Sabe quem o lê que o IRRITADO, em matéria cibernética, é iletrado, ou seja, não percebe nada do assunto. Mas ele há coisas que o põem nervoso, ou ainda mais irritado do que o nome indica.
Calcule-se que recebi uma mensagem email de uma coisa que se chama Google e que, queira-se ou não, faz parte do dia-a-dia de cada um, não sendo conhecido o processo para cada um se ver livre dela.
Postulava a tal mensagem que eu tinha a oportunidade de, através de uma catraca que se chama “Google Maps”, “monitorizar” os meus próprios passos. Que será isto?, pensei. E fui ver.
Apareceu um mapa-mundo cheio de bolinhas encarnadas. Que é isto? Cada bolinha estava num sítio onde tinha ido. Fiquei eu e mais seis mil milhões de pessoas a saber que fui a Espanha e ao Canadá várias vezes, que andei num virote entre Lisboa e Cascais, que fui ao Porto, a Trás os Montes e a mais uma data de sítios. E até, cúmulo dos cúmulos, a coisa dizia quantos quilómetros andei a pé.
Olhando com mais atenção, concluí que a catraca sabia das minhas andanças pelo menos dos últimos três anos.
Como é isto possível? É claro que o Big Brother nos vem logo à cabeça, com todo o seu horror. Não tenho nada de especial a esconder, como não tenho nada, nem de especial nem de outra natureza, a mostrar, para além das minhas bocas neste blog. Nem a Google nem outras entidades, como a Ana Gomes e o seu pupilo Rui Pinto, ou a Autoridade Tributária, têm a ver com isso.
De qualquer maneira, talvez eu tenha o direito de perguntar (se calhar não tenho) como é que possível que um pacífico cidadão tenha a vidinha descrita para quem quiser saber dela. Note-se, não tenho medo que alguma criatura, das várias que não me gramam, me venha perseguir. Mas só não virá se não tiver, ou inventar, algum interesse na minha desinteressante pessoa.
O problema não é esse. É o de saber que é possível, legal, e até digno de elogio, que haja entidades com “autoridade” para espiolhar o que as pessoas fazem no legítimo uso da sua liberdade pessoal. Que possam “legitimanente” catalogar os nossos hábitos, gostos, etc., e de os meter num algoritmo qualquer, a fim de que essa ou outras intâncias nos venham a perseguir com ofertas comerciais ou outras merdas.
A nossa vida, assim, é negócio de terceiros, sem que possamos impedi-los. Ainda por cima, por exemplo, ou aceitamos “cookies” ou não acedemos a informações que nos interessam. E lá vão os “cookies” e outras martingalas parar aos algoritmos.
Gostava de saber o que andam a fazer as autoridades eleitas quando dizem andar a “proteger a privacidade” das pessoas. Por acaso, até sei: não andam a fazer nada, ou fazem asneiras e proclamam inanidades. Dirá quem está a la page que eu é que não percebo nada destas estrambólicas matérias.
Boa noite, com as minhas desculpas ao mundo em que sou obrigado a viver.
5.3.20

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