Encontrei, dentro de um jornal, em cuidada edição, uma separata contendo a Declaração Universal dos Direitos do Homem.
Muito bem.
Um pequeno pormenor, no entanto, inquinava a iniciativa. É que o seu promotor é, nem mais nem menos que a Fundação Saramago.
Ora, se há alguém que, tendo poder, por escritos e por actos, tenha posto em causa, espezinhado, anulado, condenado, os direitos do homem, esse alguém é precisamente o senhor Saramago. É claro que se tratava de “construir o socialismo”, coisa que, na cabeça do fulano, deve prevalecer sobre qualquer direito e sobre qualquer liberdade.
Dada a sua provecta idade, é possível que o senhor Saramago se tenha esquecido dos seus feitos. É provável que passe a defender que é um absurdo que Cuba seja membro da comissão dos direitos humanos da ONU. É provável que se retrate em relação às suas diatribes contra a globalização – coisa que considerava aniquiladora dos direitos humanos e que tirou da fome milhares de milhões de seres humanos pelo mundo fora. É provável que não se solidarize com o seu partido, o PC, quando este tece as maiores loas aos países onde os direitos humanos são mais ignorados.
Como nada disto sucederá, é de concluir que o senhor Saramago quer é fazer propaganda de si próprio, ou "limpar-se", tratando-se a referida publicação de um acto do mais repenicado cinismo.
12.12.08
António Borges de Carvalho

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