Ouve dizer-se que o chamado governo está na disposição de ajudar os empresários a pagar salários, desde que não despeçam os trabalhadores. Como é de timbre e hábito do Estado, é de calcular que quem de tal precise terá que preencher 245 formulários, fazer prova de 87 factos, produzir 89 declarações 50 das quais de honra, mostrar a contabilidade dos últimos 5 anos e mais o que couber na burocrática imaginação do sistema. Tudo isto será analizado por duas dúzias de funcionários de três ministérios. A seu tempo (o tempo do Estado) os processos serão despachados. Destes, 72% serão arquivados, os restantes sujeitos a pagamento nos prazos habituais do socialismo vigente.
Se o tal governo quisesse tratar do assunto a sério, tomaria conta dos despedimentos e poria a funcionar os respectivos subsídios, pelo menos durante a crise. Passada esta (a do vírus talvez passe, a da burocracia não passa de certeza), dar-se-ia incentivos para a readmissão dos despedidos. A segurança social parece que está razoavelmente montada para despachar este tipo de coisas e, segundo a propaganda governamental, dinheiro não falta, e acrescentar-se-lhe-ia a previsível ajuda da Europa.
O que não vai funcionar, como toda a gente sabe, é a proibição de despedir. Numa crise das dimensões da que se prevê é fatal que o desemprego não pode deixar de galopar. O mais que pode fazer-se é tentar limitar o galope durante a “guerra”. O resto são ilusões, wishful thinking, ou mera fantasia de iluminados num quarto escuro
Ele há coisas em que vale a pena ser realista, mesmo que a realidade seja muito triste.
25.3.20

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