Muita tinta tem corrido sobre a história do BPP. O Irritado já se pronunciou, advogando, mercê das suas convicções liberais (Soares lhe perdoe), a falência, como verdadeira instituição reguladora destas matérias.
O camarada Louça é da mesma opinião, o que muito afligiu o Irritado. A diferença é que o Irritado quer defender o mercado e o sistema, o camarada Louça quer dar cabo das duas coisas e, se for à custa daqueles a quem chama “ricos”, então melhor ainda.
Hoje, porém, tudo mudou. O BPP, afinal, está longe de estar falido. O governo e o Banco de Portugal é que aldrabam as pessoas, como é, aliás, seu constitutivo hábito.
Vejamos:
– O BPP precisa de 450 milhões de euros para fazer face aos seus problemas de tesouraria;
– O BPP, segundo os jornais de hoje, tem um património de 672 milhões de euros, por avaliação aceite, ou feita, pelo Banco de Portugal;
– O BPP dá esse património, em hipoteca, como garantia dos 450 milhões.
O que o BPP faz não é mais que pedir um empréstimo, dando uma garantia real de valor muito superior;
Não é o que toda a gente faz, em quase todos os empréstimos? Que raio, se a malta é perseguida pelos bancos, que querem à viva força emprestar dinheiro desde que se lhes dê, em hipoteca, os direitos reais de cada um, por alma de quem não pode o BPP fazer o mesmo?
Não se vê onde está a “generosidade” do BdP, ou dos bancos do consórcio, onde está o ingente problema político, onde está a ameaça ao sistema, onde está a premente necessidade de intervenção estatal.
Ou vê-se? Ai vê-se, vê-se.
Querem ver como?
O Estado, para além da garantia real, exige ser ele, Estado, a gerir as fortunas que ao BPP estão confiadas. Uns craques da pública vão tratar da administração do BPP. A CGD fica por cima, a apoderar-se de (mais) um negócio privado, o governo a passar a ter mais poder, todo o poder, sobre o que lhe não pertence.
Assim, o socialismo aproveita-se de uma situação que estava longe de ser desesperada ou sem remédio, para lançar a sua sequiosa manápula sobre os bens de terceiros e tratar deles a seu bel-prazer. É evidente que, no fundo deste túnel está, ou a falência propriamente dita, que os gestores públicos, como a nossa história recente bem demonstra, são peritos na matéria, ou a sua “inevitável” integração na CGD.
Acresce que o Estado, ou seja, o governo do senhor Pinto de Sousa, descrente da constancial “regulação”, passa a controlar directamente os tostões de uma série de gente que, por ser considerada rica e não ser socialista, é objecto do ódio e da inveja do socialismo.
Daqui a uns tempos, o BPP, falido, fecha as portas, o pessoal vai para o desemprego, os accionistas metem a viola no saco, os depositantes recebem o mínimo garantido. A CGD, grande mecenas, por seu lado, recebe, por 450 milhões, um património artístico e imobiliário que, segundo a sua própria avaliação, vale mais 222.
Crystal clear, my friend.
3.12.08
António Borges de Carvalho
Apostilha
Nem de propósito. Ontem, já estava este Post publicado, o ministro das finanças que temos veio, candidamente, informar que a falência era uma muito provável hipótese para o BPP. O puzzle começa a mostrar as suas peças.