Aqui há tempos andei em arrumações, o que quer dizer que deitei uma data de coisas para o lixo. Entre elas, muita papelada dos tempos da ditadura. No meio, um molho de números do “Avante!” clandestino, naquelas folhinhas de papel ultra-leve, azul, cor de laranja, na cor que calhasse, cheias de elogios à URSS e de patacoadas ideológicas para engromilar incautos. Tinha a sua piada, o “Avante!”, e até dava um certo frisson ter aquelas porcarias em casa, numa gaveta “secreta”, não fosse a PIDE ter alguma ideia, o que, reconheço, era pouco provável.
Os tempos mudaram, e de que maneira. Nos meus mais arrojados cálculos jamais imaginaria que, julgados libertos, viéssemos a passar por uma onda oficialmente pró-soviética, ainda menos que, mais de quarenta anos depois do malfadao PREC, o meu pobre país continuasse a ter uma organização tão primitivamente mal cheirosa como um PC igualzinho ao que era, mas com (ainda!) uns 7% de votantes, lado alado com o seu avatar, o BE, a dar-nos uma imagem clara do nosso quiçá inultrapassável atrazo civilizacional.
Enfim, vem esta arenga a propósito das últimas semanas, sobretudo da última, em que as nossas atrazadíssimas estações de TV nos vêm martelando a cabeça com propaganda dos campeões do atrazo, a propósito da chamada “festa do Avante!” (forma de obtenção de incontroláveis fundos). Uma obra ímpar de publicidade barata (horas e horas de antena, conosco a pagar a RTP, a MEO, a Vodafone e não sei mais quantas que por aí vicejam). Um vê se te avias sem peias nem vergonha. Ao ponto de, mesmo que a tal “festa” fosse proibida, já a organização tinha ganho, não dinheiro, mas fama e proveito públicos. De mestre.
Até quase ao último momento, os envolvidos na marosca – a DGS e o PC – esconderam as condições ditas sanitárias para a realização do arraial. Agora que, por pressão presidencial, já são conhecidas, vamos sofrer, matraqueados com a coisa, mais outra ou outras semanas .
Uma declaração de interesse. Para mim, o comício de 4 dias mascarado de “festa”, devia ser autorizado, como autorizados deviam ser muitos outros “ajuntamentos” populares. Como sabe quem me lê, não alinho nem com as ordens das oxigenadas, nem com as do Costa. A ser proibido, que fosse por não ser líquido que os partidos políticos devam poder organizar este tipo de propaganda para angariação de fundos.
O problema é que, no meio dos indecentes limites e atentados à liberdade que todos sofremos e vamos continuar a sofrer (até as criancinhas, meu Deus!), há, oficialmente, governamentalmente, oxigenadamente, uma só excepção de monta, corporizada nos direitos “especiais” que ao PC são outorgados.
Liberdade, democracia, o que é isso para a gente que está no poder?
31.8.20
