Por causa de uma frase que, segundo os critérios do politicamente correcto, poderia ser considerada descriminatória em relação a uns meninos aligeirados do Colégio Militar, caíu o Chefe do Estado Maior do Exército.
Por causa de um roubo sem precedentes, que põe em causa a nossa segurança, a dos nossos aliados e a do mundo em geral, não cai ninguém. O actual CEME declarou que tinha demitido, a prazo, uns coronéis. Não demitiu, porque, segundo a Lei, demitir não é a prazo. Mas o homem não sabe o que diz a lei.
Foi tudo. O chamado ministro de defesa declara-se responsável, mas demitir-se não é com ele. O senhor Costa, dito primeiro ministro, assobia para o ar e desaparece durante uns dias. O resto da malta do poder não se sabe o que faz, mas está, como é evidente, de pedra e cal.
Morre uma data de gente nos incêndios. Luto nacional, manifestações de pesar, etc. Responsáveis políticos não há, maxime o tal dito primeiro ministro. Ninguém pede desculpa.
Dias depois da tragédia, o homem interrompe o silêncio e aparece, à gargalhada, a oferecer uma vaca voadora a uma suposta ministra adjunta. A cena foi cirurgicamente “obnubilada”. Mas apareceu uma fotografia. Azar. Olhemos a coisa com ternura: o tal fulano e a senhora, esfusiantes de alegria, contemplam a vaca que voa, agitam-na perante uma multidão de lacaios, presume-se que todos agarrados à barriga para agradar às excelências e à vaca.
O senhor de Belém recolhe a tábuas. Nada de responsáveis. A não ser, é claro, os que, um dia, vierem a ser assim julgados nos “rigorosos inquéritos”, mas só malta mais baixinha, nada de fazer mossa às altas individualidades e suas organizações e clientelas.
As centenocráticas finanças também estão de férias, felizes, não têm nada a ver com nada. Cortaram nas vedações, como cortaram na saúde, na educação, etc., para poder pagar aos clientes: não é o que mandam as NEP’s da geringonça? Claro que é.
Tudo bem. As vacas voam, o PM está sorridente e descansadíssimo, os ministros exultantes. O chairman, em Belém, mostra-se algo incomodado, mas nada que prejudique o nacional reconhecimento pelos seus afectos e pelo impecável comportamento do governo.
Na NATO, na UE, na ONU, nas polícias e nos exércitos do nosso mundo, anda tudo à rasca: então andámos a dizer bem da geringonça e, afinal, não passa de mais um bando de incompetentes e de irresponsáveis?!
Mas a geringonça “é sábia e alisa as penas/os seus discursos tornam as almas mais pequenas”*.
3.7.17
*Sophia Melo Breyner (citado de memória)