Não chego aos calcanhares da ministra da agricultura, que diz que o vírus é bestial para os servos da gleba venderem couves ao estrangeiro. Mas, verdade verdadinha, há uma coisa que agradeço ao vírus: a EMEL não funciona! Não é que ande muito de carro – praticamente nem lhe mexo. Mas é consolador ter a máquina numa esquina onde não faz mal a ninguém mas que, em tempos normais, daria as mais repenicadas dores de cabeça.
A EMEL nasceu nos tempos do Sampaio, PS/PC no poder. O seu ilustre primeiro chefe foi um tal Bento Feliz que, com requintes de malvadez, criou uma “estrutura” que faria inveja ao camarada Estaline. Depois, à medida que os cofres se iam enchendo, a coisa foi melhorando. Pela positiva, a EMEL passou a avisar a clientela sobre a altura de pagar, com referência Multibanco e tudo. Uma maravilha, a demonstrar a entrada da coisa na era digital(?). Mas, ó desgraça, a coisa devia dar um trabalhão aos funcionários, incompatível com as 35 horas. Assim, sem qualquer aviso, deixaram de mandar o aviso. Daí, os servos, uns canalhas, deixaram de cumprir as suas obrigações pela simples razão que não têm pachorra (pregiçosos, mlandragem, caloteiros!) para andar preocupados com a data do dístico e estavam (mal) habituados aos avisos da ditadora. Fatal. Uns dias depois, começaram as multas, uma, duas e, à terceira, lá vai o carrinho para o estabelecimento prisional da EMEL. Perante tal facto, o tenebroso prevaricador desloca-se, humilde e delicado, à Câmara, lá onde a organização tem assento, julgo que secundário. Depois da devida espera (apesar da augusta presença de toneladas de funcionários), lá vai ser atendido. Pede para pagar, e que lhe passem um novo dístico. Que não. Não é assim, tenha paciência. Mas… o senhor tem aí os elementos todos, basta ir ao computador, dou-lhe a matrícula, dou-lhe o Cartão do cidadão, sabe que o carro é meu, sabe onde moro, tenho o dístico desde que há EMEL, tem tudo. Nem pensar, tem que trazer os documentos da viatura. E como quer que eu lhe dê os documentos, se estão no carro e o carro está apreendido, e se a EMEL sabe perfeitamente do que se trata? Solícito, diz o funcionário que, para já, tem duas multas para pagar, o que pode fazer aqui. Então, para receber o senhor serve, mas para dar uma ajuda já não. Não seja malcriado, é a lei, o regulamento… tá a perceber? E o caloteiro paga as multas, 60 euros, e vai, com o rabinho entre as pernas (o que prejudica o andamento) até à prisão dos automóveis. São cento e oitenta euros, explica o útil cidadão por trás do vidro, e pode ir buscar a viatura. Pago o estrago, o caloteiro lá vai, à procura do carro, está lá longe, o guarda não o vai buscar, era o que faltava! Munido do carro e do respectivo documento, feliz, lá vai o “arguido” (é assim que é referido na papelada!) outra vez à Câmara. Em vez do outro fulano, é agora recebido por uma gorda toda fataça, cheia de anéis. Cartão do cidadão, carta de condução, documento único. Orgulhoso, o arguido põe tudo em cima da mesa. A gorda mergulha no computador e, após judiciosa busca, pergunta: que deseja? Queria que fizesse o favor de emitir o papel de estacionamento de morador. Nova consulta dos dados. Não lhe vou dar o papel. O arguido estremece, começa a suar. Porquê? Porque no Cartão diz que mora no rés do chão esquerdo e, no documento único, que mora no sétimo direito. Ó minha senhora, não vê que é no mesmo prédio, no mesmo bairro, na mesma zona de estacionamento? Que importância tem isso para a EMEL? Tem toda a importância, você (assim, você) tem 60 dias para acertar a morada, depois venha cá, é o que diz a lei, não há nada a fazer, vá aos registos. O arguido respira fundo, bufa, mas, dada a sua esmerada educação, livrou a gorda de levar um murro no focinho. De rabo entre as pernas, está a tornar-se um hábito, vai para casa.
No dia seguinte, começa a emergência. O arguido deixa de poder sair. E agora? Agora, fechou a EMEL, os poderosíssimos sátrapas foram para casa, o carro, provocador, está à esquina. Hi,hi.
Vêem como o vírus tem as suas vantagens?
25.3.20
