timidamente! – representar a direita, a democracia liberal, o capitalismo, o liberalismo económico e social, o conservadorismo, como se não fosse o poder libertador destas ideias, na ausência do qual jamais houve Liberdade, o factor número um do sucesso, hoje em risco, da Europa.

    O nosso atraso, para além de económico e social é, por isso, um atraso de mentalidades, o atraso de um povo que, bem lá no fundo, ainda se não libertou da cartilha que lhe venderam à pressa depois do 25 de Abril. Ao confundir Democracia com socialismo, liberdade com socialismo, progresso com socialismo, república com socialismo, ao vender a peregrina e estúpida ideia que a liberdade é de esquerda só porque quem no-la tirou foi um desvio autoritário da direita, acabámos por ficar, em termos culturais, como que amarrados aos preconceitos que nos vêm arruinando, e cada vez mais depressa.

     

    *

     

    Quando, em São Tomé e Príncipe, o socialismo totalitário cedeu terreno a alguns sinais de democracia, o grande educador das televisões portuguesas, Marcelo Rebelo de Sousa foi, a convite do governo local, encarregado de elaborar uma nova constituição para o país. Sem a mais leve sombra de conhecimento da realidade africana em geral e da santomense em particular, o distinto académico impingiu às pobres gentes um regime semi-presidencialista, cujos ominosos resultados estão à vista de todos. Nos países africanos, o culto idiossincrático do “mais velho” imporia um regime presidencial, o único que teria hipótese de ser pacificamente aceite pela generalidade dos cidadãos.

    Na Europa Ocidental passa-se exactamente o contrário. O avanço da cidadania implicou que, à excepção de Portugal e da França, todos os regimes sejam parlamentares.

    E é em Portugal que Marcelo Rebelo de Sousa, acompanhado, é certo, por uma plêiade de pensadores que já não sabem o que hão de pensar ou de propor, vem defender, agora, a presidencialização do regime!

    Ou seja, em vez se entender que Portugal é, de facto, um país europeu, procura-se empurrá-lo, de jure, para uma africanização pelo menos idiota. A obra desta gente está, desgraçadamente, a “passar” na opinião pública. Mais de 50% dos portugueses, segundo uma sondagem publicada, acham que o presidente da república devia ter mais poderes.

    Mais um sinal do endémico atraso da nossa sociedade, para o qual se não vê saída.

     

    E daí? Se calhar os defensores do presidencialismo têm razão: Seremos, mesmo, um país europeu? Ou ficávamos melhor em África, desde que o Marcelo não fosse lá vender constituições?

     

    7.3.10

     

    António Borges de Carvalho
  • CONTAS DE SOMIR

     

    Não há quem não fique de boca aberta quando lê nos jornais que a greve da função pública teve, ou 80% de adesão (dizem a dona Avoila, o Picanço e o Carvalho da Silva), ou 13% (dizem os rapazes do governo).

    Toda a gente sabe, é clássico, foi sempre assim, que as avoilas exageram sempre para um lado e os rapazes para o outro.

    Mas convenhamos que até na aldrabice pode haver alguma moralidade. Se uns dissessem 50 e outros 30, enfim, era aceitável. Mas sendo o gap entre 80 e 13, a única conclusão que se pode tirar é que são todos um cambada de desavergonhados aldrabões .

    O que, para o IRRITADO não é novidade nenhuma.

     

    7.3.10  

     

    António Borges de Carvalho
  • DESPESISMO E SERVIÇO PÚBLICO

     

    A distinta Câmara de Lisboa propõe a abertura de 1631 lugares de quadro, a somar aos 10.000 já existentes, ou seja, acrescentar 15 milhões de euros à despesa.

    Eu sei que muitos desses lugares virão a ser ocupados por gente que anda por lá a recibos verdes. Não sei é se é a melhor medida nos tempos que correm. E tenho a certeza que já por lá anda muita gente a mais. E muita gente que não faz nenhum. E, a este respeito, o melhor é não dizer mais…

     

    Diz o douto vereador do CDS António Carlos Monteiro que o Costa “está manietado pela burocracia”. A ser verdade, devia ser posta de pernas para o ar. Se o Costa vai lá meter mais 1631 bocas é porque não está, nem muito nem pouco, manietado pela burocracia. Pelo contrário, terá feito um pacto com ela. O que, a avaliar pelo funcionamento dos serviços, está a dar um resultadão.

     

    7.3.10

     

    António Borges de Carvalho
  • TRANSGÉNICOS

     

    Desde a mais remota antiguidade que o homem manipula os demais seres vivos. Uma verdade para além de qualquer controvérsia. Quando a espécie deu os formidáveis saltos da errância para a sedentarização (a agricultura) e da caça para a pecuária, fê-lo aprendendo a alterar o código genético de plantas e animais através de cruzamentos, enxertias, inseminações, mudanças de habitat, intensificação de culturas, estabulização, domesticação, etc.

    Nada ou quase nada daquilo de que hoje nos alimentamos nos foi dado pela Natureza. Entre milhões de falhanços e de sucessos, o homem aprendeu a aproveitar em seu favor, enriquecendo-o, o que a Natureza lhe oferecia.

    O processo foi progredindo até que, nos nossos dias, a investigação científica e os avanços tecnológicos permitiram sofisticar as formas de intervenção humana e obter, a custos mais reduzidos e em quantidades muito maiores, uma série, em expansão, de produtos naturais de que necessita.

    Como há milhares de anos, as manipulações genéticas nem sempre têm sucesso e não são isentas de tropeços. Não é o que se passa com tudo o que é humano? É isto desculpa para travar a caminhada? Parece que não.

     

    Nalguns teatros naturais, como é o evidente caso dos EUA, as modificações genéticas são o “prato do dia”: multiplicação da produção de bens alimentares em condições económicas vantajosas e sem perigos para a saúde. Aos poucos, com todas as cautelas, após aturadas experimentações, uma série de produtos chegam à boca dos consumidores em progressiva variedade e em melhores condições.

    No entanto, este processo, ou este progresso, são mal aceites entre nós. A cegueira científica e a demagogia política que dominam as sociedades europeias têm levado a que os benefícios da ciência sejam recusados, empolados que são os seus riscos e negadas as suas vantagens.

    Os europeus deixaram-se instrumentalizar por teóricos de pacotilha, demagogos profissionais, políticos medrosos e mestres de arruaça, e vêm resistindo aos benefícios que a ciência lhes proporciona em favor de interesses instalados, de agricultores mais preocupados com subsídios que com a produção ou o abastecimento dos mercados, num caldo venenoso de ódios, ignorância e politiquice.

    * 

    A Comissão Europeia, timidamente, acaba de autorizar o cultivo de uma espécie de batata geneticamente modificada e destinada ao fabrico pasta de papel e de rações para animais. Ao mesmo tempo, renovou a licença relativa a uma variedade de milho e emitiu outras para mais três variedades do mesmo cereal.

    Doze anos depois da primeira licença, ora renovada, a Europa dá um pequeníssimo passo em frente. E já, um pouco por toda a parte, se levantam as indignadas vozes dos indignados do costume e até de governos tidos por responsáveis.

     

    Não há registo, nem de desastres naturais provocados pelos transgénicos, nem de problemas de saúde pública com a mesma origem, nem da emergência de questões agronómicas sem solução.

    Mas a vulgata da “luta contra as multinacionais”, façam elas o que fizerem, da defesa da “agricultura tradicional”, como se tal coisa ainda existisse, da “defesa da Natureza”, como se a Natureza fosse um bem estático, faz o seu caminho, conseguindo atrasar os avanços possíveis e impedir os povos de resolver os seus problemas.

    Nisto como em muitas outras matérias, a Europa é vítima de si própria e não dá porque, se a predominância da sua civilização está a fenecer irremediavelmente, isso se deve à sua continuada cedência a exigências demagógicas e infundadas como as que aos transgénicos se referem.            

     

    5.3.10

     

    António Borges de Carvalho