Fico siderado com as continuadas presenças do doutor Carvalho da Silva na TV, defendendo as suas greves e as suas teses. O homem é jeitoso, tem um argumentário lógico e é servido por uma retórica cordata e suave. Impinge, de maneira sofisticada, quase académica, as mesmas balelas que o chefe Jerónimo propagandeia de forma primitiva, é certo, mas não menos jeitosa.
Cheios de alegadas vestes democráticas, mais ou menos os mesmos raciocínios são produzidos pelos intelectuais do bloco de esquerda. Ainda ontem vi aquela morenaça que é deputada do bloco no Parlamento Europeu discorrer, toda boneca, sobre os malefícios do capitalismo e a requintada arte de fazer omeletas sem ovos.
Vendo as coisas assim, dir-se-á que nada disto tem importância de maior. O PC e o BE, coitados, não têm culpa de partir de premissas irreais, quase oníricas, e de não saber(?) que as suas receitas, divorciadas que estão da natureza humana, têm como únicas consequências de relevo – historicamente provadas – a ditadura e a miséria.
Pela Europa fora, estes tipos de ideias são hoje, ou odiadas por quem lhes experimentou os resultados, ou residuais, vivendo em banho-maria no seio de pouco representativas franjas da opinião pública.
Em Portugal, o problema é que tais ideias atingem quase vinte por cento do eleitorado, sem contar com os resquícios delas que ainda fazem mossa no PS, nem com o generalizado acriticismo de quem diz – ainda timidamente! – representar a direita, a democracia liberal, o capitalismo, o liberalismo económico e social, o conservadorismo, como se não fosse o poder libertador destas ideias, na ausência do qual jamais houve Liberdade, o factor número um do sucesso, hoje em risco, da Europa.
O nosso atraso, para além de económico e social é, por isso, um atraso de mentalidades, o atraso de um povo que, bem lá no fundo, ainda se não libertou da cartilha que lhe venderam à pressa depois do 25 de Abril. Ao confundir Democracia com socialismo, liberdade com socialismo, progresso com socialismo, república com socialismo, ao vender a peregrina e estúpida ideia que a liberdade é de esquerda só porque quem no-la tirou foi um desvio autoritário da direita, acabámos por ficar, em termos culturais, como que amarrados aos preconceitos que nos vêm arruinando, e cada vez mais depressa.
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Quando, em São Tomé e Príncipe, o socialismo totalitário cedeu terreno a alguns sinais de democracia, o grande educador das televisões portuguesas, Marcelo Rebelo de Sousa foi, a convite do governo local, encarregado de elaborar uma nova constituição para o país. Sem a mais leve sombra de conhecimento da realidade africana em geral e da santomense em particular, o distinto académico impingiu às pobres gentes um regime semi-presidencialista, cujos ominosos resultados estão à vista de todos. Nos países africanos, o culto idiossincrático do “mais velho” imporia um regime presidencial, o único que teria hipótese de ser pacificamente aceite pela generalidade dos cidadãos.
Na Europa Ocidental passa-se exactamente o contrário. O avanço da cidadania implicou que, à excepção de Portugal e da França, todos os regimes sejam parlamentares.
E é em Portugal que Marcelo Rebelo de Sousa, acompanhado, é certo, por uma plêiade de pensadores que já não sabem o que hão de pensar ou de propor, vem defender, agora, a presidencialização do regime!
Ou seja, em vez se entender que Portugal é, de facto, um país europeu, procura-se empurrá-lo, de jure, para uma africanização pelo menos idiota. A obra desta gente está, desgraçadamente, a “passar” na opinião pública. Mais de 50% dos portugueses, segundo uma sondagem publicada, acham que o presidente da república devia ter mais poderes.
Mais um sinal do endémico atraso da nossa sociedade, para o qual se não vê saída.
E daí? Se calhar os defensores do presidencialismo têm razão: Seremos, mesmo, um país europeu? Ou ficávamos melhor em África, desde que o Marcelo não fosse lá vender constituições?
7.3.10
António Borges de Carvalho
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