Que se poderá dizer do referendo escocês, que não tenha já sido dito por jornalistas, comentadores, políticos, militares, populares e… pelo próprio IRRITADO?
Quase nada, é verdade. A horas de se saber o resultado, uma sensação de angústia me entra no bestunto. Como é possível? Como é possível que Westminster tenha coonestado tal coisa? A resposta seria a do costume: quem propõe, ou permite, um referendo, está convencido de que o vai ganhar. E não o permite se duvidar do resultado. Já pensaram porque jamais a nossa República foi objecto de referendo? Porque jamais foi referendada a Constituição de 76? E porque o foi a de 33?
No caso da Escócia, o tiro saiu pela culatra aos homens de Londres. Queriam acabar com um problema, estavam certos do resultado, era o que diziam estudos e sondagens: o NÃO estava garantido. Não contaram com a violência da demagogia, do populismo, do nacionalismo arrancado os arquivos mortos da História.
E agora? Agora, qualquer resultado será mau, para os britânicos, escoceses incluídos, para os Europeus, para a estabilidade geral. Amanhã, nada será como dantes. Se o SIM ganhar, os pobres escoceses ver-se-ão no mais desgraçado molho de bróculos da sua história, a Grã-Bretanha não saberá como descalçar a bota, a União Europeia, já mergulhada no que se sabe, ficará a braços com questões praticamente insolúveis, a NATO também, e por aí fora. Se ganhar o NÃO, o chorrilho de promessas que Londres se viu na contingência de fazer terá igualmente temíveis resultados, sujeita que fica a velha nação do Norte à emergência dos albertosjoõesjardins e carloscésares lá do sítio ( o que é o demagogo Salmond se não isso mesmo?), armados até aos dentes com a clássica desculpa de que todos os males vêm do “centralismo” de Westminster. O que corre bem será sempre levado à crédito da autonomia federal ou para federal, o que correr mal será escriturado débito da União.
Uma caixa de Pandora se abriu, não se sabendo, como sempre, o que poderá de lá sair. Nunca mais haverá descanso, para os escoceses como para os demais. Tudo porque a melhor e mais antiga democracia do mundo moderno se deixou cair na armadilha da chamada democracia directa.
O IRITADO abomina referendos, como sabe quem o lê. Porque os referendos, antes de mais, são um engano para os eleitores, que, ou não têm elementos objetivos para decidir, e decidem por emoções, ou são levados a tomar decisões sobre assuntos que não dominam, e decidem por convencimentos superficiais.
Como diria La Palice, tudo tem um lado bom, ou menos bom, e um lado mau ou menos mau. Por isso que as decisões políticas devam ser sempre tomadas a prazo, o que não é o caso dos referendos, que obrigam o futuro, mesmo que os eleitores o queiram diferente.
O caso escocês é o pior de todos: trata-se da nacionalidade de cada um, da existência de um país secular, da destruição de uma harmonia que, mau grado diferenças culturais e históricas, fazia o orgulho e a razão ser do mais invejável país do mundo.
18.9.14
António Borges de Carvalho

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