IRRITADO

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


DAS VANTAGENS DO VÍRUS

Não chego aos calcanhares da ministra da agricultura, que diz que o vírus é bestial para os servos da gleba venderem couves ao estrangeiro. Mas, verdade verdadinha, há uma coisa que agradeço ao vírus: a EMEL não funciona! Não é que ande muito de carro – praticamente nem lhe mexo. Mas é consolador ter a máquina numa esquina onde não faz mal a ninguém mas que, em tempos normais, daria as mais repenicadas dores de cabeça.

A EMEL nasceu nos tempos do Sampaio, PS/PC no poder. O seu ilustre primeiro chefe foi um tal Bento Feliz que, com requintes de malvadez, criou uma “estrutura” que faria inveja ao camarada Estaline. Depois, à medida que os cofres se iam enchendo, a coisa foi melhorando. Pela positiva, a EMEL passou a avisar a clientela sobre a altura de pagar, com referência Multibanco e tudo. Uma maravilha, a demonstrar a entrada da coisa na era digital(?). Mas, ó desgraça, a coisa devia dar um trabalhão aos funcionários, incompatível com as 35 horas. Assim, sem qualquer aviso, deixaram de mandar o aviso. Daí, os servos, uns canalhas, deixaram de cumprir as suas obrigações pela simples razão que não têm pachorra (pregiçosos, mlandragem, caloteiros!) para andar preocupados com a data do dístico e estavam (mal) habituados aos avisos da ditadora. Fatal. Uns dias depois, começaram as multas, uma, duas e, à terceira, lá vai o carrinho para o estabelecimento prisional da EMEL. Perante tal facto, o tenebroso prevaricador desloca-se, humilde e delicado, à Câmara, lá onde a organização tem assento, julgo que secundário. Depois da devida espera (apesar da augusta presença de toneladas de funcionários), lá vai ser atendido. Pede para pagar, e que lhe passem um novo dístico. Que não. Não é assim, tenha paciência. Mas… o senhor tem aí os elementos todos, basta ir ao computador, dou-lhe a matrícula, dou-lhe o Cartão do cidadão, sabe que o carro é meu, sabe onde moro, tenho o dístico desde que há EMEL, tem tudo. Nem pensar, tem que trazer os documentos da viatura. E como quer que eu lhe dê os documentos, se estão no carro e o carro está apreendido, e se a EMEL sabe perfeitamente do que se trata? Solícito, diz o funcionário que, para já, tem duas multas para pagar, o que pode fazer aqui. Então, para receber o senhor serve, mas para dar uma ajuda já não. Não seja malcriado, é a lei, o regulamento… tá a perceber? E o caloteiro paga as multas, 60 euros, e vai, com o rabinho entre as pernas (o que prejudica o andamento) até à prisão dos automóveis. São cento e oitenta euros, explica o útil cidadão por trás do vidro, e pode ir buscar a viatura. Pago o estrago, o caloteiro lá vai, à procura do carro, está lá longe, o guarda não o vai buscar, era o que faltava! Munido do carro e do respectivo documento, feliz, lá vai o “arguido” (é assim que é referido na papelada!) outra vez à Câmara. Em vez do outro fulano, é agora recebido por uma gorda toda fataça, cheia de anéis. Cartão do cidadão, carta de condução, documento único. Orgulhoso, o arguido põe tudo em cima da mesa. A gorda mergulha no computador e, após judiciosa busca, pergunta: que deseja? Queria que fizesse o favor de emitir o papel de estacionamento de morador. Nova consulta dos dados. Não lhe vou dar o papel. O arguido estremece, começa a suar. Porquê? Porque no Cartão diz que mora no rés do chão esquerdo e, no documento único, que mora no sétimo direito. Ó minha senhora, não vê que é no mesmo prédio, no mesmo bairro, na mesma zona de estacionamento? Que importância tem isso para a EMEL? Tem toda a importância, você (assim, você) tem 60 dias para acertar a morada, depois venha cá, é o que diz a lei, não há nada a fazer, vá aos registos. O arguido respira fundo, bufa, mas, dada a sua esmerada educação, livrou a gorda de levar um murro no focinho. De rabo entre as pernas, está a tornar-se um hábito, vai para casa.

No dia seguinte, começa a emergência. O arguido deixa de poder sair. E agora? Agora, fechou a EMEL, os poderosíssimos sátrapas foram para casa, o carro, provocador, está à esquina. Hi,hi.

Vêem como o vírus tem as suas vantagens?

 

25.3.20     



3 respostas a “DAS VANTAGENS DO VÍRUS”

  1. O Irritado tem um talento singular para estas sagas kafkianas. Devia ser o narrador oficial dos utentes nacionais. Da EMEL é tal a sanha e a chulice que ainda esperei ver fiscais de máscara e luvas a multar a malta. Não me espantava mesmo nada. Aposto consigo que ainda ponderaram a possibilidade. Hão-de ter desistido por pouco. Há anos, os Gatos Fedorentos fizeram um sketch onde era eleito o homem mais odiado do mundo: era entre Hitler e um fiscal da EMEL. Ganhou o segundo. Do mundo não digo, mas em Portugal não será exagero. O vírus tem outras vantagens. Se o inferno são os outros, de momento estamos no Céu. Hoje em hora de ponta, no centro de Lisboa, vi talvez trinta carros. Barulho, confusão, poluição, tudo desapareceu por magia. Nem se dá pelas pessoas; à noite nem tenho visto muitas luzes acesas. Parece um apocalipse zombie sem zombies. Até ver, o único problema sério é a falta de restaurantes. Não há onde comer. Só hamburgers e pizzas, comida da treta. É verdade: aqueles sintomas que tive lá passaram. Era gripe. Por enquanto cá estamos todos saudáveis. Cuide-se, Irritado.P.S. Olhe o vêem.

    1. Fico muito contente com a sua gripe.Por cá, vou aprendendo a cozinhar. Às vezes o resultado é aceitável. Os filhos trazem-me os produtos, é cómodo e, às vezes, gratuito!Também fico contente pela nossa comunhão de sentimentos sobre a EMEL e sobre a ausência dos seus esbirros. Quanto à “doutrina” exposta, garanto que é verdade.Podia até ter dito mais, e ser tudo verdade!

  2. E os sampaios de várias cidades do país são macacos de imitação. Até os há no estrangeiro.São todos para irritarem o irritado.

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