IRRITADO

Um blogue de António Borges de Carvalho

O SOCIALISMO É A FILOSOFIA DO FRACASSO, A CRENÇA NA IGNORÂNCIA, A PREGAÇÃO DA INVEJA. SEU DEFEITO INERENTE É A DISTRIBUIÇÃO IGUALITÁRIA DA MISÉRIA. Winston Churchill


  • CONVIVENDO COM OS ALTÍSSIMOS

     

    Já repararam que não é à falta de conferências, de sessões, de encontros, de eventos, de debates, de simpósios, de seminários, de congressos, de palestras, que o gato vai às filhoses? Raro é o dia em que uns quantos pensadores, filósofos, politólogos, catedráticos, escritores, jornalistas, não anunciam que vão discutir o futuro, a dívida, a liberdade, os caminhos, os atalhos, as veredas, os objectivos, os meios, as teorias, as práticas, as ideologias, as doenças, os remédios, tudo destinado a descobrir, revelar, elaborar, discernir, apontar, criar, descobrir, sempre convidando os interessados, quantas vezes mediante um pequeno, ou grande, estipêndio, a vir pensar com eles, esclarecer-se, cultivar-se, encontrar-se, gozar uns coffee breaks, ver e estar perto de altas sumidades das mais variadas matérias, conversar com elas, tocar-lhes, fazer-lhes perguntas…

    É espantoso que haja sempre clientes para estes comércios. Gente ansiosa por ouvir quem sabe, por mergulhar em estudos, estatísticas, números, teorias, teoremas, salvíficas formulações teórias e poucas experiências práticas, gente que tem tempo e, às vezes, dinheiro para estas coisas, que lá socializa e aprende, ganha bagagem para poder apreciar, comentar, criticar, conviver e mostrar-se, é tão bom mostrar-se em “foruns” (como diz quem “sabe”, não é?).

    Mostrar-se é o maior desejo do povo. Na televisão, nas revistas, nas “redes”, mostra-se as criancinhas, levadas pelas mãezinhas, mostra-se o rabo, mostra-se tudo, preciso é aparecer, nem que seja aliviar a solidão nas redes sociais, contar o que se faz, pôr fotografias de coisas que, antigamente, faziam parte da “reserva de privacidade”, como se diz agora, coisas que não deviam interessar a ninguém, tudo para se dizer existir, estar cá, estar à la page, coisas para mostrar aos desconhecidos, coisas fátuas e ridículas, mas coisas, coisas que deixam de ser de cada um, porque cada um se sente só se não estiver na onda de ser “conhecido”.

    Bom, isto para o povo em geral. Não é o mesmo que fazem os da mó de cima nos seus encontros intelectuais, científicos, filosóficos? Não passam os da mó de cima o tempo a resolver-nos os problemas e a mostrar-nos os caminhos?

    Surgiu agora mais um manifesto, mais uma reunião, um congresso, uma coisa qualquer a que os promotores dão o modesto título de “Conferências do Casino”? Agora é que é! Nada menos que uma série de indiscutíveis cabeças da lusa praça, gente finíssima, todos à esquerda do centro – Fiolhais, Oliveira Martins, Sampaio da Névoa, Eduardo Lourenço, Miguel Real, Viriato Marques, António-Pedro Vasconcelos e mais vinte – vêm anunciar os seus pareceres, as suas orientações, os caminhos que teremos que percorrer se quisermos ser felizes, tudo gente que aparece todos os dias nos jornais e que toda a gente sabe o que pensa ou diz pensar, mas que precisa de galarim para aparecer ainda mais, não vá alguém esquecer-se deles ou da sua “mensagem”.

    E se alguém fizesse alguma coisa por isto, em vez andar a dizer que existe?

     

    8.10.14

     

    António Borges de Carvalho

  • UM FILME DE TERROR

    Folheando a revista chamada “Visão” (nunca comprar tal porcaria, só folhear) na tabacaria da esquina, deu o IRRITADO com uma coisa a que a coisa chama “Constelação de Costa” – um conjunto de bolinhas com as fotografias do núcleo duro do “candidato a primeiro-ministro”.

    Um arrepio do mais puro terror lhe percorreu o espinhaço. Lá estava o Silva Pereira ( o do beicinho, lembram-se?), o Ferro (horribile visu), o Carlos César (que arruinou os estaleiros), a dona Ana Catarina Mendes (mais desgradável é impossível), o Galamba (um vómito), o Pedro Nuno Santos (um esquerdo-tarado, por escrito), o Medina, o João Tiago Silveira, e mais uma série de personalidades a evitar a todo o custo, as mais delas vindas das alfurjas do socretinismo. Finalmente, a cereja em cima da coisa: a dona não-sei-quantas Moreira, espernéfica criatura, desgraçadamente bem conhecida do respeitável público.

    Sentem o calafrio? Se esta gente toma conta disto, onde vamos parar?

    Um conselho: se você ainda está em idade de emigrar, aproveite antes que seja tarde. Olhe que o título deste post está errado. Não se trata de um filme de terror, é o terror bem real, o terror da realidade em que nos arriscamos a vir a viver.

     

    7.10.14

     

    António Borges de Carvalho

  • DO PROFESSORADO

    Na, quantas vezes desesperada, fuga aos comentadeiros da bola que enxameiam as televisões à 2ª feira e não só, foi o IRRITADO parar à “RTP Informação”. Um tipo de óculos comandava quatro fulanas em estridente galinheirada: duas desconhecidas, mais a Manuela Moura Guedes e a não-sei-quantas Moreira.

    A coisa era de morrer a rir, ou a chorar, como queiram. No bocado a que o IRRITADO assistiu, uma loira dizia coisas tão parvas, tão parvas, que é de pensar que, felizmente, ninguém percebeu nada. A certa altura, dá-se a seguinte cena:

    A fulana: “Podem haver”…

    A Manuela: “Pode”.

    A fulana: “Podem haver”…

    A Manuela: “Pode”.

    A fulana: “Olhe, eu digo ‘podem’ porque me apetece, e ninguém tem nada com isso. Sou livre”.

    No seguimento desta edificante cena, a loira declarou que era professora.

    Notável, não é? Ficamos esclarecidos, não é?

    Do pouco mais que o IRRITADO teve o incómodo de ouvir, não rezará esta história.

    Resumindo: mais um contributo do “serviço público” para a cultura do povo.

     

    7.10.14

     

    António Borges de Carvalho

     

    ET. No comprimento de onda da loira está o BE, que reza por aí num cartaz: “os bancos são demasiado importantes para ficarem nas mãos de banqueiros”. O careca e a vassourinha devem ter sido alunos da rapariga…

  • IR OU FUGIR

     

    A propósito de um artigo de um rapazito que, às vezes, até escreve umas coisas de jeito na balsemónica publicação, dois ou três esclarecimentos sobre coisas a que ele não assistiu, não sentiu na carne, e parece não conhecer lá muito bem.

    Diz ele que os fulanos que deram à sola durante a guerra não eram cobardes, não senhor. Não sei se eram nem se não eram. Sei que, no lugar deles, outros foram e, se calhar, morreram em vez deles, ficaram sem uma perna em vez deles, perderem 3 ou 4 anos de vida em vez deles, enquanto eles tiravam os seus cursitos ou ganhavam uns tostões algures. E até, hoje, sofrem de stress em vez deles.

    Muito bem, 74, voltaram, passaram a heróis, integraram-se na democracia, muitos deles, fizeram um vidaço no poder. Não sei se eram cobardes. Mas sei que há diferenças entre uns e outros, as diferenças entre o sacrifício e a vidinha.

    É sabido que o abandono do Império era de uma flagrante inevitabilidade. É sabido que o Estado Novo não soube lidar, ou não quis lidar com o problema da forma fria e racional que seria desejável. Outra coisa é a conversa do “tenebroso colonialismo”, da “descolonização exemplar”, da “libertação dos povos oprimidos” e de outras palermices que fazem a delícia dos nossos mais nobres pensadores e, até, dos historiadores da moda ou do galarim do correcto.

    Por causa do Império se moveu a nossa história, propriamente dita, durante cinco séculos. Não é por acaso que fomos nós os primeiros “imperialistas”, não é por acaso que fomos os últimos a deixar de o ser. Quem vive cinco séculos “imperiais”, para o bem e para o mal, tem natural dificuldade em se livrar deles, passando tudo o que era “bom”, a mau, ou péssimo.

    Por causa do Império caiu a Monarquia. Por causa do Império perdemos milhares de homens durante a primeira guerra mundial. Por causa do Império (da falta de atenção ao Império) houve candidaturas de oposição durante a ditadura da II República, houve desavenças por dentro e por fora do regime. Por causa do Império – entenda-se, para o segurar – houve um Norton de Matos, um Humberto Delgado, roubou-se um paquete, fez-se trinta por uma linha. Fosse-se lá dizer a esses homens, ou aos da I República, que a democracia e a liberdade eram desejáveis para acabar com o Império! Bem pelo contrário, ainda que a moderna historiografia seja capaz de dizer o inverso.

    A febre descolonizadora, com razão ou sem ela, começou a reboque da moda universal, aceite pelas médias potências europeias e impulsionada pelas grandes potências, sequiosas de tomar posição num xadrez que lhes escapava. Por cá, o raciocínio era simples: se os países democráticos despejavam os impérios, quem éramos nós para os aguentar? Então, para haver democracia, tínhamos que alinhar com os demais.

    Tínhamos mesmo, é verdade. Salazar não o percebeu, Caetano também não, a malta pagou as favas. O que irrita é que o fenómeno, uma inevitabilidade histórica, seja hoje incensado como se se tratasse de grandes ideais de “liberdade”, de “humanidade” e de “democracia”. A balela vai pagando, não é?

    Os grandes admiradores da I República – de longe o regime mais colonialista de todos os tempos –, gloriosamente representados nos nossos dias pelo Partido Socialista, viraram o bico ao prego com a maior das calmas quando viram nisso uma, ou mais uma oportunidade para pôr em causa a II República.

    É evidente que tal república tinha que cair, era preciso que caísse, nada havia que a justificasse, ainda bem que caiu. Podia era ter caído doutra maneira, isto é, sem que os democratas se tivessem deixado cair nas mãos do PC/MFA, para quem o único objectivo do abandono era oferecer os territórios aos sovietes. O que, aliás, conseguiram, como está mais que provado.

    Por tudo isto, se podemos ter alguma compreensão em relação ao que se passou, embarcar nas justificações “históricas” da moda não passa de uma pantominice.

    Não se pode, ou não devia poder, como se faz hoje, incensar os heróis do Império passado (não temos outro passado nem outros heróis) e, ao mesmo tempo, lançar o anátema de todas as misérias e de todas as malfeitorias sobre a História que tais heróis fizeram.

    Os fugitivos – por alegada oposição à guerra ou visão das oportunidades – viraram costas a cinco séculos com o pretexto de virar costas à ditadura. É o menos que se pode dizer. O jovem articulista do “Expresso” parece não ter a memória bem informada.

    O império não foi monárquico, republicano, democrático, ditatorial, fascista. Nada disso. Foi o que fomos. Ainda estamos à espera de vir a ser outra coisa que valha a pena. Os que por ele lutaram, mesmo que quando a luta já não se justificaria – fruta do tempo – ou não podia sair vitoriosa, não merecem comparação com os fugitivos.

     

    5.10.14

     

    António Borges de Carvalho

  •  PROBLEMAS NO CIBER ESPAÇO

     

    O buraco informático em que os técnicos mergulharam a Justiça tem efeitos verdadeiramente dignos de nota. Não, não estou a pensar nos atrasos acrescidos na administração da dita, não estou a lamentar a sorte de tanta gente que, de repente, teve que voltar ao papel e ao correio, o que dá imenso trabalho. Nada disso.

    O importante é que, ao fim de tantos anos em que este mundo e o outro se andam a queixar amargamente dos atrasos na Justiça, dos processos que levam vinte anos, das prescrições, etc., se descobriu, finalmente, a razão de tudo isto.

    A culpa não é dos juízes, nem dos advogados, ainda menos dos funcionários, coitadinhos, nem dos procuradores, nem das instalações, nem da confusão das leis. Nada disso. Segundo as mais altas figuras dos tribunais, dos sindicatos da especialidade, dos advogados e da chefe deles (parece impossível!), daquele tipo do PC que manda nos escriturários, tudo minha gente concluiu que a culpa é da ministra, a qual não passa de um vírus que, para prejudicar a Justiça, para mostrar a insensibilidade social que a caracteriza, entrou no sistema e o arruinou. Esta, meus senhores, é que é a verdade! Cada segundo de paragem do sistema acarretará meses e meses, até anos, de irrecuperáveis atrasos.

    Mas o problema tem solução: corre-se com a ministra e os computadores voltam a funcionar. O pior é as décadas de atrasos que os senhores juízes & Cª terão que suportar.

     

    5.10.14

     

    António Borges de Carvalho

  • OPINIÕES

     

    O governo anunciou uma política nova de habitação social. Ao que parece, haverá novas e especiais atenções em relação à protecção e responsabilização dos inquilinos sociais, assumindo os poderes públicos os custos da operação. Por outras palavras, trata-se do caso em que o senhorio assume custos de ocupação de espaços da sua social iniciativa e responsabilidade. Nada a acrescentar. É natural que assim seja.

    Já o socialismo nacional tem, nas esclarecidas palavras do Oco II, doravante grande líder e deseducador das massas (passaremos a trata-lo por Costa, uma vez que o Oco I está fora de combate), diferente opinião sobre a protecção social. Defende o homem que são os senhorios privados os encarregados da despesa. Na sua boca, não há direito que os inquilinos (as lojas inviáveis são o exemplo que brilhantemente aduziu) fiquem com contratos de cinco anos, o que não lhes permite “planear o futuro”. Razão pela qual, ao contrário da generalidade dos portugueses, têm que ter contratos até à eternidade. Da mesma forma, competirá, como já compete mas muito mais, aos tenebrosos proprietários, prosseguir na substituição das entidades públicas no sustento da virtuosa classe dos inquilinos.

    Por outras palavras, a mentalidade socialista continua viva, eleitoralista e coerente.

    Para memória futura.

     

    3.10.14

     

    António Borges de Carvalho

  • A QUADRATURA DA PROPAGANDA

     

    De há anos a esta parte, o programa de debate que, com toda a justiça, se chama “Quadratura do Círculo”, se transformou num dos mais eficazes fora da pura e simples oposição política. Nos saudosos tempos do “engenheiro” era muito mais meigo.

    Seria lógico que houvesse um comentador de cada um dos grandes partidos, um do CDS, e até (para haver um “quadrado”) um tipo qualquer da extrema-esquerda, comunista PC ou comunista caviar. É verdade que este último não faria falta nenhuma num forum que se desejaria democrático. Por isso que seja justificável a sua ausência. Já temos PC, BE e quejandos de sobra, todos os dias, por tudo quanto é sítio “informativo”.

    O que acontece é que o pluralismo desejável se converteu em púlpito exclusivo da opinião antigovernamental, ainda que caldeado por tímidas, ainda que inteligentes, tiradas amaciadoras de um Lobo Xavier. De resto, o programa integra um socialista, que vai fazendo o seu papel (o Pinto de Sousa nunca existiu e o PS é o bom, o PSD o mau), o que se compreende e aceita. Finalmente, temos aquele que é, de longe, o mais radical inimigo do partido que se julgaria defender: o odiento Pacheco, que mascara frustrações, dores de cotovelo, ódios de pacotilha e ausência de carácter com repugnantes tiradas pseudointelectuais.

    Ontem o IRRITADO assistiu a mais uma destas sessões.

    Algo mudou. A “Quadratura” passou a púlpito de propaganda eleitoral do Costa, um espertalhão cuja demagogia de campanha eleitoral atingiu inusitados cumes. Valeu quase tudo. O homem vai repor os comerciantes falidos por não ter dinheiro para pagar as instalações, vai restituir reformas, e não sei mais quê. Ou seja, atirou-se aos votos como um leão esfomeado. E, segundo anunciou, continuará a sua cruzada até vinte e tal de Novembro! Decide o que lhe convém, está para além da decência.

    Uma delícia, a ”Quadratura”, em termos de pluralismo informativo, de debate democrático, de amor ao contraditório, de informação pública, de pudor intelectual.

    O Bispo Teixeira e o Arcebispo Balsemão estão de parabéns, em matéria do que, caridosamente, se poderá chamar “julgamento de oportunidade”.

     

    3.10.14

     

    António Borges de Carvalho

  • CABEÇORRAS

    Parece que aquela senhora que é Presidente a Assembleia dita da República contratou com um escultor qualquer a exposição de uns mamarrachos nos corredores da instituição. Os mamarrachos pretendem reproduzir as cabeças dos PR’s desde o 5 de Outubro até hoje. Entre eles, como é evidente, os generais Carmona e Craveiro e o almirante Tomás.

    Vai daí, a esquerda parlamentar entrou em delirium tremens. Que horror, que ofensa à democracia! Como se tal esquerda tivesse alguma coisa a ver com a democracia, para além de se aproveitar dela.

    Aqueles senhores não foram presidentes da república, mas da ditadura, clamam, prenhes de indignação, os deputadinhos. Ou seja, a ditadura não foi uma república. Que terá sido então? Uma monarquia? Seria o Craveiro filho do Carmona e o Tomás neto? Será que a república é sinónimo de democracia? Não haverá, por esse mundo fora, para aí uma centena de repúblicas que são ditaduras? A ditadura, por cá, não faz parte da História? Nunca existiu? Nunca teve presidentes durante quarenta anos?

    Não, a ditadura não faz parte da História da república, não senhor, dirão eles. Como o Trotsky ou o Béria nunca existiram, segundo a ”historiografia” soviética.

    Este tipo de inferioridade cultural é típico da nossa esquerda. Confunde-se república com democracia. Confunde-se História com maniqueísmo primário. Confunde-se o que for preciso para excitar o ódio das “massas”.

    Em boa verdade, o IRRITADO “está-se nas tintas” para as horrendas cabeçorras dos presidentes, tão parecidas com eles como com o Zé do Telhado. Que as ponham nos corredores ou as tirem de lá. Que as derretam ou ponham no Panteão. Que as comam com batatas ou com nabiças. Mas, por favor, não venham cá dizer que a ditadura não foi a II República.

     

    3.10.14

     

    António Borges de Carvalho

  • ALTA QUIMICOLOGIA

    Segundo o mui preclaro e ilustre ministro do ambiente, se você for de Lisboa ao Porto ou do Porto a Lisboa de automóvel, produzirá nada menos que 176 quilos de CO2.

    O IRRITADO lança um apelo aos seus leitores que sabem alguma coisa de química, aos doutorados em química, aos professores de química: por favor, esclareçam como é possível que 20 litros de gasóleo produzam 176 quilos de CO2, sendo sabido que as emissões dos carros contêm CO – um gás venenoso – e não CO2 – que não faz mal a ninguém. Qual é o processo químico que, qual milagre dos peixes, transforma 20 em 176?

    O IRRITADO é, quimicamente, um ignorante. Será o ministro ainda mais? Será um aldrabão, ou só um fundamentalista dos negócios do carbono e “religiões” afins. Ou ainda um idiota chapado? Ou quer arranjar formas, como há quem diga, de aumentar os impostos?

    O problema é que, universalmente, com o alto patrocínio da ONU e, entre outros, do senhor Durão Barroso, os fundamentalistas dizem tudo o que lhes apetece sem qualquer espécie de escrutínio e com base em modelos informáticos à la manière e outras invenções “convenientes”.

    Nesta ordem de ideias, o CO2 – um gás benigno mas anatemizado pelo politicamente correcto – você, ao produzir inúmeros quilos de CO2 quando for de Lisboa ao Porto ou vice-versa, comete uma espécie de crime contra a humanidade, contra o planeta e, como é óbvio, contra o descanso espiritual do ministro da ambiente. Gravíssimo, não é? Ponha-se a pau que, mais dia menos dia, se for ao Porto, chega lá e é preso.

     

    2.10.14

     

    António Borges de Carvalho

  • A GRANDE MACACADA

     

    Passada a espuma do “primeiro dia” da “grande vitória do PS” no seu glorioso caminho para o poder, eleito que está o “primeiro-ministro” do futuro, consagrado que se considera o “princípio” da eleição directa por eleitorados ad hoc, triunfante a ideia de que o cargo em causa é electivo – e é propriedade do PS -, aceite que foi como positivo um primeiro caso de participação política de cidadãos voluntários, haverá que pôr os pezinhos no chão e tentar ver o que se passou de importante.

     

    Quando se viu o Oco II atirar um cravo ao povo, a propaganda imediata disse tratar-se de uma resposta a um sketch qualquer da campanha do Oco I. Espíritos mais sagazes, ou mais mal intencionados, como o do IRRITADO, ao ver a cena, lembraram-se do ataque paranoico do tarado Vasco Gonçalves, em Almada, a atirar cravos à matilha. Ou seja, o cravo do Oco II foi o primeiro sinal de “mudança”, com um sentido preciso e inequívoco, logo sublinhado pela profusão de murros no ar por parte da tralha ululante.  No palco, e nas primeiras filas, uma profusão de gente que se julgaria condenada pelo povo ao caixote dos dejetos da política mas que, afinal, vê no Oco II a hipótese de voltar a ter poder para – é mais que certo – nos levar a uma nova bancarrota.

     

    Já que ninguém duvida que houve uma escolha de pessoas, não de ideias – coisa que, está provado à saciedade, não existe, nem na cabeça de um nem na do outro -, é de olhar para tais pessoas. O Oco I foi levado por duas vezes ao topo da agremiação por decisões legítimas, legais e estatutárias. Enfrentou os adversários de forma decente e limpa. O outro fugiu cobardemente, duas vezes, quando teve oportunidade de avançar. Deixou passar a água por baixo das pontes, auscultou “as massas” e, de forma pelo menos sacana, avançou. Ao que Oco I respondeu com a coragem que o desafio não merecia. Talvez sem saber que estava a cavar a sua pópria sepultura, deu o peito às balas: criou um sistema, certamente inconstitucional, ilegal e extra estatutário – quem de direito fechou os olhos à coisa -, mas frontal. Não fugiu, como era hábito do inimigo. Se alguma coisa se deve ao Oco I, é esse exemplo.

     

    Tudo começou com uma carroceirada do Oco II. Se acharem “carroceirada” muito forte, atentem no discurso de “posse”: que outra classificação é possível?

     

    Apesar da vacuidade das “propostas” políticas de um e de outro, estamos perante gente de carácter oposto: um é decente, o outro não. Mas parece que o “eleitorado” estava mais interessado no paleio de um que na decência do outro.

     

    O Oco II entra, assim, pela porta do lixo. A corroborar esta opinião está o abandono da CML, que prometeu “servir” até ao fim. Paradoxalmente, haverá quem pense que talvez saia daí alguma coisa de positivo, sendo a coisa um tal Medina (áulico do Pinto de Sousa, como não podia deixar de ser) que, vindo do Porto, desceu à cidade pela mão do chefe. O IRRITADO não sabe se o Medina presta para alguma coisa. Sair o Oco II, seja de onde for, é sempre bom. A sua obra em Lisboa está à vista, só que, em termos de vida dos lisboetas, é difícil de ver qual seja: os grandes problemas continuam por resolver, a CML continua pasto da hedionda burocracia que a pulula, nada de substancial mudou, mesmo que a propaganda diga o contrário. As obras prometidas estão por fazer, a feira Popular e o Parque Mayer continuam a ser palco para as aventuras jurídicas desse flagelo que se abateu sobre a cidade chamado Fernandes. Os passeios continuam a partir tornozelos, as ruas a rebentar pneus, as piscinas são letra morta e, se tirarmos a Ribeira das Naus, que resta? De positivo, haverá o que vinha de trás. Mas o currículo do edil do Intendente é brilhante, diz a recorrente propaganda, e não há nada a fazer.

     

    Tem o mundo da “informação” aos pés: veja-se a cobertura que teve, antes, durante e depois do acontecimento. Botas bem lambidas, como o “futuro” impõe.

     

    Last but not least, assitimos ao glorioso regresso dos filhos da viúva, ditos maçons. É ver o apoio macisso da brigada do reumático e da do Pinto de Sousa.

     

    Enfim, até daqui a um ano muita coisa acontecerá. Pode ser que haja quem entenda.

     

    30.9.14

     

    António Borges de Carvalho   

  • FUTUROLOGIA

     

    Lisboa, 28 de Setembro de 2015

     

    Do jornal “Política às Pazadas” expurgamos seguinte artigo:

     

    No seguimento dos resultados eleitorais, e nos termos da Constituição da República, o PR deu ontem início às consultas para a formação do novo governo. Recebeu o PC, o CDS-PP e o PSD. O BE, como se sabe, não obteve representação parlamentar.

    Esta manhã foi recebido o PS que, como se sabe, venceu eleições com 28,9% dos votos dos portugueses. Integravam a delegação o secretário geral António Costa, o presidente do partido Carlos César, o representante da tendência geronto-socrítica Mário Soares e a presidente do grupo parlamentar, Ana Catarina Mendes.

     

    A nossa jornalista Gertrudes Palimpsesta conseguiu esconder-se atrás dos cortinados do gabinete de Sua Excelência e dá-nos conta das partes mais importantes do diálogo travado, em que o PR, mais uma vez, fez uso da sua habitual postura institucional.

    Após os cumprimentos formais, o Presidente felicitou o partido pela vitória obtida, o que os presentes muito agradeceram. Quanto ao assunto em agenda, o senhor César disse que, tendo em atenção os resultados eleitorais, o PS vinha solicitar de Sua Excelência a indigitação do Dr. Costa para Primeiro-Ministro, no seguimento também da sua eleição como candidato ao lugar, feita por militantes e simpatizantes.

    O PR respondeu que as suas decisões tinham a ver com a Constituição, não com eleições internas dos partidos, e que a indigitação do Primeiro-Ministro era da sua competência, não de quaisquer militantes ou simpatizantes, isto é, que, desde que tendo em consideração os resultados das legislativas, era preciso que, ele sim, simpatizasse com a personalidade a indigitar, no sentido de achar que era a melhor escolha para o cargo.

    Os elementos da delegação ouviram estas palavras com a boca aberta de espanto. O senhor César embatucou, eventualmente por falta de conhecimentos jurídicos para contradizer o PR. O Dr. Soares mexeu-se pesadamente no cadeirão, notando-se bagas de suor a surgir-lhe na testa e uma ligeira baba a dealbar nos cantos da boca.

    António Costa veio em socorro dos presentes, dizendo que o PR teria, de um ponto de vista formal, toda a razão, mas que a decisão era política e que era tradicional o PR aceitar indigitar o chefe do partido mais votado.

    O Presidente respondeu mais ou menos por estas palavras: meus senhores, gostaria de sublinhar que, nem a Constituição, nem a Lei eleitoral, nem lei nenhuma consagra candidaturas a primeiro-ministro, nem, no que lhes diz respeito, o fazem os estatutos do vosso partido, que tive o cuidado de mandar analisar. Tratando-se, como se trata, de uma alteração estatutária, estas eleições, ditas “primárias”, não podiam deixar de ser objecto de uma decisão do Congresso, segundo tais estatutos. Por conseguinte, foram eleições inconstitucionais, ilegais e sem, sequer, cobertura estatutária. Inválidas, portanto. Não peçam ao Presidente da República que cooneste processos desta natureza, indigitando um candidato partidário a um cargo para o qual não há nem pode haver candidatos e, se houvesse, seria, como tal, eleito pelo povo, não por um qualquer grupo de militantes ou aderentes.

    Soares regougou: Você não passa de um gajo da direita, um incompetente, um canalha, um adepto do capitalismo de casino… Incapaz de se conter, levantou-se com esforço e declarou que o Presidente devia ser demitido, torturado, encarcerado, morto. Sentou-se então, a arfar, num estertor da mais profunda raiva.

    O Presidente, discretamente, premiu um botão. Apareceu o adido militar. Julgo ter ouvido o segredinho que o PR lhe disse: tenha a postos a GNR e uma ambulância do INEM com assistência psiquiátrica.

    Costa, sempre contido, declarou em voz melíflua que, mais uma vez, o PR tinha toda a razão mas que, atendendo aos resultados eleitorais, é da praxe constitucional que seja indigitado o líder do partido vencedor.

    Pois é, mas deixe-me fazer duas observações: primeiro, praxes são praxes, não obrigam a coisa nenhuma; segundo, se eu o indigitasse, pareceria que as instituições estavam ao serviço de eleitorados inventados, ou criados ad-hoc, o que, como deve calcular, não é desejável em termos de dignidade republicana… E acrescentou:ão gostei, de um ponto de vista moral, da maneira como o senhor se apresentou contra o legítimo líder do seu partido, o que representa um estofo pessoal que não é do meu agrado.

    Rematando: dado o teor deste contacto, que muito agradeço, peço-lhes que vão pensar e que, dentro de 48 horas, voltem à minha presença com a solução que tiverem por bem.

     

    O comunicado oficial diz apenas que, após troca de impressões, foi agendada nova reunião para daqui a dois dias.

     

    O nosso jornal, tendo “assistido” a tudo, e dando a notícia em primeira mão, procurou informar-se. A primeira personalidade que ouvimos foi o proclamado “pai” da Constituição, Doutor Miranda, o qual começou por se recusar ao diálogo. Instado, acabou por, à contre coeur, aceder ao pedido. É notório, disse, que o PR se serviu dos formalismos legais e constitucionais para exprimir o seu desagrado pela indigitação de Costa, mas a verdade é que tem razão. Eventualmente, cederá à pressão do PS e da opinião pública, o que não “legaliza” a eleição do chamado candidato a PM. Trata-se de uma situação de facto, e não de jure. Às vezes, manda o bom senso que se atenda aos factos…

    E mais não disse, nem lhe foi perguntado. Percebemos a mensagem… a ver vamos o que se passa depois de amanhã.

     

    Gertrudes Palimpsesta, assessorada pelo chefe de Redacção.

     

     Secção de inteligence do IRRITADO

  • INVESTIGAÇÃO URGENTE

     

    A cadela da minha vizinha apareceu aqui esta manhã. Vinha contar-me que o Dr. Passos Coelho, em 22 de Julho de 1998, foi ao Porto e almoçou no Escondidinho.

    Francamente, acho que este assunto devia ser esclarecido quanto antes, dada a sua esmagadora importância. Se a dona PGR não quiser interessar-se, acho que devia ser, com a maior urgência, criada uma comissão de inquérito para esclarecer o assunto. O velho e a miúda do BE, assessorados pelo Jerónimo e pelo Galamba, podiam ser encarregados de elaborar o caderno de encargos da dita comissão, o qual se subordinaria às seguintes questões:

    – Porque foi ele ao Porto?

    – Qual o meio de transporte? Avião, comboio, viatura privada?

    – Apresentou o bilhete, ou cobrou quilómetros?

    – Com quem almoçou e porquê?

    – Usou os serviços do WC do restaurante?

    – Bebeu vinho, água com gás ou outra bebida?

    – Quanto custou o almoço?

    – E porquê o Escondidinho??

    – Porque não levou de casa uma sandocha e dois pastéis de bacalhau?

    – Qual o montante envolvido?

    – Pagou o IVA?

    Estas e muitas outras importantíssimas questões deveriam já ter sido esclarecidas, a bem da democracia, da dívida pública, da estabilidade política e da transparência.

     

    Prestando à Pátria altos serviços, os jornais desta manhã são unânimes: o PM não disse quanto custou a coisa, nem porque foi ao Porto em 22 de Julho de 1998. Este tipo de perguntas é o que mais dignifica  a nobre missão dos jornalistas, não é? Perguntem ao Belmiro.

     

    27.9.14

     

    IRRITADO

  • DESTA FEITA, A MONTANHA NEM UM RATO PARIU

     

    Hoje, o jornal ultra socialista chamado “Público” apresentou a mais garrafal manchete da sua história: “A resposta que falta é sim ou não”. Três linhas monumentais: a cereja em cima do repugnante bolo que vinha cozinhando há que tempos, feito da mais rasca politiquice, dita “investigação jornalística”.

    A degradação moral do pasquim a que o senhor Belmiro, inexplicavelmente, continua a dar cobertura institucional e financeira é de tal ordem que, também hoje, é publicado como “artigo de opinião” um manifesto assinado por uma alcateia de representantes da nacional esquerdofilia, mormente da classe caviar.

    Enfim, parece que a coisa chegou ao fim. O PM disse o que tinha a dizer, e acabou-se. Acabou-se para as pessoas normais, não para os ocos ou para a coorte de facínoras políticos de que o “Público” é público porta-voz. O camarada Oco I parece que quer continuar a chafurdar. Pois que chafurde. Estará no seu habitat.

    O Oco II é mais esperto, como toda a gente já percebeu. Ordinário mas esperto. Calou-se, não fosse alguém perguntar-lhe onde tinha, como áulico do Pinto de Sousa, ido buscar a moral para se atirar nos braços da pessegada que o “Público” e quejandos encenaram.

    Já o “Expresso”, que começou por achar que a coisa valia a pena para se fazer ao poder “do futuro”, acabou por cortar as unhas e recolher a quartéis. Foi lindo ver o mano Costa a defender, avant la lettre, a tese das despesas de representação!

    Enfim, parece que o balão furou. Não faltará quem se desunhe para o encher outra vez. O problema é que, quando os balões furam, além de fôlego é preciso muita cola.

     

    26.9.14

     

    António Borges de Carvalho  

  • DO REGRESSO DOS BUFOS

     

    Nos tempos da II República, se eu não gostasse do vizinho do 6º esquerdo, tinha à disposição um instrumento “jurídico-legal” que me permitia dar-lhe cabo da vida: fazia uma denúncia à PIDE, dizia que o tipo andava mancomunado com forças anti-patrióticas, incompatíveis com o o “a bem da Nação”, e pronto. O fulano ia de cana, davam-lhe uma sova, punham-no três dias em pé sem dormir e, passadas umas três semanas, vinha cá para fora feito num oito, sem sequer ter percebido porque tinha ido dentro. Havia também uns fulanos que se metiam em certas organizações não afectas ao regime, a fim de ir à PIDE dar com a boca no trombone. Há quem diga que o PC, nesta matéria, era especializado, não fosse haver alguma golpada “burguesa”, a qual o proletariado não tinha “condições objectivas” para apropriar. Está escrito no “Avante!” da época. A bufaria, de uma forma ou de outra, estava institucionalizada.

    Passados quarenta anos da instauração da nossa gloriosa III República, jacobina e socialista, os bufos voltam à carga, sob a jurídico-legal figura do denunciante anónimo. Qualquer mânfio é, não só livre de, anonimamente, acusar seja quem for das maiores tropelias, como verá a sua denúncia utilizada pelas autoridades da III República, jacobina e socialista, para dar cabo da vida ao tipo do 6º esquerdo.

     

    É assim que toda a gente sabe que o PM recebeu, de uma coisa qualquer, sem declarar ao fisco, 5.000 euros por mês durante não sei quantos meses. Isto é já verdade, ainda que o bufo – protegido pelas autoridades democráticas – tenha apresentado as coisas a seco, sem provas ou documentos. Em termos republicanos e socialistas, quem faz fé é o bufo.

    É bom que vejam que o IRRITADO diz estas bojardas antes do debate de amanhã, onde se supõe que o PM fale do assunto. Seja verdade ou mentira o que o bufo diz – é às bocas do bufo que tudo se deve – o “acusado” está frito. Suponhamos que a denúncia é provada como verdadeira: neste caso, entramos em crise, o PM tem que se ir embora, e viremos a ter a desgraça de ficar nas mãos, seja do OcoI, seja do Oco II. Mas, se nada se provar, o PM  ficará queimado na mesma.

    O que o IRRITADO põe em causa – porque não sabe – não é se o PM fez asneira ou não: é que qualquer bufo tenha o “direito” de dizer o que lhe apetece, verdade ou mentira, sem dar a cara pelo que diz. E, pior ainda, que a máquina judicial e a barulheira política se ponham em actividade por causa disso.

    Enfim, se calhar este anti bufismo vem de um tipo que viveu os tempos da II República e ainda tem ódio aos bufos. Coisa que a III aboliu, sabe Deus – e o IRRITADO – em nome de quê.

     

     

    26.9.14

     

     

    António Borges de Carvalho

  • SAÚDE PARA O POVO

     

    Anda para aí um barulho dos diabos com a história da venda da Espírito Santo Saúde. Parece que a coisa é galinha da perna para os investidores especializados. Até aqui tudo bem.

    Apareceram uns mexicanos, gente do melhor segundo a ilustre doutora Isabel Vaz – os tipos, dizem os jornais, garantiram-lhe o poleiro. Vai daí, desata a gritar que a concorrência (os Mellos) tem dificuldades financeiras, que se corre o risco de não haver concorrência, e não sei mais quê. Facto é que conseguiu arrumar com os ditos por via burocrática.

    Venham os mexicanos, o Speedy Gonzalez, os chinocas! Qualquer hipótese é de pôr de lado, se não garantir a presença da chefe!

     

     26.9.14

     

    António Borges de Carvalho

  • TRATAR DOS DOENTES

     

    É com o coração cheio de ternura que o IRRITADO vê, na televisão, uma série de fulanos e fulanas, deitados no chão, cheios de gritos e de cartazes, à porta do ministério da saúde. Os deitados mais os em pé garantiam uma multidão de trezentas pessoas.

    Eram enfermeiros, coitados. Estão assoberbados de trabalho, não querem trabalhar tanto. Mais uns 2.500 resolviam o problema deles. É legítimo, trabalhar faz calos, raio! Estes 300 tiveram tempo para ir deitar-se na rua em dia de trabalho. Um bom exemplo. Parece que o trabalho, afinal, não era tanto como isso.

     

    26.9.14

     

    António Borges de Carvalho

  • QUE LINDOS!

     

    Os dois de fatinho azul, camisa branca (uma mais foncée que a outra), gravatinha vermelha como a que usava o orago Pinto de Sousa nos bons tempos, tudo nos conformes, unha tratada, barbeiro à entrada, postura afinada, um consolo!

    Dizer coisas que valesse a pena ouvir, não disseram. Nem um nem outro sabe o que há-de fazer a isto, mas paleio não lhes falta: essa é que é essa. Um tem oitenta medidas mais menos deputados. Outro tem uma agenda. Ambos querem relançar a economia, baixar os impostos, pagar as dívidas, defender o estado social, aumentar as reformas, renegociar com o BE, a UE, o FMI e outras instâncias que andam para aí a chatear. Como? Não dizem. Fica para depois. As medidas de um são como a agenda do outro. Puro blabla.

     

    Não se gramam. Tão oco o Oco I como o Oco II. Se há diferença, é a favor do I, que foi eleito e é legítimo. O II quer o poleiro, foi ordinário, malandrão, traiçoeiro; pode ser tudo menos um tipo decente. O I talvez seja. Primeiro-ministro um deles… que mais nos há-de acontecer?

    O processo que o I inventou para ganhar tempo e desgastar o II, é de estalo: eleger um tipo para um cargo que, se vier a ficar à disposição da agremiação, não será eleito, nem nada obrigará a que seja nomeado: não há, nem na Constituição nem na lei, candidatos a primeiro-ministro. Nada há que dê cobertura a esta trapalhice. Nada não: dá-lha o Tribunal Constitucional que, expressamente, fecha os carinhosos olhinhos. Imaginem o que sucederia se a coisa se passasse no CDS ou no PSD; seria, como é evidente, altamente ofensiva dos mais elementares “princípios” constitucionais.

     

    O processo é capaz de estalar na boca do seu inventor. Arranjou uma data de eleitores ad hoc, gente que não controla como controlaria a massa associativa. Uma espécie de lotaria viciada, sem segundos prémios nem terminações.

     

    O IRRITADO não aposta, mas opina: antes o I. Porquê? Imaginem que apanhávamos outra vez com o Santos Silva, o Silva Pereira, o Campos, a tralha do sótão do Pinto de Sousa de novo no galarim, promessa implícita do II. Imaginem! Que seria de nós? Por isso, e porque, Oco por Oco, antes o que, que se saiba, não traíu ninguém nem tem as toneladas de esqueletos no armário que o outro tanto ama.

     

    No fundo, no fundo, a teoria da conspiração é capaz de estar certa: tudo isto não passa de uma manobra psico-aldrabona destinada a meter na cabeça das pessoas que o próximo primeiro-ministro será do PS. Bem visto. Lavado o cérebro aos eleitores (nós), a decisão será dos “simpatizantes”. Bem visto.  

     

    24.9.14

     

    António Borges de Carvalho

  • COISAS NO SÍTIO CERTO

     

    E a Tecnoforma? A nova coqueluche do nacional-jornalismo está a dar, e de que maneira. Sim, meus senhores, parece que, há para aí vinte anos, Passos Coelho era pago pelo trabalho que fazia nessa coisa. A Sábado (será que a Impresa está a preparar o futuro?) ficou-se pelos “terá sido”, “terá havido”, “é possível que”, e por aí fora. O jornal socialista privado chamado “Público” escarafuncha mais, com razão ou sem ela. O PM (culpado ou inocente de umas merdices que não interessam a ninguém) pôs as coisas onde os acusadores deviam tê-las posto: na investigação criminal. Sabe-se que tal investigação fez o que pode para safar o Pinto de Sousa, o que leva a crer que, ao Passos Coelho, fará o contrário. Mas este, pelo menos, tem a coragem de arriscar. Ainda ninguém o ouviu gritar “conspiração!”, “campanha negra!”, “assassinato político” e outros argumentos em que o Pinto de Sousa é especialista.

    E, se não dá satisfações nem conversa ao homúnculo do BE nem à coorte de mastins sequiosos que o perseguem, faz ele muito bem.

    A dona PGR que se desunhe.

     

    24.9.14

     

    António Borges de Carvalho

  • ADVOGADOS

     

    Estejam as hostes descansadas. O Dr. Ricardo Salgado, bom ou mau, culpado ou inocente, seja lá o que for, encontrou mais um alto defensor: o ilustre Dr. Mário Soares! E esta!? O povo a julgar que, para o defender, nada melhor que o Proença de Carvalho, que já foi quase tudo e será o que for preciso, e afinal, das catacumbas da “advocacia”, eis que surge, lúcido e forte, o grande Soares!

    A culpa de tudo é do governo! Estava mesmo a ver-se. Foi o governo quem desatou a financiar empresas falidas, foi o governo que pôs 900 milhões ao fresco, foi o governo que desatou à porrada aos primos e aos cunhados, foi o governo, foi o governo! Dixit!

    Não, meus senhores! O Dr. Salgado não se dava bem com o Pinto de Sousa, nunca teve nada a ver com o PS, não se dava com o Mário, odiava o Costa, não sabia de existência do Seguro. Não, meus senhores, aquilo das falências na Suíça foi obra do governo! Os processos luxemburgueses outra coisa não são senão um resultado de o Passos Coelho andar mancomunado com o Junker, a prima que denunciou a irmã do afilhado era assessora do Moedas.

    E mais, muito mais. Se quiserem, perguntem ao Mário Soares, ele sabe! E, se seguirem o seu alto conselho, verão como se faz justiça.

     

    19.9.14

     

    António Borges de Carvalho

  • UM FUTURO NADA RISONHO

     

    Que se poderá dizer do referendo escocês, que não tenha já sido dito por jornalistas, comentadores, políticos, militares, populares e… pelo próprio IRRITADO?

    Quase nada, é verdade. A horas de se saber o resultado, uma sensação de angústia me entra no bestunto. Como é possível? Como é possível que Westminster tenha coonestado tal coisa? A resposta seria a do costume: quem propõe, ou permite, um referendo, está convencido de que o vai ganhar. E não o permite se duvidar do resultado. Já pensaram porque jamais a nossa República foi objecto de referendo? Porque jamais foi referendada a Constituição de 76? E porque o foi a de 33?

    No caso da Escócia, o tiro saiu pela culatra aos homens de Londres. Queriam acabar com um problema, estavam certos do resultado, era o que diziam estudos e sondagens: o NÃO estava garantido. Não contaram com a violência da demagogia, do populismo, do nacionalismo arrancado os arquivos mortos da História.

    E agora? Agora, qualquer resultado será mau, para os britânicos, escoceses incluídos, para os Europeus, para a estabilidade geral. Amanhã, nada será como dantes. Se o SIM ganhar, os pobres escoceses ver-se-ão no mais desgraçado molho de bróculos da sua história, a Grã-Bretanha não saberá como descalçar a bota, a União Europeia, já mergulhada no que se sabe, ficará a braços com questões praticamente insolúveis, a NATO também, e por aí fora. Se ganhar o NÃO, o chorrilho de promessas que Londres se viu na contingência de fazer terá igualmente temíveis resultados, sujeita que fica a velha nação do Norte à emergência dos albertosjoõesjardins e carloscésares lá do sítio ( o que é o demagogo Salmond se não isso mesmo?), armados até aos dentes com a clássica desculpa de que todos os males vêm do “centralismo” de Westminster. O que corre bem será sempre levado à crédito da autonomia federal ou para federal, o que correr mal será escriturado débito da União.

    Uma caixa de Pandora se abriu, não se sabendo, como sempre, o que poderá de lá sair. Nunca mais haverá descanso, para os escoceses como para os demais. Tudo porque a melhor e mais antiga democracia do mundo moderno se deixou cair na armadilha da chamada democracia directa.

    O IRITADO abomina referendos, como sabe quem o lê. Porque os referendos, antes de mais, são um engano para os eleitores, que, ou não têm elementos objetivos para decidir, e decidem por emoções, ou são levados a tomar decisões sobre assuntos que não dominam, e decidem por convencimentos superficiais.

    Como diria La Palice, tudo tem um lado bom, ou menos bom, e um lado mau ou menos mau. Por isso que as decisões políticas devam ser sempre tomadas a prazo, o que não é o caso dos referendos, que obrigam o futuro, mesmo que os eleitores o queiram diferente.

    O caso escocês é o pior de todos: trata-se da nacionalidade de cada um, da existência de um país secular, da destruição de uma harmonia que, mau grado diferenças culturais e históricas, fazia o orgulho e a razão ser do mais invejável país do mundo.

     

    18.9.14

     

    António Borges de Carvalho