Mal ficaria ao Irritado se não tecesse algumas considerações sobre o artigo desta semana do nosso impagável ex-Presidente Soares.
Desta vez, ao contrário do que é costume, não entrarei em diatribes contra o senhor. É que, feito o diagnóstico da incontinência ideológica que o anima, uma só conclusão é possível: há desafortunados aos quais a idade não perdoa. Poderá ser essa a causa dos dislates soarinos e, nesse caso, o senhor tem desculpa e merece compreensão. Acontece o mesmo a qualquer um.
Ontem, afirmava o senhor que, com Obama, os EUA voltam a ser “a terra onde tudo pode voltar a acontecer”, sendo de presumir que tudo de bom. Ou seja, que o senhor Obama, garantidamente, vai resolver os problemas que por aí andam.
Em contraponto com estes maravilhosos acontecimentos futuros, o Presidente Soares vê a Europa “paralisada”, “sem rumo à vista” à beira da “degenaração” e “numa situação perigosíssima”. Parece que voltámos ao tempo do senhor Chamberlain, com o socialista Adolfo à espreita.
As ideias do senhor Brown, por seu lado, não passam de patacoadas de um tipo da “terceira via” que se deixou “colonizar pelo neo-liberalismo que soprava da Administração Bush”.
O plano do senhor Barroso não existe, nem vai ser discutido em Dezembro, nem interessa ao senhor Soares, para bem ou para mal.
A presidência Sarkozy, não passa de “muita parra e pouca uva”.
O, Tratado de Lisboa, agora que a Irlanda se prepara para correr em seu auxílio, vítima que se começou a sentir das suas próprias asneiras, não tem, para Soares, probabilidades de aprovação, “como se previa há meses”.
Soares sabe que vêm aí “novos caminhos”, sem saber ao certo quais.
Certo certo, para ele, é que o establishment não poderá “manter-se” e que não se pode conceder que “os velhos rostos cúmplices de Bush” possam subsistir sem mácula, nem “que os responsáveis pela crise possam ficar impunes”.
Daí o seu apelo às esquerdas (excluindo a “terceira via”, claro), “a socialista, a social-democrata, a trabalhista, a verde e mesmo a extrema-esquerda”, para que criem “um novo dinamismo”.
Já viram esta mistela de esquerdas a motivar algum dinamismo?
O que parece evidente nestes raciocínios do senhor, é que ele terá perdido a noção da realidade e do bom senso e se guiará por meros quão pouco racionais desejos ideológicos. O senhor quer que os anti-liberais de esquerda (também os há à direita, e não são poucos) voltem ao poder pela Europa fora.
No fundo, se calhar, trata-se de catalizar uma profunda frustração ideológica. Coisa que, historicamente, sempre levou a à criação do inimigo, externo ou interno (os judeus, os liberais, a direita, a “terceira via”), a lançar anátemas sobre “os culpados”, a desejar o poder pelo poder e a coisas muito piores, que terei pudor de contar seja a quem for.
Que São Pancrácio ajude o Dr. Soares a recuperar alguma serenidade democrática.
27.11.08
António Borges de Carvalho

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