Passada a espuma do “primeiro dia” da “grande vitória do PS” no seu glorioso caminho para o poder, eleito que está o “primeiro-ministro” do futuro, consagrado que se considera o “princípio” da eleição directa por eleitorados ad hoc, triunfante a ideia de que o cargo em causa é electivo – e é propriedade do PS -, aceite que foi como positivo um primeiro caso de participação política de cidadãos voluntários, haverá que pôr os pezinhos no chão e tentar ver o que se passou de importante.
Quando se viu o Oco II atirar um cravo ao povo, a propaganda imediata disse tratar-se de uma resposta a um sketch qualquer da campanha do Oco I. Espíritos mais sagazes, ou mais mal intencionados, como o do IRRITADO, ao ver a cena, lembraram-se do ataque paranoico do tarado Vasco Gonçalves, em Almada, a atirar cravos à matilha. Ou seja, o cravo do Oco II foi o primeiro sinal de “mudança”, com um sentido preciso e inequívoco, logo sublinhado pela profusão de murros no ar por parte da tralha ululante. No palco, e nas primeiras filas, uma profusão de gente que se julgaria condenada pelo povo ao caixote dos dejetos da política mas que, afinal, vê no Oco II a hipótese de voltar a ter poder para – é mais que certo – nos levar a uma nova bancarrota.
Já que ninguém duvida que houve uma escolha de pessoas, não de ideias – coisa que, está provado à saciedade, não existe, nem na cabeça de um nem na do outro -, é de olhar para tais pessoas. O Oco I foi levado por duas vezes ao topo da agremiação por decisões legítimas, legais e estatutárias. Enfrentou os adversários de forma decente e limpa. O outro fugiu cobardemente, duas vezes, quando teve oportunidade de avançar. Deixou passar a água por baixo das pontes, auscultou “as massas” e, de forma pelo menos sacana, avançou. Ao que Oco I respondeu com a coragem que o desafio não merecia. Talvez sem saber que estava a cavar a sua pópria sepultura, deu o peito às balas: criou um sistema, certamente inconstitucional, ilegal e extra estatutário – quem de direito fechou os olhos à coisa -, mas frontal. Não fugiu, como era hábito do inimigo. Se alguma coisa se deve ao Oco I, é esse exemplo.
Tudo começou com uma carroceirada do Oco II. Se acharem “carroceirada” muito forte, atentem no discurso de “posse”: que outra classificação é possível?
Apesar da vacuidade das “propostas” políticas de um e de outro, estamos perante gente de carácter oposto: um é decente, o outro não. Mas parece que o “eleitorado” estava mais interessado no paleio de um que na decência do outro.
O Oco II entra, assim, pela porta do lixo. A corroborar esta opinião está o abandono da CML, que prometeu “servir” até ao fim. Paradoxalmente, haverá quem pense que talvez saia daí alguma coisa de positivo, sendo a coisa um tal Medina (áulico do Pinto de Sousa, como não podia deixar de ser) que, vindo do Porto, desceu à cidade pela mão do chefe. O IRRITADO não sabe se o Medina presta para alguma coisa. Sair o Oco II, seja de onde for, é sempre bom. A sua obra em Lisboa está à vista, só que, em termos de vida dos lisboetas, é difícil de ver qual seja: os grandes problemas continuam por resolver, a CML continua pasto da hedionda burocracia que a pulula, nada de substancial mudou, mesmo que a propaganda diga o contrário. As obras prometidas estão por fazer, a feira Popular e o Parque Mayer continuam a ser palco para as aventuras jurídicas desse flagelo que se abateu sobre a cidade chamado Fernandes. Os passeios continuam a partir tornozelos, as ruas a rebentar pneus, as piscinas são letra morta e, se tirarmos a Ribeira das Naus, que resta? De positivo, haverá o que vinha de trás. Mas o currículo do edil do Intendente é brilhante, diz a recorrente propaganda, e não há nada a fazer.
Tem o mundo da “informação” aos pés: veja-se a cobertura que teve, antes, durante e depois do acontecimento. Botas bem lambidas, como o “futuro” impõe.
Last but not least, assitimos ao glorioso regresso dos filhos da viúva, ditos maçons. É ver o apoio macisso da brigada do reumático e da do Pinto de Sousa.
Enfim, até daqui a um ano muita coisa acontecerá. Pode ser que haja quem entenda.
30.9.14
António Borges de Carvalho

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